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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


   Faltam dois dias  e alguns minutos para 
o Ano Novo. Para se irem preparando leiam este poema que nos foi enviado pela Augusta Clara e pelo Manuel Simões.

Receita de ano novo 
 


Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade
(1902 - 1987)


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
 

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
 




segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade vem ao Terreiro da Lusofonia

trazendo "O amor natural"


Manuel Simões e Carlos Loures



O grande poeta brasileiro (1902-1987) é por demais conhecido e a sua obra (lembremos apenas Sentimento do Mundo ou A Rosa do Povo) faz parte do património das literaturas de língua portuguesa. Há uma dimensão, porém, não muito frequentada pela crítica e que se refere a um volume de poesia, O Amor Natural, até pelo modo, quase clandestino, como foi publicado. Em Agosto de 1985, a um jornalista que lhe pedia notícias sobre o livro, Drummond respondeu-lhe que não tinha intenção de publicar os seus versos eróticos, receando que o leitor os considerasse pornográficos.

Na verdade, o volume já tinha sido publicado em 1981 numa edição reservada de apenas dois exemplares, um dos quais entregue ao escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, crítico literário e genro do poeta. O outro exemplar foi submetido à apreciação de outros amigos e estudiosos, que o avaliaram com apreço, mas Drummond continuou a mantê-lo em silêncio.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Quatre barres - Tres poemes del gran poeta brasiler Carlos Drummond de Andrade

Aquest espai, dedicat a tots els amics d'Estrolabio i, de manera molt especial, als que segueixen el nostre bloc des de les terres de parla catalana. Aquí parlarem de cultura lusòfona i de cultura catalana, i de les qüestions i els problemes que ens afecte als uns i als altres. Avui us proporcionem tres poemes del gran poeta brasiler Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). La versió catalana és de Josep Anton Vidal.

El pes del món carregat a les espatlles



Arriba un temps que ja mai més no es diu: Déu meu.
Temps d'absoluta purificació.
Un temps que ja mai més no es diu: amor.
Perquè l'amor ha esdevingut inútil.
 I els ulls no ploren.
I les mans van a penes ordint el dur treball.
I el cor esdevé eixut.

Inútilment les dones et truquen a la porta, no obriràs pas.
T'has quedat sol, ja s'ha apagat la llum,
però en l'ombra els teus ulls resplendeixen enormes.
Tot s'ha tornat certesa, no saps sofrir
i ja no esperes res dels teus amics.

 Ja tan se val que arribi la vellesa; la vellesa, què és?
La teva esquena aguanta el pes del món
i el món és tan lleuger com una criatura.
Les guerres, i les fams, i les converses a dins dels edificis
són a penes senyal que encara queda vida,
que no tothom se n'ha desprès encara.
Hi ha alguns que consideren que és bàrbar l'espectacle
i més s'estimarien morir (tenen la pell tan fina!)
Ha arribat l'hora en què morir no compta.
Ha arribat l'hora que la vida és una ordre.
A penes vida i prou, sense disfresses.


Déu trist

Déu és trist.
Diumenge descobrí que Déu és trist,
enllà de la setmana i més enllà del temps.

La solitud de Déu no té parell.
Déu no és davant de Déu.
És sempre en Ell mateix i ho cobreix tot

tristinfinitament.
La tristesa de Déu és com Déu: és eterna.

Déu es féu trist.
La tristesa de l'home no té cap altra font.

Poesia

Porto ja una hora pensant un vers
que la ploma refusa d'escriure.
Mentrestant és aquí, dintre meu,
neguitós, viu.
És aquí, dintre meu,
resistint-se a sortir.
La poesia, però, d'aquest moment
m'omple a vessar la vida.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Maratona Poética - Chegam Carlos Drummond de Andrade, e o João Rui de Sousa, vêm a acompanhar o William, o Shakespeare

William Shakespeare

(Stratford on Avon 1564-1616) 






A rose by any other name would smell as sweet

(Romeo and Juliet )

Juliet:

'Tis but thy name that is my enemy;
Thou art thyself, though not a Montague.
What's Montague? it is nor hand, nor foot,
Nor arm, nor face, nor any other part
Belonging to a man. O, be some other name!

What's in a name? that which we call a rose
By any other name would smell as sweet;
So Romeo would, were he not Romeo call'd,
Retain that dear perfection which he owes

Without that title. Romeo, doff thy name,
And for that name which is no part of thee
Take all myself.

_______________________
Carlos Drummond de Andrade
(Itabira, 1902 — Rio de Janeiro, 1987)




A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
 nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


________________


João Rui de Sousa

(Lisboa, 1928)


OFÍCIO



Conduzo estas palavras que se erguem
num alteroso mar onde o que seja
a alegria, a dor ou a raiva imiscuída
se transforma em árvores ampliadas
no arfado crescendo de uma forja,
no florescer de regras muito próprias
(às vezes descobertas, encontradas,
num rio de nudez ou no rumor
das ruas e da casa)
para o azul das massas levedadas
e para os pães de variadas formas
(e misturas, fermentos, intenções)
com que abro portas, muros e janelas
que dão para jardins que nunca acabam.


(De “Enquanto a Noite a Folhagem”).

________________________


Quem vem a seguir? O Fernando Correia da Silva,  o Carlos Pena filho e o José Luís Peixoto. Às dez.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Liberdade

Augusta Clara de Matos


Vou começar como as redacções dos meninos da primária, actualmente com outro nome.

“A liberdade é uma coisa muito boa e que foi muito difícil de obter. Depois veio um dia em que os militares fizeram uma guerra (quando emendou as redacções a professora escreveu “Não foi uma guerra, foi um golpe de Estado”) e nos deram a liberdade. Agora, já se podem dizer coisas que não se podiam dizer antes, os meninos e as meninas podem andar na mesma escola, os nossos pais já não vão para a guerra nem vão presos por dizerem coisas de que os que mandam não gostam”.

Claro está que os meninos (não me apetece dizer e as meninas), dão erros ortográficos e, a maior parte deles não sabe estas coisas todas.

Mas os adultos conhecem os conceitos de liberdade e dos direitos humanos mais consensuais e aceites em todo o mundo sem constrangimentos. Se se cumprem ou não, isso é outra história.

São eles: a liberdade de estar vivo, que é como quem diz o direito à vida. Há alguém que não concorde com isto? Talvez só os suicidas, mas, mesmo esses, tiveram que nascer primeiro.

O direito à educação: não convém ficarmos selvagens porque isso dá muito trabalho aos outros que nos rodeiam e, ainda, nos lembramos como eram os selvagens antes de nós, os civilizados, os termos educado.

O direito à saúde, embora eu jure que tenho um medo que me pelo de ir a um hospital diminuir a minha miopia.

O direito à manifestação: sim, podemos sempre descer a Av. da Liberdade nas datas a assinalar e reivindicar os nossos direitos nas ruas, cheios de bandeirinhas, ainda que, muitas vezes, já nem percebamos bem os caminhos que as negociações levaram.

O direito à informação. Bom mas, como os donos dos vários grupos não têm a mesma opinião que nós quanto a isso, ficamos sem possibilidade de ter opinião nenhuma sobre quase tudo, a menos que nos desunhemos a procurá-la, por nossa conta e medida, onde ela existe com maior fiabilidade.

À justiça já toda a gente sabe que tem direito. Não é preciso referi-lo.

E à cultura, também. Mas, como não há dinheiro para tudo, os canais televisivos, públicos e privados, puseram-se a prestar o serviço público de nos convencerem que nos concursos e talk-shows se aprende muito e que a música do Quim Barreiros e quejandos tem a mesma qualidade do que qualquer outra.

Pronto, está muito bem. Não, está quase tudo mal, mas é o que a maioria aceita – estes direitos todos - como razoável e nós todos aceitaríamos se fossem cumpridos.

No entanto, felizmente, ainda são bastantes os que repudiam a farsa que se vive em quase todos estes campos dos direitos e garantias.

Mas, e era aqui que eu queria chegar, o que se passa connosco, dentro de nós? Não viverá, ainda, connosco o menino de bibe, sentado na sala de aula com o retrato do Senhor Professor pendurado na parede? Seremos assim tão livres por dentro? Creio que não. Leva-se muito tempo a lavar a alma das grandes tragédias.

Felizmente, hoje, podemos publicar a poesia erótica do Carlos Drummond de Andrade, a Natália Correia pôde dar à estampa uma compilação da poesia erótica portuguesa porque há sempre gente corajosa, alheia a preconceitos e melindres no que toca às áreas mais naturais, e deixem-me acrescentar, mais belas do ser humano.

O nosso menino do bibe ainda tem medo do professor, das reguadas e encolhe-se em vez espetar o polegar no nariz e fazer uma momice.

Sermos tal e qual como nós somos é muito difícil, mas muito gratificante.

Se essa aquisição da liberdade, “essa dia inteiro e limpo” também não tivesse a ver com a nossa felicidade pessoal, esse direito que já vinha expresso na Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, estaria grandemente amputada.

É verdade que a liberdade é um conceito difícil de definir, tal como a felicidade, mas antes demais do que de menos. Com responsabilidade, é evidente.

domingo, 11 de julho de 2010

Insones, noctívagos & afins - Flor, telefone, moça

Carlos Drummond de Andrade

Não, não é um conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras vezes não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente, porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.

Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.

- Sei de um caso de flor que é tão triste!

E sorrindo:

- Mas você não vai acreditar, juro.

Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.

- Era uma moça que morava na rua General Polidoro – começou ela. – Perto do cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que de não ver passar nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Carlos Drummond de Andrade vem ao Terreiro da Lusofonia

trazendo "O amor natural"



O grande poeta brasileiro (1902-1987) é por demais conhecido e a sua obra (lembremos apenas Sentimento do Mundo ou A Rosa do Povo) faz parte do património das literaturas de língua portuguesa. Há uma dimensão, porém, não muito frequentada pela crítica e que se refere a um volume de poesia, O Amor Natural, até pelo modo, quase clandestino, como foi publicado. Em Agosto de 1985, a um jornalista que lhe pedia notícias sobre o livro, Drummond respondeu-lhe que não tinha intenção de publicar os seus versos eróticos, receando que o leitor os considerasse pornográficos.

Na verdade, o volume já tinha sido publicado em 1981 numa edição reservada de apenas dois exemplares, um dos quais entregue ao escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, crítico literário e genro do poeta. O outro exemplar foi submetido à apreciação de outros amigos e estudiosos, que o avaliaram com apreço, mas Drummond continuou a mantê-lo em silêncio.