(Conclusão)
No dia seguinte, o navio entrou no porto da bela cidade do rei vizinho. Todos os sinos tocaram e das torres altas soaram trombetas, enquanto os soldados formavam com bandeiras flutuando ao vento e baionetas cintilantes. Cada dia havia uma festa. Bailes e reuniões de socie¬dade seguiam-se uns aos outros, mas a princesa ainda não chegara; estava a ser educada longe dali, num templo santo, disseram. Aprendia aí todas as virtudes reais. Por fim chegou.
A sereiazinha sentiu-se curiosa de ver a sua beleza e teve de reconhecê-lo: era a figura mais bonita que vira. A pele era fina e macia e, por detrás das longas pestanas escuras, sorria um par de olhos azuis-escuros, leais.
- És tu! exclamou o príncipe. - Tu que me salvaste, quando jazia como um cadáver na costa! - e apertou a noiva nos braços, que se fez vermelha. - Oh! Sou demasiado feliz! - disse ele para a sereiazinha. - O melhor, aquilo que nunca ousei esperar, tornou-se realidade para mim. Vais alegrar-te com a minha felicidade, pois gostas mais de mim do que todas as outras! - E a sereiazinha beijou-lhe a mão e pareceu-lhe sentir já o coração quebrar-se-lhe. A manhã do seu noivado trar-lhe-ia, pois, a morte e transformá-la-ia em espuma do mar.
Todos os sinos repicavam, os arautos percorriam as ruas a cavalo, a anunciar o noivado. Em todos os altares ardiam óleos aromáticos e preciosas lâmpadas de prata. Os sacerdotes balança¬ram os turíbulos, e noivo e noiva deram um ao outro as mãos e receberam a bênção do bispo. A sereiazinha estava vestida de seda e ouro, e segurava a cauda da noiva, mas os seus ouvidos não ouviam a música festiva, os olhos não viam a cerimónia santa, pensava na sua noite de morte, em tudo que havia perdido neste mundo.
Ainda nessa noite foram noiva e noivo para bordo do navio, os canhões soaram, todas as bandeiras flutuavam ao vento e no meio do navio estava erguida uma preciosa tenda de ouro e púrpura e com as mais bonitas almofadas. Aí ia o casal de noivos dormir na noite calma e fresca.
As velas enfunaram ao vento e o navio deslizou ligeiro e sem grande oscilação sobre o mar claro.
Quando escureceu, acenderam-se lâmpadas de cores variegadas e os homens do mar dan¬çaram danças alegres na coberta. A sereiazinha teve de lembrar-se da primeira vez que veio ao cimo do mar e viu a mesma pompa e alegria e lançou-se a rodopiar na dança, pairou, como paira a andorinha quando é perseguida, e todos manifestaram com júbilo a sua admiração, nunca dan¬çara tão maravilhosamente! Era como se facas afiadas lhe golpeassem os pés finos, mas ela não o sentia, feriam-na no coração mais dolorosamente. Sabia que era a última noite que veria aquele por quem havia deixado a família e o lar, por quem havia perdido a bonita voz e sofrido diaria¬mente tormentos infindos, sem vacilar. Era a última noite, respirava o mesmo ar que ele, via o mar fundo e o céu azul com estrelas. Uma noite eterna sem pensamentos e sonhos esperava por ela que não tinha nenhuma alma, nem podia alcançá-la. E tudo foi alegria e satisfação no navio bem para além da meia-noite, enquanto ela dançava com o pensamento da morte no coração. O príncipe beijou a linda noiva e ela acariciou-lhe o cabelo negro, e de braço dado foram repousar na tenda magnífica.
Fez-se silêncio e houve calma no navio, só o timoneiro ficou ao leme. A sereiazinha pôs os braços alvos na amurada e olhou para leste à procura de ver a aurora, o primeiro raio de sol, sabia ela, iria matá-la. Viu então as irmãs subirem ao de cima do mar. Estavam pálidas como ela, o seu cabelo longo e bonito não flutuava mais ao vento, fora cortado.
- Oferecemo-lo à bruxa para que nos ajudasse a conseguir que não morresses esta noite. Deu-nos uma faca, está aqui. Vês como é afiada! Antes de o sol se levantar, tens de a espetar no coração do príncipe e quando o seu sangue quente se derramar sobre os teus pés, transformar-se-ão estes numa cauda de peixe e tu voltarás a ser uma sereia, poderás descer na água até nós e viver os teus trezentos anos antes de vires a ser espuma morta e salgada. Despacha-te! Estás a ver a faixa vermelha no céu? Em poucos minutos vai nascer o sol e terás então de morrer! — E lançaram um suspiro estranho e profundo mergulhando nas ondas.
A sereiazinha afastou o tapete de púrpura da tenda e viu a bela noiva a dormir com a cabeça no peito do príncipe, beijou-lhe a linda testa, olhou para o céu, onde a aurora luzia mais e mais, olhou para a faca afiada e voltou a fitar os olhos no príncipe, que em sonhos pronun¬ciava o nome da noiva. Ela só estava nos seus pensamentos e a faca tremeu na mão da sereia... mas lançou-a para longe nas ondas que brilharam vermelhas onde caiu. Era como borbulhassem gotas de sangue ao de cima da água. Ainda uma vez olhou para o príncipe, com o olhar meio enublado, depois lançou-se do navio ao mar, onde o seu corpo se desfez em espuma.
Nasceu então o sol. Os seus raios tombaram suaves e quentes sobre a espuma do mar fria de morte e a sereiazinha não sentiu a morte, viu o sol luminoso e por cima dela pairarem centenas de belas criaturas transparentes. Podia ver através delas as velas brancas do navio e as nuvens vermelhas do céu. As suas vozes eram melodiosas, mas tão espirituais que nenhum ouvi¬do humano podia ouvi-las, tal como nenhuns olhos terrestres podiam vê-las. Sem asas pairavam pela sua própria leveza no ar. A sereiazinha viu que tinha um corpo como elas, que se elevava mais e mais da espuma.
- Para quem venho eu? — disse ela e a sua voz soou como a dos outros seres, tão espiritual que nenhuma música terrestre pode transmiti-la.
- Para as Filhas do Ar! — responderam as outras. - As sereias não têm uma alma imortal, não podem nunca alcançá-la, só se ganhassem o amor dum ser humano. Dum poder estranho depende a sua existência eterna. As Filhas do Ar também não têm alma eterna, mas podem elas próprias com boas acções obter uma. Voamos para as terras quentes, onde o ar pestilento e abafado mata os homens. Aí produzimos frescura. Espalhamos perfume de flores no ar e damos frescura e alívio. Se nos tivermos esforçado trezentos anos por fazer o bem, podemos então alcan¬çar uma alma imortal e participar na felicidade eterna dos seres humanos. Tu, pobre sereiazinha, esforçaste-te com todo o coração pelo mesmo que nós, sofreste e suportaste dores, elevaste-te para o mundo dos espíritos do ar e agora podes tu própria com boas acções conseguir uma alma imortal dentro de trezentos anos.
E a sereiazinha ergueu os braços claros para o sol de Deus e, pela primeira vez, sentiu correrem-lhe lágrimas... No navio havia outra vez alarido e vida, viu o príncipe com a sua linda noiva a procurá-la. Olhavam tristes para a espuma borbulhante, como se soubessem que se lan¬çara nas ondas. Invisível, beijou a testa da noiva, sorriu para ele e subiu com as outras Filhas do Ar na nuvem cor-de-rosa que flutuava no céu.
- Em trezentos anos ascenderemos assim para o reino de Deus!
- Também podemos mais cedo alcançá-lo! — murmurou uma — Entramos invisíveis nas casas dos homens, onde há crianças e por cada dia que encontramos uma criança boa, que faz a alegria dos pais a merece o seu amor, Deus encurta o nosso tempo de prova. A criança não sabe, quando voamos pela casa e, se tivermos de sorrir de alegria por ela, é-nos tirado um ano dos trezentos, mas se virmos uma criança malcriada e má, então temos de chorar lágrimas de tristeza e cada lágrima aumenta de um dia o nosso tempo de prova!
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
A Sereiazinha (5) - por Hans Christian Andersen
(Continuação)
Foi presenteada com lindos vestidos de seda e de musselina. No palácio, era a mais bonita de todas, mas era muda, não podia nem cantar nem falar. Belas escravas vestidas de seda e ouro avançaram e cantaram para o príncipe e para os seus régios pais. Uma cantou melhor do que todas as outras e o príncipe bateu palmas e sorriu-lhe. A sereiazinha ficou triste, pois sabia que ela própria cantaria muito melhor! Pensou: «Oh! Bem devia saber que eu, para estar com ele, dei a minha voz, por toda a eternidade!»
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
A Sereiazinha (2) por Hans Christian Andersen
(Continuação)
Foi então a vez da quinta irmã. O seu aniversário foi precisamente no Inverno e viu assim o que as outras nunca haviam visto da primeira vez. O mar tomou inteiramente uma cor verde e à volta, flutuavam grandes icebergues, cada um parecia como uma pérola, disse ela. Eram, contudo, muito maiores do que as torres das igrejas que os homens construíam. Mostravam-se nas formas mais estranhas e brilhavam como diamantes. Sentara-se num dos maiores e todos os veleiros se afastaram assustados, para longe de onde se encontrava, com o longo cabelo a esvoaçar ao vento. Mas, lá para a noite, o céu ficou coberto de nuvens, relampejou e trovejou, enquanto o mar enegrecido levantava alto os grandes blocos de gelo, fazendo-os cintilar sob a luz vermelha. Em todos os navios arriaram as velas, havia ansiedade e terror, mas ela continuava sentada calmamente no seu icebergue flutuante, vendo os raios azuis tombarem em ziguezague no mar luzente.
