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sábado, 20 de novembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (37)

O Primeiro Congresso do Partido Comunista Português


César Oliveira


Seara Nova, 1975



Este é um volume cujo principal objectivo é dar a conhecer ao público as teses, resoluções e outro noticiário referente ao I Congresso do Partido Comunista Português realizado em 1923, dois anos após a sua fundação em 1921.
Não se pretende neste volume iniciar uma história do P.C. P. para cuja continuidade nos faltariam, necessariamente, elementos dadas as condições de clandestinidade em que foram obrigados a viver, durante dezenas de anos, os militantes deste partido. Por outro lado não é nosso propósito mostrar com a publicação deste material a fraqueza teórica patente no referido congresso: isso seria, exactamente, desconhecer ou ignorar deliberadamente o contexto social e económico da época em que nasceu o partido…

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O Primeiro de Maio


César Nogueira

Lisboa, 1917

É esta a orientação, que o proletariado português deve também acompanhar. Mas para que as reivindicações do 1.º de Maio melhor possam vingar é necessário, é imprescindível, que ao lado do esforço económico esteja a luta do carácter político pela conquista das juntas de paróquia, dos municípios, das juntas distritais e do Parlamento, porque sendo os melhores baluartes onde se acoita o capitalismo, é, por consequência, o meio mais autêntico o mais prático para obter e manter as reivindicações formuladas no dia 1.° de Maio, factos importantes, que o Congresso Socialista Internacional de Paris, em 1900, reconheceu, convidando as organizações operárias a prosseguir na obtenção das reformas sociais, «obrando duma maneira progressiva e ligando a acção sindical e a acção politica». Assim o têm compreendido e executado as massas populares para além-fronteiras.

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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Coisas breves. Cavaco recebe partidos

Carlos Mesquita

Cavaco Silva reuniu hoje com partidos de esquerda. Recebeu-os na sala trapezoidal de S. Bento, onde para além dos assentos há uma mesa redonda com apenas quatros pernas, em cima um candeeiro de lâmpadas anti-melgas. Ao fundo uma pantera de louça e um cavalete de pintura com um quadro de tela branca roto desde o centro esquerdo ao centro direito.

Aníbal (é o nome próprio com que se levanta) acordou depois de uma noite mal dormida de preocupações.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 151 e 152 (José Brandão)

A I República Portuguesa

Uma cronologia

Fernando de Castro Brandão

Livros Horizonte, 1991

Hoje em dia reconhece-se a cronologia como um instrumento imprescindível para a análise histórica. As datas existem como marcas insubstituíveis a partir das quais se articulam os factos inseridos no tempo e no espaço. A referência cronológica ganha ainda mais relevância quando o material de investigação e as obras de referência são escassas ou pouco rigorosas, criando dificuldades quase insuperáveis aos investigadores e a todos quantos se interessam pela história por falta de indicações cronológicas precisas. Daí esta cronologia da I República Portuguesa, um período aliciante e fundamental da história contemporânea portuguesa mas ainda com muita informação por desbravar.

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O Primeiro Congresso do Partido Comunista Português


César Oliveira

Seara Nova, 1975

Este é um volume cujo principal objectivo é dar a conhecer ao público as teses, resoluções e outro noticiário referente ao I Congresso do Partido Comunista Português realizado em 1923, dois anos após a sua fundação em 1921.

Não se pretende neste volume iniciar uma história do P.C. P. para cuja continuidade nos faltariam, necessariamente, elementos dadas as condições de clandestinidade em que foram obrigados a viver, durante dezenas de anos, os militantes deste partido. Por outro lado não é nosso propósito mostrar com a publicação deste material a fraqueza teórica patente no referido congresso: isso seria, exactamente, desconhecer ou ignorar deliberadamente o contexto social e económico da época em que nasceu o partido…
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

José Gomes Ferreira –2

Carlos Loures


Quando José Gomes Ferreira, vindo da Noruega, voltou a Lisboa, encontrou outro um país – A Revolução continua – diziam os apoiantes da «nova ordem» que reinava nas ruas e com a repressão que condicionava as mentes. Com um ou outro acidente de percurso, a direita católica e conservadora, o chamado Governo da Ditadura Militar, ia, decreto a decreto, sob a orientação cautelosa, mas obstinada, de um tal Oliveira Salazar, eliminando os vestígios da República, suprimindo as liberdades fundamentais.

