Mostrar mensagens com a etiqueta regicídio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta regicídio. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Regicídio e a Carbonária -III (Centenário da República)

(Continuação)


Romagem às campas dos regicidas.


Segundo parece, o acordo estabelecia que os republicanos contribuíssem com os homens dispostos a sacrificar a vida (porque todos sabiam que disso se tratava) e os monárquicos com o dinheiro para reunir os meios necessários à execução do plano. Eram necessárias armas de grande qualidade e, portanto, caras.


Meses antes, ainda em 1907, a fábrica norte-americana Winchester lançara um novo modelo de carabina semiautomática, com bloco de culatra reforçado de modo a suportar o elevado calibre 351. Era uma arma de grande fiabilidade, certeira, com um acabamento de grande qualidade, com inovações muito avançadas para a época. Dava garantias de precisão e eficácia, desde que utilizada por um bom atirador, naturalmente.

domingo, 3 de outubro de 2010

O Regicídio e a Carbonária - II (Centenário da República)

(Continuação)

Carlos Loures

A fórmula do juramento que os neófitos pronunciavam perante a assembleia de iniciados encapuçados, era a seguinte: «Juro, pela minha honra de cidadão livre, guardar segredo absoluto dos fins da existência desta sociedade, derramar o meu sangue pela regeneração da Pátria, obedecer aos meus superiores e que os machados dos rachadores de cada canteiro se ergam contra mim se faltar a este solene juramento.

Os populares iniciados, operários quase todos eles, foram colocados nas Choças que com o abandono dos académicos tinham ficado muito desguarnecidas. A primeira Choça, exclusivamente formada por trabalhadores, recebeu o nome de “República”.

A Alta-Venda, comando supremo da Carbonária, era composta pelo Grão-Mestre eleito na Venda Jovem-Portugal e por mais quatro Bons Primos nomeados e escolhidos por este de entre os membros da Carbonária Portuguesa. Os nomes eram conservados como secretos. Esta Alta-Venda era a instância máxima da Carbonária Portuguesa.

Para além da estrutura civil acima descrita, havia em paralelo uma outra organização constituída por militares, com um organograma similar ao do ramo civil. Por ser gente mais disciplinada e enquadrada hierarquicamente, o ritual de iniciação era bastante simplificado, quase se limitando ao juramento.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 191 e 192 (José Brandão)

Um Ano de Ditadura – Discursos de Sidónio Pais

João de Castro

Lisboa, 1924


Os canhões da Rotunda em 8 de Dezembro de 1917, dia de Nossa Senhora, sagravam o Libertador.

O que era ele e o que queria? Isso não importa. Era o Libertador. Era o homem capaz de congregar numa só energia todas as energias, num só sonho de esperança todas as desventuras. Era alguém que sozinho, desacompanhado, sem preparação nem génio político, acordou um país para a esperança de viver. Era um Messias, um desejado, mas trabalhando como devia contra as falsas ideologias, contra os estrangeiros, contra a indisciplina e a anarquia, contra a horda invasora contra tudo o que se congregara na demagogia. Era o Desejado, o entusiasmador do povo, mas ao mesmo tempo aquele que pelo seu aparecimento e existência mostraria o novo caminho.

_____________


Um Escritor Confessa-se

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrand, 1974

Penso às vezes – por poesia, claro está – que talvez tivessem cometido esse intrigante e ilógico disparate por respeito fidalgo pela população lisboeta – em 1919 republicana até ao fundo dos ossos. Pressentiram possivelmente que seria criminoso conquistar pela astúcia uma cidade em que os homens e as mulheres, quando tomaram consciência da situação, vieram para as ruas aos gritos de horror entusiástico, a rebuscar nos museus e nos recantos dos alçapões as poucas armas existentes.

Qualquer servia para os grupos combatentes improvisados: mosquetes com azebre, espetos de assar carne, bacamartes de carregar pela boca, pistolões ferrugentos, paus de vassoura afiados e, principalmente, essas espantosas balas de água que são as duras lágrimas dos olhos determinados.

_______________________________

domingo, 26 de setembro de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 183 e 184 (José Brandão)

A Sinfonia da Morte

Carlos Loures

Âncora Editora, 2008


A Sinfonia da Morte , terceiro romance do autor, utilizando como pano de fundo o tema do Regicídio de 1908 e a escaldante situação política em Portugal na primeira década do século XX, traça-nos uma interessante trama ficcionística, onde são colocadas questões eternas, tais como a existência ou a inexistência de Deus, a prevalência (ou não) do amor sobre os interesses materiais, a vitória ou a derrota da bondade na sua luta contra a ferocidade que o homem herdou da sua condição animal. Esta obra é uma co-edição com as Edições Colibri.

