Fernando Moreira de Sá
Caros companheiros do Estrolabio, dou início às hostilidades nesta casa com um texto de ficção. Pode parecer verdadeiro mas é pura fantasia. Juro pela saúde do meu periquito.
O recente fecho do 24Horas não teve direito a muitas velas pela sua memória na blogosfera e na imprensa em geral. Para muitos não passou de uma simples nota de rodapé. Pode parecer estranho...
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domingo, 26 de dezembro de 2010
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
O ‘MEU’ JANEIRO - cento e quarenta e duas velas se apagam hoje
José Magalhães
No dia 1 de Dezembro de 1868, nasceu o jornal «O Primeiro de Janeiro». Deve o seu nome às manifestações da «Janeirinha». Durante os primeiros anos da sua vida, o diário foi crescendo em tiragem e em importância, até se tornar no melhor jornal de Portugal.
Era já, ao fim de pouco tempo de existência, uma referência Nacional, e assim o foi durante dezenas de anos.
Era o jornal onde melhor se escrevia em Portugal. Por lá passaram os mais ilustres intelectuais do nosso País.
Atravessou incólume períodos conturbados da vida Nacional, como a implantação da República as primeira e segunda guerras mundiais ou a transição para o actual regime, acabando por se debater com a mais grave crise da sua história, na década de 1980, quando o seu enorme património foi desbaratado.
Hoje, o jornal continua, já sem o seu emblemático edifício na Rua de Santa Catarina, e sem os grandes nomes que o ajudaram a consolidar-se a nível Nacional, mas com a mesma vontade de se afirmar e de fazer jus a um passado de glória.
«O Primeiro de Janeiro» é, sempre o foi, o «meu» jornal. Por influência de um primo por quem tinha uma amizade e admiração enormes, Emílio Loubet, grande jornalista que também coloborou no Norte Desportivo, meu pai sempre o teve em sua casa e o leu religiosamente.
Uma das muitas imagens que guardo de meu pai, é a de o ver sentado no piso de baixo do autocarro de dois andares da carreira A, à hora de almoço e a caminho de casa, lendo o Janeiro, dobrando-o cuidadosamente de modo a não incomodar ninguém (nem sempre arranjávamos lugar no mesmo banco). Com meu pai aprendi nessa altura, como dobrar o jornal para bem o ler com os solavancos dos transportes, já que era bem maior do que hoje é, talvez do dobro do tamanho.
O meu primeiro contacto com o jornal, aconteceu ainda nem ler sabia. Não teria mais de três ou quatro anos, e aos domingos de manhã, aconchegado na cama de meus pais via avidamente a banda desenhada de «O Príncipe Valente», de «O sr. Calisto» e do «Zé do Boné». E foi assim depois durante muitos anos. Era a altura da semana que melhor me sabia e em que mais eu sentia a felicidade da vida que levava. O aconchego dos meus pais e o poder partilhar a leitura do jornal. Nessas alturas, sentia-me já um homem. Quase se poderia dizer que foi com aquelas páginas que comecei a ler e que tomei o gosto pela leitura..
O meu primeiro contacto com o jornal, aconteceu ainda nem ler sabia. Não teria mais de três ou quatro anos, e aos domingos de manhã, aconchegado na cama de meus pais via avidamente a banda desenhada de «O Príncipe Valente», de «O sr. Calisto» e do «Zé do Boné». E foi assim depois durante muitos anos. Era a altura da semana que melhor me sabia e em que mais eu sentia a felicidade da vida que levava. O aconchego dos meus pais e o poder partilhar a leitura do jornal. Nessas alturas, sentia-me já um homem. Quase se poderia dizer que foi com aquelas páginas que comecei a ler e que tomei o gosto pela leitura..
Ao longo da minha vida, o Janeiro foi presença diária e leitura obrigatória. Mais tarde, já homem, e numa fase anterior a esta que agora vivemos, fui leitor fervoroso dos cadernos «Das Artes Das Letras» e «Se7e», entregava aos meus filhos mais novos «O Janeirinho» de modo a que se habituassem como eu me tinha habituado, a ler o jornal, e enviava semanalmente o «Caderno das Regiões Concelho do Porto» que saía às sextas-feiras, para a minha filha mais velha que habitava na Madeira, para que não perdesse o contacto com o jornal e com a região. E que saudades que a falta desses cadernos me fazem.
Hoje, sinto-me honrado em poder ver algumas palavras minhas publicadas neste «meu» jornal.