Alguns amigos eram os mesmos, outros tinham morrido. E surgiram alguns novos – Manuel Mendes, Bernardo e Ofélia Marques (seus «compadres», padrinhos de seu filho Raúl), Carlos Botelho, Diogo de Macedo, José Rodrigues Miguéis, João Gaspar Simões Cottinelli Telmo, a Maria e o Chico Keil… E os neo-realistas Alves Redol, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Carlos Queiroz… Olha, ainda há flores/ Mas quem se atreve/a cantar as flores do verde pino/no madrigal desta manhã de pesadelos?/ E tu, papoila, minha bandeira breve,/quando voltarás ao teu destino/ de enfeitar cabelos?

sábado, 7 de agosto de 2010

Partidocracia

Carlos Loures

Sabemos o que significa partidocracia - poder, domínio, autoridade dos partidos. Num sentido mais lato, governo dos partidos. Num sentido ainda mais lato, ditadura de partidos. Se pretendermos aprofundar a vertente prática do conceito, veremos que geralmente são dois os partidos que se alternam no poder. O filósofo espanhol Gustavo Bueno, criador do «materialismo filosófico» (e do qual aqui tenho falado a propósito do telelixo), diz que «a partidocracia constitui uma deformação sistemática da democracia», pois, cada um dos partidos do poder «tem sistematicamente que atacar o outro». Esta situação de guerra permanente entre os dois partidos alternantes, esconde uma realidade cruel – a de que são faces da mesma moeda. Não se trata aqui da guerra entre esquerda e direita ou entre conservadores e progressistas. Luta-se não por princípios ou por ideais (esses, no fundo, são os mesmos), mas por lugares privilegiados. As oligarquias partidárias digladiam-se pela conservação ou pela tomada do poder, mas no fundo, graças à tal «engenharia endogâmica» de que já falei - criadora de uma verdadeira oligarquia - o poder está sempre nas mesmas mãos. Este sistema duocrático vigora em Portugal e em quase todos os países onde existe a democracia formal e parlamentar. Os eleitores podem, no entanto, conservar a ilusão de que vivem numa verdadeira democracia.

Em 1991, o Partido Socialista (que por essa altura ainda se preocupava com este tipo de questões), organizou um colóquio sobre o tema «Democracia ou Partidocracia», orientado pelo Professor Eduardo Lourenço, em que participaram, entre outros, os Professores Alfredo Margarido, Fernando Pereira Marques(colaborador do Estrolabio), António Reis, Manuel Vilaverde Cabral, Guilherme de Oliveira Martins, João de Almeida Santos. Uma revista «de reflexão e crítica» que, pela mesma época, a Fundação José Fontana editava, a Finisterra, publicava algumas dessas comunicações. Eram, na sua maior parte, intervenções de valioso conteúdo, reflectindo a profunda capacidade de autocrítica que o Partido Socialista apresentava há menos de vinte anos. Embora já se começasse a esboçar a criação do «bloco central», como era diferente a parte do PS que reflectia, o hemisfério activo do seu cérebro, diferente de um PPD-PSD preso à herança de Francisco Sá Carneiro, homem que não produziu uma ideia que valha a pena recordar, mas que apesar disso, conseguiu ser a cabeça mais brilhante do partido que co-fundou. O que prova não ser a ausência de ideologia que fragiliza uma organização partidária que lute pelo poder. O PSD nunca a teve e nunca lhe sentiu a falta; o PS tinha-a, mas tem estado a desembaraçar-se de algo que só servia para atrapalhar. Como se faz aos trastes velhos, a ideologia socialista foi parar ao sótão.

Com efeito, como estamos distantes, dezoito anos depois, desse tempo em que, ape
sar de já haver um ala inclinada a uma «visão prática» da política partidária, receptiva a cedências ideológicas, havia ainda uma pujança intelectual que se perdeu, se dissolveu na voragem de compromissos, comunitários e não só – embora a maioria das pessoas que constituíam essa elite ainda sejam, felizmente, vivas. Hoje, apesar da guerra das palavras e das denúncias mútuas de corrupção, de criação de clientelas, de caciquismo, de corrupção – acusações que, na maior parte, não serão injustas – os dois partidos são praticamente iguais. E quando digo praticamente, é isso mesmo que quero dizer. Na prática, para o que é importante, na perspectiva dos governados, não se nota diferença sensível entre um e outro partido. Diferenças, se as há, só em meras questões de estilo.

