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sábado, 11 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal, por José Brandão, (57)

Os Teatros de Lisboa

Júlio César Machado


Editorial Notícias, 1991


Os Teatros de Lisboa é uma saborosa crónica de Lisboa de meados do século XIX.
Júlio César Machado e Rafael Bordalo Pinheiro construíram um quase caleidoscópio de protagonistas, todos eles gente que se move nos três universos principais do drama e da ópera na capital, Teatro de S. Carlos, Teatro D. Maria II e Teatro da Trindade.
Eis, pois, uma sociedade alucinada ao correr da pena de um dos maiores, mais amáveis
e bem-humorados folhetinistas portugueses, Júlio César Machado.
E com ele emparceirando, um dos grandes cartoonistas deste país de fadistas e lágrimas ao canto do olho, Rafael Bordalo Pinheiro.
Este livro é o elogio da combinação do texto com a imagem, o espelhar da festa pública do possível esplendor do Teatro Português!
JOSÉ VIALE MOUTINHO

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Temas de Cultura Portuguesa – I

Joel Serrão

Livros Horizonte, 1983

Este volume, que mantém a estrutura geral de Temas de Cultura Portuguesa II, dado a lume em 1964 e há bastantes anos esgotado, é constituído do seguinte modo: pelos escritos desse volume, com excepção do Prefácio e de Nota breve sobre o pensamento filosófico português actual que foram retirados; por alguns estudos inicialmente publicados em Temas de Cultura Portuguesa I, a saber: Perfil Esfumado de Mário de Sá Carneiro; Escolásticas que a si mesmas se ignoram; A génese portuense de Análise da Crença Cristã (1874); Do prospectivismo de Sampaio Bruno e Em torno do problema da Filosofia Portuguesa.
Além do mais, passam, a fazer parte deste volume os escritos que de seguida se indicam: Estrutura social, ideologias e sistema de ensino; Introdução histórica ao volume Sistema de Ensino em Portugal. Lisboa, 1981;…

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Temas de Cultura Portuguesa – II

Joel Serrão

Livros Horizonte, 1989

Nos seus condicionalismos de origem, este livro trata, sucessivamente, de um esboço muito geral da História de Portugal desde os cantares de amigo até às tarefas nacionais que o 25 de Abril de 1974 a todos nós impôs; da dialéctica da liberdade e da justiça tal ela se conformou, entre nós, na época contemporânea; da emergência da poesia em Antero e em Pessoa; do admirável esforço filosófico de Vieira de Almeida, meu Mestre “secreto”, que, ao invés do que, apressadamente, se poderia ajuizar, não foi em vão que pensou e “soltou” os ventos que pôde; e, por fim, de lágrimas efectivamente vertidas na morte de um Amigo e colega de geração cujos propósitos de vida consistiram em compreender e transformar Portugal –, Joaquim Barradas de Carvalho.

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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Evento da Literatura Portuguesa – A “Questão coimbrã”, 1865.

Sílvio Castro

A rebelião dos jovens estudantes conimbrenses de 1865, guiados pelo gênio de Antero de Quental, é um marco da modernidade portuguesa que supera os limites de um tradicionalismo prepotente e que, em politica, denuncia a decadência da revolução liberal e anuncia aquela socialista.

Não se trata tão somente de uma reação de jovens poetas e literatos estudantes da mais importante das Universidades portuguesas contra Antonio Feliciano de Castilho e o seu reconhecido poder político-cultural, mas como proclamação epocal.




quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Evento da Literatura Portuguesa – Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (II)


(Conclusão)
Augusta Clara de Matos


Casino Lisbonense, onde se realizaram as "Conferências Democráticas"


A política centralizadora da monarquia absoluta que tolhera liberdades anteriormente existentes;

Antero tinha razão ao fustigar assim a igreja porque a influência jesuítica não se restringiu ao meio religioso mas dominou, também, o ambiente político.

