João dos Santos (1913-1987) **
(texto enviado por Clara Castilho)
Há dias e há noites em que a solidão custa mais. A noite do Natal é uma daquelas em que as pessoas suportam mal o isolamento. De muitos ouvi contar ou li contadas, histórias tristes do Natal passado longe da família, na emigração, em viagem, na guerra ou no hospital. Também eu tenho uma história dessas para contar, mas a minha é só meia triste, porque o Menino Jesus me fez uma partida engraçada. Foi em 1946. No fim de 1945 tinha eu participado na famosa reunião de (Os 300 do Benformoso» para pedir «eleições livres). Já não era sem tempo! Por essa e por outras chamaram-me, e ao meu chefe Barahona Fernandes, ao gabinete de Sua Excelência, para nos comunicarem que o Senhor Fulano de Tal (que era eu), não só era demitido das suas funções oficiais, como ficava proibido de entrar naquele ou em qualquer outro hospital. Mestre Barahona indignou-se, teceu-me um exagerado elogio (sobre o que eu teria feito pelo Hospital) e declarou que não tomava conhecimento daquela proibição: «Enquanto eu for director, o Dr. João dos Santos entrará no meu serviço quando quiser!» ... «Toma», disse eu cá para mim, «escusavas de ouvir esta)) mas declarei logo ali, para evitar dissabores ao meu mestre e amigo que não entraria mais naquela casa. 
