Carlos Loures
Em 6 de Outubro de 2008 foi criada a Academia Galega de Língua Portuguesa, sediada em Santiago de Compostela e presidida pelo Professor José Martinho Montero Santalha. Segundo Montero Santalha, a criação da Academia corresponde a uma ideia do Professor Carvalho Calero que, na década de 80, concebeu o projecto de uma instituição que «mantivesse de modo inequívoco a unidade linguística da Galiza com os outros países de língua portuguesa». A cerimónia de fundação da Academia, de qual pudemos apreciar alguns dos momentos mais importantes no vídeo abaixo, realizou-se no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela. Foi apadrinhada pelos Professores Malaca Casteleiro e Artur Anselmo, da Academia das Ciências de Lisboa, pelo escritor moçambicano João Craveirinha (filho de José Craveirinha), pelo Professor Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, pelo Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, pelo Professor Elías Torres Feijó, presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e vice-reitor da Universidade de Santiago de Compostela, entre outros.
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Dia de Lisboa - Falemos então da lumiosa urbe.
Carlos Loures
Olisipo se chamava antes de ser tomada pelos Romanos, que a baptizaram de Felicitas Julia Olisipo. Os Árabes vieram depois chamaram-lhe Aschbouna. Olisipo, Felicitas Julia, Aschbouna. Tanto faz. É, teimo eu, pois sou quem manda e tudo pode no território desta crónica (já que não mando em nada mais), uma nave orgulhosa. E guardada por dois corvos. Assim dizem as suas armas inspiradas na história, ou, se melhor preferirmos, na lenda de São Vicente, ou talvez mesmo em ambas as cousas.
Segundo a Legenda Aurea, um texto hagiográfico que o frade dominicano Iacopo de Varazze escreveu na Itália do século XIII, nos alvores do quarto século da era Cristo, talvez em 304, um clérigo de nome Vicente, nascido em Huesca, oriundo de uma família ilustre, foi nomeado arquidiácono da diocese de Saragoça, na romana província Tarraconense. O seu superior, o bispo diocesano, que sofria de um defeito na fala, pois seria gago, encarregara Vicente de falar em seu nome aos fiéis. Ouvindo rumores de que as prédicas de Vicente eram demasiado eloquentes e podiam predispor o povo contra o domínio romano, Daciano, o magistrado encarregado de executar as leis imperiais e os éditos de Roma naquela região, mandou que o bispo e o arquidiácono fossem trazidos à sua presença.
Vicente falou pelo bispo gago e por si mesmo, reafirmando as suas convicções. O resultado não foi o melhor: o tartamudo apenas foi desterrado, mas Vicente foi barbaramente torturado em Valência por ordem de Daciano, tendo-lhe sido dilacerada a carne com garfos de ferro em brasa, deitando-o depois os torcionários numa cama feita também de ferro que previamente aqueceram até ficar incandescente. Meteram-lhe depois o torturado corpo num cárcere de reduzidas dimensões, com os pés apertados em cepos de madeira.
Na Legenda Aurea conta-se que, em dada altura, a cela ficou inundada por uma incandescente luminosidade e que as estacas pontiagudas que revestiam o sobrado se transformaram num colorido tapete de flores. Em redor, os anjos entoavam cânticos divinos... Em suma, eu imagino que deve ter sido tudo muito bonito. Neste ponto, um descancarado diabinho que me povoa a mente e que dá pelo nome de lucidez, sussurra-me que o martirizado corpo de Vicente e o seu cérebro atormentado pela tortura, o levaram a estas celestiais alucinações. (…)
Segundo a Legenda Aurea, um texto hagiográfico que o frade dominicano Iacopo de Varazze escreveu na Itália do século XIII, nos alvores do quarto século da era Cristo, talvez em 304, um clérigo de nome Vicente, nascido em Huesca, oriundo de uma família ilustre, foi nomeado arquidiácono da diocese de Saragoça, na romana província Tarraconense. O seu superior, o bispo diocesano, que sofria de um defeito na fala, pois seria gago, encarregara Vicente de falar em seu nome aos fiéis. Ouvindo rumores de que as prédicas de Vicente eram demasiado eloquentes e podiam predispor o povo contra o domínio romano, Daciano, o magistrado encarregado de executar as leis imperiais e os éditos de Roma naquela região, mandou que o bispo e o arquidiácono fossem trazidos à sua presença.
Vicente falou pelo bispo gago e por si mesmo, reafirmando as suas convicções. O resultado não foi o melhor: o tartamudo apenas foi desterrado, mas Vicente foi barbaramente torturado em Valência por ordem de Daciano, tendo-lhe sido dilacerada a carne com garfos de ferro em brasa, deitando-o depois os torcionários numa cama feita também de ferro que previamente aqueceram até ficar incandescente. Meteram-lhe depois o torturado corpo num cárcere de reduzidas dimensões, com os pés apertados em cepos de madeira.
Na Legenda Aurea conta-se que, em dada altura, a cela ficou inundada por uma incandescente luminosidade e que as estacas pontiagudas que revestiam o sobrado se transformaram num colorido tapete de flores. Em redor, os anjos entoavam cânticos divinos... Em suma, eu imagino que deve ter sido tudo muito bonito. Neste ponto, um descancarado diabinho que me povoa a mente e que dá pelo nome de lucidez, sussurra-me que o martirizado corpo de Vicente e o seu cérebro atormentado pela tortura, o levaram a estas celestiais alucinações. (…)
Dia de Lisboa - Manuel Simões e Fausto, falam-nos da Lisboa dos Descobrimentos
Manuel Simões
Não há rio tão ditoso e recusado
como este rio de lis(as) naves,
memória de navegações por cabos
infinitos e praias desoladas:
as viagens do lusíada sempre em fuga.
Mar de palha rasgado no corpo
inquieto de Lisboa, alfeite de nervos
fracturados com seu arsenal de angústia:
(Segunda parte de "O regresso do lusíada" in Canto Mediterrâneo,1987, p. 35).
E o Fausto diz-nos que "O barco vai de saída" (do Álbum Por este Rio Acima, 1982).
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
A Maria - A Maria nunca mais apareceu
Adão Cruz
Os olhos, vindos do outro lado do mundo, fundos de ausência, casavam o branco e o negro para dizerem o que a boca não conseguia. O nariz afilava de um só traço o rosto magro, e os cabelos errantes fugiam da testa, cada pedaço para seu lado. A pele transluzia uma imagem por detrás dos vidros, imagem baça do avesso da vida.
Uma dor subtil desenhava os lábios maduros, finamente trémulos, como se estivessem prestes a chorar. Nunca alguma lágrima por eles correu ou voou algum beijo. Apenas o cigarro acendia e consumia a sua virgindade.
A Maria olhava-me sempre fixamente, olhos cravados nos meus como que a dizer: - tu entendes-me, tu és capaz de me compreender -. Ela percebia o sim do meu silêncio por baixo dos olhos vencidos.
Conheci duas mulheres iguais à Maria, fotocópias da Maria, ambas se chamavam Maria, uma brasileira e outra francesa, uma pisava o teatro, outra o anfiteatro. Inquilina de soleiras e vãos, a Maria pisava a grande cidade da noite.
As mulheres da fama e da ciência derivavam a vida por entre a lanugem dos cardos e a tangência do sentimento. A mulher da vida era vertical e secante como folha de piteira. A Maria mijona não tinha idade nem tempo, nem antes nem depois, era apenas instante.
Nunca se sentara na mesa do canto fugindo de si mesma. Escolhia sempre a mesa central, desafiando os olhares, vidrando o espaço em seu redor. Comia a sopa, o prato de sempre, como quem tocava violino. Apesar da mão trémula nem um pingo deixava cair no desbotado regaço, sumido de cores pelo uso e abuso. Se moedas cresciam da sopa não dispensava o brande, sua única bebida.