Ouçamos o que ele disse: “Essa funesta influência da direcção católica não é menos visível no mundo político. Como é que o absolutismo espiritual podia deixar de reagir sobre o espírito do poder civil? O exemplo do despotismo vinha de tão alto! Os reis eram tão religiosos! Eram por excelência os ‘reis católicos, fidelíssimos’. (…) A teocracia dava a mão ao despotismo”.

Até ao século XVI o poder da monarquia era equilibrado pela vida política local: os municípios, as instituições populares, as comunas, ao mesmo tempo que os privilégios da nobreza e do clero atenuavam o peso da coroa. Para assuntos de suma importância reuniam-se as Cortes. “A liberdade era então o estado normal da Península”.

A partir daí, a monarquia absoluta sufocou o poder local.

A reis como D. João III “fanático e de ruim condição”, D. João V, D. Afonso VI, “devassos uns, outros desordeiros, outros ignorantes e vis (…) A tais homens, sem garantias, sem inspecção confiaram as nações cegamente os seus destinos! (…) Se D. Sebastião não fosse absoluto, não teria ido enterrar em Alcácer Quibir a nação portuguesa, as últimas esperanças da pátria”.

Anulou-se a classe dos pequenos proprietários, governava-se para a nobreza, criaram-se grandes propriedades e impediu-se “o desenvolvimento da burguesia, a classe moderna por excelência, civilizadora e iniciadora, já na indústria, já nas ciências, já no comércio”.

As monarquias absolutas habituaram o povo a servir, à inércia, esperando o que lhe vinha de cima, transformado em prisioneiro, sem iniciativa, sem evoluir, preso à tacanhez dos costumes, sem liberdade. (…) quando mais tarde lhe deram a liberdade, não a compreendeu; ainda hoje não a compreende, nem sabe usar dela. As revoluções podem chamar por ele, sacudi-lo com força: continua dormindo sempre o seu sono secular!”

Isto foi afirmado em pleno século XIX. Mais de um século depois estará esta afirmação assim tão desactualizada?

Nos países que cresciam, os que tinham aderido à Reforma do catolicismo, assistiu-se à “elevação da classe média, instrumento do progresso nas sociedades modernas, e directora dos reis, até ao dia em que os destronou”

A economia baseada na riqueza acumulada à custa dos territórios descobertos e conquistados em África e no próprio Brasil.

Aquilo que sempre celebrámos como a nossa glória máxima enquanto país, os Descobrimentos, foi apontado por Antero de Quental como um dos motivos para a nossa progressiva decadência. “Embalaram-nos com essas histórias: atacá-las é quase um sacrilégio”, afirmou ele.

Acrescenta, no entanto: “A moralidade subjectiva desse movimento é indiscutível perante a história: são do domínio da poesia, e sê-lo-ão sempre acontecimentos que puderam inspirar a grande alma de Camões. A desgraça é que esse espírito guerreiro estava deslocado nos tempos modernos: as nações modernas estão condenadas a não fazerem poesia, mas ciência”.

Um pouco exagerada esta última afirmação de Antero de Quental. Mas entende-se o sentido em que a fez: as coroas depositaram a educação nas mãos dos jesuítas “cujos métodos de ensino, ao mesmo tempo brutais e requintados, esterilizam as inteligências, dirigindo-se à memória, com o fim de matarem o pensamento inventivo, e alcançam alhear o espírito peninsular do grande movimento da ciência moderna essencialmente livre e criadora”.

E, na esteira desse grande pecado jesuítico, Portugal só, pouco a pouco vai saindo desse atraso científico em que tem vivido desde então. Em pleno século XX, os governantes portugueses, manifestamente sem a clarividência de Antero, continuavam a manter que não podíamos investir em investigação fundamental – sem a qual sempre dependeremos, até mesmo nas aplicações, dos países que a ela se dedicaram - por sermos um país pobre.

Contentámo-nos, de facto, com as riquezas trazidas dos territórios de além-mar e descurámos o desenvolvimento da indústria. E esse erro estratégico levou ao empobrecimento do país à medida que o ouro do Brasil e os outros bens se foram esgotando. Para já não falar no modo como o fausto da corte e dos que a rodeavam se foram apropriando do espólio dessa rapina.

