O Pai Natal e a bruxa malvada
Ana Sofia (10 ano)
Era uma vez um Pai Natal que trazia um saco cheio de prendas para os meninos. Mas, de repente, houve uma prenda que caiu do saco, sem ele dar por isso.
Uma bruxa ia a passar e encontrou a prenda no chão. Em vez de ir entregá-la ao Pai Natal, ficou com ela para a pôr na sua árvore de Natal.
No dia de Natal houve um menino que ficou sem prenda e começou a chorar. O Pai Natal disse-lhe:
- Não chores, meu menino, que eu arranjo-te outra prenda igual à que era para ti !
Então o Pai Natal foi a casa da bruxa e perguntou-lhe: - Oh bruxa, tu viste alguma prenda perdida ?
A bruxa disse que não. O Pai Natal, que não sabia que ela estava a mentir, mandou os seus amigos anões fazerem uma prenda igual e levou-a ao menino que ficou todo contente.
Mas o Pai Natal voltou à casa da bruxa e viu a prenda que ela tinha roubado. E disse-lhe:
-Oh sua grandessíssima malvada, além de ladra és mentirosa !
E castigou-a ! Bateu-lhe com um pau no rabo e nunca mais lhe deu prendas .
Aldeia feliz
Fernando
(11 anos)
Era uma vez numa aldeia muito longe de Lisboa, lá para o Norte.
Era uma aldeia muito feliz. As pessoas eram amigas.
Chegou o Natal e todos fizeram uma grande festa. O Pai Natal deu presentes a todos.
Mas havia uma casa onde viviam dois meninos que eram irmãos e o Pai Natal não viu a casa deles. Eram muito pobres !...
Mas apareceu uma velhinha que teve pena deles e deu-lhes as prendas que o Pai Natal lhe tinha dado...
E a velhinha ficou a tomar conta deles como se fosse a “mãe”. Depois apareceu um anjo e disse:
- Fizeste bem, velhinha !
E aqueles meninos ficaram contentes porque tinham uma mãe.
POEMA RAP DE NATAL
O Natal está a chegar
E nós estamos a pensar
Como vamos começar...
Vamos pensar !...(R.)
Nos presentes que gostávamos de receber:
Carros, (R.B.)
Umas botas, (S.)
Pistolas de brincar, (D.)
Um perfume. (I.)
E o que vamos desejar: (T.)
Que as pessoas sejam felizes; (D.)
Que os pobres tenham um bom Natal e uma casa para viver;
Que as crianças que não têm mãe nem pai encontrem os seus pais;
Ou alguém para as ajudar a ter Natal; (P.)
Festa de anos
Amigos
Escola
Casa
Companhia... (R.)
Porque é que há guerras ? (D.)
Porque as pessoas são más e querem destruir.
Se calhar quando eram pequenas fizeram-lhes mal e agora, querem-se
Vingar !... (N.)
As guerras têm que acabar senão o mundo vai pelo ar !
Nós podemos brincar às guerras, mas é a fingir e sem aleijar ! (T.)
Acabem com a violência !
Deixem os animais em paz !
Queremos o mundo limpo,
Um mundo com saúde (S.)
Um mundo divertido,
Um mundo com amigos,
Com pessoas boas (I.)
Queremos um mundo com amor ! (Todos)
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
O Pecado de Saber Demais (II)
(Continuação)
João dos Santos(1913-1987) **
(Enviado por Clara Castilho)
J.S.M - Mas os adultos sentem uma coisa muito semelhante. Também para eles o ritual da comida e dos presentes tem em geral uma enorme importância.
J.S. - Pois, nesse aspecto da intimidade, o que caracteriza o adulto, é a criança que existe dentro dele, exceptuando certas pessoas que se rigidificaram muito, que se estupidificaram às vezes também, ou que se tornaram caracteriais. O carácter é um conjunto de traços ou de comportamentos fixos que revela uma pragmática a que a pessoa se adaptou para depois conseguir, através disso, eliminar a sua ansie¬dade. Há duas formas principais de ser, uma é a pessoa ansiosa, que é a mais pró¬xima daquilo a que se chama neurose, a pessoa que sente ansiedade em face das coisas, e há o arranjo que as pessoas dão à sua ansiedade transformando-a em com¬portamento caracterial. Por exemplo, um tipo vai comprar uma agenda para escrever tudo o que tem a fazer em cada dia. Isso pode ser uma forma caracterial normal de evitar a angústia das surpresas.
J.S.M. - E donde é que vem a euforia do Natal, vivida tão intensamente tanto por crianças como por adultos? Há uma espécie de alucinação colectiva que dura uns dias em que parece que as pessoas andam todas a contar a si próprias uma história fabulosa em que não podem acreditar...
J.S. - ……que é sempre a história da desculpabilização. A festa do Natal é descul¬pabilizante por natureza, por aquilo que nós já falámos. Somos absolvidos e toda a gente é tolerante para com os adultos. O Menino Jesus é mais que tolerante, é passivo, é generoso, e as crianças identificam-se com Ele, ou se não se identificam, fazem um esforço nesse sentido, o que já é também desculpabilizante.
J.S.M. - É estranho que essa lenda seja única. Não conheço nenhuma parecida.
J.S. - Realmente não me recordo de ter lido ou ouvido qualquer outra história com tal relevo, mas de facto é uma história que não me surpreende. Reflectindo sobre ela, parece-me que era inevitável que fosse inventada.
J.S.M. - O êxito extraordinário da lenda do Natal virá então de podermos, todos, alimentar a ilusão inconsciente, ao menos por alguns dias, de que o nosso pai e a nossa mãe não estiveram juntos, que não se passou nada entre eles, que afinal não é preciso evocar nenhuma daquelas emoções terríveis que cada criança viveu acerca da vida íntima dos adultos; o sabermos que na história do Natal, em que cada um de nós conta à sua maneira a sua própria história familiar, em que cada um de nós projecta a história idealizada do seu próprio romance familiar, a história do seu nas¬cimento, a história das suas relações com a sua mãe e com o seu pai, a história das relações que os seus pais têm entre eles, e a história, afinal, da sua própria inocência, da sua própria ignorância inocente - o sabermos que nessa história pessoal e íntima que cada um conta à sua maneira não há, afinal, segredo nenhum, não existe mal, nem pecado, nem a ameaça da condenação? Será por isso que a história do Natal tem o sucesso que tem? Assim não temos que enfrentar a culpabilidade inerente a um conhecimento pecaminoso porque não há, afinal, nada de terrível para conhecer. Assim cada pessoa revive nessa lenda desejos secretos de uma enorme importância, revive, digamos, a história da sua própria inocência perdida, agora magicamente recu¬perada?
J.S. - Exactamente.
Pois a educação, como os mitos, como as religiões, como a realidade que nós sabe¬mos existir fora de nós, são suportes para as coisas boas e más que inventamos dentro de nós, sobretudo na infância. Portanto a história do Menino Jesus enquadra-se per¬feitamente naquela parte da criança que quer promover a idealização dos pais e pro¬clamar a inocência do menino, que por ser menino e ser deus não o culpa de nada.
Cada pessoa serve-se do que está à sua volta como suporte da realidade que lhe convém mais, e é por isso que a gente fala uns com os outros, é por isso que há diálogo, porque se as coisas fossem como vêm nos dicionários, como eu dizia no outro dia, cada pessoa andava com um dicionário debaixo do braço e não precisava de dia¬logar.
J.S.M. - É engraçado... É como se toda a gente, numa dada altura da vida, se contasse a si própria, em segredo, aquela mesma história, porque toda a gente sonha, sem o saber, com a possibilidade daquilo ser verdade...
J.S. - Mesmo que não se fale nisso...
J.S.M. - Exactamente...
J.S. ...está implícito.
J.S.M. - E toda a gente inventa para si própria, secretamente, uma história assim, sem nunca ter, se calhar, a mínima consciência disso, até que um dia encontra essa história fora de si, dá-lhe uma objectividade aceitável e mete-se a si próprio dentro da história com a maior candura. E como se tivesse ido ao cinema ou se estivesse a ler um romance entusiasmante e se identificasse com o herói da história. Realmente o Menino Jesus é uma espécie de herói duma história que toda a gente se conta, em segredo, sem o saber.
* SANTOS, J., Monteiro, J.S. (1988 b)) - “Se não sabe, porque é que pergunta?”. Lisboa: Assírio e Alvim.
**Psicamalista e Pedopsiquiatra, reformulador dos serviços de saúde mental infantil na década de 60 (ver http://www.casadapraia.org.pt/)
Desenho de uma criança do centro Doutor João dos Santos_______________
domingo, 19 de dezembro de 2010
O pecado de saber demais * (I)
(Enviado por Clara Castilho)João dos Santos - Uma vez, era secretário de um congresso internacional de Psicanálise que houve aqui em Lisboa, já há muito anos, e veio um jornalista ter comigo e perguntou¬-me inesperadamente, à entrada para uma sessão, o que era para mim a Psicanálise. E eu saí-me com esta: a Psicanálise é a arte de reconciliar as pessoas com a sua infân¬cia. Hoje digo o mesmo, mas acrescento que é também a arte de fazer com que as pessoas recuperem a sua infância. O que acontece neste poema é que há uma parte própria do Pessoa que dá uma imagem severa, agreste, do céu e de Deus e de outras figuras desse imaginário, e há outra parte dele que idealiza o Menino Jesus como um menino muito humano. Uma coisa não é incompatível com a outra, todos nós fazemos isso, porque uma coisa é a verdade das ideias e outra é a verdade dos senti¬mentos. E desta última que falam o povo e os poetas. (Julgo que o culto do Espírito Santo tem também que ver com isso.) E muito fácil para nós dizer que o pai era casado com a mãe, que há uma célula masculina e uma célula feminina, e tudo o resto que vem nos manuais. Dizer isso é fácil. O problema é que a criança não pode aceitar emocionalmente que as coisas sejam realmente assim. Temos todos necessi¬dade de esconder de nós próprios a emoção que tivemos ao saber que alguma coisa de íntimo, de particular, de secreto se passou com os nossos pais. Isso acontece com toda a gente, até com o professor catedrático de sexologia duma universidade que fosse imaginariamente a melhor do mundo.
sábado, 18 de dezembro de 2010
Sublimação e idealização *
João dos Santos (1913-1987) **
(Texto enviado por Clara Castilho)
Será isto uma «Recordação encobridora» ou enganadora? Freud designou assim uma recordação intensamente vivida, per¬sistentemente retida e muito nitidamente consciente. Trata-se, explica Freud, de uma recordação infantil inocente quanto ao que aparece como manifesto (“Conteúdo manifesto”) mas que esconde um “Conteúdo latente”), muito rico de fantasias sexuais recalcadas. Acontece neste caso como acontece nos sonhos que, acontecimentos vividos na realidade presente, servem, para de certa forma, cobrir motivos «inconfessáveis» anteriores, produ-tores de excitação e ansiedade. Difere aparentemente dos sonhos porque uma vez formada, a «Recordação encobridora» vai sendo retocada com novos detalhes que se relacionam com a emoção e o tema inicialmente reprimido.
Na verdade os sonhos têm ape¬nas mais dinamismo, porque, o tema é sonhado e ressonhado, até se dar ao assunto uma solução não só sonhável como até confessável, quando o contamos aos outros. Costumo dizer aos meus alunos depois de uma prelecção deste género: «não vão acre¬ditar no que eu digo, isto é apenas matéria para reflectir e para conversar». Neste momento, eu diria melhor, aos meus leitores: Não acreditem em histórias verdadeiras... as autênticas são fal¬sas. As histórias verdadeiras são as da ingénua «Carochinha» e do mal-intencionado João Ratão; as do lobo mau escondido sob as roupagens de uma avozinha de “Capuchinho Vermelho” e a da curiosa e maliciosa “Alice no País das Maravilhas”. Porém a mais autêntica e aliciante de todas as histórias, é ainda, a do nascimento do Menino Jesus, porque é aquela que nos serve a todos e para toda a vida.
Ela nos ajuda a purificar a mãe e a idealizar o pai. O drama básico de cada um de nós, é o de termos descoberto tudo, antes da entrada para a escola e de só depois descobrirmos, que os meninos da escala sabem as coisas doutra maneira. A mim creio, o Carlos da Travessa foi, que me ensinou, logo no primeiro dia, um gesto interessante; quando o reproduzi em casa, o meu pai achou que, embora engraçado, poderia ser tomada pela professora como arrogante, o que eu não entendi mas passei adiante. Com os meus primos tinha já recebido certas noções elementares e participado em jogos recatados visando o desvendar do mistério do nascimento dos bebés. As noções mais elaboradas tinham-me sido no entanto fornecidas, através das histórias tradicionais que a tia Aurora me contava, das filhós e festas sagradas e das histórias santas da tia Virgínia.