Por detrás do corpo sujo de Maria mordiscava uma beleza intrigante. Tivesse ela banheira e emergiria da espuma, como sereia das águas. Penso que nunca vi a Maria fora deste retrato, para cá da sombra. Por outro lado, tenho a certeza de que já dormi com ela...ou terá sido um sonho?
A Maria nunca mais apareceu. A última vez que a vi não tinha olhos nem boca nem cigarro. Não tinha sopa nem brande, apenas falta de ar. Engolira o violino e a música era uma dispneia sibilante, cântico fúnebre gemido pelas entranhas.
Toquei-lhe no ombro e ela percebeu que eu queria levá-la. Levantou a ponta de um sorriso e esboçou um gesto negativo com a mão. Afastei-me com a sensação de que tinha profanado um sacrário.
A Maria nunca mais apareceu.
Os olhos, vindos do outro lado do mundo, fundos de ausência, casavam o branco e o negro para dizerem o que a boca não conseguia. O nariz afilava de um só traço o rosto magro, e os cabelos errantes fugiam da testa, cada pedaço para seu lado. A pele transluzia uma imagem por detrás dos vidros, imagem baça do avesso da vida.
Uma dor subtil desenhava os lábios maduros, finamente trémulos, como se estivessem prestes a chorar. Nunca alguma lágrima por eles correu ou voou algum beijo. Apenas o cigarro acendia e consumia a sua virgindade.
A Maria olhava-me sempre fixamente, olhos cravados nos meus como que a dizer: - tu entendes-me, tu és capaz de me compreender -. Ela percebia o sim do meu silêncio por baixo dos olhos vencidos.
Conheci duas mulheres iguais à Maria, fotocópias da Maria, ambas se chamavam Maria, uma brasileira e outra francesa, uma pisava o teatro, outra o anfiteatro. Inquilina de soleiras e vãos, a Maria pisava a grande cidade da noite.
As mulheres da fama e da ciência derivavam a vida por entre a lanugem dos cardos e a tangência do sentimento. A mulher da vida era vertical e secante como folha de piteira. A Maria mijona não tinha idade nem tempo, nem antes nem depois, era apenas instante.
Nunca se sentara na mesa do canto fugindo de si mesma. Escolhia sempre a mesa central, desafiando os olhares, vidrando o espaço em seu redor. Comia a sopa, o prato de sempre, como quem tocava violino. Apesar da mão trémula nem um pingo deixava cair no desbotado regaço, sumido de cores pelo uso e abuso. Se moedas cresciam da sopa não dispensava o brande, sua única bebida.
Por detrás do corpo sujo de Maria mordiscava uma beleza intrigante. Tivesse ela banheira e emergiria da espuma, como sereia das águas. Penso que nunca vi a Maria fora deste retrato, para cá da sombra. Por outro lado, tenho a certeza de que já dormi com ela...ou terá sido um sonho?
A Maria nunca mais apareceu. A última vez que a vi não tinha olhos nem boca nem cigarro. Não tinha sopa nem brande, apenas falta de ar. Engolira o violino e a música era uma dispneia sibilante, cântico fúnebre gemido pelas entranhas.
Toquei-lhe no ombro e ela percebeu que eu queria levá-la. Levantou a ponta de um sorriso e esboçou um gesto negativo com a mão. Afastei-me com a sensação de que tinha profanado um sacrário.
A Maria nunca mais apareceu.
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quinta-feira, 29 de julho de 2010
Academia Galega da Língua Portuguesa
Carlos Loures
Em 6 de Outubro de 2008 foi criada a Academia Galega de Língua Portuguesa, sediada em Santiago de Compostela e presidida pelo Professor José Martinho Montero Santalha. Segundo Montero Santalha, a criação da Academia corresponde a uma ideia do Professor Carvalho Calero que, na década de 80, concebeu o projecto de uma instituição que «mantivesse de modo inequívoco a unidade linguística da Galiza com os outros países de língua portuguesa». A cerimónia de fundação da Academia, de qual pudemos apreciar alguns dos momentos mais importantes no vídeo abaixo, realizou-se no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela. Foi apadrinhada pelos Professores Malaca Casteleiro e Artur Anselmo, da Academia das Ciências de Lisboa, pelo escritor moçambicano João Craveirinha (filho de José Craveirinha), pelo Professor Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, pelo Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, pelo Professor Elías Torres Feijó, presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e vice-reitor da Universidade de Santiago de Compostela, entre outros.
Em 6 de Outubro de 2008 foi criada a Academia Galega de Língua Portuguesa, sediada em Santiago de Compostela e presidida pelo Professor José Martinho Montero Santalha. Segundo Montero Santalha, a criação da Academia corresponde a uma ideia do Professor Carvalho Calero que, na década de 80, concebeu o projecto de uma instituição que «mantivesse de modo inequívoco a unidade linguística da Galiza com os outros países de língua portuguesa». A cerimónia de fundação da Academia, de qual pudemos apreciar alguns dos momentos mais importantes no vídeo abaixo, realizou-se no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela. Foi apadrinhada pelos Professores Malaca Casteleiro e Artur Anselmo, da Academia das Ciências de Lisboa, pelo escritor moçambicano João Craveirinha (filho de José Craveirinha), pelo Professor Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, pelo Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, pelo Professor Elías Torres Feijó, presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e vice-reitor da Universidade de Santiago de Compostela, entre outros.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
E, no entanto, ela move-se...
Luís Moreira

O nosso amigo Adão Cruz, num belo e elucidativo texto fala-nos no Homem como um ser constituindo um todo, onde o "material" e o "espiritual" são uma e a mesma coisa, sem um não existe o outro e vice-versa. Essa diferença resulta das conexões que existem entre as partes que constituem o todo, há uma "causa-efeito" que funciona sempre, resultado das condições em que se formam, das circunstâncias de cada um e de todos os seres humanos.
Subscrevo inteiramente, não acredito em algo que não se possa explicar, aí estaremos no domínio da Fé, do acredito porque sim, o que não quer dizer que não exista( se existir um ser humano que acredite em Deus, eu acredito em Deus,Saramago dixit). A formação científica do nosso aventador, ainda para mais sendo médico, não poderia deixar de o levar a essa conclusão tão objectiva, tantas foram as vezes em que se viu perante a vida e a morte do seu semelhante, sabendo que para aquela "causa" só há um "efeito", fosse ele um ente que pudesse tudo e muito sofrimento seria evitado. Não há pois nada para além daquilo que está ao alcance da ciência, e mal estaríamos se "um ente que pode tudo" não quisesse!

O nosso amigo Adão Cruz, num belo e elucidativo texto fala-nos no Homem como um ser constituindo um todo, onde o "material" e o "espiritual" são uma e a mesma coisa, sem um não existe o outro e vice-versa. Essa diferença resulta das conexões que existem entre as partes que constituem o todo, há uma "causa-efeito" que funciona sempre, resultado das condições em que se formam, das circunstâncias de cada um e de todos os seres humanos.
Subscrevo inteiramente, não acredito em algo que não se possa explicar, aí estaremos no domínio da Fé, do acredito porque sim, o que não quer dizer que não exista( se existir um ser humano que acredite em Deus, eu acredito em Deus,Saramago dixit). A formação científica do nosso aventador, ainda para mais sendo médico, não poderia deixar de o levar a essa conclusão tão objectiva, tantas foram as vezes em que se viu perante a vida e a morte do seu semelhante, sabendo que para aquela "causa" só há um "efeito", fosse ele um ente que pudesse tudo e muito sofrimento seria evitado. Não há pois nada para além daquilo que está ao alcance da ciência, e mal estaríamos se "um ente que pode tudo" não quisesse!