Foi então a vez da quinta irmã. O seu aniversário foi precisamente no Inverno e viu assim o que as outras nunca haviam visto da primeira vez. O mar tomou inteiramente uma cor verde e à volta, flutuavam grandes icebergues, cada um parecia como uma pérola, disse ela. Eram, contudo, muito maiores do que as torres das igrejas que os homens construíam. Mostravam-se nas formas mais estranhas e brilhavam como diamantes. Sentara-se num dos maiores e todos os veleiros se afastaram assustados, para longe de onde se encontrava, com o longo cabelo a esvoaçar ao vento. Mas, lá para a noite, o céu ficou coberto de nuvens, relampejou e trovejou, enquanto o mar enegrecido levantava alto os grandes blocos de gelo, fazendo-os cintilar sob a luz vermelha. Em todos os navios arriaram as velas, havia ansiedade e terror, mas ela continuava sentada calmamente no seu icebergue flutuante, vendo os raios azuis tombarem em ziguezague no mar luzente.
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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Um conto de Natal de Sophia de Mello Breyner Andresen - A Noite de Natal
O amigo
Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à volta. No jardim havia tílias, um cedro muito antigo, uma cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro. Depois imaginava os anõezinhos que, se existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e mais complicada para o rei dos anões.
Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às vezes, ela ia a uma festa. Mas esses meninos a casa de quem ela ia e que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas. Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu jardim.
E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros meninos. Só sabia estar sozinha.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Um conto de Natal de Júlio Verne - Os Grandes Frios do Natal
A temperatura caíra subitamente na sala para sete graus abaixo de zero (-22º centígrados).
Mas se o doutor estava já sem imaginação, já não sabia o que fazer, outros sabiam-no por ele. Assim Shandon, frio e resoluto, Pen, a cólera espelhada nos olhos, e dois ou três dos seus camaradas, os que ainda conseguiam mexer-se, avançaram para Hatteras.
- Capitão! – disse Shandon.
Hatteras, absorto pelos seus pensamentos, não o ouviu.
- Capitão! – repetiu Shandon, tocando-lhe na mão.
Hatteras endireitou-se.
- Senhor – disse.
- Capitão, já não temos fogo.
- E então? – respondeu Hatteras.
- Se é sua intenção matar-nos de frio – retomou Shandon com uma terrível ironia – pedimos-lhe que nos informe desde já!
domingo, 19 de dezembro de 2010
A homenagem ao velho poeta
Carlos Loures
No princípio daqueles anos 60 do século XX, apesar da boa e mítica reputação que a década viria depois a adquirir, as coisas eram muito diferentes do que hoje são e nem sempre a diferença era para melhor. As minorias étnicas ou religiosas, as mulheres, as crianças, os homossexuais, eram segregados de uma forma impiedosa e os seus direitos, mesmo aqueles que estavam consagrados na letra das leis, espezinhados com a cumplicidade de muitos progressistas e até, por vezes, de alguns dos lesados. Também se deve dizer, para sermos justos, que talvez nenhuma outra geração tenha feito tanto para derrubar tabus e preconceitos, barreiras e estúpidas ideias estratificadas ao longo de séculos e que tinham rastejado e sobrevivido a quase dois mil anos de cristianismo, às revoluções francesa e soviética, a um século de socialismo, a duas guerras mundiais, à proclamação de múltiplas independências em África e na Ásia, chegando quase intactos àquela época, aos famosos e progressistas anos 60.
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quarta-feira, 3 de novembro de 2010
O problema
Marcos Cruz
Durante a vida experimentamos várias formas de lidar com o mesmo problema, mas muitas dessas formas são, simplesmente, formas de não lidar com o problema. O problema é a vida ela própria, somos nós - ou, melhor ainda, somos os nós, os nós que somos, cada um de nós.
Hoje sento-me aqui para escrever mais uma forma e não mais do que uma forma, mas uma forma de lidar com o problema. O meu problema.
Não sei quando me dei conta de que tinha um problema, mas provavelmente foi à nascença, ou então não teria desatado a mamar, a chorar, a espernear, a lutar com unhas e sem dentes. Hoje leio pessoas que falam poeticamente sobre a morte, sobre a primeira vez que viram a morte, sobre a incompreensão da morte e a recusa em confrontá-la, em chegar perto dela, em sentir-lhe o cheiro, quando esse cheiro é o mesmo da merda e do leite e a morte é, afinal, o mote da vida.
Mamar, andar, falar, estudar, trabalhar, casar, procriar para que outros mamem, andem, falem, trabalhem, casem e procriem - eis a puta da vida tal como se nos apresenta. Pois eu digo: hoje sei que a minha vida não é isto. Não é só isto, não é necessariamente isto. A minha vida é a minha vida. Por entre essas etapas todas a que não renuncio, a minha vida é também romper a placenta de culpa que me precede.
Entre as formas que já experimentei de lidar com o meu problema encontram-se vários ismos. Todos eles foram sombras que se me descolaram do corpo a cada pôr-do-sol. A cada morte. Hoje não tenho um ismo para dar. Tenho sentimentos intensos, tenho oitos e oitentas, tenho vida em bruto.
Este é o primeiro passo para uma pessoa como eu lidar com o problema. É assumi-lo. É pô-lo cá para fora, dar-lhe luz, dá-lo à luz. Todo o tempo gasto a experimentar formas de não lidar com o problema é tempo pré-Natal, é cadeia genética no sentido mais prisional do termo. Lapidar o diamante exige tê-lo.
Hoje é a hora de o meu problema sair à rua. De sair inteiro, impróprio para consumo. É o dia de vomitar o mundo e dizer que já o trazia dentro, este mundo, há colhões. É o momento de trabalhar para um outro mundo, com as competências todas de quem o conhece como a palma da sua mão, cansada de bater punhetas.
A crise e a depressão acompanharam-me o crescimento - essas, sim, sombras implacáveis -, foram o meu mundo, o meu segredo. Hoje o mundo dos outros conhece-o, estou nu. Tão nu como esse mundo aos olhos de si mesmo. Somos tão verdade com verdade como as batatas são batatas com batatas. O problema, pelo menos o meu, está objectivado.
Portugal é um País, o nosso País. Os mercados são, hoje, o mundo. E o país Portugal cresce ou decresce a mando desse mundo. Porquê? Porque Portugal não existe. Portugal está em coma num leito límbico, com os pés algemados por D. Sebastião e as mãos por Salazar, espelhos virados um contra o outro, reflectindo a infinitude, o cronismo, a inescapabilidade, para o caso de Portugal querer acordar do coma.
Em cada empresa, em cada emprego, a generalidade dos portugueses não atravessa nem um nem outro desses espelhos. São como esquinas à noite. A verdade é que, não o fazendo, a mesma generalidade dos portugueses está a ser atravessada por eles, em cada casa, em cada desemprego.
Chegou, pois, a hora do salto quântico. Aquilo de que sempre estivemos à espera surge com a imagem que menos esperávamos. Valham-nos as leis da física. O corpo, o nosso corpo, o meu, o teu, o dele, o nosso, o vosso, o deles, vai ter de se sentir em todas essas dimensões, únicas e múltiplas, pessoais e universais, o melhor que possa e saiba, e mexer-se, andar para a frente com os seus próprios pés.
Em menos de nada, o segredo do País vai estar tão cá fora como o meu segredo. Um novo espelho nascerá da fricção dos outros dois, como fogo vindo das pedras, e nele poderemos rever-nos, juntos, os que até hoje nem em separado se reviam.
Durante anos, uns, e décadas, outros, muitos de nós estiveram mergulhados em drogas, legais ou ilegais; durante esses anos, esses nós sentiram que o seu mundo estava doente, por não encaixar no mundo dos outros. Hoje, os mesmos nós podem saber que o mundo dos outros é, afinal, o mundo de uns quantos, poucos, muito poucos, que não querem encaixar no nosso mundo. Por isso é que o mundo, o mundo de todos, está em crise.
Chamem-me irresponsável, bipolar, o que quiserem. Sou isso tudo e mais alguma coisa. A minha forma de lidar com o problema é cada um de nós mudar o paradigma, virar o disco, venha quem vier: irmos para dentro cá fora, deixarmos de nos adiar em antidepressivos e sermos nós os antidepressivos do mundo. Cada um de nós.
Talvez assim se desatem os nós e o meu problema seja o teu e o dele e assim sucessivamente até, quem sabe, deixar de ser um problema.
(ilustração de Adão Cruz)
Durante a vida experimentamos várias formas de lidar com o mesmo problema, mas muitas dessas formas são, simplesmente, formas de não lidar com o problema. O problema é a vida ela própria, somos nós - ou, melhor ainda, somos os nós, os nós que somos, cada um de nós.
Hoje sento-me aqui para escrever mais uma forma e não mais do que uma forma, mas uma forma de lidar com o problema. O meu problema.
Não sei quando me dei conta de que tinha um problema, mas provavelmente foi à nascença, ou então não teria desatado a mamar, a chorar, a espernear, a lutar com unhas e sem dentes. Hoje leio pessoas que falam poeticamente sobre a morte, sobre a primeira vez que viram a morte, sobre a incompreensão da morte e a recusa em confrontá-la, em chegar perto dela, em sentir-lhe o cheiro, quando esse cheiro é o mesmo da merda e do leite e a morte é, afinal, o mote da vida.