O que aconteceu nos países que cresciam foi precisamente o desenvolvimento da “indústria, finalmente, verdadeiro fundamento do mundo actual, que veio dar às Nações uma concepção nova do Direito, substituindo o trabalho à força, e o comércio à guerra de conquista”.

No entanto, a evolução de Portugal até ao século XVI tinha sido bem diferente e vale a pena ler a descrição : “No reinado de D. Fernando era Portugal um dos países que mais exportavam. A Castela, a Galiza, a Flandres, a Alemanha forneciam-se quase exclusivamente de azeite português. (…) No século XV vinham os navios venezianos a Lisboa e aos portos do Algarve, trazendo as mercadorias do Oriente, e levando em troca cereais, peixe salgado e frutas secas, que espalhavam pela Dalmácia e por toda a Itália.(…) As classes populares desenvolviam-se pela abundância e o trabalho, a população crescia. No tempo de D. João II chegara a população a muito perto de três milhões de habitantes…Basta comparar este algarismo com o da população em 1640, que escassamente excedia um milhão, para se conhecer que uma grande decadência se operou durante este intervalo!”.

Foram muitos os que deixaram as suas actividades para se tornarem soldados nas conquistas de além-mar. A população abandonou os campos, vindo para as cidades na mira das riquezas trazidas nas naus, mas o resultado foi o contrário e a miséria citadina aumentou e a agricultura degradou-se. A partir daí tudo só podia evoluir para pior: grassa a fome e a mendicidade aumenta. Camões, o grande poeta da epopeia, mendigando na velhice, é a triste imagem do estado a que a nação chegara.

A situação invertera-se de tal modo que, de exportadores de produtos agrícolas, e sem indústria, passámos a importar tudo: sedas, veludos e massas de Itália, vidro da Alemanha, panos de França, cereais, lãs e tecidos da Inglaterra e da Holanda. Tudo à custa do ouro da rapina e em favor da opulência da nobreza e da coroa. Até o ouro acabar. E o resto já todos sabemos.


Epílogo

Eça de Queiroz na época das Conferências

De facto, não há como fugir ao tema religioso no resumo desta Conferência porque Antero de Quental, embora não isentando o poder político das responsabilidades nefastas para a queda da posição preponderante que Portugal tinha no mundo, atribui à igreja católica, nas mãos dos jesuítas, uma grande responsabilidade, a montante, por todo este desastre.

“Essa transformação da alma peninsular fez-se em tão íntimas profundidades , que tem escapado às maiores revoluções (…) Há em todos nós, por mais modernos que queiramos ser, (…) um beato, um fanático ou um jesuíta! Esse moribundo que se ergue dentro de nós é o inimigo, é o passado. É preciso enterrá-lo por uma vez, e com ele o espírito sinistro do catolicismo de Trento”.
E, ainda, uma última frase de Antero: “A nossa fatalidade é a nossa História”.
De muito mais consta a conferência de Antero de Quental, uma peça literária imprescindível para compreendermos o Portugal de hoje e repensarmos o futuro.
Por agora, fiquemos por aqui.



Um mês depois, a Sala das Conferências democráticas foi encerrada, o que deu origem a um ao protesto assinado em 26 de Junho de 1871 pelo próprio Antero de Quental e por Adolfo Coelho, Jaime Batalha Reis, Salomão Saragga e Eça de Queiroz.
O texto rezava assim:

PROTESTO

Contra o Encerramento da Sala das Conferências Democráticas

Em nome da liberdade de pensamento, da liberdade de palavra, da liberdade de reunião, bases de todo o direito público, únicas garantias da justiça social, protestamos, ainda mais contristados que indignados, contra a portaria que mandou arbitrariamente fechar a sala das conferências democráticas. Apelamos para a opinião pública, para a consciência liberal do país, reservando-nos a plena liberdade de respondermos a este acto de brutal violência como nos mandar a nossa consciência de homens e de cidadãos.



terça-feira, 16 de novembro de 2010

Evento da Literatura Portuguesa – Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (I)