Na minha família a pessoa mais versada em Catecismo era a tia Virgínia, a do lado do meu pai (que a outra era livre-pen¬sadora). Contou-me tudo muito bem, sobre o Menino Jesus. Recordo-me porém, de não ter conseguido entender porque é que aquele Menino tinha ficado bebé para sempre. Creio que a minha tia, como outros devotos, separava o culto de Jesus Cristo do culto do Menino Jesus e eu provavelmente admirava-me de ver que a imagem do Menino se não modificasse de ano para ano, enquanto que eu me sentia crescer. Achava tudo enterne¬cedor mas ficava talvez confuso e triste, a pensar que passada a festa natalícia, a história do Menino era relegada para segundo plano. Hoje compreendo, depois de ter lido muito nos livros e nas pessoas, que na criança, o que mais agrada às pessoas crescidas é a sua inocência. Quando os bebés crescem e começam a explicar-se, os adultos são forçados a reconhecer, sem o cons-ciencializarem, que nas crianças se pode projectar toda a malícia e não só, na agressividade de alguns que se incomodam com a presença das crianças, como até naqueles que contam e escrevem histórias aparentemente inocentes como acontece segundo alguns comentadores na própria “Alice no País das Maravilhas”.
O Natal é a festa que na meninice mais nos alicia, porque se inspira na história do nascimento mitificado de uma criança e porque toda a família se reúne e se comem guloseimas. Mais importante, porém, são os presentes que, na presença de todos e com muitos doces, se recebem como prémio da nossa inocência de meninos, melhor dito, da nossa suposta ignorância acerca da forma como se geram e aparecem os bebés. Que as explicações da criança são diferentes da dos adultos, é evidente; mas quanto à ignorância, ela é apenas a ilusão retrospectiva do adulto, projectada sobre as crianças que estão à sua guarda.
A figuração natalícia surge em cada casa ou em cada país, de formas diferentes mas sempre sublimadas. Na figuração do presépio há as minúsculas figuras que o compõem e que, em certo sentido, se pode comparar à «Recordação encobridora»: um acontecimento cristalizado num bonito quadro. A árvore do Natal é prenhe de frutos radiosos, apetecíveis e em geral intocáveis, porque apenas celebram um nascimento e anunciam os presentes. O pai Natal de uma tradição nórdica -a de S. Nicolau - é o avozinho cuja malícia ingénua e a bondade infinita, representa a outra face do pai ameaçador face aos pecados dos filhos.
O meu amigo Emílio, que trabalha no mesmo campo que eu, acha que algumas pessoas ficam tristes depois de passadas as festas natalícias, e atribui o facto à realidade com que as pes¬soas se confrontam de novo, depois de terem mergulhado por um tempo, no banho da sua inocência infantil. Um outro compa¬nheiro de trabalho, o João, acha que isso acontece porque as pessoas grandes e pequenas, se procuram ver, narcisicamente, no Menino Jesus, da sua própria infância. Este desejo é bastante meritório e todos nós somos mais ou menos religiosos - todos nós sofremos do que Freud designou por “amnésia infantil”, isto é, da necessidade de tudo esquecer, depois de tudo terdes des¬coberto. Aos 5 anos uma criança conhece à sua maneira e de acordo com a sua filosofia própria, todos os mistérios da vida dos adultos. Aos 7 esquece tudo, com a ajuda de conhecimentos supostamente objectivos que os companheiros, em termos esca¬brosos, ou os professores em termos científicos lhe administram. Mas se tudo se pode teoricamente e objectivamente saber acerca dos pais que fazem amor e que fazem bebés, nada pode ser evo¬cado das emoções profundas que nos abalaram quando as des¬cobertas foram feitas, quer dizer, antes de serem faladas. Nesse sentido todos temos necessidade de guardar a nossa inocência e ignorância infantis. Mesmo o catedrático de sexologia.