Mamar, andar, falar, estudar, trabalhar, casar, procriar para que outros mamem, andem, falem, trabalhem, casem e procriem - eis a puta da vida tal como se nos apresenta. Pois eu digo: hoje sei que a minha vida não é isto. Não é só isto, não é necessariamente isto. A minha vida é a minha vida. Por entre essas etapas todas a que não renuncio, a minha vida é também romper a placenta de culpa que me precede.
Entre as formas que já experimentei de lidar com o meu problema encontram-se vários ismos. Todos eles foram sombras que se me descolaram do corpo a cada pôr-do-sol. A cada morte. Hoje não tenho um ismo para dar. Tenho sentimentos intensos, tenho oitos e oitentas, tenho vida em bruto.
Este é o primeiro passo para uma pessoa como eu lidar com o problema. É assumi-lo. É pô-lo cá para fora, dar-lhe luz, dá-lo à luz. Todo o tempo gasto a experimentar formas de não lidar com o problema é tempo pré-Natal, é cadeia genética no sentido mais prisional do termo. Lapidar o diamante exige tê-lo.
Hoje é a hora de o meu problema sair à rua. De sair inteiro, impróprio para consumo. É o dia de vomitar o mundo e dizer que já o trazia dentro, este mundo, há colhões. É o momento de trabalhar para um outro mundo, com as competências todas de quem o conhece como a palma da sua mão, cansada de bater punhetas.
A crise e a depressão acompanharam-me o crescimento - essas, sim, sombras implacáveis -, foram o meu mundo, o meu segredo. Hoje o mundo dos outros conhece-o, estou nu. Tão nu como esse mundo aos olhos de si mesmo. Somos tão verdade com verdade como as batatas são batatas com batatas. O problema, pelo menos o meu, está objectivado.
Portugal é um País, o nosso País. Os mercados são, hoje, o mundo. E o país Portugal cresce ou decresce a mando desse mundo. Porquê? Porque Portugal não existe. Portugal está em coma num leito límbico, com os pés algemados por D. Sebastião e as mãos por Salazar, espelhos virados um contra o outro, reflectindo a infinitude, o cronismo, a inescapabilidade, para o caso de Portugal querer acordar do coma.
Em cada empresa, em cada emprego, a generalidade dos portugueses não atravessa nem um nem outro desses espelhos. São como esquinas à noite. A verdade é que, não o fazendo, a mesma generalidade dos portugueses está a ser atravessada por eles, em cada casa, em cada desemprego.
Chegou, pois, a hora do salto quântico. Aquilo de que sempre estivemos à espera surge com a imagem que menos esperávamos. Valham-nos as leis da física. O corpo, o nosso corpo, o meu, o teu, o dele, o nosso, o vosso, o deles, vai ter de se sentir em todas essas dimensões, únicas e múltiplas, pessoais e universais, o melhor que possa e saiba, e mexer-se, andar para a frente com os seus próprios pés.
Em menos de nada, o segredo do País vai estar tão cá fora como o meu segredo. Um novo espelho nascerá da fricção dos outros dois, como fogo vindo das pedras, e nele poderemos rever-nos, juntos, os que até hoje nem em separado se reviam.
Durante anos, uns, e décadas, outros, muitos de nós estiveram mergulhados em drogas, legais ou ilegais; durante esses anos, esses nós sentiram que o seu mundo estava doente, por não encaixar no mundo dos outros. Hoje, os mesmos nós podem saber que o mundo dos outros é, afinal, o mundo de uns quantos, poucos, muito poucos, que não querem encaixar no nosso mundo. Por isso é que o mundo, o mundo de todos, está em crise.
Chamem-me irresponsável, bipolar, o que quiserem. Sou isso tudo e mais alguma coisa. A minha forma de lidar com o problema é cada um de nós mudar o paradigma, virar o disco, venha quem vier: irmos para dentro cá fora, deixarmos de nos adiar em antidepressivos e sermos nós os antidepressivos do mundo. Cada um de nós.
Talvez assim se desatem os nós e o meu problema seja o teu e o dele e assim sucessivamente até, quem sabe, deixar de ser um problema.
(ilustração de Adão Cruz)
sábado, 23 de outubro de 2010
Les Angles
Adão Cruz
Deslizar na brancura da neve de Les Angles é quase um sonho
um sonho cego, mudo, paralítico, sem a cor das pinceladas do céu franjado de arco-íris, cavalgando os altos cirros velozes e frios, incapaz de desfibrar o complexo estroma que nos enlaça e entrelaça
num abraço de fogo e água, amor e raiva e mágoa, voando sobre o abismo serôdio de um beijo alheio, ridículo-lascivo, criptogâmico-adolescente, que torna fria a madrugada e sem sol o acordar.
Alguma coisa eu perdi lá no céu, aqui na terra ou no mar, para não ser capaz de sonhar com olhos, palavras e pernas para andar.
Deslizar na brancura da neve de Les Angles é um sonho morto…
doem muito os sonhos mortos!
Talvez em Villefranche de Conflent, nas margens de La Têt.
Em Villefranche de Conflent encontrei-me com Chagall, eu mal o conhecia, ele de mim nem sabia.
Enquanto o Nuno corria atrás do petit train jaune, eu corria atrás do sonho (sonho do Sonho?), mas Chagall nada me dizia. Mal o conhecia, gostava dele, da frescura, da audácia, da sua enganosa realidade, mas naquele dia!
Amores flutuando nos ares, silhuetas bizarras, criações poéticas
não me tocavam, soavam a falso.
Apenas uma frase me deixou pensativo, o nosso universo interior é a realidade, talvez mais real do que o mundo visível, mais real do que as pedras, do que o frio e a pele arrepiada.
Sempre pensei que a infância marcara a minha vida, (onde vai a infância se bem corresse!). Nunca dela pensara fugir, ao contrário de Chagall.
Alguma coisa eu perdi lá no céu, aqui na terra ou no mar, alguma coisa eu perdi que faz falta ao sonho p’ra sonhar.
(ilust. adão cruz)
Deslizar na brancura da neve de Les Angles é quase um sonho
um sonho cego, mudo, paralítico, sem a cor das pinceladas do céu franjado de arco-íris, cavalgando os altos cirros velozes e frios, incapaz de desfibrar o complexo estroma que nos enlaça e entrelaça
num abraço de fogo e água, amor e raiva e mágoa, voando sobre o abismo serôdio de um beijo alheio, ridículo-lascivo, criptogâmico-adolescente, que torna fria a madrugada e sem sol o acordar.
Alguma coisa eu perdi lá no céu, aqui na terra ou no mar, para não ser capaz de sonhar com olhos, palavras e pernas para andar.
Deslizar na brancura da neve de Les Angles é um sonho morto…
doem muito os sonhos mortos!
Talvez em Villefranche de Conflent, nas margens de La Têt.
Em Villefranche de Conflent encontrei-me com Chagall, eu mal o conhecia, ele de mim nem sabia.
Enquanto o Nuno corria atrás do petit train jaune, eu corria atrás do sonho (sonho do Sonho?), mas Chagall nada me dizia. Mal o conhecia, gostava dele, da frescura, da audácia, da sua enganosa realidade, mas naquele dia!
Amores flutuando nos ares, silhuetas bizarras, criações poéticas
não me tocavam, soavam a falso.
Apenas uma frase me deixou pensativo, o nosso universo interior é a realidade, talvez mais real do que o mundo visível, mais real do que as pedras, do que o frio e a pele arrepiada.
Sempre pensei que a infância marcara a minha vida, (onde vai a infância se bem corresse!). Nunca dela pensara fugir, ao contrário de Chagall.
Alguma coisa eu perdi lá no céu, aqui na terra ou no mar, alguma coisa eu perdi que faz falta ao sonho p’ra sonhar.
(ilust. adão cruz)
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
O Tanque (Mais um conto – verdadeiro –da Guiné)
Adão Cruz
O alferes Almeida foi meu companheiro de quarto em Bigene, no norte da Guiné, se é que podemos chamar quarto ao alpendre onde dormíamos. Cerca de oito anos mais novo do que eu, o Almeidinha fez-se meu amigo de verdade. Amigo desde o acampamento da Fonte da Telha, do quartel de Porto Brandão e da Amadora.
Embarcámos para a Guiné no velho Uíge, empurrados pelo magnífico patriotismo de Salazar, entalados entre o belo gesto das senhoras do movimento nacional feminino e o malabarístico safanço dos filhos dos ricos e patriotas da situação. Embalados pelas ondas do mar quente da Mauritânia, e sossegados pelas ricas ementas flamejantes do cozinheiro de bordo, demos à costa da Guiné no dia 13 de Maio de 1966.
O Almeida e eu pertencíamos à mesma companhia. Eu como médico e ele como atirador, comandante de pelotão. Nos primeiros tempos da nossa comissão na guerra da Guiné estivemos separados. Eu fui destacado para Canquelifá, perto da fronteira da Guiné-Conakry. Ele esteve de intervenção durante algum tempo. Quando a companhia se fixou em Bigene, já eu lá me encontrava.
