(Conclusão)
No dia seguinte, o navio entrou no porto da bela cidade do rei vizinho. Todos os sinos tocaram e das torres altas soaram trombetas, enquanto os soldados formavam com bandeiras flutuando ao vento e baionetas cintilantes. Cada dia havia uma festa. Bailes e reuniões de socie¬dade seguiam-se uns aos outros, mas a princesa ainda não chegara; estava a ser educada longe dali, num templo santo, disseram. Aprendia aí todas as virtudes reais. Por fim chegou.
A sereiazinha sentiu-se curiosa de ver a sua beleza e teve de reconhecê-lo: era a figura mais bonita que vira. A pele era fina e macia e, por detrás das longas pestanas escuras, sorria um par de olhos azuis-escuros, leais.
- És tu! exclamou o príncipe. - Tu que me salvaste, quando jazia como um cadáver na costa! - e apertou a noiva nos braços, que se fez vermelha. - Oh! Sou demasiado feliz! - disse ele para a sereiazinha. - O melhor, aquilo que nunca ousei esperar, tornou-se realidade para mim. Vais alegrar-te com a minha felicidade, pois gostas mais de mim do que todas as outras! - E a sereiazinha beijou-lhe a mão e pareceu-lhe sentir já o coração quebrar-se-lhe. A manhã do seu noivado trar-lhe-ia, pois, a morte e transformá-la-ia em espuma do mar.
Todos os sinos repicavam, os arautos percorriam as ruas a cavalo, a anunciar o noivado. Em todos os altares ardiam óleos aromáticos e preciosas lâmpadas de prata. Os sacerdotes balança¬ram os turíbulos, e noivo e noiva deram um ao outro as mãos e receberam a bênção do bispo. A sereiazinha estava vestida de seda e ouro, e segurava a cauda da noiva, mas os seus ouvidos não ouviam a música festiva, os olhos não viam a cerimónia santa, pensava na sua noite de morte, em tudo que havia perdido neste mundo.
Ainda nessa noite foram noiva e noivo para bordo do navio, os canhões soaram, todas as bandeiras flutuavam ao vento e no meio do navio estava erguida uma preciosa tenda de ouro e púrpura e com as mais bonitas almofadas. Aí ia o casal de noivos dormir na noite calma e fresca.
As velas enfunaram ao vento e o navio deslizou ligeiro e sem grande oscilação sobre o mar claro.
Quando escureceu, acenderam-se lâmpadas de cores variegadas e os homens do mar dan¬çaram danças alegres na coberta. A sereiazinha teve de lembrar-se da primeira vez que veio ao cimo do mar e viu a mesma pompa e alegria e lançou-se a rodopiar na dança, pairou, como paira a andorinha quando é perseguida, e todos manifestaram com júbilo a sua admiração, nunca dan¬çara tão maravilhosamente! Era como se facas afiadas lhe golpeassem os pés finos, mas ela não o sentia, feriam-na no coração mais dolorosamente. Sabia que era a última noite que veria aquele por quem havia deixado a família e o lar, por quem havia perdido a bonita voz e sofrido diaria¬mente tormentos infindos, sem vacilar. Era a última noite, respirava o mesmo ar que ele, via o mar fundo e o céu azul com estrelas. Uma noite eterna sem pensamentos e sonhos esperava por ela que não tinha nenhuma alma, nem podia alcançá-la. E tudo foi alegria e satisfação no navio bem para além da meia-noite, enquanto ela dançava com o pensamento da morte no coração. O príncipe beijou a linda noiva e ela acariciou-lhe o cabelo negro, e de braço dado foram repousar na tenda magnífica.
Fez-se silêncio e houve calma no navio, só o timoneiro ficou ao leme. A sereiazinha pôs os braços alvos na amurada e olhou para leste à procura de ver a aurora, o primeiro raio de sol, sabia ela, iria matá-la. Viu então as irmãs subirem ao de cima do mar. Estavam pálidas como ela, o seu cabelo longo e bonito não flutuava mais ao vento, fora cortado.
- Oferecemo-lo à bruxa para que nos ajudasse a conseguir que não morresses esta noite. Deu-nos uma faca, está aqui. Vês como é afiada! Antes de o sol se levantar, tens de a espetar no coração do príncipe e quando o seu sangue quente se derramar sobre os teus pés, transformar-se-ão estes numa cauda de peixe e tu voltarás a ser uma sereia, poderás descer na água até nós e viver os teus trezentos anos antes de vires a ser espuma morta e salgada. Despacha-te! Estás a ver a faixa vermelha no céu? Em poucos minutos vai nascer o sol e terás então de morrer! — E lançaram um suspiro estranho e profundo mergulhando nas ondas.
A sereiazinha afastou o tapete de púrpura da tenda e viu a bela noiva a dormir com a cabeça no peito do príncipe, beijou-lhe a linda testa, olhou para o céu, onde a aurora luzia mais e mais, olhou para a faca afiada e voltou a fitar os olhos no príncipe, que em sonhos pronun¬ciava o nome da noiva. Ela só estava nos seus pensamentos e a faca tremeu na mão da sereia... mas lançou-a para longe nas ondas que brilharam vermelhas onde caiu. Era como borbulhassem gotas de sangue ao de cima da água. Ainda uma vez olhou para o príncipe, com o olhar meio enublado, depois lançou-se do navio ao mar, onde o seu corpo se desfez em espuma.
Nasceu então o sol. Os seus raios tombaram suaves e quentes sobre a espuma do mar fria de morte e a sereiazinha não sentiu a morte, viu o sol luminoso e por cima dela pairarem centenas de belas criaturas transparentes. Podia ver através delas as velas brancas do navio e as nuvens vermelhas do céu. As suas vozes eram melodiosas, mas tão espirituais que nenhum ouvi¬do humano podia ouvi-las, tal como nenhuns olhos terrestres podiam vê-las. Sem asas pairavam pela sua própria leveza no ar. A sereiazinha viu que tinha um corpo como elas, que se elevava mais e mais da espuma.
- Para quem venho eu? — disse ela e a sua voz soou como a dos outros seres, tão espiritual que nenhuma música terrestre pode transmiti-la.
- Para as Filhas do Ar! — responderam as outras. - As sereias não têm uma alma imortal, não podem nunca alcançá-la, só se ganhassem o amor dum ser humano. Dum poder estranho depende a sua existência eterna. As Filhas do Ar também não têm alma eterna, mas podem elas próprias com boas acções obter uma. Voamos para as terras quentes, onde o ar pestilento e abafado mata os homens. Aí produzimos frescura. Espalhamos perfume de flores no ar e damos frescura e alívio. Se nos tivermos esforçado trezentos anos por fazer o bem, podemos então alcan¬çar uma alma imortal e participar na felicidade eterna dos seres humanos. Tu, pobre sereiazinha, esforçaste-te com todo o coração pelo mesmo que nós, sofreste e suportaste dores, elevaste-te para o mundo dos espíritos do ar e agora podes tu própria com boas acções conseguir uma alma imortal dentro de trezentos anos.
E a sereiazinha ergueu os braços claros para o sol de Deus e, pela primeira vez, sentiu correrem-lhe lágrimas... No navio havia outra vez alarido e vida, viu o príncipe com a sua linda noiva a procurá-la. Olhavam tristes para a espuma borbulhante, como se soubessem que se lan¬çara nas ondas. Invisível, beijou a testa da noiva, sorriu para ele e subiu com as outras Filhas do Ar na nuvem cor-de-rosa que flutuava no céu.
- Em trezentos anos ascenderemos assim para o reino de Deus!
- Também podemos mais cedo alcançá-lo! — murmurou uma — Entramos invisíveis nas casas dos homens, onde há crianças e por cada dia que encontramos uma criança boa, que faz a alegria dos pais a merece o seu amor, Deus encurta o nosso tempo de prova. A criança não sabe, quando voamos pela casa e, se tivermos de sorrir de alegria por ela, é-nos tirado um ano dos trezentos, mas se virmos uma criança malcriada e má, então temos de chorar lágrimas de tristeza e cada lágrima aumenta de um dia o nosso tempo de prova!
