Carlos Loures
Não vos vou falar do romance de Júlio Dinis. Os serões são outros.
Há quarenta anos estava-se no auge da luta antifascista. Salazar caíra da cadeira, Caetano prometer democratizar, mas tudo continuou na mesma – guerra colonial, polícia política, censura, partido único… ditadura, para tudo dizer numa palavra. Mudou os nomes às coisas, mas tudo ficou na mesma.
Uma boa parte da população conspirava, sobretudo nas camadas mais esclarecidas da pequena-burguesia – professores, profissionais liberais, oficiais do exército (geralmente de patente não superior a capitão), pequenos empresários, estudantes… E, sobretudo nas pequenas cidades, conspirava como?
Não falando dos militantes do Partido Comunista que estavam enquadrados por elementos ligados a estruturas regionais ou sectoriais, os chamados «controleiros» e que reuniam em obediência a regras estritas de segurança, próprias do funcionamento de um partido (casas clandestinas de apoio, pseudónimos, regras estritas do funcionamento das reuniões, etc.), a chamada gente da «oposição democrática», não observava essas regras de segurança. Uma reunião tinha, por vezes, sobretudo nas pequenas cidades, o ar de um serão cultural.
A Oposição Democrática só fazia reuniões formais em período de eleições. Passados esses períodos, grupos de amigos continuavam a reunir-se, muitas vezes sem que essas reuniões tivessem outro objectivo que não fosse o de manter acesa a chama da resistência. De uma forma geral, era gente que não estava organizada em partidos, embora por vezes aparecesse um ou outro «pescador» tentando cooptar elementos. O PC fazia isso, as outras organizações mais pequenas também. Os resultados não eram muito bons.
Mostrar mensagens com a etiqueta pide. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta pide. Mostrar todas as mensagens
sábado, 31 de julho de 2010
sábado, 17 de julho de 2010
Índios e cowboys
Carlos Loures
Filmes como este, que podemos ver na páina seguinte e que víamos entusiasmados, por vezes nos cinemas de sessões contínuas, levavam os da minha geração a eleger como brincadeira favorita as lutas entre índios e cowboys (cóbois, no nosso inglês simplificado). Nascido no centro de Lisboa, não podia brincar na rua. Mas nas férias grandes desforrava-me. Numa vila de praia da margem Sul, hoje transformada num caos urbanístico, mas na altura pacata e tranquila, reunia-me a um grupo de amigos certos, todas as tardes, depois do almoço, antes de uma última ida à praia, quando o sol já não «fizesse mal». Dividíamo-nos em dois grupos, os maus e os bons, os índios e os cóbois. Não havia lugares fixos, a divisão era aleatória. Mas quem se atrasasse na chegada já nem tinha direito a escolher. Era assim e pronto. Ninguém discutia as regras.
Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo e político italiano, perseguido pelo regime fascista de Benito Mussolini, dizia na sua obra Os Intelectuais e a Organização da Cultura: «Cada grupo social essencial» (…) «surgindo na história a partir da estrutura económica anterior e como expressão do desenvolvimento desta estrutura, encontrou – pelo menos na história que se desenvolveu até aos nossos dias – categorias intelectuais pré-existentes, as quais apareciam, aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nem mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas».
Filmes como este, que podemos ver na páina seguinte e que víamos entusiasmados, por vezes nos cinemas de sessões contínuas, levavam os da minha geração a eleger como brincadeira favorita as lutas entre índios e cowboys (cóbois, no nosso inglês simplificado). Nascido no centro de Lisboa, não podia brincar na rua. Mas nas férias grandes desforrava-me. Numa vila de praia da margem Sul, hoje transformada num caos urbanístico, mas na altura pacata e tranquila, reunia-me a um grupo de amigos certos, todas as tardes, depois do almoço, antes de uma última ida à praia, quando o sol já não «fizesse mal». Dividíamo-nos em dois grupos, os maus e os bons, os índios e os cóbois. Não havia lugares fixos, a divisão era aleatória. Mas quem se atrasasse na chegada já nem tinha direito a escolher. Era assim e pronto. Ninguém discutia as regras.
Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo e político italiano, perseguido pelo regime fascista de Benito Mussolini, dizia na sua obra Os Intelectuais e a Organização da Cultura: «Cada grupo social essencial» (…) «surgindo na história a partir da estrutura económica anterior e como expressão do desenvolvimento desta estrutura, encontrou – pelo menos na história que se desenvolveu até aos nossos dias – categorias intelectuais pré-existentes, as quais apareciam, aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nem mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas».