Augusta Clara de Matos
 
 
O que pretendeu Antero de Quental com o seu discurso proferido no dia 27  de Maio de 1871, na 1ª. Sessão das Conferências Democráticas, realizadas no Casino Lisbonense? Nada mais, nada menos do que explicar o atraso registado pelos dois países da Península Ibérica, Portugal e Espanha desde o século XVII. Numa altura em que não só Portugal e Espanha, mas toda a Europa vive uma crise profunda dos seus valores e o projecto político e cultural da União Europeia cada vez se nos afigura mais adulterado, faz sentido relembrarmos essas causas de decadência que Antero apontou no século XIX e reflectir como certos atavismos podem infiltrar-se no tempo e corroer realidades aparentemente bastante diferentes.


Desenho de Raquel Santos - "As Conferências do Casino""




A confirmar esta suspeita, respiguemos algumas frases do Programa das Conferências Democráticas:
“Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber como deve regenerar-se a organização social. (…) investigar como a sociedade é, e como ela deve ser; (…) e, por serem elas as formadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século.

Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações.

(…) Posto isto, pedimos o concurso de todos os partidos, de todas as escolas, de todas aquelas pessoas que, ainda que não partilhem das nossas opiniões, não recusam a sua atenção aos que pretendem ter uma acção – embora mínima – nos destinos do seu país, expondo pública mas serenamente as suas convicções e o resultado dos seus estudos e trabalhos.”


A conferência de Antero de Quental, dentro do programa das Conferências Democráticas, só nos pode servir hoje de grande inspiração para as reflexões que temos de fazer sobre a sociedade portuguesa.
Antero apresentava três causas principais para essa decadência:

• A submissão da igreja católica portuguesa ao poder de Roma, integrada na Contra-Reforma, de acordo com as decisões do concílio de Trento;

Embora não fosse este ponto o que me interessasse particularmente referir, não posso deixar de o fazer porque Antero de Quental desenvolveu substancialmente as mudanças por que passou a mentalidade religiosa na Península e as consequências que essas mudanças tiveram em todos os outros domínios da sociedade.
A submissão das igrejas locais à Igreja de Roma trouxe consequências catastróficas, entre as quais se realça a perseguição aos judeus e aos árabes que, embora muito na sombra, como afirma Antero, viviam como “raças inteligentes, industriosas, a quem a indústria e o pensamento peninsulares tanto deveram, e cuja expulsão tem quase as proporções de uma calamidade nacional”. Simultaneamente acentuou-se a degradação dos costumes com a substituição da aceitação do dogma religioso, geradora do sentimento do dever que nessa aceitação se baseava, pela sua imposição.
Nos países que cresciam “a liberdade moral, conquistada” provocou o “resultado imenso e capital que trouxe a Reforma aos povos que a seguiram”. O seu desenvolvimento a níveis elevados não tinha sido previsto por Lutero nem pelos seus correligionários.
Muitos representantes das igrejas nacionais dos países latinos lutaram por uma reforma sincera, chegando a desejar uma conciliação com os protestantes. Destacavam-se três pontos fundamentais nessa reivindicação:
“1º. – Independência dos bispos, autonomia das igrejas nacionais, inauguração dum parlamentarismo religioso pela convocação amiudada de concílios, esses estados gerais do cristianismo, superiores ao Papa e árbitros supremos do mundo espiritual;
2º. – O casamento para os padres, isto é, a secularização progressiva do clero, a volta às leis da humanidade duma classe votada durante quase mil anos a um duro ascetismo, então talvez necessário, mas já no século XVI absurdo, perigoso, desmoralizador;
3º. – Restrições à pluralidade dos benefícios eclesiásticos, abuso odioso, tendente a introduzir na Igreja um verdadeiro feudalismo com todo o seu poder e desregramento.”
Mas a Igreja de Roma não cedeu, preferiu reforçar a ortodoxia e iludindo a luta por estas reformas, convocou um concílio, sim…o de Trento que – “Estamos em Itália, meus senhores, no país de Machiavell!”, diria Antero – “Dum instrumento de paz e progresso faz uma arma de guerra e dominação; confisca o grande impulso reformador e fá-lo convergir em proveito do ultramontanismo”.
Como o fez, escuso-me de pormenorizar aqui, mas garanto que vale a pena espreitar a descrição de Antero de Quental. A reforma estava perdida, “o concílio só serviu contra ela para a sofismar e anular”.
Ontem como hoje, e em qualquer sector da sociedade, aí está em evidência o mecanismo de recuperação pelos poderes instituídos de todas as ideias de mudança que lhes ameacem o domínio.
Não é ilegítimo associar a esta tirania a dissolução de costumes a que se assiste dentro da igreja católica dos nossos dias, com os escândalos ligados a questões financeiras ocorridas com capitais movimentados por instâncias do Vaticano e esse inominável crime que constitui a pedofilia no qual se encontram envolvidos padres e altos elementos do clero de vários países.
Bem apontava Antero a dissolução dos costumes. Aí está ela, a sua evidência não engana ninguém.

(Continua)

sábado, 16 de outubro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (8), por José Brandão

Cartas Inéditas de Eça de Queiroz


Beatriz Berrini

O Jornal, 1987

O presente volume inclui, em Apêndice, cartas de outros missivistas e, num caso, carta não dirigida a Batalha Reis, porém a Antero de Quental. No Espólio estão muitas outras cartas de Antero, de Emília de Castro Eça de Queiroz, de Ramalho Ortigão, Eduardo Prado, Domício da Gama etc., além, é claro, dos rascunhos do próprio Batalha Reis. Isto quer dizer que somente seleccionamos para esta publicação algumas cartas não da autoria de Eça, mas que, uma forma ou de outra, pareceram-nos trazer algum contributo para elucidação de incidentes relatados ou simplesmente mencionados na correspondência de Eça para Batalha Reis. O objectivo que se teve divulgando tais cartas, portanto, foi o de torná-las mais compreensíveis e o de permitir que fossem apreciadas de outro ângulo de visão. Atingem, tais missivas, um total de dez (Apêndice), mais os fragmentos de outras incluídos nas notas que acompanham esta edição.

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Causas da Decadência
dos Povos Peninsulares
nos Últimos Três Séculos

Antero de Quental

Editorial Nova Ática, 2005


Meus Senhores:

A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também, diante do espírito de verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar.

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Cem Anos de Esperança


Isabel Soares (coordenação)

Lisboa, 1979

Desde há mais de cem anos uma esperança abala a terra: o socialismo democrático. Tão velho como a revolta contra a opressão e a desigualdade – como lembrou Antero – o socialismo desenvolveu-se, como teoria, ao longo do século XIX e ganhou uma dimensão universal e de múltiplas facetas durante o nosso século. Nascido das próprias contradições do capitalismo – incapaz, como este se tem revelado, mesmo nas sociedades industriais avançadas, de resolver os problemas sociais fundamentais do homem – o socialismo corresponde hoje às aspirações de muitos milhões de seres humanos, a uma maior justiça social e igualdade e ao incontido desejo de construir uma sociedade livre, de progresso e, sobretudo, fraterna.

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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (7), por José Brandão

Cartas de Manuel Laranjeira


Relógio d’Água, 1990

Foi Laranjeira quem me ensinou a ver a alma trágica de Portugal, não direi de todo o Portugal, mas do mais profundo, do maior. E foi ele quem me ensinou a ver não poucos recantos dos tenebrosos abismos da alma humana. Era um espírito sedento de luz, de verdade e justiça. Matou-o a vida. E ao matar-se, deu vida à morte.

O seu livro «Comigo (Versos de Um Solitário)» dá-nos toda a sua alma. O seu pensamento está aí demasiado concentrado Era preciso ouvi-lo falar. E como nas suas cartas fala, creio ser o epistolário o que melhor nos revela a grandeza da sua alma.

Iluminou a cabeça, que era poderosíssima a pensar, com a chama do seu próprio coração ardente. Poucos homens conheci que tenham juntado a uma inteligência tão clara e penetrante um sentimento tão profundo. