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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dia de Lisboa - Falemos então da lumiosa urbe.

Carlos Loures


Olisipo se chamava antes de ser tomada pelos Romanos, que a baptizaram de Felicitas Julia Olisipo. Os Árabes vieram depois chamaram-lhe Aschbouna. Olisipo, Felicitas Julia, Aschbouna. Tanto faz. É, teimo eu, pois sou quem manda e tudo pode no território desta crónica (já que não mando em nada mais), uma nave orgulhosa. E guardada por dois corvos. Assim dizem as suas armas inspiradas na história, ou, se melhor preferirmos, na lenda de São Vicente, ou talvez mesmo em ambas as cousas.

Segundo a Legenda Aurea, um texto hagiográfico que o frade dominicano Iacopo de Varazze escreveu na Itália do século XIII, nos alvores do quarto século da era Cristo, talvez em 304, um clérigo de nome Vicente, nascido em Huesca, oriundo de uma família ilustre, foi nomeado arquidiácono da diocese de Saragoça, na romana província Tarraconense. O seu superior, o bispo diocesano, que sofria de um defeito na fala, pois seria gago, encarregara Vicente de falar em seu nome aos fiéis. Ouvindo rumores de que as prédicas de Vicente eram demasiado eloquentes e podiam predispor o povo contra o domínio romano, Daciano, o magistrado encarregado de executar as leis imperiais e os éditos de Roma naquela região, mandou que o bispo e o arquidiácono fossem trazidos à sua presença.


Vicente falou pelo bispo gago e por si mesmo, reafirmando as suas convicções. O resultado não foi o melhor: o tartamudo apenas foi desterrado, mas Vicente foi barbaramente torturado em Valência por ordem de Daciano, tendo-lhe sido dilacerada a carne com garfos de ferro em brasa, deitando-o depois os torcionários numa cama feita também de ferro que previamente aqueceram até ficar incandescente. Meteram-lhe depois o torturado corpo num cárcere de reduzidas dimensões, com os pés apertados em cepos de madeira.
Na Legenda Aurea conta-se que, em dada altura, a cela ficou inundada por uma incandescente luminosidade e que as estacas pontiagudas que revestiam o sobrado se transformaram num colorido tapete de flores. Em redor, os anjos entoavam cânticos divinos... Em suma, eu imagino que deve ter sido tudo muito bonito. Neste ponto, um descancarado diabinho que me povoa a mente e que dá pelo nome de lucidez, sussurra-me que o martirizado corpo de Vicente e o seu cérebro atormentado pela tortura, o levaram a estas celestiais alucinações. (…)