Actualmente luta-se, lutamos todos os que de uma forma ou de outra colaboramos com o nosso Janeiro, pela continuação da sua existência e por continuarmos a vê-lo nas bancas em lugar de destaque. Os dias que atravessamos são madrastos e sem complacência, pejados de dificuldades, sendo que as económicas estão cada vez mais com importância acrescida e numa primeira linha de influência. A competição é enorme e só os números das tiragens e das vendas de publicidade interessam.
Mas o «O Primeiro de Janeiro» apesar das múltiplas adversidades vai continuar, estou convencido disso, cada vez mais forte, a caminho de se tornar de novo, num dia que se deseja muito próximo, numa referência no panorama jornalistico e literário Português.
Ainda vamos voltar a ouvir pelas ruas do Porto o pregão: «Olhó Janeeeiiirooo».
Parabéns, Janeiro, pelos teus cento e quarenta e dois anos, e obrigado por me deixares fazer parte dos que lutam pelo teu bom nome, prestígio e projecção.
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Proust e o jornal, ou Pascal e o anúncio de sabonetes
João Machado
Alain de Botton é autor de vários livros de sucesso, entre os quais How Proust can change your life[1] e The Consolations of Philosophy[2]. O primeiro está classificado como um best-seller internacional, o segundo, que também alcançou grande êxito de vendas, inspirou uma série de televisão, Philosophy, que julgo que nunca correu em Portugal (se souberem do contrário, digam-me por favor. Acho que em Inglaterra correu no Channel 4). Alain de Botton nasceu na Suíça, mas vive em Inglaterra. Estudou filosofia, que é o seu interesse principal na vida. É um dos responsáveis pela School for Life, empresa cultural que funciona em Londres, e que tem como objectivo ajudar as pessoas a encontrarem o seu caminho na vida através da cultura. Aliás, a sua obra inscreve-se no que se chama a filosofia do dia a dia. As opiniões sobre ele dividem-se, uns gabam-no por conseguir pôr ao alcance do público em geral matérias a que só as elites têm tido acesso, outros censuram-no por não fazer mais do divulgar de uma maneira pomposa aquilo que toda a gente já sabe. Vocês digam-me o que acham do seguinte:
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domingo, 1 de agosto de 2010
Eduardo Galeano e a defesa da palavra
Carlos Loures
Eduardo Galeano nasceu em Montevideu, em 1940), é um escritor e jornalista uruguaio. Autor de mais de 40 obras traduzidas em diversos idiomas, a mais conhecida das quais é «Las venas abiertas de América Latina», 1971 («As Veias abertas da América Latina», com prefácio de Isabel Allende, edição de Paz e Terra, São Paulo, 2007).Preso em 1973, quando do golpe militar, exilou-se depois na Argentina, de onde, em 1976, com a criminosa ditadura de Videla, teve também de fugir, pois estava nas listas dos esquadrões da morte. Refugiou-se em Espanha, regressando ao Uruguai quando, em 1985, a democracia voltou. No seu livro «Crónicas 1963-1988», publicou o texto «Defensa de la palabra», no qual inspiro a presente crónica – aconselhando vivamente a leitura das obras deste lúcido escritor latino-americano). Este texto mereceria uma análise mais aprofundada, porque referindo-se à América Latina, tem um alcance universal, abordando problemas que afectam e afligem todos os que usam a palavra como arma e como ferramenta de trabalho.
Eduardo Galeano nasceu em Montevideu, em 1940), é um escritor e jornalista uruguaio. Autor de mais de 40 obras traduzidas em diversos idiomas, a mais conhecida das quais é «Las venas abiertas de América Latina», 1971 («As Veias abertas da América Latina», com prefácio de Isabel Allende, edição de Paz e Terra, São Paulo, 2007).Preso em 1973, quando do golpe militar, exilou-se depois na Argentina, de onde, em 1976, com a criminosa ditadura de Videla, teve também de fugir, pois estava nas listas dos esquadrões da morte. Refugiou-se em Espanha, regressando ao Uruguai quando, em 1985, a democracia voltou. No seu livro «Crónicas 1963-1988», publicou o texto «Defensa de la palabra», no qual inspiro a presente crónica – aconselhando vivamente a leitura das obras deste lúcido escritor latino-americano). Este texto mereceria uma análise mais aprofundada, porque referindo-se à América Latina, tem um alcance universal, abordando problemas que afectam e afligem todos os que usam a palavra como arma e como ferramenta de trabalho.