Em psicanálise infantil usam-se por vezes - e até certa idade - os brinquedos de presépio ou equivalentes. As crianças em terapia brincam com figuras de presépio de maneira extraor¬dinariamente dinâmica, e de tal forma, que, de facto, o presépio nunca chega a sê-lo. O Retábulo, painel de altar ou Recorda¬ção encobridora é constantemente desenvolvido e reparado num jogo em que o Eu da criança, parece procurar modelos para uma nova e mais sólida estrutura psíquica; é idêntico ao que acontece nos sonhos que nos permitem até abordar em conversa, terríveis histórias inventadas ou realizadas. A criança realiza com a figu¬ração do presépio a vida da família nos aspectos panorâmicos e convencionais que encobrem o grande melindre do mistério da intimidade dos pais. As flores e árvores com frutos desenhados pelas crianças em situação terapêutica, são muito sugestivas da pureza do corpo da mãe e da curiosidade que impendem sobre frutos do seu ventre. O Avô Natal, o pai que renunciou à sua atitude punitiva e competitiva, a boa imagem parental, aparece sob roupagens diversas nas concepções infantis.
As histórias para crianças, como os mitos antigos, servem para ajudar as pessoas a vencer certos medos que se ligam aos misté¬rios insondáveis da vida e da morte. Mas, as histórias para crian¬ças são como a intimidade dos pais, de um grande melindre para serem contadas por toda a gente.
Proponho à vossa reflexão o seguinte:
Há pessoas que são capazes de fazer histórias para crianças. Há pessoas que são capazes de contar histórias às crianças. Não é a mesma coisa criar para as crianças e falar às crianças. Há pessoas que não podem falar às crianças porque não as sabem ouvir (as que têm na sua frente e as que têm dentro de si). Saber fazer histórias para crianças e saber contar histórias às crianças, tema fundamentalmente numa meditação de Natal.
Cada um fabrica inevitavelmente «Recordações encobrido¬ras», mitos e histórias para se contar.
A história do nascimento do Menino Jesus é a mais bela história que cada um se pode contar.
___________________________….
Lisboa, Dezembro de 1980
*Publicado no Jornal das Letras, Dez, 1980 e em “Ensaios de educação II”- Livros Horizonte, 1991 – p. 199-200.
**Psicamalista e Pedopsiquiatra, reformulador dos serviços de saúde mental infantil na década de 60 (ver www.casadapraia.org.pt)
O desenho foi feito por uma criança do Centro Doutor João dos Santos.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Porque é que as pessoas gostam (ou não) da história do Menino Jesus.
João dos Santos (1913-1987) **
(texto enviado por Clara Castilho)
Há dias e há noites em que a solidão custa mais. A noite do Natal é uma daquelas em que as pessoas suportam mal o isolamento. De muitos ouvi contar ou li contadas, histórias tristes do Natal passado longe da família, na emigração, em viagem, na guerra ou no hospital. Também eu tenho uma história dessas para contar, mas a minha é só meia triste, porque o Menino Jesus me fez uma partida engraçada. Foi em 1946. No fim de 1945 tinha eu participado na famosa reunião de (Os 300 do Benformoso» para pedir «eleições livres). Já não era sem tempo! Por essa e por outras chamaram-me, e ao meu chefe Barahona Fernandes, ao gabinete de Sua Excelência, para nos comunicarem que o Senhor Fulano de Tal (que era eu), não só era demitido das suas funções oficiais, como ficava proibido de entrar naquele ou em qualquer outro hospital. Mestre Barahona indignou-se, teceu-me um exagerado elogio (sobre o que eu teria feito pelo Hospital) e declarou que não tomava conhecimento daquela proibição: «Enquanto eu for director, o Dr. João dos Santos entrará no meu serviço quando quiser!» ... «Toma», disse eu cá para mim, «escusavas de ouvir esta)) mas declarei logo ali, para evitar dissabores ao meu mestre e amigo que não entraria mais naquela casa.
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segunda-feira, 21 de junho de 2010
Criança– uma obra em aberto
Uma hora com…. José Saramago
Clara Castilho
Só estive com José Saramago uma vez. Estava preparando o II Encontro do Centro Doutor João dos Santos – a que chamámos “Transições - da 1ª infância à adolescência”e se realizou em Junho de 2000 - e quisemos terminar um dos dias de uma forma mais informal, trazendo alguém, só para “conversar”, naquilo a que demos o nome de “Uma hora com…” (ideia que pegou e hoje vejo em muitos congressos e encontros). E alguém pensou no José Saramago. Não me lembro bem porquê. E lá lhe mandei um email… Ele acedeu a vir, acabei por não perceber a razão. Terá conhecido João dos Santos? Eventualmente. Só quis saber onde e a que horas o queríamos. E lá chegou a horas, sentou-se com aquele ar sério, conversou e foi-se embora. A verdade é que a sala estava cheia, num fim de tarde, bem tarde… A conversa está publicada nas Actas desse Encontro. Dela transcrevo:
…”A verdade é que eu não me preocupo assim tanto com as crianças, por muito chocante que isso possa parecer. Aquilo que me preocupa é o ser humano… A criança é um momento da vida do ser humano. O pinto é um momento da vida da galinha ou do galo, o cachorro é um momento da vida do cão, somos momentos. E além disso, quando é que a criança começa? ….Mas a pessoa é uma só, a criança interessa-me na sua relação com o lugar onde está, com as pessoas com quem vive, de quem é beneficiária, ou de quem é vítima. Essa tendência que passou da criança-mártir à criança-rei, isso é um lugar comum, mas que no fundo corresponde a esta realidade. …. De que crianças estamos a falar? Das desprotegidas…? Há uma altura em que nós não podemos resolver o problema das pessoas, individualmente consideradas, se não dermos uma volta à sociedade em que estamos a viver…. E isto tem uma relação íntima com aquilo que eu disse, quando digo que a criança que eu fui é tão minha hoje, como eu não era dela então, porque eu ainda não tinha crescido. Mas eu conservo essa criança…..”
Quando fui visitar a exposição sobre ele, no Palácio da Ajuda, em Abril de 2008, vi lá um filme, feito a partir de um livro infantil. Mais tarde começou a correr entre emails. Pode ser encontrado no youtube – “a flor mais grande do mundo José Saramago”. Uma outra forma de o recordarmos.
Clara Castilho
Só estive com José Saramago uma vez. Estava preparando o II Encontro do Centro Doutor João dos Santos – a que chamámos “Transições - da 1ª infância à adolescência”e se realizou em Junho de 2000 - e quisemos terminar um dos dias de uma forma mais informal, trazendo alguém, só para “conversar”, naquilo a que demos o nome de “Uma hora com…” (ideia que pegou e hoje vejo em muitos congressos e encontros). E alguém pensou no José Saramago. Não me lembro bem porquê. E lá lhe mandei um email… Ele acedeu a vir, acabei por não perceber a razão. Terá conhecido João dos Santos? Eventualmente. Só quis saber onde e a que horas o queríamos. E lá chegou a horas, sentou-se com aquele ar sério, conversou e foi-se embora. A verdade é que a sala estava cheia, num fim de tarde, bem tarde… A conversa está publicada nas Actas desse Encontro. Dela transcrevo:
…”A verdade é que eu não me preocupo assim tanto com as crianças, por muito chocante que isso possa parecer. Aquilo que me preocupa é o ser humano… A criança é um momento da vida do ser humano. O pinto é um momento da vida da galinha ou do galo, o cachorro é um momento da vida do cão, somos momentos. E além disso, quando é que a criança começa? ….Mas a pessoa é uma só, a criança interessa-me na sua relação com o lugar onde está, com as pessoas com quem vive, de quem é beneficiária, ou de quem é vítima. Essa tendência que passou da criança-mártir à criança-rei, isso é um lugar comum, mas que no fundo corresponde a esta realidade. …. De que crianças estamos a falar? Das desprotegidas…? Há uma altura em que nós não podemos resolver o problema das pessoas, individualmente consideradas, se não dermos uma volta à sociedade em que estamos a viver…. E isto tem uma relação íntima com aquilo que eu disse, quando digo que a criança que eu fui é tão minha hoje, como eu não era dela então, porque eu ainda não tinha crescido. Mas eu conservo essa criança…..”
Quando fui visitar a exposição sobre ele, no Palácio da Ajuda, em Abril de 2008, vi lá um filme, feito a partir de um livro infantil. Mais tarde começou a correr entre emails. Pode ser encontrado no youtube – “a flor mais grande do mundo José Saramago”. Uma outra forma de o recordarmos.
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