Carlos Loures
Em 1961, o São Martinho calhou a um sábado. Com colegas da RTP fui festejar a data para um restaurante dos arredores. Cozido à portuguesa, vinho tinto, castanhas assadas e água pé... Ao meu lado sentou-se um jovem, uma meia dúzia de anos mais velho do que eu, mas com menos de trinta anos, trabalhava no Lumiar enquanto eu estava na rua de São Domingos à Lapa. Falámos durante o almoço. Chamava-se João. João Soares Louro. Era um simples funcionário, mas de categoria superior à minha, pois trabalhava na empresa desde a fundação. Brincámos com a semelhança do nome – Louro, Loures. Um colega tranquilizou-me discretamente. O Soares Louro era «dos nossos». E, antes das entradas, já percebêramos que estávamos do mesmo lado. Anos depois, viria a ser administrador da empresa. Em 1994, estive com ele numa reunião da RTC para combinar uma campanha publicitária. Não lhe recordei esse dia de três décadas atrás. Até porque, embora delicado, correcto, via-se que não estava bem disposto. Talvez já estivesse doente. Nesse São Martinho de 1961, no regresso, a Lisboa, fomo-nos despedindo e o Soares Louro recomendou, a mim e a outros três colegas de esquerda, que passássemos pela sede da candidatura da oposição democrática, instalada perto do Martim Moniz, salvo erro na rua do Socorro.
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
De olhar atento à beleza
O meu nome é Paulo Rato e sou o mais recente colaborador do Estrolabio. Já vos fui apresentado, mas gostava de ser eu a falar do Paulo Rato. Aqui está:
Nasceu em Janeiro de 1947, céptico, racional e materialista.
De olhar atento à beleza, quotidianamente renovada, das nuvens no céu (mesmo se o cinzento predomina), das incontáveis tonalidades de folhas e ervas, flores e raízes, dos troncos e seus desenhos, nunca iguais; e também da obra dos homens que aprenderam a olhar, a ouvir, a decifrar na pele o passar do vento e o que traz consigo, e se lançam à árdua tarefa de inventar novos sentidos para o que os sentidos captam e, por diferentes vias, com várias ferramentas, recriar o voo do gavião ou, do cavalo (livre, não selvagem) a corrida e o salto e o seu rasto.
Crê que, em boa parte, se lhe aplicam estas palavras, com que Jorge de Sena se resume a si mesmo: "Inquieto e franco, altivo e carinhoso, / Será sempre sem pátria. (...)".
Nasceu em Janeiro de 1947, céptico, racional e materialista.
De olhar atento à beleza, quotidianamente renovada, das nuvens no céu (mesmo se o cinzento predomina), das incontáveis tonalidades de folhas e ervas, flores e raízes, dos troncos e seus desenhos, nunca iguais; e também da obra dos homens que aprenderam a olhar, a ouvir, a decifrar na pele o passar do vento e o que traz consigo, e se lançam à árdua tarefa de inventar novos sentidos para o que os sentidos captam e, por diferentes vias, com várias ferramentas, recriar o voo do gavião ou, do cavalo (livre, não selvagem) a corrida e o salto e o seu rasto.
Crê que, em boa parte, se lhe aplicam estas palavras, com que Jorge de Sena se resume a si mesmo: "Inquieto e franco, altivo e carinhoso, / Será sempre sem pátria. (...)".