Carlos Loures nasceu em 1937 em Lisboa. Entre 1958 e 1960, foi um dos organizadores da Revista Pirâmide, na qual colaboraram numerosos escritores. Com Manuel Simões, organizou uma série de antologias temáticas de poetas portugueses. Talvez um Grito (1985) e A Mão Incendiada (1995), são as suas anteriores incursões no território da ficção.

___________________

A Situação Política

Alfredo Pimenta

Lisboa, 1918


…como o regímen republicano que é diferente da pessoa do sr. Sidónio Pais, não merece confiança á Nação, esta, nas eleições de 28 de Abril, manifestando-se como se manifestou, deu provas evidentes do seu sentir monárquico, cercando os deputados e senadores, monárquicos de uma votação bem significativa.

A situação politica só se esclarecerá definitivamente no dia em que a Nação puder responder livremente á pergunta que se lhe faça sobre as instituições politicas que prefere. Por ora, sabemos isto apenas: a Nação é conservadora, e aclama quem lhe garantir, eficazmente e honradamente, o princípio da Autoridade. Nada mais.

l0 de Maio de 1918.
_____________________________________

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Regicídio (Centenário da República)

Carlos Loures



Já aqui falei deste assunto, mas  iria referir hoje alguns aspectos e pormenores que não foquei nesse texto anterior. Em cima, vemos uma "reconstituição" do atentado´, fantasiosa como todas as muitas que por esse mundo fora se fizeram.

Embora se saiba que uma conjura de monárquicos, mais concretamente de gente da Dissidência Progressista, liderada por José de Alpoim e pelo visconde da Ribeira Brava, esteve na base da conspiração, há pontos obscuros - uns que podem ser esclarecidos, outros que, muito provavelmente, nunca o serão. Diz José Luciano de Castro, em «Documentos Políticos»: «Os dissidentes, que para a generalidade do país, são os principais responsáveis da tragédia do 1 de Fevereiro de 1908, e que, se não destruíram a monarquia foi porque não puderam». No meu romance «A Sinfonia da Morte» encontro uma explicação plausível e na qual acredito; mas trata-se de uma ficção, onde as suposições são permitidas. Inclusivamente, nos chamados romances históricos, são pelos hiatos da documentação histórica que a teia da ficção passa e se constrói. Hoje vou falar do que se passou no Terreiro do Paço em 1 de Fevereiro de 1908, cerca das 17 horas.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 129 e 130 (José Brandão)

Páginas de Sangue
Sousa Costa

Guimarães Editores, s. d.


Por isso, ao começar o presente volume, relembro esses instintos e esses impulsos, lanço os olhos curiosos ao já vasto e agitado panorama da vida política portuguesa do meu tempo às suas convulsões através da ditadura franquista, aos quadros sangrentos das incursões monárquicas, aos quadros trágicos das revoluções republicanas, e observo, e concluo:

– Afinal, por mais que sobre a índole humana rolem as turvas torrentes ou as águas claras das idades, ideologias e apostolados, a índole humana é seixo que não amacia nem ao correr de dilúvios. Não há dúvida – o homem é o único animal indomesticável. Calmo na jaula das conveniências e interesses quotidianos, mal lhe ameaçam ou lesam interesses e conveniências – a mesa, o mando, a confraria – logo arreganha a dentuça primitiva, o ser humano volvido à fera bruta.

______________________

Páginas do meu Diário

Armando Marques Guedes

Lisboa, 1957

Um gentilíssimo espírito, que muito prezo, escreveu há pouco que detestava os livros de memórias por não passarem, em regra, de auto-elogios dos seus autores. O asserto tem uma parte de verdade, mas é excessivo pela sua generalização. Os livros dos memorialistas fornecem frequentemente subsídios valiosos para os historiadores. É ideia assente hoje que a História deve basear-se em documentos. Mas não é menos verdade que o documento é frequentemente coisa fria e morta; às vezes é tendencioso ou uma expressão de falsidade. Quantas vezes representam apenas a versão oficial e deturpada dos acontecimentos!...