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
A Sereiazinha (5) - por Hans Christian Andersen
(Continuação)
Foi presenteada com lindos vestidos de seda e de musselina. No palácio, era a mais bonita de todas, mas era muda, não podia nem cantar nem falar. Belas escravas vestidas de seda e ouro avançaram e cantaram para o príncipe e para os seus régios pais. Uma cantou melhor do que todas as outras e o príncipe bateu palmas e sorriu-lhe. A sereiazinha ficou triste, pois sabia que ela própria cantaria muito melhor! Pensou: «Oh! Bem devia saber que eu, para estar com ele, dei a minha voz, por toda a eternidade!»
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
A Sereiazinha (4) - por Hans Christian Andersen
(Continuação)Foi também duma pompa como nunca se vê na terra. As paredes e os tectos na grande sala de baile eram de vidro espesso, mas claro. Várias centenas de conchas colossais, cor-de-rosa e verdes de erva, alinhavam-se em filas de cada lado com um fogo azul ardente, que iluminava toda a sala, e brilhava para o exterior através das paredes, de modo que o mar lá fora estava completamente iluminado. Podiam-se ver todos os inumeráveis peixes que nadavam perto das paredes de vidro: nuns brilhavam as escamas vermelhas de púrpura, noutros pareciam estas de prata e de ouro. No meio através da sala fluía uma larga torrente na qual dançavam os cavalhei¬ros marinhos e as damas marinhas, ao som das suas próprias e belas canções. Tão bonitas vozes não têm os seres humanos na terra! A sereiazinha foi quem cantou melhor, bateram-lhe palmas e por um momento sentiu grande alegria no coração por saber que possuía a voz mais bonita de todas na terra e no mar. Mas logo voltou a pensar no mundo por cima dela. Não podia esquecer o belo príncipe e a mágoa de não possuir, como ele, uma alma imortal. Por isso escapou-se do palácio e, enquanto lá dentro havia cantos e júbilo, foi sentar-se triste no seu jardinzinho. Ouviu então soar uma trombeta em baixo através da água e pensou: «Agora, vai de barco lá em cima, certamente, aquele de quem gosto mais do que pai e mãe, aquele a quem está preso o meu pensamento e em cujas mãos quero pôr a felicidade da minha vida. Tudo quero arriscar para o ter e alcançar uma alma imortal! Enquanto minhas irmãs dançam lá dentro no palácio de meu pai, vou à bruxa do mar, de quem sempre tive tanto medo, mas que talvez me possa aconselhar e ajudar.»
Então partiu a sereiazinha do seu jardim em direcção ao remoinho efervescente, atrás do qual morava a bruxa. Esse caminho nunca o havia feito antes. Não cresciam aí flores, nenhumas algas, apenas o fundo de areia cinzento e nu se estendia em direcção aos remoinhos, onde a água, como rodas de moinhos efervescentes enrolava e rasgava tudo o que apanhava, levando-o consigo para o fundo. Teria de ir por meio destes rodopios esmagadores para entrar no distrito da bruxa do mar e aqui, por um bom bocado, não havia outro caminho senão sobre o lamaçal bolhento e quente, a que a bruxa chamava a sua turfeira. Por detrás ficava a casa desta ao meio, dentro dum bosque estranho. Todas as árvores e arbustos eram pólipos, metade animais metade plantas, pareciam serpentes com centenas de cabeças que cresciam da terra. Todos os ramos eram braços longos, viscosos, com dedos como vermes flexíveis e, junta por junta, moviam-se da raiz à ponta mais extrema. Tudo o que no mar podiam apanhar enroscavam-no e não o abando-navam mais. A sereiazinha ficou toda aterrada e parou aí de fora. O coração batia-lhe de medo, esteve quase para regressar, mas pensou então no príncipe e na alma humana e assim tomou coragem. Atou firmemente o cabelo longo e flutuante à volta da cabeça para que os pólipos não o pudessem agarrar, juntou as mãos no peito e lançou-se como os peixes sabem cruzar a água, por entre os horríveis pólipos que estendiam os braços e dedos viscosos para ela. Viu como cada um deles tinha alguma coisa que apanhara, centenas de pequenos braços seguravam-na como fortes ligaduras de ferro. Os homens que haviam morrido no mar e tinham vindo ali para o fundo, olhavam como carcaças brancas nos braços dos pólipos. Remos e caixas seguravam-nos fortemente, esqueletos de animais terrestres e uma sereiazinha que tinham prendido e estran¬gulado, o que foi para ela bem mais horroroso.