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domingo, 11 de julho de 2010
Apresentando Marcos Cruz
Temos o prazer de vos vir apresentar um novo colaborador – Marcos Cruz. Com ele, somos agora 24, ou seja o Estrolabio, enquanto não entrar mais ninguém, passa a ser a “Casa dos Vinte e Quatro”. Vamos lá apresentar este nosso amigo:
Marcos Gomes Coelho Pinho da Cruz, nasceu em 7 de Outubro de 1972, no Porto. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo da Universidade do Porto. O seu trabalho final versou sobre o tema“A secção de Cultura na perspectiva dos editores – Jornais portugueses de informação geral”, aprovada com 15 valores É jornalista profissional. Até Abril de 2009, exerceu funções de crítico de Música e Cinema na redacção do Porto do Diário de Notícias, colaborando também no suplemento DN Gente. Os seus serviços foram dispensados, num processo de despedimento colectivo que envolveu mais de 120 profissionais,
Participou em júris de festivais de cinema (Fantasporto, Cinanima, Curtas Vila do Conde, Luso-Brasileiro da Feira e Ovar Vídeo) e em júris de selecção de projectos musicais (Serralves em Festa), de argumentos para filme (Novos Talentos FNAC).
Fundador e colaborador de diversas revistas culturais - Op, Camaleão, Hei, Plastic. Tem participado em debates, conferências e outros eventos de natureza cultural e artística.
Marcos Gomes Coelho Pinho da Cruz, nasceu em 7 de Outubro de 1972, no Porto. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo da Universidade do Porto. O seu trabalho final versou sobre o tema“A secção de Cultura na perspectiva dos editores – Jornais portugueses de informação geral”, aprovada com 15 valores É jornalista profissional. Até Abril de 2009, exerceu funções de crítico de Música e Cinema na redacção do Porto do Diário de Notícias, colaborando também no suplemento DN Gente. Os seus serviços foram dispensados, num processo de despedimento colectivo que envolveu mais de 120 profissionais,
Participou em júris de festivais de cinema (Fantasporto, Cinanima, Curtas Vila do Conde, Luso-Brasileiro da Feira e Ovar Vídeo) e em júris de selecção de projectos musicais (Serralves em Festa), de argumentos para filme (Novos Talentos FNAC).
Fundador e colaborador de diversas revistas culturais - Op, Camaleão, Hei, Plastic. Tem participado em debates, conferências e outros eventos de natureza cultural e artística.
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sábado, 10 de julho de 2010
Memórias de Adriano*
Carlos Loures
O título, embora igual não se inspira no do célebre romance de Marguerite Yourcenar. O Adriano a que aqui me refiro não é o imperador romano, mas sim o Adriano de Carvalho, um jornalista, um grande jornalista e um grande amigo. Ao longo da nossa amizade que, com altos e baixos, se manteve durante quase quatro décadas, muitas são as histórias que poderia contar sobre ele. Hoje vou contar o episódio da sua primeira morte.
Adriano de Carvalho foi, sobretudo nos anos 60, um brilhante jornalista português. O abuso continuado do álcool, o feitio difícil e, talvez, uma incómoda coerência, impediram-no de ter a carreira que merecia ter tido. Quando a maioria dos jornalistas se exprime num português que deve mais às telenovelas do que leitura de clássicos, o Adriano merecia e deveria ter ocupado um lugar entre os melhores da sua profissão. O que não aconteceu
Em Janeiro de 2000, um telefonema do David de Carvalho, um dos filhos do Adriano de Carvalho, informou-me do falecimento do pai. Foi uma notícia triste, mas não uma surpresa. Todos, incluindo o Adriano, sabíamos que a doença era terminal. Visitara-o dias antes - o humor cáustico, a inteligência aguda, estavam intactos. Foram duas agradáveis horas, a recordar episódios e combates, como que a fazer o balanço a uma amizade de quase quarenta anos. Diz o David de Carvalho, a propósito deste encontro e comentando um texto meu sobre seu pai:
O título, embora igual não se inspira no do célebre romance de Marguerite Yourcenar. O Adriano a que aqui me refiro não é o imperador romano, mas sim o Adriano de Carvalho, um jornalista, um grande jornalista e um grande amigo. Ao longo da nossa amizade que, com altos e baixos, se manteve durante quase quatro décadas, muitas são as histórias que poderia contar sobre ele. Hoje vou contar o episódio da sua primeira morte.
