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domingo, 2 de janeiro de 2011

Voz que escuta, de Políbio Gomes dos Santos







Políbio Gomes dos Santos 
(1911-1939)
Voz Que Escuta

João Machado


No corrente ano de 1911 faz cem anos que nasceu Políbio Gomes dos Santos. No mesmo ano nasceram Manuel da Fonseca e Alves Redol, conforme já foi lembrado aqui no VerbArte. Políbio Gomes dos Santos faleceu em 1939, de tuberculose. No mesmo ano concorrera aos Jogos Florais Universitários de Coimbra, vencendo o prémio António Nobre, com um volume de poemas que mais tarde foi incluído no Novo Cancioneiro, e publicado em 1944. Esse volume tomou o título de Voz Que Escuta, de um dos poemas nele incluídos. Políbio Gomes dos Santos publicara anteriormente, em 1938, As Três Pessoas, outro livro de poemas, que Alexandre Pinheiro Torres, na apresentação que faz do poeta e da sua obra, incluída na edição da Caminho do Novo Cancioneiro saída em 1989, considera indispensável ler para se poder apreciar inteiramente o segundo volume da obra. 

Apresento-vos a seguir Poema da Voz Que Escuta, para recordarmos Políbio Gomes dos Santos e a sua obra, neste ano em que se completa o centenário do seu nascimento:

Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo, 
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta. 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O meu amigo Romeu Correia



Carlos Loures

A revista “Nova Síntese” (Edições Colibri), publicou no seu número 4, dedicado ao tema “O rural e o urbano no neo-realismo”, um texto do Professor Alexandre Castanheira, com o título “Romeu Correia, um neo-realista esquecido”. O texto começa com uma citação do crítico literário João Gaspar Simões que, no jornal Sol de 21 de Maio de 1949, dizia sobre “Trapo Azul”, o romance de estreia de Romeu Correia: «Um jovem cheio de talento que insuflou ao “neo-realismo” decrépito uma vida que o “neo-realismo” nunca tivera entre nós».


Não vou referir-me hoje ao magnífico texto de Alexandre Castanheira, nem dissecar esta precipitada notícia necrológica de Gaspar Simões, crítico inteligente, mas controverso, que considerava decrépito um movimento que ainda mal ensaiara os primeiros passos. Basta consultar as datas de publicação de grandes obras de Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, para verificar que as grandes obras do neo-realismo não tinham ainda sido publicadas em 1949. Mas o texto incentivou-me a escrever hoje sobre Romeu Correia.


sábado, 10 de julho de 2010

Manuel da Fonseca, um grande poeta português, no Terreiro da Lusofonia. O Adriano Correia de Oliveira também veio



Na voz de Adriano Correia de Oliveira, escutámos um poema de Manuel da Fonseca – «Tejo que levas as águas» («Poemas para Adriano». 1972), com música do próprio Adriano.


Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém em 1911 e faleceu em Lisboa em 1993. Fez parte do grupo do «Novo Cancioneiro». Na sua valiosa obra destacam-se-se «Rosa dos Ventos», uma colectânea de poemas, (1940), o livro de contos «Aldeia Nova»(1942), «Fogo e as Cinzas» (1953) e os romances «Cerromaior», «Seara de Vento» (1958), «Poemas Dispersos» (1958). É considerado uma das figuras cimeiras do movimento neo-realista. No entanto, na sua escrita, particularmente na poesia, existem ressonâncias de um gongorismo que o aproxima de Federico García Lorca e mesmo dos poetas surrealistas.

Era presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores quando esta instituição atribuiu o Grande Prémio da Novelística a Luandino Vieira pelo seu livro «Luuanda», facto que determinou o encerramento, por parte das forças policiais, da SPE (que viria depois a ser refundada sob a designação de Associação Portuguesa de Escritores)
.
Dos seus «Poemas Dispersos», escolhemos este:

Solidão

Que venham todos os pobres da Terra
os ofendidos e humilhados
os torturados
os loucos:
meu abraço é cada vez mais largo
envolve-os a todos!

Ó minha vontade, ó meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!…
(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.)

domingo, 4 de julho de 2010

Francisco Relógio no Terreiro da Lusofonia


Francisco Relógio é o artista plástico que hoje trazemos ao Terreiro da Lusofonia. Cores e formas de Portugal, portanto. Nasceu em Beja em 1926 e faleceu em Lisboa em 1997. Pelo final dos anos 40 estava ainda ligado ao movimento neo-realista, seguindo depois por uma linha mais ligada ao surrealismo. Senhor de um traço muito característico, talvez inspirado nas pinturas aztecas, Relógio foi, sobretudo um grande desenhador. Além da pintura, realizou belos cenários para diversas peças de teatro e cultivou também a cerâmica, o desenho e o azulejo. Existem vários painéis seus de azulejos em Lisboa, mas o mais conhecido é o que se encontra no edifício do Banco Nacional Ultramarino de Maputo (cuja fotografia podemos ver acima).

sábado, 3 de julho de 2010

Luís Veiga Leitão no Terreiro da Lusofonia


Hoje desce ao Terreiro um poeta português - Luís Maria Leitão (Moimenta da Beira, 1912 — Niterói, 1987), conhecido sob o pseudónimo de Luís Veiga Leitão. Poeta e artista plástico, foi um dos fundadores do grupo literário Germinal. Activista político, antifascista, esteve preso em 1952. Dessa experiência resultou a colectânea poética Noite de Pedra, apreendida pela censura Com Egito Gonçalves, Daniel Filipe e outros, criou as Notícias do Bloqueio, uma série de fascículos publicada no Porto, entre 1957 e 1961, onde se reunia a criação poética de diversos autores. Foi colaborador das revistas Seara Nova, Vértice, entre outras. Poeta neo-realista, os seus poemas incorporam linguagens e técnicas subsidiárias de outras correntes, tais como o surrealismo. Em 1967 foi para o Brasil, onde viveu até 1977 e onde morreu.

Obras principais: Latitude (1950); Noite de Pedra (1955); Ciclo de Pedras (1964); Longo Caminho Breve. Poesias Escolhidas (1943-1983); Biografia Pétrea, (1989); Rosto por Dentro (1992); Linhas do Trópico (1977); Livro de Andar e Ver (1976); Livro da Paixão (1986); Obra Completa, (1997). De Ciclo de Pedras seleccionámos este poema:

A uma bicicleta desenhada na cela

Nesta parede que me veste
Da cabeça aos pés, inteira,
Bem hajas, companheira,
As viagens que me deste.


Aqui,
Onde o dia é mal nascido,
Jamais me cansou
O rumo que deixou
O lápis proibido…
Bem-haja a mão que te criou!
Olhos montados no selim
Pedalei, atravessei
E viajei
Para além de mim.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

História, romance, história em "A Sinfonia da Morte", de Carlos Loures


Sílvio Castro

Quase certamente, como é de conceito praticamente generalizado depois da lição de Lukács e outros, na literatura contemporânea não mais existe a possibilidade do género chamado “romance histórico”, de origens scottianas. Porém, é igualmente mais que provável que se possa criar ótima obra de ficção a partir de um dado, período ou episódio históricos. Justamente o que acontece com Carlos Loures e seu terceiro romance, A Sinfonia da Morte.

Carlos Loures, ao tomar como referência central para o seu texto o episódio do regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, no qual morreram o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, Luís Filipe, preanúncio do fim iminente do regime monárquico português, com a consequente proclamação da República (1910), conhece coerentemente as normas que impedem a um escritor moderno a projetação do romance histórico. Porém, ao partir de um episódio fundamental da história de Portugal, ele está igualmente convicto de que realiza uma operação criativa baseada em normas e princípios teóricos os mais atualizados. Bem como que completa sua operação consciente dos recursos retóricos e linguísticos com que trabalha.

Loures, antes de tudo, concebe sua operação literária integrada na mais viva consciência do valor específico da linguagem. A partir dela se confronta com a matéria aparentemente absurda aos seus fins artísticos, matéria que retira da história nacional contemporânea e a faz própria, integrando-a com grande consciência técnico-literária nas invenções dramáticas com que se propõe recriar tão diversos mundos. Assim agindo, o romancista revela o adequado conhecimento daquele elemento técnico que mais claramente revela a impossibilidade da realização de um dito romance histórico: a mais moderna consciência de tempo, tanto na dimensão filosófica, quanto naquela linguística, e a consequente dualidade entre o conceito do tempo pessoal da sincronia e aquele diacrônico a que está preso o episódio histórico enquanto tal. Daí a necessidade, plenamente satisfeita pelo autor, da melhor composição entre tempo diacrônico, aquele histórico, e tempo sincrônico, aquele do narrador que se apropria da história. Assumida esta consciência que se faz metodologia da criação literária procurada, Carlos Loures se mostra pronto para a difícil meta de um texto que, mesmo tendo olhos para outras obras-modelos, em particular as dos grandes mestres do neo-realismo português, aspira a ser pessoal e inovadora.

A Sinfonia da Morte é um romance de rara, mas ao mesmo tempo, absorvida complexidade, de moderna erudição, metodologicamente aplicada; erudição e complexidade essas transmitidas por um processo linguístico realista e claro, o que permite a imediata criação de um quadro de relações entre o autor e o seu público-receptor de imediata eficácia.

Toda a história se desenvolve e cumpre em forma circular - em dosado equilíbrio entre narrativa-ficção e narrativa-ensaio - que, partida do “Prólogo”, corre quase sem empecilhos até o “Epílogo” - feito a semelhança do moderno romance-inquérito da literatura americana – para, já então completado, como que retornar idealmente ao “Prólogo”. Tudo numa sábia operação que convida naturalmente o leitor a duas imediatas leituras do romance, ambas fornecidas de objetivas satisfações.