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sexta-feira, 4 de junho de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo IX
Viagem retardada: Lisboa
Passou-se quase um mês. Percorri entretanto alguns quilómetros de bicicleta, muitos de carro e comboio, mais ainda de avião, por ter que voltar a Paris, onde também fiz uma grande caminhada pelo parque de Saint-Cloud, Marne-la-Coquette, Vaucresson, Bougival, ilha de Chatou e margens do Sena até Colombes, um percurso que cita Guy de Maupassant como Sintra traz sempre Eça de Queirós à memória. A beira e as ilhas do Sena onde escritores, artistas, cocottes, funcionários, comerciantes e burgueses passavam os domingos e o Verão, a Grenouillère onde tomavam banho, o restaurante Fournaise onde se reuniam, que Renoir pintou em O Almoço dos Remadores, que Maupassant evoca, entre outros contos, em La femme de Paul (A mulher de Paul) – e que ainda existe com um aspecto semelhante ao que então tinha. Mudaram os clientes, evidentemente, agora há sobretudo turistas, no entanto atravessar aquele espaço causa ainda a sensação insólita de circular dentro de um quadro de Renoir ou de um conto de Maupassant: uma experiência agradavelmente perturbadora.
Planeava continuar a viagem para Santiago de Compostela no dia 21. Ora na véspera, regressando de casa da minha mãe, subia a R. da Palma na direcção dos Anjos, quando senti um contacto no meu saco. Virei-me. Um homem negro ultrapassou-me, vi vários ciganos à minha volta. Também não me hão-de assaltar aqui no meio da rua, pensei eu. Esqueci-me do incidente até chegar a casa e descobrir, quando procurei a chave, que me faltava a bolsa na qual trazia, entre outras coisas, dinheiro e documentos. Voltei a descer à Mouraria, na esquadra encontravam-se em mudanças, não podiam registar a ocorrência, fosse ao Rossio onde, quando cheguei, encontrei uma fila para assinalar ocorrências do mesmo género. Enquanto esperava conversei com um polícia. A senhora é portuguesa? Não está a viver em Portugal... E explicou que aqueles roubos costumam ser cometidos por romenos que agem em grupo e atacam toda a gente mas muito em particular turistas: os turistas são malucos. Eu quis saber porquê. Andam com o dinheiro e os documentos quase à mostra nas mochilas, só falta convidarem os romenos abrirem e servirem-se. São malucos. Expliquei que os turistas vivem em sociedades nas quais este tipo de violência não existe, argumentando que, enquanto em Paris não conheço ninguém que fosse alguma vez roubado, em Lisboa sou a única que, até agora, havia conseguido escapar – sem valor estatístico, pois compara o incomparável, esta verificação não deixa contudo de ser significativa.
Capítulo IX
Viagem retardada: Lisboa
Passou-se quase um mês. Percorri entretanto alguns quilómetros de bicicleta, muitos de carro e comboio, mais ainda de avião, por ter que voltar a Paris, onde também fiz uma grande caminhada pelo parque de Saint-Cloud, Marne-la-Coquette, Vaucresson, Bougival, ilha de Chatou e margens do Sena até Colombes, um percurso que cita Guy de Maupassant como Sintra traz sempre Eça de Queirós à memória. A beira e as ilhas do Sena onde escritores, artistas, cocottes, funcionários, comerciantes e burgueses passavam os domingos e o Verão, a Grenouillère onde tomavam banho, o restaurante Fournaise onde se reuniam, que Renoir pintou em O Almoço dos Remadores, que Maupassant evoca, entre outros contos, em La femme de Paul (A mulher de Paul) – e que ainda existe com um aspecto semelhante ao que então tinha. Mudaram os clientes, evidentemente, agora há sobretudo turistas, no entanto atravessar aquele espaço causa ainda a sensação insólita de circular dentro de um quadro de Renoir ou de um conto de Maupassant: uma experiência agradavelmente perturbadora.
Planeava continuar a viagem para Santiago de Compostela no dia 21. Ora na véspera, regressando de casa da minha mãe, subia a R. da Palma na direcção dos Anjos, quando senti um contacto no meu saco. Virei-me. Um homem negro ultrapassou-me, vi vários ciganos à minha volta. Também não me hão-de assaltar aqui no meio da rua, pensei eu. Esqueci-me do incidente até chegar a casa e descobrir, quando procurei a chave, que me faltava a bolsa na qual trazia, entre outras coisas, dinheiro e documentos. Voltei a descer à Mouraria, na esquadra encontravam-se em mudanças, não podiam registar a ocorrência, fosse ao Rossio onde, quando cheguei, encontrei uma fila para assinalar ocorrências do mesmo género. Enquanto esperava conversei com um polícia. A senhora é portuguesa? Não está a viver em Portugal... E explicou que aqueles roubos costumam ser cometidos por romenos que agem em grupo e atacam toda a gente mas muito em particular turistas: os turistas são malucos. Eu quis saber porquê. Andam com o dinheiro e os documentos quase à mostra nas mochilas, só falta convidarem os romenos abrirem e servirem-se. São malucos. Expliquei que os turistas vivem em sociedades nas quais este tipo de violência não existe, argumentando que, enquanto em Paris não conheço ninguém que fosse alguma vez roubado, em Lisboa sou a única que, até agora, havia conseguido escapar – sem valor estatístico, pois compara o incomparável, esta verificação não deixa contudo de ser significativa.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Dia das Letras Galegas
Carlos Loures
Comemorando o Dia das Letras Galegas, Estrolabio dedicou toda a sua edição de hoje, 17 de Maio de 2010, à língua, à literatura, à História da Galiza. Não será um acto isolado na nossa orientação editorial – a Galiza, Cabo Verde, o Brasil… todo o espaço lusófono é para nós campo privilegiado de intervenção. Iremos, com frequência, publicar posts sobre temas relacionados com os países onde se fala o português, ou como dizia Carolina Michaëlis, onde se fala o galego-português.
Nesta irmandade de 200 milhões de falantes, os galegos são os nossos mais antigos irmãos, a sua história e a sua língua encontram-se a montante da nossa história e do idioma que falamos. Circunstâncias políiticas, originaram uma deriva que levou a Galiza a ser aculturada durante muitos séculos. Hoje, muitos intelectuais galegos querem integrar o universo lusófono. Devemos abrir-lhes os braços e apoiar, sem reservas, esse desiderato. As desconfianças devemos guardá-las para quem, aproveitando frustrações regionais manipuladas por caciques, pretende anexar o Norte do nosso País, criando algo a que chamam «região transfronteiriça» e que não tem qualquer suporte histórico ou cultural – sujas manobras de oportunistas. Porque a união de Portugal com a Galiza já existe e é de natureza cultural. No campo político terão de ser os galegos a decidir o seu destino,. Enquanto na sombra se desenvolvem estas manobras, com toda a transparência avança serenamente o projecto da integração do galego no espaço da lusofonia. Peço a vossa atenção para o vídeo que se segue.
Em 6 de Outubro de 2008 foi criada a Academia Galega de Língua Portuguesa, com sede em Santiago de Compostela e presidida pelo Professor José Martinho Montero Santalha. Segundo ele, a criação da Academia corresponde a uma ideia do Professor Carvalho Calero que, na década de 80, concebeu o projecto de uma instituição que «mantivesse de modo inequívoco a unidade linguística da Galiza com os outros países de língua portuguesa». A cerimónia de fundação da Academia, da qual vimos alguns momentos, realizou-se no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago. Foi apadrinhada pelos Professores Malaca Casteleiro e Artur Anselmo, da Academia das Ciências de Lisboa, pelo escritor moçambicano João Craveirinha (filho de José Craveirinha), pelo Professor Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, pelo Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, pelo Professor Elías Torres Feijó, presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e vice-reitor da Universidade de Santiago de Compostela, entre outros. Padrinhos não faltaram. Ângelo Cristóvão, presidente da Associação promotora da AGLP comentou: «Não podemos dizer que viemos ao mundo sem padrinhos!» E acrescentou: «queremos devolver ao galego o lugar que lhe corresponde, que é o de uma forma do português e não o de um dialecto do castelhano». Em 23 de Maio de 2009 realizou-se na Academia das Ciências de Lisboa, uma sessão as duas entidades. Agora, quando falarmos em países de língua portuguesa, não devemos esquecer a Galiza. Somos nove e não oito países. Foi na Galiza, que o galego-português, nasceu. Foi ali que pela primeira vez se falou a nossa língua, a língua de Camões, de Rosalía de Castro e de Fernando Pessoa.
