Luis Moreira
No blogue o abade de travanca escreve-se a frase da semana: "Mais grave do que aproveitar a pobreza para fazer política, é aproveitar a política para fazer pobreza".
Agora, perante a pobreza que já não se esconde, a palavra de ordem é não falar nela. Nem falar nas organizações da sociedade civil que distribuem refeições quentes ou nas iniciativas como "as sobras" das cantinas e restaurantes. Varrer para baixo do tapete, mais uma vez.
O que se esperava quando equilibrar o déficite corresponde a cortar nos salários, nas pensões, nos subsídios que mesmo sem cortes já não asseguravam uma vida digna? Onde está a reestruturação da administração pública, com o seu cortejo de fundações, comissões, direcções gerais e os ordenados principescos dos gestores das empresas públicas...?
Quando a Educação melhora os seus índices ( aplaude-se, obviamente) defendem-se como sendo resultado das políticas governamentais, quando a pobreza aparece, faz-se de conta que não existe.
Este é o mais recente "slogan", quem falar de pobreza está a fazer política com a pobreza, não falar dela ( a pobreza) não está a fazer política, não senhor . Uma poderosa máquina de esconder, manipular, mentir ...
Ainda as medidas políticas de pobreza pouco fizeram e já se percebeu os terríveis efeitos que vão ter numa sociedade ainda tão carenciada como a nossa, onde dois milhões de pessoas permanecem na pobreza, alguns mesmo trabalhando. Mas o "diapasão" está já a ser utilizado, não há pobreza nenhuma, o bispos não têm razão, a oposição também não, as associações de ajuda humanitária são dependentes do Estado, e assim por diante...
Por isso, minha gente, se virem algum vizinho ou amigo, vender o carro, tirar os filhos do colégio, despedir a mulher a dias, tirar a mãe do lar, já sabem, estamos perante um perigoso comunista, social-democrata ou, até mesmo, um neo-liberal.
Como se a implosão social que já se vê em outros países não chegue cá, os próximos três meses com as medidas a terem o efeito em pleno na vida das pessoas, com a procura interna a decrescer, o desemprego a crescer, a produção de riqueza a cair, só nos faltava mesmo era estarmos proíbidos de nos indignarmos.
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Vagas em lares compradas com donativos.
Carlos Mesquita
Anúncio: tenho sido um blogo-céptico, participarei neste com a satisfação de estar com alguns companheiros que aprecio e conheço há imensos anos. Com eles passei dos tempos mais significativos da minha vida. Estou habituado a escrever mais opinião que crónicas; é o que me proponho fazer aqui, falar do que se passa. Como tenho uma vida profissional atribulada quando há trabalho, e folgada quando não há, se escrever muito é sinal de agravamento da crise económica. Obrigado Carlos Loures.
Ouvi no primeiro dia da visita do Papa, repetir na rádio o que o ministro da presidência Pedro Silva Pereira disse à Agência Ecclesia em Abril, cito. “É muito importante sublinhar que esta visita acontece num momento em que as relações entre o Estado e a Igreja são muito fortes na acção social. Há uma enorme convergência entre o Estado e as Instituições de Solidariedade Social ligadas á Igreja. Um recente estudo da Universidade Católica Portuguesa indicava que aproximadamente 60% das receitas das IPSS ligadas à Igreja vêm do Estado.”Fim de citação. Diz o ministro que as relações entre o Estado laico e a Igreja católica se fortaleceram pagando os contribuintes a maior parte da acção social da Igreja. Acção social que tendo aspectos meritórios é também um veículo de difusão dos interesses da Santa Sé. Bem podia o Papa passar para além da Torre de Belém, pelo Ministério das Finanças; é de lá que saem as novas caravelas a espalhar a Fé.