O alferes Almeida foi meu companheiro de quarto em Bigene, no norte da Guiné, se é que podemos chamar quarto ao alpendre onde dormíamos. Cerca de oito anos mais novo do que eu, o Almeidinha fez-se meu amigo de verdade. Amigo desde o acampamento da Fonte da Telha, do quartel de Porto Brandão e da Amadora.
Embarcámos para a Guiné no velho Uíge, empurrados pelo magnífico patriotismo de Salazar, entalados entre o belo gesto das senhoras do movimento nacional feminino e o malabarístico safanço dos filhos dos ricos e patriotas da situação. Embalados pelas ondas do mar quente da Mauritânia, e sossegados pelas ricas ementas flamejantes do cozinheiro de bordo, demos à costa da Guiné no dia 13 de Maio de 1966.
O Almeida e eu pertencíamos à mesma companhia. Eu como médico e ele como atirador, comandante de pelotão. Nos primeiros tempos da nossa comissão na guerra da Guiné estivemos separados. Eu fui destacado para Canquelifá, perto da fronteira da Guiné-Conakry. Ele esteve de intervenção durante algum tempo. Quando a companhia se fixou em Bigene, já eu lá me encontrava.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Abibe Tal
Adão Cruz
Mais um conto verdadeiro da Guiné
O Abibe era muito feio. Negro como um tição. A única coisa que no seu corpo branqueava eram os dentes, inseridos à distância da boca. Mas tinha um coração grande, muito maior que a feiura. Não o coração de carne que lhe batia no peito, mas o irmão gémeo, o coração dos sentimentos e dos afectos.
O Abibe pertencia à milícia e era nosso empregado, ajudando na cozinha e na limpeza. Fez-se por sua livre vontade meu impedido, afeiçoado e amigo. Limpava o quarto, fazia a cama, conseguia arranjar uns mangos e umas bananas e tratava de tudo o que eu lhe pedia.
A densidade de incidentes bélicos no pequeno território da Guiné era muito maior do que nas outras colónias. A terrível fama da sua guerra alastrou como fogo. Comparada à do Vietname. Ser destacado para a Guiné constituía uma condenação ao apodrecimento e ao risco de regressar encaixotado. Os aquartelamentos eram rodeados de arame farpado e troncos de palmeira, com abrigos subterrâneos, frequentemente flagelados. Eu próprio ajudei a cavar trincheiras, ligando os nossos quartos às casernas e a uma enfermaria subterrânea, onde guardava soros e medicamentos de urgência, indispensáveis em situações de ataque. Em tais condições de vida, era grande o valor de um companheiro e amigo como o Abibe Tal.
Mais um conto verdadeiro da Guiné O Abibe era muito feio. Negro como um tição. A única coisa que no seu corpo branqueava eram os dentes, inseridos à distância da boca. Mas tinha um coração grande, muito maior que a feiura. Não o coração de carne que lhe batia no peito, mas o irmão gémeo, o coração dos sentimentos e dos afectos.
O Abibe pertencia à milícia e era nosso empregado, ajudando na cozinha e na limpeza. Fez-se por sua livre vontade meu impedido, afeiçoado e amigo. Limpava o quarto, fazia a cama, conseguia arranjar uns mangos e umas bananas e tratava de tudo o que eu lhe pedia.
A densidade de incidentes bélicos no pequeno território da Guiné era muito maior do que nas outras colónias. A terrível fama da sua guerra alastrou como fogo. Comparada à do Vietname. Ser destacado para a Guiné constituía uma condenação ao apodrecimento e ao risco de regressar encaixotado. Os aquartelamentos eram rodeados de arame farpado e troncos de palmeira, com abrigos subterrâneos, frequentemente flagelados. Eu próprio ajudei a cavar trincheiras, ligando os nossos quartos às casernas e a uma enfermaria subterrânea, onde guardava soros e medicamentos de urgência, indispensáveis em situações de ataque. Em tais condições de vida, era grande o valor de um companheiro e amigo como o Abibe Tal.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Guiné – IrkutsK
Adão Cruz
(mais um conto, verdadeiro, da Guiné)
Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky.
Como a vida tem tantas formas de circularidade, sentei-me num banco de jardim à beira do rio, e dei ordens à memória para me buscar aquele rapaz soviético que, há muitos anos, num ardente dia de sol, as nossas tropas aprisionaram no norte da Guiné. Era de Kiev, mas tinha nascido em Irkutsk, na Sibéria.
Técnico de máquinas automáticas, oferecera-se, como voluntário e internacionalista, para ajudar os guerrilheiros do PAIGC a combater as tropas colonialistas.
Na pequena sala onde funcionava a secretaria do nosso aquartelamento, estava o prisioneiro como que pregado a uma cadeira. Tinha na sua frente o capitão da nossa Companhia, o capitão da Companhia de intervenção que o capturou, dois ou três sargentos e outros tantos alferes, e eu.
(mais um conto, verdadeiro, da Guiné)
Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky.
Como a vida tem tantas formas de circularidade, sentei-me num banco de jardim à beira do rio, e dei ordens à memória para me buscar aquele rapaz soviético que, há muitos anos, num ardente dia de sol, as nossas tropas aprisionaram no norte da Guiné. Era de Kiev, mas tinha nascido em Irkutsk, na Sibéria.
Técnico de máquinas automáticas, oferecera-se, como voluntário e internacionalista, para ajudar os guerrilheiros do PAIGC a combater as tropas colonialistas.
Na pequena sala onde funcionava a secretaria do nosso aquartelamento, estava o prisioneiro como que pregado a uma cadeira. Tinha na sua frente o capitão da nossa Companhia, o capitão da Companhia de intervenção que o capturou, dois ou três sargentos e outros tantos alferes, e eu.
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Mulher olhando o céu castanho de Outubro através das grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris
Paulo Melo Lopes
Pelas grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris, a mãe de Krief olha agora o céu de um Outubro castanho. Há um sorriso muito bonito a bailar-lhe nos lábios e as pálpebras transmitem a serenidade da contemplação. Subitamente, grita: KRIEF! E pára. De novo: o sorriso: o sorriso da mãe de Krief imita a tranquilidade das folhas de Outubro e saudosamente acaricia as grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris, como acariciasse os dedos de Krief. Opções viáveis: Frio> acaricia as grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris, como acariciasse os dedos frios de Krief; Morte> acaricia as grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris, como acariciasse os dedos mortos de Krief; Mármore> acaricia as grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris, como acariciasse os dedos marmóreos de Krief.
Do outro lado do muro, aquele que separa o Hospital de Saint Exupéry, em Paris, do resto do mundo, o pequeno Krief é amamentado por uma gorda loira sentada na cama de um anexo pardacento. A loira chama-se Nougete; veste espartilho vitoriano e fuma cigarretes brancas através de uma boquilha oferecida pelo conde Henri de Vicariate, assim ele se apresentou. Disse-lhe o conde numa noite de lua cheia, passeando os dois junto ao Sena: Minha cadelinha virtuosa, a luz dos teus cabelos ilumina Paris. Nougete sorriu. Henri de Vicariate pigarreou. Nougete olhou-o amorosamente. Henri de Vicariate cofiou o bigode. Nougete desejou, olhando as estrelas, a eternidade do momento. Henri de Vicariate afinou a voz e trauteou La vie en rose. Nougete desejou fervorosamente um filho de Henri de Vicariate. Henri de Vicariate tropeçou e caiu ao Sena; veio a salvar-se agarrando-se a um barco de recreio. Nougete não mais o viu. Henri de Vicariate não mais a procurou.
No Hospital de Saint Exupéry, em Paris, a mãe de Krief abre o caderno e anota:
Qual das dores a maior: perder o filho que se teve ou não perder o filho que não se teve?
PERGUNTA DE FUNDO: em que altura da história dos homens se transformou a dor em sofrimento?
Na cama do anexo pardacento, Krief alimenta-se sofregamente nas mamas de Nougete - as mamas de Nougette são como cascos de navio.
250 metros a norte, um homem encontra o seu destino. Corre para casa, enche a banheira de água fria e tenta afogar-se. Falha estupendamente. Esse homem é Henri de Vicariate.
Respeito
Marcos Cruz
Muitas vezes me questiono sobre o poder mágico da morte, a capacidade que ela tem de mudar a opinião dos homens uns sobre os outros, ou pelo menos de condicionar a expressão dessa opinião. Sempre que um insulto se transforma num elogio, tendo a considerar que, aos olhos do emissor de tão opostos juízos, a pessoa sobre a qual eles recaem fez alguma coisa de positivo, produziu um bem passível de a redimir do mal anterior, ou de o atenuar, vá lá. Penso, então, se a morte de alguém que repudiamos será, para nós, esse feito elevado à sua potência suprema, se a borracha que apaga a existência física de uma pessoa tem o condão de apagar também todas as memórias negativas que dela fomos acumulando, como um processo que prescreveu e em relação ao qual não há já nada que nos prenda. Talvez o raciocínio seja: este não chateia mais, portanto vamos poupar quem gosta dele a mais chatices. Eu, no entanto, não descarto a possibilidade de, em muitos casos, aqueles que gostam das pessoas que morrem preferirem ouvir, na morte dessas pessoas, serem-lhes atribuídas pelos outros as virtudes e os defeitos que os mesmos lhes atribuíram em vida, isto pensando, em primeiro lugar, no morto, que, enquanto vivo, teve uma conduta que, se não agradou a gregos e a troianos, foi porque não tinha de agradar, ou até porque não queria agradar. Daí que rasurar o que subjectivamente cada um de nós entende como pecado de uma pessoa na hora do seu falecimento possa equivaler a mutilar a memória dessa pessoa, a bombardear o edifício que ela construiu em vida. Mais do que proferir banalidades e, por vezes, derramar hipocrisia, como cal, sobre o ser que se desmaterializa, talvez respeitá-lo seja tratá-lo na morte como ele fez por ser tratado em vida, reconhecer viva a sua marca, inteira. É que um homem pode ser parte do todo, mas há um todo que é parte dele - e o que parte dele, na morte, é o que menos lhe pertence.
(ilust. Adão Cruz)
Muitas vezes me questiono sobre o poder mágico da morte, a capacidade que ela tem de mudar a opinião dos homens uns sobre os outros, ou pelo menos de condicionar a expressão dessa opinião. Sempre que um insulto se transforma num elogio, tendo a considerar que, aos olhos do emissor de tão opostos juízos, a pessoa sobre a qual eles recaem fez alguma coisa de positivo, produziu um bem passível de a redimir do mal anterior, ou de o atenuar, vá lá. Penso, então, se a morte de alguém que repudiamos será, para nós, esse feito elevado à sua potência suprema, se a borracha que apaga a existência física de uma pessoa tem o condão de apagar também todas as memórias negativas que dela fomos acumulando, como um processo que prescreveu e em relação ao qual não há já nada que nos prenda. Talvez o raciocínio seja: este não chateia mais, portanto vamos poupar quem gosta dele a mais chatices. Eu, no entanto, não descarto a possibilidade de, em muitos casos, aqueles que gostam das pessoas que morrem preferirem ouvir, na morte dessas pessoas, serem-lhes atribuídas pelos outros as virtudes e os defeitos que os mesmos lhes atribuíram em vida, isto pensando, em primeiro lugar, no morto, que, enquanto vivo, teve uma conduta que, se não agradou a gregos e a troianos, foi porque não tinha de agradar, ou até porque não queria agradar. Daí que rasurar o que subjectivamente cada um de nós entende como pecado de uma pessoa na hora do seu falecimento possa equivaler a mutilar a memória dessa pessoa, a bombardear o edifício que ela construiu em vida. Mais do que proferir banalidades e, por vezes, derramar hipocrisia, como cal, sobre o ser que se desmaterializa, talvez respeitá-lo seja tratá-lo na morte como ele fez por ser tratado em vida, reconhecer viva a sua marca, inteira. É que um homem pode ser parte do todo, mas há um todo que é parte dele - e o que parte dele, na morte, é o que menos lhe pertence.
(ilust. Adão Cruz)
domingo, 3 de outubro de 2010
Arca das ninharias - Uma História Prodigiosa
Augusta Clara de Matos
Chegaram os tempos a que alguém chamou dos prodígios e tudo se pôs em movimento.
As terras ficavam longe neste país pequenino. Não havia auto-estradas. Só um bocadinho. Levava tempo a ir de um para outro lugar. Mas ninguém se importava. Estava tudo em movimento. A vida, a alegria, a felicidade, as pessoas, o sonho.
Nesse dia, no fim da sessão, ele aproximou-se daquela mulher que viera doutra cidade, para tirar uma dúvida, obter um esclarecimento. Olhou-lhe os olhos e o sorriso e ficou a saber tudo. Já não precisava de esclarecimentos. Ela não deu por isso e foi-se embora.
Algo nele se tornou um enigma. Ninguém percebeu, mas sempre a quis encontrar, não procurar, só encontrar. A vida tem rédea curta e não havia auto-estradas.
Passam os anos e afastamo-nos daquele ponto em que o zénite teria sido outro, se … Os “ses” que dominam os nossos caminhos, os “ses” decisivos e a que não podemos escapar. Digam o que disserem, eles é que mandam.
Somos felizes? Talvez sejamos. Mas o encantamento, a felicidade completa é dos “ses”, esses tiranos donos dos nossos destinos. Atiramo-los para o lixo quando seguimos um “se” e não outro. E vamos em frente, ou às curvas, tanto faz.
E eles foram, também. Ela sem nunca ter dado por isso, ele toda a vida buscando aqueles olhos e aquele sorriso por todo o lado.
Que casa, que prédio, que rua, que número de porta a esconderia? Que raio, o mundo não é assim tão grande, e o país ainda menos! Como podia admitir que não fosse possível encontrá-la? Ou seria o seu amor que não chegava? Ouvira contar histórias exaltantes em que amantes davam a volta ao mundo, se fosse preciso a volta à vida, para encontrarem aquele outro ser que sabiam, sem ninguém lhes ter dito: era o seu, o único, mais nenhum. E ele não fora capaz. A vida tem mesmo rédea curta.
Mas os “ses” não são só velhacos, também são caprichosos. Às vezes, deixam a vida ir andando e, de repente, metem-lhe um pé à frente “Eh, pára aí que tenho uma surpresa para ti!”. Malandros, quando já andamos tão cansados do caminho que queremos lá bem saber o que, há muito, ficou para trás.
E os “ses” quiseram dar-lhes uma nova oportunidade. Os inovadores caminhos do mundo, também. Ela foi às cegas e continuou a não dar por nada. Ele sim, mas tinha sido contagiado e resolveu manter o enigma por mais algum tempo. A ela, um sonho desvendou-lhe a verdade.
E, agora, o resto da história não sei porque eles ainda não me contaram. E, por indeterminações, não chego lá.
Chegaram os tempos a que alguém chamou dos prodígios e tudo se pôs em movimento.
As terras ficavam longe neste país pequenino. Não havia auto-estradas. Só um bocadinho. Levava tempo a ir de um para outro lugar. Mas ninguém se importava. Estava tudo em movimento. A vida, a alegria, a felicidade, as pessoas, o sonho.
Nesse dia, no fim da sessão, ele aproximou-se daquela mulher que viera doutra cidade, para tirar uma dúvida, obter um esclarecimento. Olhou-lhe os olhos e o sorriso e ficou a saber tudo. Já não precisava de esclarecimentos. Ela não deu por isso e foi-se embora.
Algo nele se tornou um enigma. Ninguém percebeu, mas sempre a quis encontrar, não procurar, só encontrar. A vida tem rédea curta e não havia auto-estradas.
Passam os anos e afastamo-nos daquele ponto em que o zénite teria sido outro, se … Os “ses” que dominam os nossos caminhos, os “ses” decisivos e a que não podemos escapar. Digam o que disserem, eles é que mandam.
Somos felizes? Talvez sejamos. Mas o encantamento, a felicidade completa é dos “ses”, esses tiranos donos dos nossos destinos. Atiramo-los para o lixo quando seguimos um “se” e não outro. E vamos em frente, ou às curvas, tanto faz.
E eles foram, também. Ela sem nunca ter dado por isso, ele toda a vida buscando aqueles olhos e aquele sorriso por todo o lado.
Que casa, que prédio, que rua, que número de porta a esconderia? Que raio, o mundo não é assim tão grande, e o país ainda menos! Como podia admitir que não fosse possível encontrá-la? Ou seria o seu amor que não chegava? Ouvira contar histórias exaltantes em que amantes davam a volta ao mundo, se fosse preciso a volta à vida, para encontrarem aquele outro ser que sabiam, sem ninguém lhes ter dito: era o seu, o único, mais nenhum. E ele não fora capaz. A vida tem mesmo rédea curta.
Mas os “ses” não são só velhacos, também são caprichosos. Às vezes, deixam a vida ir andando e, de repente, metem-lhe um pé à frente “Eh, pára aí que tenho uma surpresa para ti!”. Malandros, quando já andamos tão cansados do caminho que queremos lá bem saber o que, há muito, ficou para trás.
E os “ses” quiseram dar-lhes uma nova oportunidade. Os inovadores caminhos do mundo, também. Ela foi às cegas e continuou a não dar por nada. Ele sim, mas tinha sido contagiado e resolveu manter o enigma por mais algum tempo. A ela, um sonho desvendou-lhe a verdade.
E, agora, o resto da história não sei porque eles ainda não me contaram. E, por indeterminações, não chego lá.
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sábado, 2 de outubro de 2010
Paladar da Loucura
Ethel Feldman
Você pediu que contasse como era antes, como foram nossas brigas. Você disse que me revisse como uma transeunte no passeio e confessasse como eram esses ataques que tenho escondido de todos nossos diálogos.
Uma vez soube de uma mulher que cortou os pulsos, doutra que se encharcou em comprimidos antes do limite da morte, doutra ainda que se debruçou na janela ameaçando a morte.
No apartamento de cima ouço gritos. O porteiro comenta que é um exagero. Ninguém a vê, dela só lhe conhecemos o ruído. Tão altos os gritos que nos obrigam a subir o som da televisão.
São as mulheres histéricas, que num momento de impulso de tanto controle se descontrolam na dor.
Você perguntou o que eu achava dessas mulheres. Sei de quem partiu uma janela, sei doutra que destruiu a casa de banho. Parece – dizem - que são as mulheres do povo, que sem polimento exageram o comportamento.
Soube noutro dia de uma senhora de bem, doída tirou despiu-se na festa. Nua, num choro baixinho, encontrou-se no chão. Os homens - todos eles bem formados - desviaram os olhos.
Me diga uma coisa, você nunca pirou?
Não me peça então que conte como foram as brigas, se chorei, se me enquadrei numa noticia de crime.
Me conte você que fez seu parceiro quando um dia, você minha amiga, perdeu a postura.
