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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010





Daniel Filipe traz um poema ao Terreiro da Lusofonia (e o Luís Cília canta outro)




Daniel Filipe nasceu em 1925 na ilha da Boavista, em Cabo Verde, mas faz indissoluvelmente parte da história da Literatura Portuguesa do século XX – digamos que ele pertence aos dois países – a Cabo Verde porque ali nasceu, a Portugal porque aqui viveu, sofreu, amou e escreveu a sua poesia maravilhosa. É um convidado de honra neste Terreiro da Lusofonia.

Activista cultural e político, no final dos anos 50 trabalhou na delegação do Porto do Diário Ilustrado. Cordial, Ali se relacionou com um grupo de escritores antifascistas como ele – Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão e outros (estamos a trazê-los aqui a todos eles). Foi este grupo que criou as «Notícias do Bloqueio», título de um poema de Egito Gonçalves, série de nove «fascículos de poesia», publicados no Porto entre 1957 e 1961. A PIDE prendeu-o, sendo, segundo consta, barbaramente torturado. Com 39 anos, faleceu em Lisboa em 1964.

Entre a sua obra destaca-se: «O Viageiro Solitário» (1951), «A Invenção do Amor» (1961) e «Pátria Lugar de Exílio» (1963). Eis o poema que deu nome a esta última colectânea:




Pátria, lugar de exílio
geométrico afã
ou venenoso idílio
na serena manhã.

Pátria, mas terra agreste;
terra, apesar da morte.
Pátria sem medo a leste.
Lugar de exílio a norte.


Pátria terra, lugar,
cemitério adiado
com vista para o mar
e um tempo equivocado.


Terra, débil lamento
na temerosa noite.
Sobre os carrascos, vento,
Desfere o teu açoite!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Estes são alguns dos meus amigos- livros do século xx

Maria Monteiro


Seis Contistas Alentejanos
(Américo Paiva, Antunes da Silva,
Eduardo Teófilo,
Garibaldino de Andrade,
Manuel da Fonseca,
Urbano Tavares Rodrigues)

O manuscrito na Garrafa
 (Daniel Filipe)

Treblinka
(Jean-François Steiner)

A Guerra das Salamandras
 (Karel Capek)

A Insustentável Leveza do Ser
 (Milan Kundera)

A Casa dos Espíritos
 (Isabel Allende)

Como Ser Anjo
(Vassilis Vassilikos)

As Sandálias do Pescador
(Morris West)

Ensaio sobre a Cegueira
(José Saramago)

Moço, Bengala e Cão
 (Adolfo Simões Müller)

e... extra lista dois tesouros
La Madre de Corea e La Educación en la Revolución




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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Esquerda precisa-se!

Carlos Loures

E Em todas as esquinas da cidade
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes…
dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros

Lembram-se? É assim que começa «A Invenção do Amor», o belo poema de Daniel Filipe. E bem necessário seria que um anúncio solicitando uma verdadeira Esquerda fosse publicá-lo “com carácter de urgência” em todos os jornais, gritá-lo pela rádio, mostrá-lo na televisão, pois existem muitos milhares de cidadãos de esquerda que não se revêem em qualquer das organizações, ditas de esquerda, existentes e que sentem bloqueados, cercados pela direita, pela falsa esquerda e pelo seu ideal de uma esquerda autêntica. Mas, perguntarão, então não existem já numerosos partidos e movimentos de esquerda, dentro e fora do Parlamento?

Depende de como definimos o conceito de esquerda. O poeta francês Jean-Arthur Rimbaud disse que era preciso «mudar a vida». Karl Marx, embora, como Engels, nunca tenha dito ser «de esquerda», afirmou que era indispensável «transformar o mundo». A mudança da vida, isto é, dos valores mercantilistas e da lógica consumista, que regem a sociedade em que vivemos, e a transformação do mundo, ou seja a Revolução que varra as desigualdades, as injustiças sociais, para mim constituem duas excelentes definições do que deve enformar um pensamento de esquerda.