Mostrar mensagens com a etiqueta liberdade de expressão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta liberdade de expressão. Mostrar todas as mensagens

domingo, 5 de setembro de 2010

José Afonso: «À sombra da legalidade democrática mantêm-se e até se acentuam, as injustiças sociais que existiam antes do 25 de Abril.»

Excertos de uma entrevista concedida por José Afonso à revista «Questões e Alternativas», nº2, de Abril de 1984. Gravada, foi conduzida por Rui de Oliveira. A questão posta pela publicação a diversas personalidades de esquerda era - «O 25 de Abril dez anos depois – que mudança?»).





«O facto de eu poder ir a uma colectividade e poder dizer abertamente que é urgente uma subversão em relação ao momento actual que vivemos, que essa atitude subversiva não deve ficar apenas na consciência das pessoas, deve ter consequências colectivas e dirigir-se ao poder, constituir um desafio ao poder, tem alguma coisa de novo.»(…) «Existe uma democracia dita representativa, existe um parlamento que discute as leis, partidos políticos que representam correntes de opinião segundo o modelo europeu. A esse nível há um conjunto de aquisições.» (…)

«Continuamos com a sociedade de classes, sabemos por exemplo, que quem tem acesso ao ensino superior é uma pequena elite, que o ensino superior visa preparar indivíduos que, uma vez no poder, perpetuam a desigualdade de classes e, também, o sistema político que a conserva. A este nível, as coisas mantêm-se, portanto, na mesma. À sombra da legalidade democrática mantêm-se e até se acentuam, as injustiças sociais que existiam antes do 25 de Abril.» (…)»As perspectivas abertas por essa liberdade dependem da classe social a que se pertence. Digamos que, para a classe operária que vive na cintura industrial de Lisboa, não abre perspectiva alguma em relação ao desafogo a que aspira.» (…)«Agora, por exemplo, para um intelectual, cujo fim possa ser uma coluna num jornal onde possa colaborar» (…)«existe de facto liberdade para essas coisas. Mas a liberdade de uma classe pode não ser a liberdade de outra.» (…) «No que respeita à liberdade, as instituições existem. Mas funcionam num conjunto de alternativas que não favorecem o exercício da liberdade.»

«Penso que, após o 25 de Abril, devia ter havido uma prática pedagógica do exercício da democracia. As populações deveriam experimentar, directamente, quais são as possibilidades de inserção na realidade, de a transformar. Essa, para mim, é a forma mais sã de exercer a democracia. O voto de quando em quando, após 50 anos de obscurantismo, é uma coisa para especialistas em demagogia. Até porque os deputados não estão na Assembleia para resolver os problemas mais imediatos do povo, mas para cumprir desideratos políticos.» (…) «Por outro lado, todo o discurso parlamentar, com os meios de que dispõe, é de molde a configurar as consciências. É exactamente o que não acontecia imediatamente a seguir ao 25 de Abril, quando se organizaram as comissões de trabalhadores, de moradores, todos esses organismos que saíram quase espontaneamente do processo popular. Está-se hoje num círculo vicioso. A democracia só serve para confirmar, sancionar, o tipo de desigualdades a que me referi.» (…) «Há, sem dúvida, uma diferença entre o fascismo e a democracia burguesa, embora, por vezes, em certos aspectos, esta possa resultar naquele.»

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Liberdade

Augusta Clara de Matos


Vou começar como as redacções dos meninos da primária, actualmente com outro nome.

“A liberdade é uma coisa muito boa e que foi muito difícil de obter. Depois veio um dia em que os militares fizeram uma guerra (quando emendou as redacções a professora escreveu “Não foi uma guerra, foi um golpe de Estado”) e nos deram a liberdade. Agora, já se podem dizer coisas que não se podiam dizer antes, os meninos e as meninas podem andar na mesma escola, os nossos pais já não vão para a guerra nem vão presos por dizerem coisas de que os que mandam não gostam”.

Claro está que os meninos (não me apetece dizer e as meninas), dão erros ortográficos e, a maior parte deles não sabe estas coisas todas.

Mas os adultos conhecem os conceitos de liberdade e dos direitos humanos mais consensuais e aceites em todo o mundo sem constrangimentos. Se se cumprem ou não, isso é outra história.

São eles: a liberdade de estar vivo, que é como quem diz o direito à vida. Há alguém que não concorde com isto? Talvez só os suicidas, mas, mesmo esses, tiveram que nascer primeiro.

O direito à educação: não convém ficarmos selvagens porque isso dá muito trabalho aos outros que nos rodeiam e, ainda, nos lembramos como eram os selvagens antes de nós, os civilizados, os termos educado.

O direito à saúde, embora eu jure que tenho um medo que me pelo de ir a um hospital diminuir a minha miopia.

O direito à manifestação: sim, podemos sempre descer a Av. da Liberdade nas datas a assinalar e reivindicar os nossos direitos nas ruas, cheios de bandeirinhas, ainda que, muitas vezes, já nem percebamos bem os caminhos que as negociações levaram.

O direito à informação. Bom mas, como os donos dos vários grupos não têm a mesma opinião que nós quanto a isso, ficamos sem possibilidade de ter opinião nenhuma sobre quase tudo, a menos que nos desunhemos a procurá-la, por nossa conta e medida, onde ela existe com maior fiabilidade.

À justiça já toda a gente sabe que tem direito. Não é preciso referi-lo.

E à cultura, também. Mas, como não há dinheiro para tudo, os canais televisivos, públicos e privados, puseram-se a prestar o serviço público de nos convencerem que nos concursos e talk-shows se aprende muito e que a música do Quim Barreiros e quejandos tem a mesma qualidade do que qualquer outra.

Pronto, está muito bem. Não, está quase tudo mal, mas é o que a maioria aceita – estes direitos todos - como razoável e nós todos aceitaríamos se fossem cumpridos.

No entanto, felizmente, ainda são bastantes os que repudiam a farsa que se vive em quase todos estes campos dos direitos e garantias.

Mas, e era aqui que eu queria chegar, o que se passa connosco, dentro de nós? Não viverá, ainda, connosco o menino de bibe, sentado na sala de aula com o retrato do Senhor Professor pendurado na parede? Seremos assim tão livres por dentro? Creio que não. Leva-se muito tempo a lavar a alma das grandes tragédias.

Felizmente, hoje, podemos publicar a poesia erótica do Carlos Drummond de Andrade, a Natália Correia pôde dar à estampa uma compilação da poesia erótica portuguesa porque há sempre gente corajosa, alheia a preconceitos e melindres no que toca às áreas mais naturais, e deixem-me acrescentar, mais belas do ser humano.

O nosso menino do bibe ainda tem medo do professor, das reguadas e encolhe-se em vez espetar o polegar no nariz e fazer uma momice.

Sermos tal e qual como nós somos é muito difícil, mas muito gratificante.

Se essa aquisição da liberdade, “essa dia inteiro e limpo” também não tivesse a ver com a nossa felicidade pessoal, esse direito que já vinha expresso na Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, estaria grandemente amputada.

É verdade que a liberdade é um conceito difícil de definir, tal como a felicidade, mas antes demais do que de menos. Com responsabilidade, é evidente.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Quatro a zero a favor da liberdade!

Luís Moreira


O JMF, ex-director do Público,escreve no Blasfémias este artigo importantíssimo.

Muitos porque não se informam, outros por razões ideológicas, não percebem o que foram estes anos de socratismo no que diz respeito à censura e controlo da informação, ao clientelismo, aos negócios das grandes empresas do Estado, ao contolo da banca, à economia de casino com a Caixa Geral de Depósitos, o desprezo para com as Pequenas e Médias Empresas que representam 60% do PIB, 70% do emprego e 80% das exportações.

Neste artigo, alguem que estava no centro do furacão, tira as dúvidas a quem as possa ter, percebe como é que a TVI foi calada, como é que o Freeport esteve parado três anos dentro de uma gaveta, como é que um magistrado militante do PS era Presidente do Eurojust...

Felizmente que os Tribunais vão tendo coragem e independencia para julgarem e com eles, embora raramente e mal, o Estado de Direito vai funcionando, mas o rolo compressor dos governos em Portugal é uma tragédia para um país que se quer democrático.

É a censura ainda e sempre, quando não se pensa como quem tem poder ou julga que o tem, a tentação de censurar é enorme,os títeres estão sempre rodeados por quem lhes quer servir de criado de quarto, prontos a engraxar as botas e a proceder à limpeza da sanita.