Se a laranja for ácida e se a cada gomo as lágrimas te vierem aos olhos, me diga Cleo, se é esse o paladar da loucura.
Você pediu que contasse como era antes, como foram nossas brigas. Você disse que me revisse como uma transeunte no passeio e confessasse como eram esses ataques que tenho escondido de todos nossos diálogos.
Uma vez soube de uma mulher que cortou os pulsos, doutra que se encharcou em comprimidos antes do limite da morte, doutra ainda que se debruçou na janela ameaçando a morte.
No apartamento de cima ouço gritos. O porteiro comenta que é um exagero. Ninguém a vê, dela só lhe conhecemos o ruído. Tão altos os gritos que nos obrigam a subir o som da televisão.
São as mulheres histéricas, que num momento de impulso de tanto controle se descontrolam na dor.
Você perguntou o que eu achava dessas mulheres. Sei de quem partiu uma janela, sei doutra que destruiu a casa de banho. Parece – dizem - que são as mulheres do povo, que sem polimento exageram o comportamento.
Soube noutro dia de uma senhora de bem, doída tirou despiu-se na festa. Nua, num choro baixinho, encontrou-se no chão. Os homens - todos eles bem formados - desviaram os olhos.
Me diga uma coisa, você nunca pirou?
Não me peça então que conte como foram as brigas, se chorei, se me enquadrei numa noticia de crime.
Me conte você que fez seu parceiro quando um dia, você minha amiga, perdeu a postura.
Se a laranja for ácida e se a cada gomo as lágrimas te vierem aos olhos, me diga Cleo, se é esse o paladar da loucura.
sábado, 25 de setembro de 2010
Para ti
Marcos Cruz
Hoje vou às palavras. Vou ver se estão boas, se estão fresquinhas, se vale a pena trazê-las e quantas. Gosto mais das palavras soltas, o problema é que as não há, ou então estão mortas, cortadas, mutiladas, como as flores que vemos deitadas na rua, à mercê de solas e rodas. As palavras também têm raiz, todas elas, e é uma pena arrancá-la, em qualquer caso, mas ainda assim prefiro fazê-lo a comprar palavras no mercado, arranjadas e metidas em bouquets para impressionar quem passa. O negócio das palavras, aliás, entristece-me, pelo amor que lhes tenho. Gostava de as ver crescer naturalmente, de as regar, de cantar para elas e com elas, de apreciar a forma como se desenvolvem e ganham novas cores, novos cheiros, novas texturas, novos sabores. Gostava de me perder num campo infinito delas, de fechar os olhos e de as ler nesse estado virginal, de as deixar ensinar-me a lê-las, de me ler nelas. As que mais encontro, porém, perderam a leitura, perderam até o leite, não se reproduzem, não se multiplicam, não se renovam, apenas se repetem, como cromos que se trocam por outros num mercado único, que nos quer ver a todos com a mesma caderneta. Mas depois há o amor, o sensor da surpresa, do desconhecido, o raio mágico que desperta com a palavra nova, solta, sem casa, e num instante cobre tudo o resto de sentido. É por ele que eu continuo a ir às palavras. Hoje trouxe estas. Pega, são para ti.
Hoje vou às palavras. Vou ver se estão boas, se estão fresquinhas, se vale a pena trazê-las e quantas. Gosto mais das palavras soltas, o problema é que as não há, ou então estão mortas, cortadas, mutiladas, como as flores que vemos deitadas na rua, à mercê de solas e rodas. As palavras também têm raiz, todas elas, e é uma pena arrancá-la, em qualquer caso, mas ainda assim prefiro fazê-lo a comprar palavras no mercado, arranjadas e metidas em bouquets para impressionar quem passa. O negócio das palavras, aliás, entristece-me, pelo amor que lhes tenho. Gostava de as ver crescer naturalmente, de as regar, de cantar para elas e com elas, de apreciar a forma como se desenvolvem e ganham novas cores, novos cheiros, novas texturas, novos sabores. Gostava de me perder num campo infinito delas, de fechar os olhos e de as ler nesse estado virginal, de as deixar ensinar-me a lê-las, de me ler nelas. As que mais encontro, porém, perderam a leitura, perderam até o leite, não se reproduzem, não se multiplicam, não se renovam, apenas se repetem, como cromos que se trocam por outros num mercado único, que nos quer ver a todos com a mesma caderneta. Mas depois há o amor, o sensor da surpresa, do desconhecido, o raio mágico que desperta com a palavra nova, solta, sem casa, e num instante cobre tudo o resto de sentido. É por ele que eu continuo a ir às palavras. Hoje trouxe estas. Pega, são para ti.
Comunicação - Que armadilha!
Ethel Feldman
Um dia qualquer de agosto de 1988. Conto pelos dedos - 18 anos? A Simone sem rugas. A Geninha a falar brasileiro com sotaque açoreano... É na RTP - O canal dos anos passados. A memória feito fotografia em visita ao presente - TRETA!
No odisseia - espanto! RealDolls... bonecas articuladas que fazem companhia aos japoneses solitários. Num quarto, o fulano de tal, guarda 30 delas. Todas vestidinhas. Num golpe de mágica tira-se a cabeça para trocar a roupa da boneca. Sem a cabeça parecem todas iguais.
Esse tal leva Kia - a preferida - a passear pela floresta.
- Ela não tem como resistir. Se quero tirar-lhe uma foto - tiro! Esta é a mais temperamental...
Trinta e oito anos, olhos em bico o novo Gepeto comenta:
- O homem não é sensível à pura beleza mas à sensação de algo que intui o belo... é isso que quero quando construo uma boneca. Não sei se é normal. tenho 38 anos em vez de fazer filhos, faço bonecos...
Por trás um casal pequenino de bonecos a sugerirem real felicidade.
Parece que é médico, psicológo, antropólogo ou sociólogo. A verdade é que comenta seriamente o que arrisco apelidar de distúrbio:
- Aqui a comunicação faz-se! O homem alcançou o intangível. Deu vida ao corpo inerte. Projecta a boa comunicação...
E como tudo faz parte de uma sociedade sem problemas de comunicação, um executivo que não pode se identificar mostra as habilidades da cabeça para os pés. Primeiro eram as insufláveis, pouco jeitosas. Agora são já perto de 50. Nunca as abandona. Mesmo velhas mantêm-se fiel.
Na net esses brinquedos custam quase 7000 dólares.
Arrepio que atravessa minha espinha. Ontem propus fazer um boneco que me desse adeus quando saísse para viajar. Ou que recebesse as visitas que viessem jantar.
Um amigo disparou: - Queres um boneco virtual...
No ar adivinho o medo. Não o defino - sinto!
Tento explicar que só quero esculpir um boneco, como pinto um quadro - a minha expressão sintetizada num gesto...
Nada a fazer. Não me faço entender.
Fazer amor com LoveDolls. Haverá moral da história nesta história?
Um dia qualquer de agosto de 1988. Conto pelos dedos - 18 anos? A Simone sem rugas. A Geninha a falar brasileiro com sotaque açoreano... É na RTP - O canal dos anos passados. A memória feito fotografia em visita ao presente - TRETA!
No odisseia - espanto! RealDolls... bonecas articuladas que fazem companhia aos japoneses solitários. Num quarto, o fulano de tal, guarda 30 delas. Todas vestidinhas. Num golpe de mágica tira-se a cabeça para trocar a roupa da boneca. Sem a cabeça parecem todas iguais.
Esse tal leva Kia - a preferida - a passear pela floresta.
- Ela não tem como resistir. Se quero tirar-lhe uma foto - tiro! Esta é a mais temperamental...
Trinta e oito anos, olhos em bico o novo Gepeto comenta:
- O homem não é sensível à pura beleza mas à sensação de algo que intui o belo... é isso que quero quando construo uma boneca. Não sei se é normal. tenho 38 anos em vez de fazer filhos, faço bonecos...
Por trás um casal pequenino de bonecos a sugerirem real felicidade.
Parece que é médico, psicológo, antropólogo ou sociólogo. A verdade é que comenta seriamente o que arrisco apelidar de distúrbio:
- Aqui a comunicação faz-se! O homem alcançou o intangível. Deu vida ao corpo inerte. Projecta a boa comunicação...
E como tudo faz parte de uma sociedade sem problemas de comunicação, um executivo que não pode se identificar mostra as habilidades da cabeça para os pés. Primeiro eram as insufláveis, pouco jeitosas. Agora são já perto de 50. Nunca as abandona. Mesmo velhas mantêm-se fiel.
Na net esses brinquedos custam quase 7000 dólares.
Arrepio que atravessa minha espinha. Ontem propus fazer um boneco que me desse adeus quando saísse para viajar. Ou que recebesse as visitas que viessem jantar.
Um amigo disparou: - Queres um boneco virtual...
No ar adivinho o medo. Não o defino - sinto!
Tento explicar que só quero esculpir um boneco, como pinto um quadro - a minha expressão sintetizada num gesto...
Nada a fazer. Não me faço entender.
Fazer amor com LoveDolls. Haverá moral da história nesta história?