E falta-lhe quase sempre o elemento subjectivo, o factor psicológico, que explicaria satisfatoriamente os homens e os acontecimentos.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O Regicídio – Centenário da República

Carlos Loures


Continuando a referir os marcos essenciais da caminhada para a queda da Monarquia e para a proclamação da República, chegamos hoje a um ponto capital desse processo – o Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908. É um tema fulcral e, por isso, já muita coisa foi dita. As versões são muitas e, raramente se aproximam da verdade. Por exemplo, o desenho que vemos acima, publicado na «Ilustração Portuguesa», aliás como todos os outros que foram aparecendo em publicações portuguesas e estrangeiras, dezenas e dezenas de versões iconográficas do atentado, são todas fantasiosas. Umas mais do que outras. Não existe nenhum documento iconográfico credível. Na época, as fotografias eram feitas com a máquina imobilizada, colocada num tripé. Quando a família real chegou à Estação do Sul e Sueste, os fotógrafos tinham as máquinas montadas e fizeram numerosas e irrelevantes fotos.

O barco “D. Luiz”, vindo do Barreiro, chegou pelas cinco da tarde à gare. Vinha com atraso relativamente à hora marcada, pois o comboio que trouxera desde Vila Viçosa a família real, descarrilara no apeadeiro da Casa Branca. Um mero acidente. A família real passara o princípio do ano no Paço de Vila Viçosa, como era hábito e um pouco depois das cinco da tarde daquele sábado, 1 de Fevereiro de 1908, chegara a uma Lisboa onde o clima político não podia ser pior. Na terça-feira anterior, dia 28 de Janeiro, tinha havido por parte dos republicanos aliados a alguns monárquicos dissidentes do Partido Progressista, uma tentativa revolucionária (que descrevi em texto anterior). Muitas prisões de altas figuras republicanas. O rei assinara em Vila Viçosa um decreto que ordenava a deportação desses presos para as colónias. O que incendiara ainda mais o espaço político, elevando a tensão a níveis insuportáveis.

domingo, 1 de agosto de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 92 e 93 (José Brandão)


Lápides Partidas

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrand, 1969

A acção decorre no período em que a velha estrutura monárquica ia definitivamente cair e, caldeada de idealismos e esperanças, iria ser proclamada a República. «Foi essa uma viragem substancial, que eu pretendi traduzir», diz Aquilino Ribeiro, «o conflito visto não da crista da vaga, mas no seu recesso, lame de fond, anotando as reacções de uma personagem que entrava na constituição do magma revolucionário, a massa de fusão. Libório Barradas é um produto do meio, condicionado por ele, sua emanação, digamos.

Em 1906 Aquilino Ribeiro vai para Lisboa, onde a sua congénita personalidade de inconformado se adapta na perfeição ao ambiente revolucionário da capital nas vésperas da instauração da República. Em 1907 é preso e no ano seguinte evade-se, fugindo para Paris.

___________________________




A Leva da Morte

Artur Villares

Livros Horizonte, 1988

Há precisamente 70 anos Portugal fazia a primeira experiência totalitária da República, o Sidonismo, verdadeiro balão de ensaio do futuro consulado salazarista. Símbolo primeiro desse regime, Sidónio Pais dominou a época, as consciências e as pessoas.

Penetrando no dia-a-dia desse período, Artur Villares, sob a forma de memórias redigidas em 1933, cruza a realidade histórica com a ficção e relembra Fátima e o anti-clericalismo, a Grande Guerra e o dilema dos portugueses, a República e a Monarquia, o Poder e a violência, numa palavra, a Vida e a Morte entre 5 de Dezembro de 1917 e 14 de Dezembro de 1918.

70 anos depois, a crónica do Sidonismo, do Poder e da Ilusão, num texto emocionante, numa plena capacidade de comunicação, no limiar da Realidade e da Ficção.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 77 e 78 (José Brandão)

História de Portugal

Volume 7

(1816-1918)

Damião Peres

Portucalense Editora, 1935

No Tejo entrara uma armada inglesa, composta de sete couraçados e um cruzador, e cujo comandante procurou o governo para explicar a sua presença no rio e o motivo por que não salvara. Quando entrara, ainda a situação não estava esclarecida.

