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sábado, 10 de julho de 2010

Memórias de Adriano*

Carlos Loures

O título, embora igual não se inspira no do célebre romance de Marguerite Yourcenar. O Adriano a que aqui me refiro não é o imperador romano, mas sim o Adriano de Carvalho, um jornalista, um grande jornalista e um grande amigo. Ao longo da nossa amizade que, com altos e baixos, se manteve durante quase quatro décadas, muitas são as histórias que poderia contar sobre ele. Hoje vou contar o episódio da sua primeira morte.

Adriano de Carvalho foi, sobretudo nos anos 60, um brilhante jornalista português. O abuso continuado do álcool, o feitio difícil e, talvez, uma incómoda coerência, impediram-no de ter a carreira que merecia ter tido. Quando a maioria dos jornalistas se exprime num português que deve mais às telenovelas do que leitura de clássicos, o Adriano merecia e deveria ter ocupado um lugar entre os melhores da sua profissão. O que não aconteceu

Em Janeiro de 2000, um telefonema do David de Carvalho, um dos filhos do Adriano de Carvalho, informou-me do falecimento do pai. Foi uma notícia triste, mas não uma surpresa. Todos, incluindo o Adriano, sabíamos que a doença era terminal. Visitara-o dias antes - o humor cáustico, a inteligência aguda, estavam intactos. Foram duas agradáveis horas, a recordar episódios e combates, como que a fazer o balanço a uma amizade de quase quarenta anos. Diz o David de Carvalho, a propósito deste encontro e comentando um texto meu sobre seu pai: