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domingo, 7 de novembro de 2010

Estive muito pouco tempo em Matosinhos


Mosteiro de Leça do Balio

João Machado


Segunda-feira passada, a Leninha e eu, chegámos à noite a Matosinhos, vindos direitos de Lisboa. Fomos lá participar numa reunião do projecto Eurostars, apoiado pela União Europeia, através do programa Eureka. Este projecto reúne quatro entidades, duas empresas, a Árctica, espanhola, de Valência, e a Inova Mais, portuguesa, de Matosinhos, mais duas instituições de solidariedade social, a APM (Associação de Parkinson de Madrid) e a APDPk (Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson). O seu objectivo é a preparação de um software que possibilite aos doentes serem apoiados nas suas residências, para quando executam exercícios das várias valências dos tratamentos (fisioterapia, terapia da fala, psicologia), poderem fazê-lo em interacção com os técnicos localizados nos serviços, usando o computador ou até a televisão digital. Mas hoje não vamos desenvolver mais este assunto. Vou falar-lhes um pouco de Matosinhos.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo IX

Viagem retardada: Lisboa

Passou-se quase um mês. Percorri entretanto alguns quilómetros de bicicleta, muitos de carro e comboio, mais ainda de avião, por ter que voltar a Paris, onde também fiz uma grande caminhada pelo parque de Saint-Cloud, Marne-la-Coquette, Vaucresson, Bougival, ilha de Chatou e margens do Sena até Colombes, um percurso que cita Guy de Maupassant como Sintra traz sempre Eça de Queirós à memória. A beira e as ilhas do Sena onde escritores, artistas, cocottes, funcionários, comerciantes e burgueses passavam os domingos e o Verão, a Grenouillère onde tomavam banho, o restaurante Fournaise onde se reuniam, que Renoir pintou em O Almoço dos Remadores, que Maupassant evoca, entre outros contos, em La femme de Paul (A mulher de Paul) – e que ainda existe com um aspecto semelhante ao que então tinha. Mudaram os clientes, evidentemente, agora há sobretudo turistas, no entanto atravessar aquele espaço causa ainda a sensação insólita de circular dentro de um quadro de Renoir ou de um conto de Maupassant: uma experiência agradavelmente perturbadora.

Planeava continuar a viagem para Santiago de Compostela no dia 21. Ora na véspera, regressando de casa da minha mãe, subia a R. da Palma na direcção dos Anjos, quando senti um contacto no meu saco. Virei-me. Um homem negro ultrapassou-me, vi vários ciganos à minha volta. Também não me hão-de assaltar aqui no meio da rua, pensei eu. Esqueci-me do incidente até chegar a casa e descobrir, quando procurei a chave, que me faltava a bolsa na qual trazia, entre outras coisas, dinheiro e documentos. Voltei a descer à Mouraria, na esquadra encontravam-se em mudanças, não podiam registar a ocorrência, fosse ao Rossio onde, quando cheguei, encontrei uma fila para assinalar ocorrências do mesmo género. Enquanto esperava conversei com um polícia. A senhora é portuguesa? Não está a viver em Portugal... E explicou que aqueles roubos costumam ser cometidos por romenos que agem em grupo e atacam toda a gente mas muito em particular turistas: os turistas são malucos. Eu quis saber porquê. Andam com o dinheiro e os documentos quase à mostra nas mochilas, só falta convidarem os romenos abrirem e servirem-se. São malucos. Expliquei que os turistas vivem em sociedades nas quais este tipo de violência não existe, argumentando que, enquanto em Paris não conheço ninguém que fosse alguma vez roubado, em Lisboa sou a única que, até agora, havia conseguido escapar – sem valor estatístico, pois compara o incomparável, esta verificação não deixa contudo de ser significativa.

domingo, 30 de maio de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo IV

Etapa 2, de Alverca à Azambuja

Primeira parte: de Alverca ao Carregado

Somos chegados ao triste desembarcadoiro de Vila Nova da Rainha, que é o mais feio pedaço de terra aluvial em que ainda poisei os pés. O sol arde como ainda não ardeu este ano.

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra

Todos os técnicos da caminhada insistem nesta regra: nenhum caminhante deve transportar mais de dez por cento do seu peso. Ora eu, com um metro e cinquenta e sete de altura, raro ultrapasso os quarenta e sete quilos. Não convém por conseguinte levar mais de quatro quilos e meio, o que transforma a escolha de uma mochila num problema de resolução complexa: as mais ergonómicas e práticas, com bolsas múltiplas e fechos em todas as direcções, chegam a pesar dois quilos e meio... Após ensaios demorados e dilemas duvidosos, optei por uma muito simples, um saco impermeável com duas alças e um cinto para o prender nas ancas, ganhando no peso, perdendo na funcionalidade pois, quando preciso de algo, água, maçã, protector solar, tenho que tirar a mochila, poisá-la, abri-la e procurar. Para facilitar esta busca, reparti a impedimenta em quatro embalagens de plástico, de cores distintas, a roupa, a higiene, a comida, o saco-cama, o que reduz o risco de os objectos, como é seu costume, se camuflarem no fundo da mochila no instante em que são com urgência necessários... Tenho, para além disto, uma bolsa-cinto onde coloco lenços, telemóvel, caneta, bloco (minúsculo), mapa (dobrado)... Não é o ideal mas paciência: adapto-me.


Saio de casa às seis horas de quinta-feira 24 de Setembro e, logo à saída do prédio, recebo um sinal do Espírito Santo, que me desliza pelo cabelo e é aparado pelo braço direito. A primeira reacção é de repugnância, malditos pombos, apanho alguma salmonela, vale não vale a pena voltar a casa, limpo o braço, apalpo o cabelo, que não parece sujo, opto por prosseguir. Sinal fasto ou nefasto? Rio-me. Sinto-me leve, apesar da mochila. E bem disposta.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

                                             Capítulo I

                                          Primeiro passo


                                       E protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto pensar e sentir se há-de fazer crónica.


                                         Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra

Eu nasci em Lisboa, leitor amigo, em Lisboa estudei e, quando me preparava para durante trinta anos trabalhar em Lisboa, conheci um francês com quem casei; fui viver em Paris.

Mas venho a Lisboa com frequência. E, quando chego, para além de me encontrar com amigos e família, que me narram aventuras lisboetas, vejo museus e exposições, frequento cafés e livrarias, caminho pela cidade, vou a Sintra, à Arrábida e à Praia das Maçãs. A minha mãe vive em Queluz, passo vários dias em Queluz; e alguns em Tomar, outros nas Sarzedas do Vasco, uma aldeia da serra da Lousã, onde prolongo cumplicidades. Como no resto do tempo, quando estou em Paris, leio os jornais portugueses, leio livros portugueses, vejo filmes portugueses, sou professora de português – penso conhecer razoavelmente a sociedade portuguesa. Para além disto, em Portugal apanho os transportes públicos e não me esqueço de parar, escutar, olhar – os outros interessam-me, divertem-me, instuem-me. Gosto de os observar. As histórias dos outros, mesmo reduzidas a uma fisionomia e duas frases, interessam-me sempre. Penso portanto, repito, conhecer razoavelmente a sociedade portuguesa. Isto é: parece-me que a conheço tão bem como a maioria dos portugueses.

Os quais porém, na sua maioria, não conhecem Portugal. Almeida Garrett interrogava: Fazem ideia do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não saem, se não vêem mundo, esta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre o Chiado, a Rua do Ouro e o Teatro de S. Carlos, como hão-de alargar a esfera de seus conhecimentos, desenvolver os espíritos, chegar à altura do século? Neste princípio do século XXI, logo que podem viajar, os portugueses escapam-se para o estrangeiro, Espanha, Brasil, Croácia, Colômbia, tudo os satisfaz, desde que situado além-fronteiras; ou, se lhes faltam meios para tanto, ficam pelo Algarve – que continua um reino à parte. Não podendo escapar a este presbitismo, também eu viajei por vários continentes, antes de compreender que não conheço a minha terra.

Pois agora... decidi-me. Vou atravessar uma parte de Portugal, seguindo o Caminho de Santiago a partir de Lisboa. Para começar. A pé. Como os peregrinos da Idade Média. (O assinalado presbitismo também consiste em percorrer o país de carro: não se vê, não se sente, não se ouve, não se cheira de perto...) A realidade de um país sente-se nos pés. A pouco e pouco. Em muitas etapas que, em função das minhas disponibilidades, talvez se prolonguem por vários meses. Encontro marcado neste site, portanto, com os leitores viajantes ou sedentários para, ao ritmo das minhas peregrinações, lhes dar conta destas aventuras.