Comemorando o Dia das Letras Galegas, Estrolabio dedicou toda a sua edição de hoje, 17 de Maio de 2010, à língua, à literatura, à História da Galiza. Não será um acto isolado na nossa orientação editorial – a Galiza, Cabo Verde, o Brasil… todo o espaço lusófono é para nós campo privilegiado de intervenção. Iremos, com frequência, publicar posts sobre temas relacionados com os países onde se fala o português, ou como dizia Carolina Michaëlis, onde se fala o galego-português.
Nesta irmandade de 200 milhões de falantes, os galegos são os nossos mais antigos irmãos, a sua história e a sua língua encontram-se a montante da nossa história e do idioma que falamos. Circunstâncias políiticas, originaram uma deriva que levou a Galiza a ser aculturada durante muitos séculos. Hoje, muitos intelectuais galegos querem integrar o universo lusófono. Devemos abrir-lhes os braços e apoiar, sem reservas, esse desiderato. As desconfianças devemos guardá-las para quem, aproveitando frustrações regionais manipuladas por caciques, pretende anexar o Norte do nosso País, criando algo a que chamam «região transfronteiriça» e que não tem qualquer suporte histórico ou cultural – sujas manobras de oportunistas. Porque a união de Portugal com a Galiza já existe e é de natureza cultural. No campo político terão de ser os galegos a decidir o seu destino,. Enquanto na sombra se desenvolvem estas manobras, com toda a transparência avança serenamente o projecto da integração do galego no espaço da lusofonia. Peço a vossa atenção para o vídeo que se segue.
Em 6 de Outubro de 2008 foi criada a Academia Galega de Língua Portuguesa, com sede em Santiago de Compostela e presidida pelo Professor José Martinho Montero Santalha. Segundo ele, a criação da Academia corresponde a uma ideia do Professor Carvalho Calero que, na década de 80, concebeu o projecto de uma instituição que «mantivesse de modo inequívoco a unidade linguística da Galiza com os outros países de língua portuguesa». A cerimónia de fundação da Academia, da qual vimos alguns momentos, realizou-se no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago. Foi apadrinhada pelos Professores Malaca Casteleiro e Artur Anselmo, da Academia das Ciências de Lisboa, pelo escritor moçambicano João Craveirinha (filho de José Craveirinha), pelo Professor Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, pelo Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, pelo Professor Elías Torres Feijó, presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e vice-reitor da Universidade de Santiago de Compostela, entre outros. Padrinhos não faltaram. Ângelo Cristóvão, presidente da Associação promotora da AGLP comentou: «Não podemos dizer que viemos ao mundo sem padrinhos!» E acrescentou: «queremos devolver ao galego o lugar que lhe corresponde, que é o de uma forma do português e não o de um dialecto do castelhano». Em 23 de Maio de 2009 realizou-se na Academia das Ciências de Lisboa, uma sessão as duas entidades. Agora, quando falarmos em países de língua portuguesa, não devemos esquecer a Galiza. Somos nove e não oito países. Foi na Galiza, que o galego-português, nasceu. Foi ali que pela primeira vez se falou a nossa língua, a língua de Camões, de Rosalía de Castro e de Fernando Pessoa.
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