É ainda no dia 5 que em várias terras dos arredores de Lisboa se proclama a República (Cascais, Sesimbra, Oeiras, Paço de Arcos Almada ). Em Setúbal, a canhoneira Zaire arvora a bandeira republicana. De Torres Vedras chega a notícia da adesão de infantaria 15. Este regimento e o de artilharia 3, que vinham de Tomar, chamados pelo governo anterior, receberam naquela vila a ordem do Governo Provisório para que retrocedessem, ordem que acataram, aderindo. Infantaria 11, de Setúbal, aderia igualmente. Em edital, e com data ainda de 5, o novo governo saudou as forças de terra e mar, e, confiando no patriotismo de todos

___________________________


História de Portugal

Sexto Volume

(1890-1926)

Rui Ramos

Círculo de Leitores, 1994

ESTE VOLUME CONTA O QUE SE PASSOU em Portugal entre o Ultimato inglês de 31 de Janeiro de 1890 e o estabelecimento da ditadura militar a 28 de Maio de 1926. São trinta e seis anos pontuados por grandes acontecimentos, como as campanhas de ocupação em África, o assassinato do rei D. Carlos em 1908, a proclamação da Republica em 1910 e a intervenção na I Guerra Mundial (1914-1818). O leitor encontrará aqui o relato e a interpretação desses factos, bem como tudo o que é da praxe estudar em obras de história: a demografia, a economia, as finanças, as classes sociais, a literatura, as mentalidades, etc. O meu objectivo foi dar ao leitor uma visão global da época, e não servir-lhe uma série de «pratos frios» de informação e análise. Por isso, procurei entrelaçar todas essas matérias numa narrativa contínua, escrita do ponto de vista da história política.

_______________________________

domingo, 4 de julho de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 51 (José Brandão)

Folhas do Meu Cadastro - I 1911-1925


Hipólito Raposo

Porto, 1944



Nesse triste ano de 1908, às claras ou às escondidas, festejava-se o Regicídio, o maior crime da nossa história política; e passados vinte meses em que ninguém soube meditar a trágica lição, a secular Monarquia Portuguesa logicamente viria a sucumbir por falta de convicções, de fé e de lealdade dos que haviam jurado servi-la.

Mais uma vez se cumpriam os fados, em signo de Liberalismo Político na velha Europa Continental: desde que a soberania transitara do Trono para a Urna, a Realeza estava condenada a desaparecer.

Era inevitável o dia em que o Presidente Vitalício cederia o lugar ao Presidente Eleito, mudando-se o Trono em Poltrona, a Coroa em Barrete Frígio, o Rei em Cidadão.

E na confiança geral, gritada nas praças e festejada nas gazetas, tudo iria por bem e para melhor, no melhor dos mundos possíveis...
__________________________

terça-feira, 22 de junho de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 33 (José Brandão)


Diário de D. Manuel e Estudo sobre o Regicídio

Miguel Sanches de Baêna

Publicações Alfa, 1990

As «Notas absolutamente íntimas» do último rei de Portugal vieram inteiramente ao encontro da preocupação que norteou a organização da colecção «Testemunhos Contemporâneos».

Tão importante como a descrição do regicídio nelas contida, é a sensibilidade aqui expressa pelo jovem D. Manuel, a sua visão dos políticos da época, a sua reacção emocional à violência do acontecimento, os seus afectos feridos e uma certa sensação que nos transmite do desabar de um mundo a um tempo institucional e afectivo, tudo visto por dentro do regime reinante.

Tudo indica que nos encontramos perante a primeira parte de um projecto de escrita mais vasto, que visava ser uma «história íntima» do seu reinado. O insuspeito testemunho do último rei de Portugal não deixa de contribuir para amarrar ao pelourinho os próprios monárquicos…

António Reis
___________________________________

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A República nos livros de ontem nos livros de hoje - 10 (José Brandão)




Carbonária - O Exército Secreto da República

José Brandão

Perspectivas & Realidades, 1984

Portugal 1910. A revolução republicana está na rua. Como foi, como se chegou a este dia, como se conseguiu derrubar um regime secular. Quem lutou, quem na hora da verdade não desistiu do combate, quem organizou com êxito a mais importante revolução da História de Portugal.

Estas e outras situações podem ser compreendidas com a leitura de «Carbonária - O Exército Secreto da República», que, sem sombra de dúvida, vem colmatar uma inexplicável brecha existente na bibliografia histórica sobre aquela que foi a mais poderosa associação secreta constituída em Portugal.

A Carbonária era diferente das outras associações do género. Não lhe interessava oradores e panfletários. Como não exibia os chefes em público não precisava de gente ‘educada’ para falar nos comícios e escrever nos jornais.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Apresentando José Brandão



José Augusto de Jesus Brandão, nasceu em Lisboa em 1948. Operário metalúrgico, entre 1969 e 1971 esteve na guerra em Moçambique. Ligado à ARA a partir de 1972, participou em diversas operações de reconhecimento de objectivos. Esteve preso pela PIDE em 1973. Após a revolução de Abril, foi empregado na Carris e dirigente sindical. Militante do PS, foi membro da Comissão Nacional entre 1980 e 1988 e, entre 1985 e 1987, pertenceu à Comissão Política.