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terça-feira, 13 de julho de 2010
A televisão que temos (a televisão é para estúpidos?) - II
Carlos Loures
Disse ontem que não percebia porque é que se gastava o dinheiro dos contribuintes em lixo, mas foi uma força de expressão, pois percebo perfeitamente as razões dessa aberração - a RTP está na guerra das audiências com a TVI e com a SIC e para isso precisa de baixar o nível cultural das suas emissões. À medida que os canais da concorrência vão descobrindo fórmulas de atrair audiências com concursos tontos, com telenovelas onde tudo é mau, do enredo às interpretações, passando pela realização, a RTP vai atrás, sempre atrás, imitando, procurando ir mais abaixo nesta espiral descendente, que não sabemos onde irá parar. O serviço público de televisão não deveria entrar nessa competição. com os canais privados. A sua função deveria ser informar, formar, divertir educando… Mesmo correndo o risco de perder telespectadores. Mantê-los servindo-lhes programas que competem em falta de qualidade com a «concorrência», vendo quem consegue exibir o lixo mais nauseabundo, não é prestar um serviço público.
Woody Allen, disse algures que, na Califórnia, não se deve deitar fora o lixo - «Eles reciclam-no sob a forma de programas de televisão». O problema é que este conselho passou a ser válido fora da Califórnia, mesmo na Europa, particularmente em Portugal. Dissemos num texto anterior que as palavras cultura e televisão estavam a deixar de fazer sentido quando aparecem em conjunto; em contrapartida, a palavra lixo, coaduna-se perfeitamente com a televisão que se faz dos nossos dias.
Disse ontem que não percebia porque é que se gastava o dinheiro dos contribuintes em lixo, mas foi uma força de expressão, pois percebo perfeitamente as razões dessa aberração - a RTP está na guerra das audiências com a TVI e com a SIC e para isso precisa de baixar o nível cultural das suas emissões. À medida que os canais da concorrência vão descobrindo fórmulas de atrair audiências com concursos tontos, com telenovelas onde tudo é mau, do enredo às interpretações, passando pela realização, a RTP vai atrás, sempre atrás, imitando, procurando ir mais abaixo nesta espiral descendente, que não sabemos onde irá parar. O serviço público de televisão não deveria entrar nessa competição. com os canais privados. A sua função deveria ser informar, formar, divertir educando… Mesmo correndo o risco de perder telespectadores. Mantê-los servindo-lhes programas que competem em falta de qualidade com a «concorrência», vendo quem consegue exibir o lixo mais nauseabundo, não é prestar um serviço público.
Woody Allen, disse algures que, na Califórnia, não se deve deitar fora o lixo - «Eles reciclam-no sob a forma de programas de televisão». O problema é que este conselho passou a ser válido fora da Califórnia, mesmo na Europa, particularmente em Portugal. Dissemos num texto anterior que as palavras cultura e televisão estavam a deixar de fazer sentido quando aparecem em conjunto; em contrapartida, a palavra lixo, coaduna-se perfeitamente com a televisão que se faz dos nossos dias.
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segunda-feira, 12 de julho de 2010
A televisão que temos (a televisão é para estúpidos?) – I
Carlos Loures
Konrad Lorenz o grande naturalista austríaco (1903-1989), prémio Nobel para a Medicina em 1973, criou o conceito do imprinting, que em castelhano se traduziu por «impronta», mas que entre nós se tem preferido deixar em inglês, já que uma tradução literal – estampagem, cunhagem, gravação - podia dar lugar a uma distorção do conceito científico. O que é o imprinting? Estudando o comportamento dos gansos recém-saídos da casca, Lorenz verificou que eles aprendem a seguir a mãe, mesmo que seja uma falsa mãe, um ser humano, outro animal ou mesmo um objecto, copiando-lhe o comportamento.
Num tempo de agressividades e de fundamentalismos, seria útil compreender os mecanismos desse comportamento que, à primeira vista, é irracional e autodestrutivo. Volto ao tema inicial. Saído da casca, o meu primeiro emprego «a sério» foi na RTP. Por isso, talvez, à luz do conceito etológico do Lorenz, me tenha ficado dos longínquos dois anos em que lá trabalhei o hábito de preferir o canal de serviço público aos outros dois que surgiram muito posteriormente. Vejo diariamente os serviços informativos da RTP, o «Jornal da Tarde» emitido do Porto e o «Telejornal». Imprinting? Talvez.
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