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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo XV

Etapa 5: Da nascente do Alviela a Minde

Chego à nascente do Alviela. O sítio terá sido mais bonito antes de o transformarem em praia fluvial, perdeu entretanto o aspecto bravio, há pontes, tanques e mesas de merenda, restam vários penedos, árvores imponentes, o rio a sair de uma caverna.

Aproveito aquela cópia de mesas e bancos, abanco numa delas para o merecido banquete. Devoro a sandes (enorme) que em Pernes mandei preparar, figos e damascos secos, nozes, uvas, maçãs, chocolate preto... Parto com a mochila mais leve.

Mas não durante muito tempo. Avanço por um caminho pedregoso, encontro pedaços de quartzo transparente, que me parecem muito bonitos, resisto aos primeiros, embora com dificuldade, acabo por sucumbir a três outros – como se me faltasse lastro na mochila.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo XIV

Etapa 5: De Arneiro das Milhariças à nascente do Alviela

Pernoito no ginásio dos bombeiros voluntários de Pernes, onde vinte colchões servem ocasionalmente para este fim. Escolho, por razões de higiene, dois com revestimento de napa, desdobro-lhes por cima o saco-cama e, depois de lavar a minha camisola, ponho-a a secar na rede de uma baliza. Mais uma vez, sou acolhida com respeito, discrição e muita simpatia. Gosto da generosidade e do profissionalismo que sempre encontro nestes quartéis.
Em Lisboa, hesitei entre dois sacos-cama, um mais quente, para uma temperatura de cinco graus, o outro menos, para uma de vinte. Ora neste momento, mesmo durante a noite, as temperaturas exteriores não devem descer abaixo dos dez graus – e eu não durmo na rua. Trouxe portanto o saco menos quente. Afinal... deve haver algures janelas abertas, talvez no próprio ginásio onde durmo – a verdade é que acordo às quatro horas com frio. E não volto a adormecer.
Saio às sete horas dos bombeiros. Ainda é de noite. Tomo o pequeno almoço no primeiro café e prossigo na direcção de Arneiro das Milhariças por uma estrada muito bonita com, diante de mim, as serras a nascerem da neblina.
Ontem à noite, quando cheguei a Arneiro, não encontrei alojamento mas um rapaz, canalizador, passava por Pernes com a carrinha e deixou-me nos bombeiros voluntários; trabalha catorze horas por dia mas não se queixa da crise. Esta manhã também converso em Arneiro com um trabalhador da construção: conta-me que era barman, mudou de trabalho por aquele ser bem pago, porém agora o patrão baixa os salários, aproveitando-se da crise para aumentar o lucro.
Previ caminhar dezanove quilómetros de Arneiro das Milhariças a Minde. Subo uma encosta quase de saltos altos por a terra molhada se agarrar às botas. No cimo há dois moinhos abandonados e um habitado, o moinho dos Silvas. A bruma deixa adivinhar lá em baixo um casario branco: Arneiro das Milhariças. Logo à entrada de Chã de Cima, num sítio muito sujo, sou atacada por quatro cães e, mesmo com o bordão, tenho dificuldade em escapar. Esta ocorrência ajuda-me a formular uma lei social: quanto mais lixo, mais cães e mais ferozes. Sigo em frente e, como não encontro nenhum café e já bebi um litro de água, prevendo a travessia de oito quilómetros até Monsanto sem avistar vivalma, peço a um habitante que me encha a garrafa; o que ele faz sem adiantar conversa. Desconfiado. Mais uma vez. Não imaginava os portugueses capazes de tamanha xenofobia. O sentimento de insegurança acabou com a franca hospitalidade: todos os estranhos lhes parecem agressores potenciais.
Atravesso uma vegetação muito variada, oliveiras, sobreiros, carvalhos, pinheiros. E tojo, cisto, urze, torga, murta, carqueja, que eu conheço, mas também numerosos arbustos cujos nomes ignoro. Avisto um rebanho de ovelhas. De súbito vejo entulho vazado no meio do caminho: pedaços de tijolo, azulejo e cimento. Dali a pouco chego à beira de uma estrada. Há medronheiros com frutos maduros. Noto porém cada vez mais lixo, montes de embalagens de plástico, como se tivessem despejado algum contentor, lixo e mais lixo, papéis e vidros... De repente sou atacada por dois cães – já estava à espera disto. (Cá diz o refrão: não há lixo sem cães.)