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Contra a impunidade
Não tive julgamento, nem advogado, nem sentença. Os meus filhos e familiares continuam a procurar-me. Até quando?
É com variações desta frase que cineastas, actores, músicos e escritores dão voz a 15 assassinados pelo franquismo; cada relato é separado pelo som da descarga dum pelotão de fuzilamento.
O primeiro relato é do cineasta Pedro Almodóvar que interpreta Virgilio Leret Ruiz, aviador, chefe da Força Aérea da Zona Oriental de Marrocos e que foi o primeiro militar assassinado pelos seus camaradas militares, sublevados, por se ter recusado a aderir ao golpe franquista.
A iniciativa foi da Plataforma contra la impunidad del franquismo
www.contralaimpunidad.com/
Para os portugueses da geração de Abril toca particularmente ver a página desta com dois cravos vermelhos.
Os crimes franquistas, durante e após a guerra civil, foram perdoados ao abrigo de uma amnistia de 1977, anterior à aprovação da Constituição do estado espanhol, e, pior, os principais partidos de poder comportam-se como se tivessem um pacto tácito para não falar sobre o assunto e enterrá-lo no esquecimento do tempo.
Para que tal não aconteça constitui-se a Asociación para la recuperación de la memoria histórica
http://www.memoriahistorica.org/
, uma das impulsionadoras da Plataforma contra a impunidade do franquismo.
Também em Portugal ficaram impunes muitos dos crimes e abusos da ditadura salazarista. Importa não esquecer e contar o que aconteceu, para impedir futuros branqueamentos, é o mínimo dos mínimos. Vejam a página do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!
http://maismemoria.org/mm
É com variações desta frase que cineastas, actores, músicos e escritores dão voz a 15 assassinados pelo franquismo; cada relato é separado pelo som da descarga dum pelotão de fuzilamento.
O primeiro relato é do cineasta Pedro Almodóvar que interpreta Virgilio Leret Ruiz, aviador, chefe da Força Aérea da Zona Oriental de Marrocos e que foi o primeiro militar assassinado pelos seus camaradas militares, sublevados, por se ter recusado a aderir ao golpe franquista.
A iniciativa foi da Plataforma contra la impunidad del franquismo
www.contralaimpunidad.com/
Para os portugueses da geração de Abril toca particularmente ver a página desta com dois cravos vermelhos.
Os crimes franquistas, durante e após a guerra civil, foram perdoados ao abrigo de uma amnistia de 1977, anterior à aprovação da Constituição do estado espanhol, e, pior, os principais partidos de poder comportam-se como se tivessem um pacto tácito para não falar sobre o assunto e enterrá-lo no esquecimento do tempo.
Para que tal não aconteça constitui-se a Asociación para la recuperación de la memoria histórica
http://www.memoriahistorica.org/
, uma das impulsionadoras da Plataforma contra a impunidade do franquismo.
Também em Portugal ficaram impunes muitos dos crimes e abusos da ditadura salazarista. Importa não esquecer e contar o que aconteceu, para impedir futuros branqueamentos, é o mínimo dos mínimos. Vejam a página do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!
http://maismemoria.org/mm
Etiquetas:
fascismo,
franquismo,
pedro almodóvar,
pide,
plataforma contra a impunidade
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Os interrogatórios na PIDE
Carlos Loures
(Desenho de João Abel Manta)
- Bom dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço… apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.
Vómito insuportável de ironia
Bom dia, porquê bom dia?
Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite ninguém mora,
deite esse bom dia lá fora
porque lá fora é que é dia!
(Luís Veiga Leitão, In «Noite de Pedra», 1955).
O desenho de João Abel Manta e o poema «Manhã», de Luís Veiga Leitão, com que abro este texto, dizem muito sobre o que, no imaginário colectivo, perdura sobre a repressão policial que o Estado Novo exerceu. Para além das visões artísticas que essa repressão suscitou (e que, apesar de tudo, não são tão abundantes como seria de esperar), houve abordagens diversas, mais objectivas, mais isentas de emoção. Escassas também. Entre o que se tem escrito sobre a polícia política do regime ditatorial - que teve três siglas, PVDE, a PIDE e a DGS – destaca-se um trabalho de Irene Flunser Pimentel - A História da PIDE, publicado em 2007. É um trabalho metódico e consistente.
Porque em torno desta polícia se criaram lendas, se contam histórias rocambolescas. Irene Flunser Pimentel procurou (e conseguiu) fugir dos chavões, das ideias feitas. Baseia-se em documentos, em registos, em testemunhos Quando não dispõe de fontes primárias, não inventa. Não preenche os hiatos da história com suposições. Por exemplo, face aos números encontrados, confirma-se a ideia de que a PIDE não foi tão criminosa como o foram a Gestapo e a sua congénere italiana a OVRA, por exemplo. Nem sequer como a Brigada Político Social que, durante franquismo, estava encarregue de erradicar o comunismo. Conclusão que não serve de grande consolação aos que foram presos e torturados pela polícia política portuguesa.
(Desenho de João Abel Manta)
- Bom dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço… apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.
Vómito insuportável de ironia
Bom dia, porquê bom dia?
Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite ninguém mora,
deite esse bom dia lá fora
porque lá fora é que é dia!
(Luís Veiga Leitão, In «Noite de Pedra», 1955).
O desenho de João Abel Manta e o poema «Manhã», de Luís Veiga Leitão, com que abro este texto, dizem muito sobre o que, no imaginário colectivo, perdura sobre a repressão policial que o Estado Novo exerceu. Para além das visões artísticas que essa repressão suscitou (e que, apesar de tudo, não são tão abundantes como seria de esperar), houve abordagens diversas, mais objectivas, mais isentas de emoção. Escassas também. Entre o que se tem escrito sobre a polícia política do regime ditatorial - que teve três siglas, PVDE, a PIDE e a DGS – destaca-se um trabalho de Irene Flunser Pimentel - A História da PIDE, publicado em 2007. É um trabalho metódico e consistente.
Porque em torno desta polícia se criaram lendas, se contam histórias rocambolescas. Irene Flunser Pimentel procurou (e conseguiu) fugir dos chavões, das ideias feitas. Baseia-se em documentos, em registos, em testemunhos Quando não dispõe de fontes primárias, não inventa. Não preenche os hiatos da história com suposições. Por exemplo, face aos números encontrados, confirma-se a ideia de que a PIDE não foi tão criminosa como o foram a Gestapo e a sua congénere italiana a OVRA, por exemplo. Nem sequer como a Brigada Político Social que, durante franquismo, estava encarregue de erradicar o comunismo. Conclusão que não serve de grande consolação aos que foram presos e torturados pela polícia política portuguesa.
Etiquetas:
irene flunser pimentel,
pide,
tarrafal,
tortura do sono
sábado, 15 de maio de 2010
Um copo de vinho fresco

Fernando Correia da Silva
Um copo de vinho fresco
como um fresco pensamento.
Vinho fresco
teve o sol por fermento.
Um copo de vinho fresco
em Lisboa, Campolide.
Um amigo que foi morto
pela PIDE.
Um copo de vinho fresco,
consciência revoltada,
mecanismo tic-tac
de granada.
Etiquetas:
fernando correia da silva,
pide,
poesia,
vinho
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Apresentando Fernando Correia da Silva
Fernando Correia da Silva, escritor, nasceu em Lisboa no ano de 1931. Frequentou o curso Ciências Económicas e Financeiras e, ainda estudante, foi apoiante do general Norton de Matos nas eleições presidenciais de 1949. Militante do MUD Juvenil, foi preso pela polícia política. Foi amigo de outros escritores, tais como António José Saraiva, Mário Henrique Leiria, Alexandre O’Neill, Orlando Costa (seu padrinho de casamento) e muitos outros. Conviveu com políticos como Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Vasco Cabral.
Em 1954, perseguido pela PIDE foi para o Brasil como exilado político. Ali colaborou na Folha de São Paulo, tendo sido um dos fundadores do jornal antifascista Portugal Democrático. Com Jorge de Sena, Casais Monteiro, Sidónio Muralha, Fernando Lemos e escritores e artistas brasileiros como Maria Bonomi, Guilherme Figueiredo e Cecília Meireles, fundou em S. Paulo a GIROFLÉ, editora infantil. Em 1964 após o golpe militar no Brasil empregou-se numa indústria em Fortaleza do Ceará. Durante dois anos, viveu o Nordeste, onde a ostentação e a miséria viviam paredes meias.. Regressou a Portugal em 1974.
Tem uma obra essencialmente constituída por romances. Referimos os mais importantes: Mata-Cães (1986),, Lord Canibal (1989) Querença, (1996), Maresia, (1998) e Lianor (2000). Querença, o mais autobiográfico dos seus romances, foi passado ao cinema em 2004, com realização de Edgar Feldman. Desde 1998, Fernando Correia da Silva coordena Vidas Lusófonas, um site na Internet que já quase atingiu os 20 milhões de visitas.
Subscrever:
Mensagens (Atom)