O desejo
Marcos Cruz

Nada expressa com a eloquência do desejo os limites do pensamento, como nada expressa com a eloquência do filho os limites do pai. O desejo nasce atado às expectativas de quem o criou, não podendo o abrir dos seus olhos dar-lhe a ver a liberdade essencial que o constitui. O meu pensamento formula um desejo e atem-se a ele, à sua sorte, prende-se a algo que lhe escapa, a uma magia cujo truque desconhece, ficando a glória ou a revolta do pensador suspensas do cumprimento ou da frustração desse desejo. Até que o pensamento se dilua ele próprio no céu da vida, muitos desejos partirão para lá como seus enviados, não causando surpresa que uns lá não cheguem e outros de lá não voltem. É preciso crer para ver, e crer mais não é do que viver. Crer é amar. O desejo representa a incapacidade, o medo de crescer, a recusa em abrir os olhos da alma. Daí que a expressão “matar o pai” adquira tanto significado na psicologia: matar o pai é justamente matar o desejo a que cada filho nasce agarrado.
Então, se em vida todos somos filhos e pais, por que haveria o pensamento de dispensar essa ruptura? E o que acontece quando o pensamento se livra do desejo que o agrilhoa? Ele voa consciente de si mesmo, ele plana e bate as asas consoante a eternidade, pois tudo se compacta para ele em cada momento, fazendo dele mesmo esse tudo, mostrando-lhe que ele é tudo e tudo pode, incluindo deixar de o ser. E ele deixa, claro. Ele deixa até que novo e novos voos o enraízem à liberdade, até que o amor de pensar em cada um afague no seu colo o medo do que cada um pensa de si, como uma mãe recebe, extenuada e feliz, o recém-nascido que tanto lhe custou dar à luz, depois de arranques e recuos, de conquistas e perdas, de ânimos e desesperos. Creio, aliás, que se não existe um equivalente materno da expressão “matar o pai” é porque a mulher, passando pela experiência de ser mãe, de conceber, desmonta a mecânica do desejo, encarna o sentido da vida e percebe que vale sempre a pena cobrir de amor e gratidão a nudez do sofrimento. Dar à luz é, pois, tirar às trevas, é salvar. Libertarmo-nos dos nossos desejos, aceitarmos plenamente o que nos oferece a experiência de existir, é dar à luz em cada instante. É darmo-nos à luz.
(ilustração de Adão Cruz)

Nada expressa com a eloquência do desejo os limites do pensamento, como nada expressa com a eloquência do filho os limites do pai. O desejo nasce atado às expectativas de quem o criou, não podendo o abrir dos seus olhos dar-lhe a ver a liberdade essencial que o constitui. O meu pensamento formula um desejo e atem-se a ele, à sua sorte, prende-se a algo que lhe escapa, a uma magia cujo truque desconhece, ficando a glória ou a revolta do pensador suspensas do cumprimento ou da frustração desse desejo. Até que o pensamento se dilua ele próprio no céu da vida, muitos desejos partirão para lá como seus enviados, não causando surpresa que uns lá não cheguem e outros de lá não voltem. É preciso crer para ver, e crer mais não é do que viver. Crer é amar. O desejo representa a incapacidade, o medo de crescer, a recusa em abrir os olhos da alma. Daí que a expressão “matar o pai” adquira tanto significado na psicologia: matar o pai é justamente matar o desejo a que cada filho nasce agarrado.
Então, se em vida todos somos filhos e pais, por que haveria o pensamento de dispensar essa ruptura? E o que acontece quando o pensamento se livra do desejo que o agrilhoa? Ele voa consciente de si mesmo, ele plana e bate as asas consoante a eternidade, pois tudo se compacta para ele em cada momento, fazendo dele mesmo esse tudo, mostrando-lhe que ele é tudo e tudo pode, incluindo deixar de o ser. E ele deixa, claro. Ele deixa até que novo e novos voos o enraízem à liberdade, até que o amor de pensar em cada um afague no seu colo o medo do que cada um pensa de si, como uma mãe recebe, extenuada e feliz, o recém-nascido que tanto lhe custou dar à luz, depois de arranques e recuos, de conquistas e perdas, de ânimos e desesperos. Creio, aliás, que se não existe um equivalente materno da expressão “matar o pai” é porque a mulher, passando pela experiência de ser mãe, de conceber, desmonta a mecânica do desejo, encarna o sentido da vida e percebe que vale sempre a pena cobrir de amor e gratidão a nudez do sofrimento. Dar à luz é, pois, tirar às trevas, é salvar. Libertarmo-nos dos nossos desejos, aceitarmos plenamente o que nos oferece a experiência de existir, é dar à luz em cada instante. É darmo-nos à luz.
(ilustração de Adão Cruz)
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Outras Gaivotas
Augusta Clara de Matos
Nunca me hei-de esquecer daquele passeio no mar do Algarve.
Fui eu que desafiei o Jorge para irmos mar adentro. Eu adoro o mar, ele também e tinha um pneumático a remos e um espírito temerário que não me é nada estranho.
Afastámo-nos da praia mas quem remava era ele porque eu, mal pegava nos remos, entrava em pião. O Jorge, ainda, se encheu de paciência mas, ao fim de cinco minutos a andar à roda, achou que era tempo de continuarmos o caminho. E lá fomos com ele aos comandos, aos remos.
As gaivotas, bem no cimo da falésia, olhavam-nos espantadíssimas e com um ar ameaçador de quem não está para tolerar semelhantes desmandos no seu território.
As gaivotas do Algarve não são como as de Lisboa, como as do Tejo. São ferozes. Olham-nos como intrusos: “Fora daqui!”. Mas que importância tinham? Estavam lá tão alto!
O mar era um deleite, uma calmaria. Aquela sensação de deslizar rente ao azul, mão de fora, mão molhada, alheia a tudo que não a imensidão sem fim em toda a volta. Tudo era azul, menos as ferozes gaivotas. Mas, ao fim de algum tempo, ficaram para trás.
Passava um ou outro barco e voltava-se ao silêncio, ao leve marulhar da água. Não havia vento, não havia ondas.
A minha cabeça ardia, esquecera-me do chapéu, mas a alma gozava as delícias do Polo Norte. Quanto tempo tinha passado desde que saíramos da praia? Quem se importava com isso? Vogávamos num pneumático como quem vai para a América. E não se chega à América dum dia para o outro.
Começaram a aparecer as grutas. Beleza tamanha! Refúgios de areia apenas iluminados de sol pelos feixes certeiros às aberturas da erosão. Grutas grandes, grutas pequenas. Grutas encantadas!
Deslizávamos felizes, ao sol, à sombra das grutas, rumo a outro continente.
Mas não há bem que sempre dure.
Tanto encantamento atirou-nos contra uma rocha e o barco ficou com um buraco, minúsculo, invisível mas por onde o ar se começou a escapar.
A que distância estávamos donde tínhamos partido? Sabíamos lá! O tempo fora-se, hora e meia, e a mansidão da água também.
As ondas subiam e desciam e nós só tínhamos um barco furado para voltar. O vento aliara-se ao mar e tornara-se nosso inimigo.
Não tínhamos outro remédio senão fazermo-nos ao caminho. A água dentro do barco ainda era pouca e tentaríamos pedir ajuda. Passaram alguns barcos a motor de regresso a terra. Mas iam cheios de turistas e pouco nos ligaram.
Continuámos heroicamente contra o vento, contra as ondas. Tínhamos que chegar, custasse o que custasse.
Um transatlântico passou por nós, míseras formigas ensopadas com a alegria perdida. Só já queríamos chegar vivos.
E as gaivotas, lá do alto, olharam de novo para nós, desdenhosas, arrogantes:”Bem feita! Agora arranjem-se!”. Com aquelas cabecinhas tortas, a mirarem-nos só com um olhinho e a lembrarem-me os pássaros do Hitchcock.
Não me lembro que alma caridosa nos atirou uma corda. Só me recordo de ter chegado à praia dentro duma banheira.
Vinha feliz, apesar de tudo, mas, ao desembarcar, olhando para as expressões dos rostos dos restantes elementos do nosso grupo, à espera sentados na areia, fiquei com a certeza de que nos teriam acolhido melhor se tivessemos morrido afogados.
Nunca me hei-de esquecer daquele passeio no mar do Algarve.
Fui eu que desafiei o Jorge para irmos mar adentro. Eu adoro o mar, ele também e tinha um pneumático a remos e um espírito temerário que não me é nada estranho.
Afastámo-nos da praia mas quem remava era ele porque eu, mal pegava nos remos, entrava em pião. O Jorge, ainda, se encheu de paciência mas, ao fim de cinco minutos a andar à roda, achou que era tempo de continuarmos o caminho. E lá fomos com ele aos comandos, aos remos.
As gaivotas, bem no cimo da falésia, olhavam-nos espantadíssimas e com um ar ameaçador de quem não está para tolerar semelhantes desmandos no seu território.
As gaivotas do Algarve não são como as de Lisboa, como as do Tejo. São ferozes. Olham-nos como intrusos: “Fora daqui!”. Mas que importância tinham? Estavam lá tão alto!
O mar era um deleite, uma calmaria. Aquela sensação de deslizar rente ao azul, mão de fora, mão molhada, alheia a tudo que não a imensidão sem fim em toda a volta. Tudo era azul, menos as ferozes gaivotas. Mas, ao fim de algum tempo, ficaram para trás.
Passava um ou outro barco e voltava-se ao silêncio, ao leve marulhar da água. Não havia vento, não havia ondas.
A minha cabeça ardia, esquecera-me do chapéu, mas a alma gozava as delícias do Polo Norte. Quanto tempo tinha passado desde que saíramos da praia? Quem se importava com isso? Vogávamos num pneumático como quem vai para a América. E não se chega à América dum dia para o outro.