Carlos Loures se integra no tempo narrativo aberto e desenvolvido pela história de um jovem futuro romancista da província, Jorge, que naquele fim de Janeiro de 1908 parte para Lisboa com empenhos ligados a interesses materiais da família, ao quais deve dar satisfações por encargo que lhe passa o pai. Jorge, negado para a agricultura, fonte da riqueza familiar, mas apoiado na sua fresca formação jurídica realizada em Coimbra, associa o encargo circunstancial ao seu desejo de encontrar em Lisboa aquela Samarcanda propícia a fazer florescer definitivamente seus sonhos literários. Jorge está no começo indeciso de uma primeira novela. Assim, mais com sonhos que com olhos capazes de fixar a realidade, ele parte para a Capital.




O narrador (quase)impessoal de A Sinfonia da Morte joga com dois tempos aparentemente conflituais: o dos sonhos de um muito jovem literato em busca de sua identidade e os episódios políticos que estão para se transformar em tragédia. O romance apresenta-se assim com a estrutura formal dos quatro movimentos sinfônicos, onde o primeiro e quarto movimentos são aparentemente autônomos, enquanto os segundo e terceiro são liberados em vibrante simbiose.

A concepção narrativa tem aparentemente fundamentos românticos, mas em verdade se revela de imediato inusitada e plena de impacto. Depois de uma aparente partida compositiva de uma história ainda focada sob o signo da dualidade “amor e morte”, o autor a transforma e conduz na direção de intensa participação com o seu quase revés: “morte e amor”. Enquanto explode no tempo fora do tempo o amor de Jorge e Margarida Diniz, revela-se com intensidade o tempo diacrônico do regicídio.

O romancista supera, de pronto, a operação começada com inevitáveis tendências à predominância de intensificações metafóricas, subordinando-as com grande eficácia ao uso de um criativo processo de linguagem metonímica. Mas. a metonímia não se exime de revelar igualmente, quando conveniente, sua face metafórica.

Como consequência de seu moderno sistema de linguagem, A Sinfonia da Morte cresce com a mobilidade do narrador (quase)impessoal, capaz de movimentos nos mais diversos tempos. Ele guia sempre as operações, mas permite os percursos de outros eu-narradores, através de uma galeria de personagens que enriquecem o romance: antes de tudo, Jorge; depois aqueles mais diretamente ligados ao personagem catalisador da ficção; o anárquico primo Luciano, de certa forma alter-ego de Jorge; o dúbio ex-companheiro da vida boêmia da Coimbra universitária, Fernando Amoreira, agora jornalista em Lisboa; Margarida Diniz, atriz, a reveladora da dimensão amorosa. Todos ligados a outras dezenas de personagens que dinamizam a ação do protagonista, como a muito simples popular Adosinda, criada de Margarida.

Paralelamente decorre a dramática presença dos mais diretos protagonistas do episódio histórico: D. Carlos, o príncipe Luís Filipe, Dona Amélia, D. Manuel, o 33º e último rei de Portugal, nascido quase como preanúncio fatal para os Braganças no dia da proclamação da República do Brasil, 15 de Novembro de 1889. Ao lado deles, a figura central do ditador João Franco, dos monárquicos dissidentes, dos dirigentes da Maçonaria e dos líderes da Carbonária portuguesa. E mais as figuras trágicas dos regicidas reconhecidos, Manuel Buíça e Alfredo Costa, junto aos quais se desenvolve a imagem um inquisidor cedo emudecido pelo poder escondido de muitos poderosos, Abílio Magro.

O romancista movimenta toda a complexidade de um tempo de pavor e violências, no qual vive por anos Portugal, disso dando testemunho a passagem aparentemente meteórica de dezenas e dezenas de nomes que são mais que somente nomes, para transformar-se em elementos da linguagem do autor: intelectuais, escritores, jornalistas, artistas, políticos, visitantes estrangeiros. Todos apanhados numa visão realista.

Somente em poucos momentos o narrador (quase)impessoal, sempre pronto ao encontro dos tempos, faz predominar aquele sincrônico; por exemplo, quando à página 236 se revela isolado num só tempo:

“Foram [Jorge e Margarida] até Algés no eléctrico aberto que tomaram perto do local do regicídio. (… …) Quando chegaram ao então agradável subúrbio, passearam de mãos dadas entre as moradias e chalés de veraneio que bordejavam a estrada asfaltada paralela à praia.”

Com A Sinfonia da Morte, Carlos Loures enriquece o moderno romance português, anunciando um possível tempo pós-moderno que reafirma as conquistas passadas, ao mesmo tempo que propicia aquelas futuras.

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* - Texto publicado no nº4 da revista Nova Síntese.