Historiador, especializado na violência armada no período contemporâneo, tem uma vasta obra publicada, da qual se salienta: Sidónio – Ele Tornará Feito Qualquer Outro (1.ª ed. 1983), Carbonária – O Exército Secreto da República (1.ª ed. 1984), 100 Anos por 1 Dia, (1987), A Noite Sangrenta (1991),Suicídios Famosos em Portugal (2007); Portugal Trágico – O Regicídio,(2008), Cronologia da Guerra Colonial (2008) e A Vida Dramática dos Reis de Portugal ( 2008).

Baseada na sua obra Suicidios Famosos em Portugal, iniciaremos amanhã a publicação de uma série de textos sobre o tema. Os textos que aqui apresentaremos, revistos e alterados pelo autor, são diferentes da edição de 2007.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

História, romance, história em "A Sinfonia da Morte", de Carlos Loures


Sílvio Castro

Quase certamente, como é de conceito praticamente generalizado depois da lição de Lukács e outros, na literatura contemporânea não mais existe a possibilidade do género chamado “romance histórico”, de origens scottianas. Porém, é igualmente mais que provável que se possa criar ótima obra de ficção a partir de um dado, período ou episódio históricos. Justamente o que acontece com Carlos Loures e seu terceiro romance, A Sinfonia da Morte.

Carlos Loures, ao tomar como referência central para o seu texto o episódio do regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, no qual morreram o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, Luís Filipe, preanúncio do fim iminente do regime monárquico português, com a consequente proclamação da República (1910), conhece coerentemente as normas que impedem a um escritor moderno a projetação do romance histórico. Porém, ao partir de um episódio fundamental da história de Portugal, ele está igualmente convicto de que realiza uma operação criativa baseada em normas e princípios teóricos os mais atualizados. Bem como que completa sua operação consciente dos recursos retóricos e linguísticos com que trabalha.

Loures, antes de tudo, concebe sua operação literária integrada na mais viva consciência do valor específico da linguagem. A partir dela se confronta com a matéria aparentemente absurda aos seus fins artísticos, matéria que retira da história nacional contemporânea e a faz própria, integrando-a com grande consciência técnico-literária nas invenções dramáticas com que se propõe recriar tão diversos mundos. Assim agindo, o romancista revela o adequado conhecimento daquele elemento técnico que mais claramente revela a impossibilidade da realização de um dito romance histórico: a mais moderna consciência de tempo, tanto na dimensão filosófica, quanto naquela linguística, e a consequente dualidade entre o conceito do tempo pessoal da sincronia e aquele diacrônico a que está preso o episódio histórico enquanto tal. Daí a necessidade, plenamente satisfeita pelo autor, da melhor composição entre tempo diacrônico, aquele histórico, e tempo sincrônico, aquele do narrador que se apropria da história. Assumida esta consciência que se faz metodologia da criação literária procurada, Carlos Loures se mostra pronto para a difícil meta de um texto que, mesmo tendo olhos para outras obras-modelos, em particular as dos grandes mestres do neo-realismo português, aspira a ser pessoal e inovadora.

A Sinfonia da Morte é um romance de rara, mas ao mesmo tempo, absorvida complexidade, de moderna erudição, metodologicamente aplicada; erudição e complexidade essas transmitidas por um processo linguístico realista e claro, o que permite a imediata criação de um quadro de relações entre o autor e o seu público-receptor de imediata eficácia.

Toda a história se desenvolve e cumpre em forma circular - em dosado equilíbrio entre narrativa-ficção e narrativa-ensaio - que, partida do “Prólogo”, corre quase sem empecilhos até o “Epílogo” - feito a semelhança do moderno romance-inquérito da literatura americana – para, já então completado, como que retornar idealmente ao “Prólogo”. Tudo numa sábia operação que convida naturalmente o leitor a duas imediatas leituras do romance, ambas fornecidas de objetivas satisfações.