Seria excelente que um Deus ex machina, como acontecia nas comédias e tragédias do teatro renascentista, descesse sobre esta cena de tragicomédia que estamos a viver, e entre outros actos de justiça, reorganizasse o leque político português, simplificando-o e clarificando-o. Assim, por exemplo:

a) - num partido neo-liberal organizar-se ia a grande massa de militantes e apoiantes do PS e do PSD (talvez mesmo franjas direitistas do PC e «esquerdistas» do CDS);
b) - num partido social-democrata, os actuais militantes do PS, do PSD, do PCP e do BE, que querem transformar a sociedade, mas sem uma ruptura violenta;
c) - num partido socialista, os que querem que os meios de produção e a riqueza por eles criada estejam inteiramente ao serviço da comunidade, mesmo que para tal haja que fazer uma Revolução;
d) - talvez se tivesse de arrumar alguns democratas-cristãos separadamente - os mais ligados à sacristia e ao Vaticano do que à eclesia, porque estes últimos, os verdadeiros cristãos, estariam dispersos pelos outros partidos;
e) – haveria, além destes e obviamente, todos os partidos e movimentos que os cidadãos livremente quisessem criar.

O Deus ex machina, que surgia nos palcos ou nas arenas movido por engenhosos maquinismos (Leonardo da Vinci concebeu alguns) descido por cordas, à força de braços, de roldanas e manivelas, solucionava intrincados problemas que os autores tinham criado ao longo dos enredos, intrigando os espectadores que se acumulavam nos teatros ou nos pátios de comédias - «como é que eles se vão sair desta?», interrogavam-se. Pois o deus descido à corda resolvia tudo – afinal a pastora era a uma princesa, o conde despótico, era apenas uma alma amargurada e um ser bondoso, a duquesa bondosa era a megera que tinha tecido toda a venenosa intriga. O príncipe desposava a pastora-princesa e tudo se resolvia. Aquele deus que saía rangendo da urdidura, pendurado em cordas, punha as coisas na devida ordem. Nós não temos disso e assim, vemos estes dois clones irem tomando conta de tudo, sempre zangados, denunciando as trapaças um do outro (essas, sim, quase sempre reais) parecendo «inimigos para sempre», tão diferentes, tão iguais.
Eduardo Lourenço, em texto da Finisterra (nº.8, Primavera de 1991), compara a construção da Democracia ao trabalho, incessantemente recomeçado, de Penélope, tecendo a mortalha de Laerte, pai de Ulisses. Podíamos também associar a essa construção a punição eterna de Sísifo, talvez ainda mais adequado à situação que vivemos – rolar até ao topo de uma montanha um pedra que, chegada aí cai pela encosta, sendo necessário recomeçar a tarefa. Com uma diferença, a nossa pedra nunca chegou ao topo, embora depois da Revolução de Abril tivéssemos a ilusão de que a tínhamos conseguido levar até lá. Aqui entram em jogo as perspectivas de cada grupo político. Para os «socialistas» e «social-democratas» a pedra está no cimo quando ganham eleições. Para mim e para os que pensam de forma similar, a pedra só esteve mais abaixo quando vivíamos em ditadura. Com uma diferença: nessa situação ninguém alimentava a ilusão de ter rolado a pedra até ao topo da montanha. Não tenho saudades da autocracia. Mas as coisas eram mais claras.

Eduardo Lourenço, com a limpidez que caracteriza o seu discurso, diz na revista já citada: «Enquanto o tecido democrático assentar quase exclusivamente nos mecanismos de representação partidária, enquanto esse sistema não for contrabalançado por outras formas de representação social, a de associações, grupos, clubes de reflexão, ou outras formas de expressão activa da sociedade civil, o reino da «partidocracia», mais ou menos nocivo, é inevitável:» (…) «O único remédio contra uma certa e inevitável «partidocracia» é a democratização em profundidade da sociedade civil, a subida do nível de autonomia individual, a delegação cada vez mais consciente da nossa parcela de poder e do seu controlo. A Democracia é um círculo vicioso quando o cidadão abdica por simples rito a sua responsabilidade nas mãos alheias para que elas exprimam, reforcem vida à mesma Democracia. No fundo o que é a «partidocracia» senão a quintessência dessa abdicação?» Gostava muito de ouvir a opinião sobre o mesmo tema de Eduardo Lourenço, agora, dezoito anos depois de estas palavras terem sido escritas.

