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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Regresso a Olivença - Mário Ventura Henriques - III


Recupera-se a toponímia tradicional (Continuação)



Por artérias estreitas que ostentavam outrora nomes bem portugueses - Rua das Atafonas, Rua da Corna, Rua da Barranca, Rua do Juiz -,e hoje têm designações que bem pouco dizem aos Oliventinos, vou dar a uma outra, a Rua dos Duques de Cadaval, que durante muitos anos esteve ausente da toponímia da vila. Em seu ligar encontrava-se o nome de um ministro obscuro, cujo título de glória era o de ter acompanhado o generalíssimo Franco na inauguração de uma albufeira. Instituída, por via da democracia, a liberdade de escolha, os edis oliventinos não

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Regresso a Olivença - Mário Ventura Henriques - II


Mudaram as pessoas (Continuação)

Doze anos depois, nada é como antes. Excepto, talvez, a paisagem, em cujo solo continua a praticar-se a mesma agricultura pobre de outrora, extensiva e monótona. Identifico caminhos, pontões, montes idênticos aos do campo alentejano, nomes que despertam a sensibilidade

- Casas Novas, por exemplo -, coutos de caça que se estendem por quilómetros e a mesma estrada sinuosa que, de Badajoz, nos abre caminho para Olivença, quase fronteira à vila portuguesa de Juromenha.

O que é diferente, o que mudou, são as pessoas. Onde, antes, havia silêncios carregados de suspeita e receio, uma clandestinidade às claras, olhares equívocos, fuga ao diálogo e, por cima de tudo, a sugestão de se ter perdido a memória do idioma dos antepassados, existe hoje a cativante simpatia de quem se abre ao contacto para que o conheçam melhor e melhor o compreendam, e, mais emocionante ainda, o desejo irreprimível de demonstrar que se recorda e se mantém viva, no dia-a-dia dos Oliventinos, a língua portuguesa. O viajante sente-se em casa, esquece a fronteira que atravessou há pouco, e cala-se simplesmente, para se dar ao prazer de escutar o acento cantante do português que falam os de Olivença, semelhante ao dos Alentejanos, e mais aliciante pela presença de palavras arcaizantes, esquecidas ou desprezadas entre nós. E logo se entende o desejo que têm os Oliventinos de que se institua na sua terra o ensino do idioma português; se, 180 anos depois do corte dos laços políticos com Portugal, ainda se mantém a prática da Língua Materna é porque a herança dos séculos anteriores foi suficientemente forte para que se queira, no presente, recuperá-la integralmente (1).

terça-feira, 20 de julho de 2010

Regresso a Olivença - Mário Ventura Henriques - I

Carlos Luna

Vamos apresentar, dividido em  quatro partes um texto muito belo de Mário Ventura Henriques sobre Olivença. Começamos por lembrar quem foi Mário Ventura Henriques.

Mário Ventura Henriques (1936-2006) nasceu e faleceu em Lisboa. Jornalista e escritor, trabalhou nos jornais Diário Popular, Diário de Notícias, na revista Seara Nova. Com José Saramago, Armindo Magalhães, Luís Francisco Rebello, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues fundou, em 1992, a Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC). Foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores . Estreou-se com “A Noite da Vergonha”, (1963), seguindo-se “À Sombra das Árvores Mortas” (1966) e “O Despojo dos Insensatos” (1968). Reuniu nos volumes “Alentejo Desencantado” (1969) e “Morrer em Portugal” (1976), narrativas sobre várias regiões do país. Em1979, novo romance - “Outro Tempo Outra Cidade”e, em 1985, “Vida e Morte dos Santiagos”, - Prémio de Ficção do Pen Clube e Prémio Literário do Município de Lisboa.

Outrasobras:“Conversas” (1986), diálogos com escritores, os romances “Março Desavindo” (1987); “Évora e os Dias da Guerra” (1992). Publicou ainda “A Revolta dos Herdeiros” (1997), “O Segredo de Miguel Zuzarte” (1999), “Quarto Crescente” (memórias, 2001) e o álbum “Portugal – Geografia do Fatalismo”.,“Atravessando o Deserto” (2002) e“O Reino Encantado”(2005). Presidiu à Associação Portuguesa de Escritores.

"Regresso a Olivença", escrito em 1990 e publicado em 2001 no livro "Portugal, Geografia do Fatalismo", de 2001, Ed. Notícias, com fotografias de João Francisco Vilhena), As notas  não são da responsabilidade do autor, mas são fundamentais para se perceber o que entretanto, e infelizmente, mudou... e muito ! Carlos Luna.



Numa manhã chuvosa e fria, regresso a Olivença, doze anos depois da primeira visita. Transporto comigo, ainda que não o queira, a impressão mais duradoura desse primeiro encontro: a do momento em que fui ameaçado de prisão, como perturbador da ordem pública, quando fotografava a imponente Torre de Menagem da vila, um dos mais importantes monumentos da arquitectura militar portuguesa construídos no século XV.