Carlos Loures se integra no tempo narrativo aberto e desenvolvido pela história de um jovem futuro romancista da província, Jorge, que naquele fim de Janeiro de 1908 parte para Lisboa com empenhos ligados a interesses materiais da família, ao quais deve dar satisfações por encargo que lhe passa o pai. Jorge, negado para a agricultura, fonte da riqueza familiar, mas apoiado na sua fresca formação jurídica realizada em Coimbra, associa o encargo circunstancial ao seu desejo de encontrar em Lisboa aquela Samarcanda propícia a fazer florescer definitivamente seus sonhos literários. Jorge está no começo indeciso de uma primeira novela. Assim, mais com sonhos que com olhos capazes de fixar a realidade, ele parte para a Capital.




O narrador (quase)impessoal de A Sinfonia da Morte joga com dois tempos aparentemente conflituais: o dos sonhos de um muito jovem literato em busca de sua identidade e os episódios políticos que estão para se transformar em tragédia. O romance apresenta-se assim com a estrutura formal dos quatro movimentos sinfônicos, onde o primeiro e quarto movimentos são aparentemente autônomos, enquanto os segundo e terceiro são liberados em vibrante simbiose.

A concepção narrativa tem aparentemente fundamentos românticos, mas em verdade se revela de imediato inusitada e plena de impacto. Depois de uma aparente partida compositiva de uma história ainda focada sob o signo da dualidade “amor e morte”, o autor a transforma e conduz na direção de intensa participação com o seu quase revés: “morte e amor”. Enquanto explode no tempo fora do tempo o amor de Jorge e Margarida Diniz, revela-se com intensidade o tempo diacrônico do regicídio.

O romancista supera, de pronto, a operação começada com inevitáveis tendências à predominância de intensificações metafóricas, subordinando-as com grande eficácia ao uso de um criativo processo de linguagem metonímica. Mas. a metonímia não se exime de revelar igualmente, quando conveniente, sua face metafórica.

Como consequência de seu moderno sistema de linguagem, A Sinfonia da Morte cresce com a mobilidade do narrador (quase)impessoal, capaz de movimentos nos mais diversos tempos. Ele guia sempre as operações, mas permite os percursos de outros eu-narradores, através de uma galeria de personagens que enriquecem o romance: antes de tudo, Jorge; depois aqueles mais diretamente ligados ao personagem catalisador da ficção; o anárquico primo Luciano, de certa forma alter-ego de Jorge; o dúbio ex-companheiro da vida boêmia da Coimbra universitária, Fernando Amoreira, agora jornalista em Lisboa; Margarida Diniz, atriz, a reveladora da dimensão amorosa. Todos ligados a outras dezenas de personagens que dinamizam a ação do protagonista, como a muito simples popular Adosinda, criada de Margarida.

Paralelamente decorre a dramática presença dos mais diretos protagonistas do episódio histórico: D. Carlos, o príncipe Luís Filipe, Dona Amélia, D. Manuel, o 33º e último rei de Portugal, nascido quase como preanúncio fatal para os Braganças no dia da proclamação da República do Brasil, 15 de Novembro de 1889. Ao lado deles, a figura central do ditador João Franco, dos monárquicos dissidentes, dos dirigentes da Maçonaria e dos líderes da Carbonária portuguesa. E mais as figuras trágicas dos regicidas reconhecidos, Manuel Buíça e Alfredo Costa, junto aos quais se desenvolve a imagem um inquisidor cedo emudecido pelo poder escondido de muitos poderosos, Abílio Magro.

O romancista movimenta toda a complexidade de um tempo de pavor e violências, no qual vive por anos Portugal, disso dando testemunho a passagem aparentemente meteórica de dezenas e dezenas de nomes que são mais que somente nomes, para transformar-se em elementos da linguagem do autor: intelectuais, escritores, jornalistas, artistas, políticos, visitantes estrangeiros. Todos apanhados numa visão realista.

Somente em poucos momentos o narrador (quase)impessoal, sempre pronto ao encontro dos tempos, faz predominar aquele sincrônico; por exemplo, quando à página 236 se revela isolado num só tempo:

“Foram [Jorge e Margarida] até Algés no eléctrico aberto que tomaram perto do local do regicídio. (… …) Quando chegaram ao então agradável subúrbio, passearam de mãos dadas entre as moradias e chalés de veraneio que bordejavam a estrada asfaltada paralela à praia.”

Com A Sinfonia da Morte, Carlos Loures enriquece o moderno romance português, anunciando um possível tempo pós-moderno que reafirma as conquistas passadas, ao mesmo tempo que propicia aquelas futuras.

¬¬¬¬¬________________________________
* - Texto publicado no nº4 da revista Nova Síntese.