A «partidocracia» instalou-se de armas e bagagens e domina completamente a vida política, económica e social do País. Tito de Morais, num discurso parlamentar do 10º aniversário do 25 de Abril, dizia que se a engenharia é «matéria de engenheiros, a saúde da competência dos médicos e a Igreja da responsabilidade dos sacerdotes, a política, por sua parte, é assunto de que só os políticos se devem ocupar.» Na altura a frase caiu mal, pois afinal só tinham passado dez anos sobre o tempo em que as assembleias de trabalhadores, de bairro ou de escola, tinham poder. Numa perspectiva democrática, isto continua a ser um disparate; mas lá que reflecte a práxis em vigor, disso não há dúvidas.

E quem é que, tendo chegado às cadeiras do poder, quer saber de perspectivas democráticas?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Há 35 anos: Lisboa já está a arder?

Carlos Loures

Está a fazer 35 anos era o «Verão Quente». A esquerda tomava o freio nos dentes. Parecia que nada a iria deter. Quando falo de esquerda, não incluo o Partido Comunista, falo dos pequenos partidos – MES, PRP, UDP… que chegaram a ter uma capacidade de mobilização superior à do PCP. Era o “Verão Quente”, o despertar dos mágicos.

Num jornal diário que há muito desapareceu, o Portugal Hoje, publiquei uma série de textos a que dei o título «Repensar a esquerda». O jornal estava ligado ao PS, partido com o qual nunca tive nada a ver, a não ser o facto de ter alguns bons amigos que eram (e muitos ainda são) militantes socialistas. Estava-se em 1980, o PS era tão diferente do que é hoje que até convidava esquerdalhos como eu a colaborar num jornal oficiosamente seu. E não me foi imposta qualquer condição - podia escrever o que quisesse. E assim fiz. Iniciei um balanço às causas da falência da Revolução de Abril, enquanto movimento popular. A um dos textos chamei «O tumultuoso despertar dos mágicos». Referia-se o título a um livro que na época estava muito na moda «O Despertar dos Mágicos» (Le matin des magiciens), de Louis Pauwels e Jacques Bergier. Era coisa ligada aos chamados factos insólitos, às religiões, às ciências ocultas e ao esoterismo. Um manifesto do fantástico, como lhe chamaram. Em suma, o meu texto nada tinha a ver com o tema. Mas achei o título giro e não resisti à tentação de o utilizar. E venho recordar alguns passos desse texto.

O Fagundes faz-nos muita falta

Carlos Antunes


O Jorge Fagundes foi sempre um homem muito solidário, antes e depois do 25 de Abril. Foi um dos advogados que mais presos políticos defendeu no Tribunal Plenário antes do 25 de Abril: presos do Golpe de Beja, maoístas da FAP, militantes clandestinos do PCP, não descriminando nenhum anti-fascista pela sua tendência ideológica.

Depois do 25 de Abril, foi o grande organizador da defesa dos presos do PRP. Convidando amigos advogados de todo o país, montou uma defesa extraordinária deste grande processo político. Foi ele que se encarregou pessoalmente da minha defesa e da Isabel do Carmo.

Já em liberdade, e porque tínhamos escritório na mesma rua, face a face, almoçávamos praticamente todos os dias. Tinha um humor fantástico e aproveitava o convívio do almoço para contar histórias inesquecíveis, muitas delas ligadas aos tribunais. Se o Sporting perdesse num domingo, a segunda-feira era sempre dia de luto. E como ele dizia , não era caso para menos...


A sua posição de grande e reconhecido advogado não o impedia de assumir responsabilidades políticas com grande coerência. Foi convidado para ser director do jornal Página Um, em 1976, cargo que assumiu com toda a coragem, mesmo quando choviam os processos jurídicos contra o jornal e contra ele como director. Sem alardes, era um homem com uma grande coerência revolucionária.