Seja qual for o governo, temos que estar em alerta máxima, a liberdade custa muito a conquistar mas perde-se com uma RTP pública que depende das "dotações", ou dos canais privados que precisam das receitas da publicidade das grandes empresas públicas.

É preciso avisar a malta!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A URSS implodiu porquê?

Luís Moreira

António Vilarigues é um cronista do Público que sempre leio.Ele é comunista, eu sou social-democrata,o que não impede de estar muitas vezes de acordo com o que escreve.O mesmo acontece com a sua crónica de ontem.

Que a URSS esteve na vanguarda das conquistas dos trabalhadores, que muitas das políticas que levaram ao Estado - Providência, nasceram nos países comunistas. Que foi nessa dialéctica,entre a força do capitalismo e das respectivas classes dominantes e do medo que estas tinham da força dos trabalhadores, que nasceram as maiores conquistas do Estado-Providência.

Concordo e subscrevo que esse equilibrio mundial em muito contribuiu para que os liberalismos glutões e sem regras refreassem os seus apetites, e que ao seu desaparecimento corresponda a cavalgada sem freio do capitalismo que nos atirou para um mundo pior e mais injusto.

Mas então,cabe perguntar,porque ruíram esses países ? O autor não chega a essa pergunta que se impõe fazer no seu texto, porque a resposta seria muito dolorosa para um comunista convicto. Se o sistema tinha tão grandes méritos porque não teve o povo a defende-lo? Os povos a defenderem um sistema amigo, não seria o normal?

A minha resposta, que vale o que vale,(nasce de uma convicção e do que aconteceu) é que o ser humano,logo que tenha as suas necessidades básicas satisfeitas, exige o exercício da liberdade. Liberdade de expressão,liberdade de escolher os seus representantes,liberdade de escolher os caminhos da sua vida e da sua família.

A liberdade é parte integrante do ser humano!Nenhuma ditadura se aguenta muito tempo sem o suporte da repressão e aí começa o seu fim!

À direita e à esquerda não há alternativa para mais e melhor democracia!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O véu muçulmano em França



Transcrito do Aventar mas com a autorização do seu autor, Frederico Mendes Paula, vamos amanhã publicar " Probição do véu integral em França - Defesa da dignidade da mulher ou ataque à sua liberdade individual".




Esperamos tambem que a nossa " caçadora de estrelas" Manuela Degerine, escritora e professora a viver em França, nos possa trazer o seu testemunho para enriquecimento da discussão de um assunto tão importante para a Europa (Luís Moreira).

sábado, 15 de maio de 2010

Coreografia de água

Luís Rocha


Estou sentado no banco de um jardim Municipal, que localmente se designa por “parque da cidade”.

Ainda é cedo e poucas pessoas passeiam pelo jardim. Apenas se ouve o chilrear dos pássaros e sente-se o conforto do silêncio.

Vejo o colorido das flores, as árvores e sinto o cheiro a fresco. O que atrai a minha atenção, até pela calma que transmite, são vários repuxos de água que no máximo do seu esplendor fazem um quadrado, com uma área quase idêntica à de um palco de teatro.

Os repuxos sobem e descem numa coreografia perfeita, em forma alternada ou conjunta, com mais ou menos exuberância que se manifesta na altura que alcançam, numa dança de água desafiante e ao mesmo tempo calma.

De vez em quando surge uma nuvem de água, como um fumo que envolve os bailarinos (repuxos) na fantasia da sua dança.

O fumo vai desvanecendo lentamente, os bailarinos param por momentos e vão surgindo como estátuas vivas à medida que se levanta o nevoeiro.

De seguida e também lentamente os bailarinos retomam a sua dança à espera de nova nuvem envolvente que quase os esconde, como a querer sufocá-los.

Por cima daquela névoa vão aparecendo um, dois e depois três repuxos, como que a gritar pela sua “liberdade”, ou será que os seus saltos mais altos, que vão contagiando os outros bailarinos, são o regozijo do aconchego e abraço daquela nuvem que vem e logo vai!

domingo, 9 de maio de 2010

A Comunicação Social e a Democracia

João Machado

É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.

A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.