Começaram a aparecer as grutas. Beleza tamanha! Refúgios de areia apenas iluminados de sol pelos feixes certeiros às aberturas da erosão. Grutas grandes, grutas pequenas. Grutas encantadas!
Deslizávamos felizes, ao sol, à sombra das grutas, rumo a outro continente.
Mas não há bem que sempre dure.
Tanto encantamento atirou-nos contra uma rocha e o barco ficou com um buraco, minúsculo, invisível mas por onde o ar se começou a escapar.
A que distância estávamos donde tínhamos partido? Sabíamos lá! O tempo fora-se, hora e meia, e a mansidão da água também.
As ondas subiam e desciam e nós só tínhamos um barco furado para voltar. O vento aliara-se ao mar e tornara-se nosso inimigo.
Não tínhamos outro remédio senão fazermo-nos ao caminho. A água dentro do barco ainda era pouca e tentaríamos pedir ajuda. Passaram alguns barcos a motor de regresso a terra. Mas iam cheios de turistas e pouco nos ligaram.
Continuámos heroicamente contra o vento, contra as ondas. Tínhamos que chegar, custasse o que custasse.
Um transatlântico passou por nós, míseras formigas ensopadas com a alegria perdida. Só já queríamos chegar vivos.
E as gaivotas, lá do alto, olharam de novo para nós, desdenhosas, arrogantes:”Bem feita! Agora arranjem-se!”. Com aquelas cabecinhas tortas, a mirarem-nos só com um olhinho e a lembrarem-me os pássaros do Hitchcock.
Não me lembro que alma caridosa nos atirou uma corda. Só me recordo de ter chegado à praia dentro duma banheira.
Vinha feliz, apesar de tudo, mas, ao desembarcar, olhando para as expressões dos rostos dos restantes elementos do nosso grupo, à espera sentados na areia, fiquei com a certeza de que nos teriam acolhido melhor se tivessemos morrido afogados.
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Um caso.
Carlos Mesquita
Chamemos-lhe Carlos, nascido em Vinhais, que é verdade.
Parece-me que o conheço desde sempre, mas parte contou-me ele; como ser filho do barbeiro da terra e ir à escola de almoço composto de pão com banha. Somos da mesma idade, da mesma região, cruzámos vidas na Lisboa para onde emigrámos; eu trazido pelo meu pai ele pelos irmãos mais velhos. Num ano dos oitentas que não recordo, fui buscá-lo a uma grande empresa para chefiar o meu fabrico, tinha sido colega do meu sócio que lhe conhecia as aptidões. Sabia fazer, sabia ensinar, um chefe (líder como agora se diz).
A minha empresa crescia, entrava equipamento, admitia-se pessoal. A triagem era feita por mim. Apareceu-me um jovem do Cacém que dizia ter experiência no ofício, ter andado por maus caminhos e querer deixar o Casal Ventoso. Para isso precisava de trabalhar, ter uma oportunidade. Chamei o Carlos e na presença do candidato disse-lhe que o tipo dizia ter muita vontade mas tinha de se ver se ele prestava, com igual frieza o Carlos pôs cara de chefe e interrogou-o sobre onde tinha trabalhado, com que equipamentos, e com quem, explicou-lhe que ali era para bulir no duro. Depois do interrogatório e das respostas, o Carlos sentenciou que se eu estivesse de acordo podia entrar no dia seguinte à experiência, uma hora antes dos outros para conversar com ele. Combinado, o jovem saiu muito agradecido. Eu só disse; - o meu sócio ainda me vai lixar a cabeça. Era um pensamento e saiu voz. O Carlos respondeu – não se preocupe eu trato do puto. O meu sócio não teve coragem de me dizer nada, embora me tenham dito que ele se queixava de ter um sócio maluco que empregou um toxicodependente. O Carlos adoptou-o, disse-me que ele era bom e sabia da arte, tinha só aquele problemazinho mas ele tratava do assunto. Passou a fazer um desvio para o levar a casa, não fosse ele “enganar-se no comboio e ir para Campolide em vez de para o Cacém” (a empresa era junto da estação de Queluz) e de vez em quando dizia-me que era preciso arranjar umas horas para ele fazer, e assim esquecer as companhias. A mãe do jovem passou a telefonar regularmente para o Carlos, dizia-lhe que o pai já há muito tinha desistido do filho, que ele o considerava o maior amigo; contava em casa que os verdadeiros amigos estavam no trabalho e não no Casal Ventoso. Mais tarde esse novo empregado já estabilizado na empresa pediu-me uns dias para ir fazer uma desintoxicação a Coimbra, obviamente concedi-lhos. Quando voltou perguntei-lhe como tinha corrido, disse-me apenas e triste, – foi muito difícil. Fiquei com a ideia de ter sido um fiasco. Pouco depois feriu-se numa mão num calcador da máquina e “foi para o seguro”. Nunca mais o vimos, soubemos que durante a baixa voltou ao Casal Ventoso, onde finou com uma overdose. A mãe fez um último telefonema a agradecer tudo o que tínhamos feito, o Carlos lamentava-se: - Mesquita se o puto não se tem aleijado nós ainda o safávamos. Não sei.
O Carlos foi para outra empresa, deram-lhe uma quota. Não lhe disseram que estavam falidos; veio a arcar com as responsabilidades da insolvência, os sócios foram saindo, restou um que se reformou e desapareceu.
Criou outra empresa, pequena. Tenho-lhe dado algum trabalho, do pouco que tenho para a sua dimensão. Hoje de manhã visitei-o estava ao telefone dizendo que só vendia as máquinas em conjunto, espera pagar as dívidas com esse dinheiro, não há trabalho. Com a idade que tem resta-lhe a reforma antecipada, acabou. Mais um.
Chamemos-lhe Carlos, nascido em Vinhais, que é verdade.
Parece-me que o conheço desde sempre, mas parte contou-me ele; como ser filho do barbeiro da terra e ir à escola de almoço composto de pão com banha. Somos da mesma idade, da mesma região, cruzámos vidas na Lisboa para onde emigrámos; eu trazido pelo meu pai ele pelos irmãos mais velhos. Num ano dos oitentas que não recordo, fui buscá-lo a uma grande empresa para chefiar o meu fabrico, tinha sido colega do meu sócio que lhe conhecia as aptidões. Sabia fazer, sabia ensinar, um chefe (líder como agora se diz).
A minha empresa crescia, entrava equipamento, admitia-se pessoal. A triagem era feita por mim. Apareceu-me um jovem do Cacém que dizia ter experiência no ofício, ter andado por maus caminhos e querer deixar o Casal Ventoso. Para isso precisava de trabalhar, ter uma oportunidade. Chamei o Carlos e na presença do candidato disse-lhe que o tipo dizia ter muita vontade mas tinha de se ver se ele prestava, com igual frieza o Carlos pôs cara de chefe e interrogou-o sobre onde tinha trabalhado, com que equipamentos, e com quem, explicou-lhe que ali era para bulir no duro. Depois do interrogatório e das respostas, o Carlos sentenciou que se eu estivesse de acordo podia entrar no dia seguinte à experiência, uma hora antes dos outros para conversar com ele. Combinado, o jovem saiu muito agradecido. Eu só disse; - o meu sócio ainda me vai lixar a cabeça. Era um pensamento e saiu voz. O Carlos respondeu – não se preocupe eu trato do puto. O meu sócio não teve coragem de me dizer nada, embora me tenham dito que ele se queixava de ter um sócio maluco que empregou um toxicodependente. O Carlos adoptou-o, disse-me que ele era bom e sabia da arte, tinha só aquele problemazinho mas ele tratava do assunto. Passou a fazer um desvio para o levar a casa, não fosse ele “enganar-se no comboio e ir para Campolide em vez de para o Cacém” (a empresa era junto da estação de Queluz) e de vez em quando dizia-me que era preciso arranjar umas horas para ele fazer, e assim esquecer as companhias. A mãe do jovem passou a telefonar regularmente para o Carlos, dizia-lhe que o pai já há muito tinha desistido do filho, que ele o considerava o maior amigo; contava em casa que os verdadeiros amigos estavam no trabalho e não no Casal Ventoso. Mais tarde esse novo empregado já estabilizado na empresa pediu-me uns dias para ir fazer uma desintoxicação a Coimbra, obviamente concedi-lhos. Quando voltou perguntei-lhe como tinha corrido, disse-me apenas e triste, – foi muito difícil. Fiquei com a ideia de ter sido um fiasco. Pouco depois feriu-se numa mão num calcador da máquina e “foi para o seguro”. Nunca mais o vimos, soubemos que durante a baixa voltou ao Casal Ventoso, onde finou com uma overdose. A mãe fez um último telefonema a agradecer tudo o que tínhamos feito, o Carlos lamentava-se: - Mesquita se o puto não se tem aleijado nós ainda o safávamos. Não sei.
O Carlos foi para outra empresa, deram-lhe uma quota. Não lhe disseram que estavam falidos; veio a arcar com as responsabilidades da insolvência, os sócios foram saindo, restou um que se reformou e desapareceu.
Criou outra empresa, pequena. Tenho-lhe dado algum trabalho, do pouco que tenho para a sua dimensão. Hoje de manhã visitei-o estava ao telefone dizendo que só vendia as máquinas em conjunto, espera pagar as dívidas com esse dinheiro, não há trabalho. Com a idade que tem resta-lhe a reforma antecipada, acabou. Mais um.
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