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Nota: Logo que soubemos do falecimento de Jorge Fagundes, solicitámos ao Carlos Antunes, grande amigo de Fagundes, um depoimento. Depoimento que só hoje nos é possível apresentar.

sábado, 17 de julho de 2010

Índios e cowboys

Carlos Loures



Filmes como este, que podemos ver na páina seguinte e que víamos entusiasmados, por vezes nos cinemas de sessões contínuas, levavam os da minha geração a eleger como brincadeira favorita as lutas entre índios e cowboys (cóbois, no nosso inglês simplificado). Nascido no centro de Lisboa, não podia brincar na rua. Mas nas férias grandes desforrava-me. Numa vila de praia da margem Sul, hoje transformada num caos urbanístico, mas na altura pacata e tranquila, reunia-me a um grupo de amigos certos, todas as tardes, depois do almoço, antes de uma última ida à praia, quando o sol já não «fizesse mal». Dividíamo-nos em dois grupos, os maus e os bons, os índios e os cóbois. Não havia lugares fixos, a divisão era aleatória. Mas quem se atrasasse na chegada já nem tinha direito a escolher. Era assim e pronto. Ninguém discutia as regras.

Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo e político italiano, perseguido pelo regime fascista de Benito Mussolini, dizia na sua obra Os Intelectuais e a Organização da Cultura: «Cada grupo social essencial» (…) «surgindo na história a partir da estrutura económica anterior e como expressão do desenvolvimento desta estrutura, encontrou – pelo menos na história que se desenvolveu até aos nossos dias – categorias intelectuais pré-existentes, as quais apareciam, aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nem mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas».

sábado, 5 de junho de 2010

Coisas breves. Santana Lopes quer o PCP no governo.


Carlos Mesquita


Apesar do ex-líder do PPD/PSD, Santana Lopes, ter dito que “o PCP tem de ser chamado a fazer parte do governo”, ninguém passou cartão ao que disse o ex-primeiro ministro laranja. E disse mais Santana, na SIC; que não era por causa da paz social mas sim da produtividade. O que é que o PCP tem a ver com a produtividade? Tenho andado a matutar no assunto. Produtividade sei o que é, até já fiz profissão disso, mas ligar o PCP à produtividade não é fácil. Não será através das empresas ligadas ao partido; as que conhecia (da minha área) ou fecharam ou foram vendidas, até para Espanha. Com apelos aos trabalhadores também não será, basta os patrões a pedir-lhes isso. Seria com trabalho do Comité Central? Há realmente lá gente com conhecimentos de arqueologia industrial, podiam ajudar como cicerones o turismo que agora se faz para ver cadáveres de fábricas. Explicar às criancinhas que antes dos telemóveis, os telefones tinham fios, e que ainda antes tinham de se plantar postes e passar fios que eram seguros a canecas…mas não, não pode ser por isso que Santana Lopes quer o PCP no governo. Explicar como segurar fios com canecas é um malabarismo que pode prender a atenção dos garotos, mas não é razão para ir para o governo.

O melhor é usar outro método (agora científico), e recuar aos anos em que o PCP esteve no governo, no passado longínquo dos governos provisórios. Nessa altura os ordenados eram baixos, embora alguém do PCP tenha dito que vivia bem com o salário mínimo, mas a produtividade não era grande coisa, também porque parte do tempo decorria a lutar pelos direitos, (chamam-se hoje, direitos adquiridos). O tempo do PCP no governo não foi fecundo em ganhos de produtividade. A não ser (eureka) durante um dia em que os portugueses trabalharam à borla, chamado “Um dia de trabalho para a Nação”. Não há nada mais produtivo que os trabalhadores não quererem remuneração, é ainda mais proveitoso que os baixos salários, que como se deve ensinar nas universidades da especialidade é condição sine qua non para conseguir produtividade, é o que dizem os porta-vozes do saber. À luz desta breve mas produtiva pesquisa entende-se a proposta de Santana Lopes; ele quer o PCP no governo, porque considera que assim, quando Carvalho da Silva for ao Hotel Vitória buscar inspiração para novas jornadas de luta, trará de lá em vez de propostas de greve geral, mais uns dias de trabalho pela Nação. Muita cultura política tem o estudioso Santana Lopes.