A ideologia religiosa é facilmente suportável na nossa sociedade, menos tolerável será que haja lares sustentados pelo Estado, sem fins lucrativos como rezam os seus estatutos, que exijam dinheiro para permitir a entrada de idosos. Há lares que vendem as vagas, o método é elementar; afirmam a quem os procura que há quem esteja inscrito aguardando vez e na disposição de dar um donativo à instituição, se o necessitado se mostrar permeável pode iniciar-se o negócio, ou há um preço de tabela, que rondará hoje o mínimo de 5.000 euros, ou entram em leilão regateando valores. Mais grave é que este abuso, que constitui um crime de burla, está generalizado no país. Em qualquer pequena cidade todos sabem quanto custa em dinheiro ou em propriedades ter acesso aos lares da região, é conhecido das autoridades, os responsáveis das instituições sabem que é uma ilegalidade, mas a prática indigna continua sem intervenção judicial que lhe ponha cobro. As instituições ligadas à Igreja, as tais com quem “o Estado tem fortalecido as relações” como as Misericórdias, têm sido acusadas desta actuação vergonhosa, nem o negam. O padre Lino Maia presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade justificou-se há já algum tempo à Lusa, dizendo que “muitas instituições estão a lutar pela sua sobrevivência” e que “vêem-se forçadas a recorrer a esses estratagemas”. Modelar de mais um pináculo da superioridade moral da Igreja, edificante exemplo para a sociedade. Eles sabem, todos sabemos, que são os mais carenciados, sem posses, bens ou família que lhes acuda, que ficam abandonados.
Não eram esses os primeiros destinatários da Acção Social?
Anúncio: tenho sido um blogo-céptico, participarei neste com a satisfação de estar com alguns companheiros que aprecio e conheço há imensos anos. Com eles passei dos tempos mais significativos da minha vida. Estou habituado a escrever mais opinião que crónicas; é o que me proponho fazer aqui, falar do que se passa. Como tenho uma vida profissional atribulada quando há trabalho, e folgada quando não há, se escrever muito é sinal de agravamento da crise económica. Obrigado Carlos Loures.
Ouvi no primeiro dia da visita do Papa, repetir na rádio o que o ministro da presidência Pedro Silva Pereira disse à Agência Ecclesia em Abril, cito. “É muito importante sublinhar que esta visita acontece num momento em que as relações entre o Estado e a Igreja são muito fortes na acção social. Há uma enorme convergência entre o Estado e as Instituições de Solidariedade Social ligadas á Igreja. Um recente estudo da Universidade Católica Portuguesa indicava que aproximadamente 60% das receitas das IPSS ligadas à Igreja vêm do Estado.”Fim de citação. Diz o ministro que as relações entre o Estado laico e a Igreja católica se fortaleceram pagando os contribuintes a maior parte da acção social da Igreja. Acção social que tendo aspectos meritórios é também um veículo de difusão dos interesses da Santa Sé. Bem podia o Papa passar para além da Torre de Belém, pelo Ministério das Finanças; é de lá que saem as novas caravelas a espalhar a Fé.
A ideologia religiosa é facilmente suportável na nossa sociedade, menos tolerável será que haja lares sustentados pelo Estado, sem fins lucrativos como rezam os seus estatutos, que exijam dinheiro para permitir a entrada de idosos. Há lares que vendem as vagas, o método é elementar; afirmam a quem os procura que há quem esteja inscrito aguardando vez e na disposição de dar um donativo à instituição, se o necessitado se mostrar permeável pode iniciar-se o negócio, ou há um preço de tabela, que rondará hoje o mínimo de 5.000 euros, ou entram em leilão regateando valores. Mais grave é que este abuso, que constitui um crime de burla, está generalizado no país. Em qualquer pequena cidade todos sabem quanto custa em dinheiro ou em propriedades ter acesso aos lares da região, é conhecido das autoridades, os responsáveis das instituições sabem que é uma ilegalidade, mas a prática indigna continua sem intervenção judicial que lhe ponha cobro. As instituições ligadas à Igreja, as tais com quem “o Estado tem fortalecido as relações” como as Misericórdias, têm sido acusadas desta actuação vergonhosa, nem o negam. O padre Lino Maia presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade justificou-se há já algum tempo à Lusa, dizendo que “muitas instituições estão a lutar pela sua sobrevivência” e que “vêem-se forçadas a recorrer a esses estratagemas”. Modelar de mais um pináculo da superioridade moral da Igreja, edificante exemplo para a sociedade. Eles sabem, todos sabemos, que são os mais carenciados, sem posses, bens ou família que lhes acuda, que ficam abandonados.
Não eram esses os primeiros destinatários da Acção Social?
Etiquetas:
acção social,
ministério das finanças,
misericórdias,
papa,
santa sé
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