Adriano de Carvalho foi, sobretudo nos anos 60, um brilhante jornalista português. O abuso continuado do álcool, o feitio difícil e, talvez, uma incómoda coerência, impediram-no de ter a carreira que merecia ter tido. Quando a maioria dos jornalistas se exprime num português que deve mais às telenovelas do que leitura de clássicos, o Adriano merecia e deveria ter ocupado um lugar entre os melhores da sua profissão. O que não aconteceu
Em Janeiro de 2000, um telefonema do David de Carvalho, um dos filhos do Adriano de Carvalho, informou-me do falecimento do pai. Foi uma notícia triste, mas não uma surpresa. Todos, incluindo o Adriano, sabíamos que a doença era terminal. Visitara-o dias antes - o humor cáustico, a inteligência aguda, estavam intactos. Foram duas agradáveis horas, a recordar episódios e combates, como que a fazer o balanço a uma amizade de quase quarenta anos. Diz o David de Carvalho, a propósito deste encontro e comentando um texto meu sobre seu pai:
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domingo, 20 de junho de 2010
Reinaldo Ferreira, o Repórter X
Carlos Loures

Em Agosto de 1914, na redacção de «A Capital», foi admitido um rapazinho com 17 anos. Garibaldi Falcão, jornalista veterano, fora encarregado de o guiar no começo da profissão, mas estava preocupado com o que chegava sobre a Grande Guerra que deflagrara dias antes, em 28 de Julho. Vendo o jovem inactivo, perguntou-lhe: «Ouça lá, o menino já fez fogos?» Pensando que o estavam a tomar por um pirómano, Reinaldo Ferreira, indignado, respondeu: «Não senhor!». Desfeito o equívoco, após uma gargalhada geral dos redactores, lá foi fazer a sua primeira reportagem, a cobertura de um fogo posto, na Rua D. Estefânia. Chamava-se Reinaldo Ferreira e nasceu em Lisboa em 10 de Agosto de 1897. Foi repórter, novelista, dramaturgo e até realizador de cinema. Começou a escrever nos jornais com doze anos. Aos vinte, era considerado o maior repórter português.
Como, a princípio, só lhe davam incêndios, furtos, casos insignificantes… - começou a inventar reportagens sensacionais. Em 1917, horrorizou os leitores com um crime na Rua Saraiva de Carvalho, que metia um cadáver, criminosos encapuçados, pormenores misteriosos e macabros e um sinistro «homem dos olhos tortos» – a história ia saindo n”O Século sob a forma de cartas assinadas por um tal Gil Góis e atingiu tal impacto entre os leitores que o jornal achou melhor revelar que tudo não passava de ficção. Mesmo assim, a história prosseguiu e o interesse dos leitores manteve-se até ao desfecho, à semelhança do que acontecera cinquenta anos antes com o folhetim de Eça e de Ramalho - «O Mistério da Estrada de Sintra».

Em Agosto de 1914, na redacção de «A Capital», foi admitido um rapazinho com 17 anos. Garibaldi Falcão, jornalista veterano, fora encarregado de o guiar no começo da profissão, mas estava preocupado com o que chegava sobre a Grande Guerra que deflagrara dias antes, em 28 de Julho. Vendo o jovem inactivo, perguntou-lhe: «Ouça lá, o menino já fez fogos?» Pensando que o estavam a tomar por um pirómano, Reinaldo Ferreira, indignado, respondeu: «Não senhor!». Desfeito o equívoco, após uma gargalhada geral dos redactores, lá foi fazer a sua primeira reportagem, a cobertura de um fogo posto, na Rua D. Estefânia. Chamava-se Reinaldo Ferreira e nasceu em Lisboa em 10 de Agosto de 1897. Foi repórter, novelista, dramaturgo e até realizador de cinema. Começou a escrever nos jornais com doze anos. Aos vinte, era considerado o maior repórter português.
Como, a princípio, só lhe davam incêndios, furtos, casos insignificantes… - começou a inventar reportagens sensacionais. Em 1917, horrorizou os leitores com um crime na Rua Saraiva de Carvalho, que metia um cadáver, criminosos encapuçados, pormenores misteriosos e macabros e um sinistro «homem dos olhos tortos» – a história ia saindo n”O Século sob a forma de cartas assinadas por um tal Gil Góis e atingiu tal impacto entre os leitores que o jornal achou melhor revelar que tudo não passava de ficção. Mesmo assim, a história prosseguiu e o interesse dos leitores manteve-se até ao desfecho, à semelhança do que acontecera cinquenta anos antes com o folhetim de Eça e de Ramalho - «O Mistério da Estrada de Sintra».
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