Aqui abre-se um parêntesis que fecha do fim do texto, para ir à história e enquadrar o dia de trabalho voluntário. Quem teve a lembrança do dia de dádiva foi Vasco Gonçalves, nomeado primeiro-ministro do II governo provisório em Julho de 1974, fez a proposta em Setembro de 74, ainda durante o II governo, para esse dia ser no 5 de Outubro, entretanto a 30 de Setembro Spínola renúncia à Presidência da República e Costa Gomes assume o cargo. Em 1 de Outubro toma posse o III governo provisório chefiado por Vasco Gonçalves. O primeiro-ministro do III governo, manteve a proposta do primeiro-ministro do governo anterior, e o dia de trabalho lá se realizou, não no feriado, mas no dia seguinte que era de descanso. Vasco Gonçalves amado por uns e odiado por outros manteve nos seus quatro governos (o ultimo foi o quinto) o ministro do trabalho Costa Martins e como secretário de estado do trabalho Carlos Carvalhas, que viria a ser secretário (agora geral) do PCP. O “companheiro Vasco” como primeiro-ministro foi controverso, e mais seria como treinador de futebol, como se vê ele era apologista da máxima; em equipa que perde não se mexe.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A síndrome de Estocolmo



Carlos Loures

Todos já ouviram falar desta patologia que, basicamente, consiste na disfunção psicológica que leva um sequestrado a identificar-se com o sequestrador. A designação deriva de um facto ocorrido em Estocolmo no ano de 1973 – durante um assalto a um banco, os reféns, sequestrados durante seis dias, mostraram-se, depois de libertos, solidários com os assaltantes mesmo durante o processo judicial. A solidariedade da vítima para com o seu captor nasce com pequenos gestos de urbanidade do sequestrador para com o sequestrado e cimenta-se durante o processo de libertação por parte das autoridades policiais, em que o sequestrado se identifica com o assaltante no receio de ser vitimado durante a luta.

Uma visão lúcida da realidade é difícil e as pequenas atenções dos bandidos transformam-se, na memória da vítima, em rasgos de bondade. Por outro lado, os sequestrados têm tendência em ser dóceis com os captores, procurando uma fuga a represálias. Uma estratégia de sobrevivência, digamos que dá lugar a uma bela amizade.

A evolução da síndrome é subconsciente, a vítima não tem consciência da progressão do trauma. Por outro lado, esta não afecta todas as vítimas em cativeiro, alguns defendem-se desenvolvendo um ódio, porventura exagerado (mas saudável), aos captores. A síndrome, de espectro abrangente, tipifica também o afecto que muitas mulheres vítimas de violência nutrem pelos maridos agressores.


Em grupos alargados, lugares e transportes públicos, ouve-se, desde que os governos são eleitos democraticamente em Portugal, protestos contra a forma como somos governados. Ninguém parece apoiar o partido que está no poder – fervem as anedotas, os boatos, as acusações… Foi sempre para mim um mistério como é que situações de descontentamento generalizado dão lugar a vitórias, por vezes rotundas, dos partidos que estão por detrás dos governos tão duramente criticados. Outro aspecto interessante da chamada psicologia de massas é, pessoas que votam em partidos de direita e que às vezes até se mostram saudosas da ditadura, quando os seus interesses pessoais são de alguma maneira afectados, invocarem «as conquistas de Abril».

Mas esta é uma questão anedótica e marginal. O mistério que gostava de ver esclarecido é como é que partidos que já se viu como governam continuarem a ter a maioria dos votos dos eleitores. Então surge uma explicação – a síndrome de Estocolmo – reféns do neo-liberalismo, nós os eleitores, cativos do círculo vicioso, ciclo e circo fantasioso, que faz alternar um dos dois partidos no poder – ganhámos afecto aos captores, somos seduzidos pelos pequenos gestos amáveis que travestem a violência de impostos e de medidas lesivas do nosso bem-estar.

Quando faço a pergunta directamente a votantes no PS ou no PSD, as pessoas encolhem os ombros e respondem - «é que os outros não dão garantias de poder governar». Talvez seja verdade. PCP e Bloco de Esquerda talvez até nem fossem capazes de governar e permanecer fiéis aos seus princípios. Talvez se «pragmatizassem». Porém, os dois compadres do bloco central deram já amplas garantias de não conseguirem governar na acepção nobre do termo. Porque «governar-se», perdoe-se-me o chulismo, eles conseguem sempre.

Sofremos colectivamente da síndrome de Estocolmo.

Só essa explicação pode justificar que continuemos a eleger e a confiar em quem faz de nós e dos nossos votos passadeira para satisfazer ambições pessoais, enriquecer o currículo e beneficiar interesses dos grandes empresários, ponte para negociatas obscuras…

Não, não somos nem masoquistas nem tão estúpidos como parecemos; estamos é afectados pela síndrome de Estocolmo.

Isto explica tudo, não acham?.