Chegou então a um grande lugar lamacento no bosque, onde cobras de água grandes e gordas rolavam, mostrando as feias barrigas amarelas claras. No meio desse lugar erguia-se uma casa feita com os ossos brancos dos homens naufragados. Aí estava sentada a bruxa do mar, dando de comer a um sapo na mão como os homens dão açúcar a comer a um canariozinho. Às cobras de água horríveis e gordas chamava ela os seus pintainhos e deixava-as revirarem-se no peito grande e esponjoso.
- Sei muito bem o que queres! — disse a bruxa do mar. - É uma parvoíce da tua parte! De qualquer maneira, terás a tua vontade satisfeita, porque te trará infelicidade, minha linda princesinha! Queres deitar fora a tua cauda de peixe e em vez dela receber dois apoios para andar como os seres humanos, a fim de que o jovem príncipe se possa enamorar de ti e o possas ter e também uma alma imortal. — E com isto a bruxa do mar riu tão alto e tão horrivelmente que o sapo e as cobras caíram no chão e revolveram-se. - Vens precisamente a tempo! - disse a bruxa do mar. Amanhã, quando o sol nascer, já não poderei ajudar-te, antes dum ano passado. Vou preparar-te uma bebida, mas terás de nadar, antes de o sol nascer, para terra, sentares-te na praia a aí bebê-la. Então separa-se a tua cauda e fica aí ligado aquilo a que os homens chamam umas lindas pernas; mas fazem doer, quero dizer-te, é como se uma espada afiada te trespassasse. Todos que te olharem, dirão que és a mais bela criatura que jamais viram. Manténs o teu anelar ondulante, nenhuma dançarina será capaz de assim andar como tu, mas cada passo que deres, é como se pisasses uma faca cortante, que te fizesse correr o sangue. Se queres sofrer tudo isso, ajudo-te!
- Sim! — disse a sereiazinha com voz tremente, e pensando no príncipe e em alcançar uma alma imortal.
- Mas lembra-te - disse a bruxa - que, quando receberes forma humana, não podes nunca mais voltar a ser sereia! Não podes descer através da água para as tuas irmãs ou para o palácio do teu pai e, se não conseguires o amor do príncipe, de maneira que ele por ti esqueça pai e mãe, fique preso a ti com todo o pensamento e que um sacerdote junte as vossas mãos de forma a tornarem-se marido a mulher, não receberás nenhuma alma imortal! Na primeira manhã, depois de ele se ter casado com outra, quebrar-se-á o teu coração e transformar-te-ás em espuma na água.
- Quero! — disse a sereiazinha, ficando pálida como morta.
- Mas a mim também tens de pagar! - disse a bruxa. - E não é pouco o que exijo. Tens a voz mais bonita de todas aqui no fundo do mar, com ela crês vir a encantá-lo, mas essa voz tens de ma dar. O melhor que possuis, quero tê-lo pela minha bebida preciosa! O meu próprio san¬gue tenho de oferecer nela para que a bebida fique cortante como uma espada de dois gumes!
- Mas se me tiras a voz - disse a sereiazinha - o que me resta?
- A tua bela figura - disse a bruxa —, o teu andar ondulante e os teus olhos expressivos, com os quais podes bem seduzir o coração dum ser humano. Então, perdeste a coragem? Estende a linguinha, que eu corto-a como paga e receberás a bebida eficaz!
- Assim seja! - disse a sereiazinha e a bruxa foi buscar a caldeira para cozinhar a bebida de feitiço. - A limpeza é uma boa coisa! - disse ela, e esfregou a caldeira com cobras que atou em nós, depois arranhou-se no peito e deixou escorrer aí dentro o sangue negro. O vapor produzia as figuras mais estranhas, de fazer tremer de medo. A cada momento deitava a bruxa novas coi¬sas na caldeira e, quando verdadeiramente estavam a ferver, era como se crocodilos chorassem. Por fim a bebida ficou pronta, com o aspecto da água mais clara.
- Aqui a tens! - disse a bruxa, e cortou a língua à sereiazinha, que então ficou muda, não podendo cantar nem falar.
- No caso de os pólipos te atacarem, quando regressares pelo meu bosque - disse a bruxa -, lança-lhes apenas uma única gota desta bebida, rebentam-lhes os braços e os dedos em mil bocados.
Mas a sereiazinha não precisou disso, os pólipos recuavam aterrorizados diante dela, quando viam a bebida brilhante que luzia nas suas mãos, como se fosse uma estrela cintilante. Assim atravessou em breve o bosque, o lodaçal e os remoinhos efervescentes.
Podia ver o palácio do pai. As luzes estavam apagadas na sala grande de baile. Dormiam certamente todos aí, mas não ousava procurá-los, agora era muda e queria deixá-los para sempre. Era como se o coração se lhe despedaçasse de mágoa. Entrou de mansinho no jardim, tomou uma flor de cada um dos canteiros das irmãs, lançou com os dedos milhares de beijos na direc¬ção do palácio e subiu através do mar azul-escuro.
O sol ainda não havia rompido, quando viu o palácio do príncipe e subiu a majestosa escadaria de mármore. A lua brilhava bela e clara, A sereiazinha bebeu a bebida ardente e forte, e foi como se uma espada de dois gumes lhe atravessasse o fino corpo. Então perdeu os sentidos e ali ficou como morta. Quando o sol brilhou por sobre o mar, acordou e sentiu uma dor aguda, mas na sua frente estava o belo príncipe que fixava os olhos negros de carvão nela, de modo que baixou os seus e viu que a cauda de peixe havia desaparecido e que possuía as mais bonitas perninhas que uma rapariga podia ter. Mas estava completamente nua, por isso, envolveu-se no seu longo cabelo negro. O príncipe perguntou-lhe quem era e como tinha vindo parar ali e ela olhou-o docemente e, contudo, muito triste com os seus olhos azuis-escuros, falar não podia. Então ele tomou-a pela mão e conduziu-a ao palácio. Cada passo que dava era tal como a bruxa lhe dissera, como se pisasse agulhas pontiagudas e facas afiadas, mas suportou-o de bom grado. Pela mão do príncipe subiu ligeira como uma bolha de ar e ele e todos admiraram o seu andar gracioso e ondeante.
(Continua)
Então partiu a sereiazinha do seu jardim em direcção ao remoinho efervescente, atrás do qual morava a bruxa. Esse caminho nunca o havia feito antes. Não cresciam aí flores, nenhumas algas, apenas o fundo de areia cinzento e nu se estendia em direcção aos remoinhos, onde a água, como rodas de moinhos efervescentes enrolava e rasgava tudo o que apanhava, levando-o consigo para o fundo. Teria de ir por meio destes rodopios esmagadores para entrar no distrito da bruxa do mar e aqui, por um bom bocado, não havia outro caminho senão sobre o lamaçal bolhento e quente, a que a bruxa chamava a sua turfeira. Por detrás ficava a casa desta ao meio, dentro dum bosque estranho. Todas as árvores e arbustos eram pólipos, metade animais metade plantas, pareciam serpentes com centenas de cabeças que cresciam da terra. Todos os ramos eram braços longos, viscosos, com dedos como vermes flexíveis e, junta por junta, moviam-se da raiz à ponta mais extrema. Tudo o que no mar podiam apanhar enroscavam-no e não o abando-navam mais. A sereiazinha ficou toda aterrada e parou aí de fora. O coração batia-lhe de medo, esteve quase para regressar, mas pensou então no príncipe e na alma humana e assim tomou coragem. Atou firmemente o cabelo longo e flutuante à volta da cabeça para que os pólipos não o pudessem agarrar, juntou as mãos no peito e lançou-se como os peixes sabem cruzar a água, por entre os horríveis pólipos que estendiam os braços e dedos viscosos para ela. Viu como cada um deles tinha alguma coisa que apanhara, centenas de pequenos braços seguravam-na como fortes ligaduras de ferro. Os homens que haviam morrido no mar e tinham vindo ali para o fundo, olhavam como carcaças brancas nos braços dos pólipos. Remos e caixas seguravam-nos fortemente, esqueletos de animais terrestres e uma sereiazinha que tinham prendido e estran¬gulado, o que foi para ela bem mais horroroso.
Chegou então a um grande lugar lamacento no bosque, onde cobras de água grandes e gordas rolavam, mostrando as feias barrigas amarelas claras. No meio desse lugar erguia-se uma casa feita com os ossos brancos dos homens naufragados. Aí estava sentada a bruxa do mar, dando de comer a um sapo na mão como os homens dão açúcar a comer a um canariozinho. Às cobras de água horríveis e gordas chamava ela os seus pintainhos e deixava-as revirarem-se no peito grande e esponjoso.
- Sei muito bem o que queres! — disse a bruxa do mar. - É uma parvoíce da tua parte! De qualquer maneira, terás a tua vontade satisfeita, porque te trará infelicidade, minha linda princesinha! Queres deitar fora a tua cauda de peixe e em vez dela receber dois apoios para andar como os seres humanos, a fim de que o jovem príncipe se possa enamorar de ti e o possas ter e também uma alma imortal. — E com isto a bruxa do mar riu tão alto e tão horrivelmente que o sapo e as cobras caíram no chão e revolveram-se. - Vens precisamente a tempo! - disse a bruxa do mar. Amanhã, quando o sol nascer, já não poderei ajudar-te, antes dum ano passado. Vou preparar-te uma bebida, mas terás de nadar, antes de o sol nascer, para terra, sentares-te na praia a aí bebê-la. Então separa-se a tua cauda e fica aí ligado aquilo a que os homens chamam umas lindas pernas; mas fazem doer, quero dizer-te, é como se uma espada afiada te trespassasse. Todos que te olharem, dirão que és a mais bela criatura que jamais viram. Manténs o teu anelar ondulante, nenhuma dançarina será capaz de assim andar como tu, mas cada passo que deres, é como se pisasses uma faca cortante, que te fizesse correr o sangue. Se queres sofrer tudo isso, ajudo-te!
- Sim! — disse a sereiazinha com voz tremente, e pensando no príncipe e em alcançar uma alma imortal.
- Mas lembra-te - disse a bruxa - que, quando receberes forma humana, não podes nunca mais voltar a ser sereia! Não podes descer através da água para as tuas irmãs ou para o palácio do teu pai e, se não conseguires o amor do príncipe, de maneira que ele por ti esqueça pai e mãe, fique preso a ti com todo o pensamento e que um sacerdote junte as vossas mãos de forma a tornarem-se marido a mulher, não receberás nenhuma alma imortal! Na primeira manhã, depois de ele se ter casado com outra, quebrar-se-á o teu coração e transformar-te-ás em espuma na água.
- Quero! — disse a sereiazinha, ficando pálida como morta.
- Mas a mim também tens de pagar! - disse a bruxa. - E não é pouco o que exijo. Tens a voz mais bonita de todas aqui no fundo do mar, com ela crês vir a encantá-lo, mas essa voz tens de ma dar. O melhor que possuis, quero tê-lo pela minha bebida preciosa! O meu próprio san¬gue tenho de oferecer nela para que a bebida fique cortante como uma espada de dois gumes!
- Mas se me tiras a voz - disse a sereiazinha - o que me resta?
- A tua bela figura - disse a bruxa —, o teu andar ondulante e os teus olhos expressivos, com os quais podes bem seduzir o coração dum ser humano. Então, perdeste a coragem? Estende a linguinha, que eu corto-a como paga e receberás a bebida eficaz!
- Assim seja! - disse a sereiazinha e a bruxa foi buscar a caldeira para cozinhar a bebida de feitiço. - A limpeza é uma boa coisa! - disse ela, e esfregou a caldeira com cobras que atou em nós, depois arranhou-se no peito e deixou escorrer aí dentro o sangue negro. O vapor produzia as figuras mais estranhas, de fazer tremer de medo. A cada momento deitava a bruxa novas coi¬sas na caldeira e, quando verdadeiramente estavam a ferver, era como se crocodilos chorassem. Por fim a bebida ficou pronta, com o aspecto da água mais clara.
- Aqui a tens! - disse a bruxa, e cortou a língua à sereiazinha, que então ficou muda, não podendo cantar nem falar.
- No caso de os pólipos te atacarem, quando regressares pelo meu bosque - disse a bruxa -, lança-lhes apenas uma única gota desta bebida, rebentam-lhes os braços e os dedos em mil bocados.
Mas a sereiazinha não precisou disso, os pólipos recuavam aterrorizados diante dela, quando viam a bebida brilhante que luzia nas suas mãos, como se fosse uma estrela cintilante. Assim atravessou em breve o bosque, o lodaçal e os remoinhos efervescentes.
Podia ver o palácio do pai. As luzes estavam apagadas na sala grande de baile. Dormiam certamente todos aí, mas não ousava procurá-los, agora era muda e queria deixá-los para sempre. Era como se o coração se lhe despedaçasse de mágoa. Entrou de mansinho no jardim, tomou uma flor de cada um dos canteiros das irmãs, lançou com os dedos milhares de beijos na direc¬ção do palácio e subiu através do mar azul-escuro.
O sol ainda não havia rompido, quando viu o palácio do príncipe e subiu a majestosa escadaria de mármore. A lua brilhava bela e clara, A sereiazinha bebeu a bebida ardente e forte, e foi como se uma espada de dois gumes lhe atravessasse o fino corpo. Então perdeu os sentidos e ali ficou como morta. Quando o sol brilhou por sobre o mar, acordou e sentiu uma dor aguda, mas na sua frente estava o belo príncipe que fixava os olhos negros de carvão nela, de modo que baixou os seus e viu que a cauda de peixe havia desaparecido e que possuía as mais bonitas perninhas que uma rapariga podia ter. Mas estava completamente nua, por isso, envolveu-se no seu longo cabelo negro. O príncipe perguntou-lhe quem era e como tinha vindo parar ali e ela olhou-o docemente e, contudo, muito triste com os seus olhos azuis-escuros, falar não podia. Então ele tomou-a pela mão e conduziu-a ao palácio. Cada passo que dava era tal como a bruxa lhe dissera, como se pisasse agulhas pontiagudas e facas afiadas, mas suportou-o de bom grado. Pela mão do príncipe subiu ligeira como uma bolha de ar e ele e todos admiraram o seu andar gracioso e ondeante.
(Continua)
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010
A Sereiazinha (3) - por Hans Christian Andersen
(Continuação)
De manhã, o mau tempo passara. Do navio não havia um único pedaço à vista, o sol subia todo vermelho e brilhante por sobre as águas. Era como se as faces do Príncipe tomassem assim vida, mas os olhos continuavam fechados. A sereia beijou-lhe a bonita testa alta e puxou-lhe o cabelo molhado para trás. Pareceu-lhe que se assemelhava à estátua de mármore lá em baixo no seu jardinzinho, beijou-o outra vez e desejou que viesse a viver.
Então viu diante de si terra firme, altas montanhas azuis, sobre cujos cumes brilhava a neve branca que era como cisnes aí pousados. Em baixo, junto à costa havia lindos bosques ver¬des e diante estava uma igreja ou um mosteiro, não sabia bem, mas um edifício era. Limoeiros e laranjeiras cresciam aí no pomar e diante do portão erguiam-se palmeiras altas. O mar fazia uma pequena baía, calma mas muito funda, até bem às rochas, onde banhava a branca areia fina. Para aqui nadou com o bonito príncipe, pousou-o na areia, mas cuidou especialmente para que a cabeça ficasse alta ao sol quente.
De manhã, o mau tempo passara. Do navio não havia um único pedaço à vista, o sol subia todo vermelho e brilhante por sobre as águas. Era como se as faces do Príncipe tomassem assim vida, mas os olhos continuavam fechados. A sereia beijou-lhe a bonita testa alta e puxou-lhe o cabelo molhado para trás. Pareceu-lhe que se assemelhava à estátua de mármore lá em baixo no seu jardinzinho, beijou-o outra vez e desejou que viesse a viver.
Então viu diante de si terra firme, altas montanhas azuis, sobre cujos cumes brilhava a neve branca que era como cisnes aí pousados. Em baixo, junto à costa havia lindos bosques ver¬des e diante estava uma igreja ou um mosteiro, não sabia bem, mas um edifício era. Limoeiros e laranjeiras cresciam aí no pomar e diante do portão erguiam-se palmeiras altas. O mar fazia uma pequena baía, calma mas muito funda, até bem às rochas, onde banhava a branca areia fina. Para aqui nadou com o bonito príncipe, pousou-o na areia, mas cuidou especialmente para que a cabeça ficasse alta ao sol quente.
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
A Sereiazinha (2) por Hans Christian Andersen
(Continuação)
Foi então a vez da quinta irmã. O seu aniversário foi precisamente no Inverno e viu assim o que as outras nunca haviam visto da primeira vez. O mar tomou inteiramente uma cor verde e à volta, flutuavam grandes icebergues, cada um parecia como uma pérola, disse ela. Eram, contudo, muito maiores do que as torres das igrejas que os homens construíam. Mostravam-se nas formas mais estranhas e brilhavam como diamantes. Sentara-se num dos maiores e todos os veleiros se afastaram assustados, para longe de onde se encontrava, com o longo cabelo a esvoaçar ao vento. Mas, lá para a noite, o céu ficou coberto de nuvens, relampejou e trovejou, enquanto o mar enegrecido levantava alto os grandes blocos de gelo, fazendo-os cintilar sob a luz vermelha. Em todos os navios arriaram as velas, havia ansiedade e terror, mas ela continuava sentada calmamente no seu icebergue flutuante, vendo os raios azuis tombarem em ziguezague no mar luzente.
Foi então a vez da quinta irmã. O seu aniversário foi precisamente no Inverno e viu assim o que as outras nunca haviam visto da primeira vez. O mar tomou inteiramente uma cor verde e à volta, flutuavam grandes icebergues, cada um parecia como uma pérola, disse ela. Eram, contudo, muito maiores do que as torres das igrejas que os homens construíam. Mostravam-se nas formas mais estranhas e brilhavam como diamantes. Sentara-se num dos maiores e todos os veleiros se afastaram assustados, para longe de onde se encontrava, com o longo cabelo a esvoaçar ao vento. Mas, lá para a noite, o céu ficou coberto de nuvens, relampejou e trovejou, enquanto o mar enegrecido levantava alto os grandes blocos de gelo, fazendo-os cintilar sob a luz vermelha. Em todos os navios arriaram as velas, havia ansiedade e terror, mas ela continuava sentada calmamente no seu icebergue flutuante, vendo os raios azuis tombarem em ziguezague no mar luzente.
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domingo, 26 de dezembro de 2010
A Sereiazinha - Hans Christian Andersen (1)
Lá longe, bem longe no mar a água é tão azul como as folhas da centáurea mais bonita e tão límpida como o vidro mais puro, mas é aí também muito funda, mais funda do que uma âncora pode descer. Muitas torres de igrejas seria preciso colocar umas sobre as outras para do fundo virem a surgir ao de cima da água. É aí que vivem os povos marinhos.
Mas não se deve pensar de qualquer modo que o fundo só tem areia branca e mais nada. Não senhor, aí crescem árvores e plantas maravilhosas, de tão delicados troncos e folhas, que com a mínima agitação da água se mexem, como se fossem vivas. Todos os peixes, pequenos e grandes, deslizam por entre os ramos, como voam cá em cima os pássaros no ar. No ponto mais fundo está o palácio do rei do mar, as paredes são constituídas por corais e as janelas longas em bico por âmbar do mais claro, mas o telhado é de conchas, que se abrem ou fecham, conforme a água se move. É um espectáculo lindo de se ver, pois em cada uma das conchas há pérolas a brilhar. Bastava só uma para vir a ser um grande luxo na coroa duma rainha.
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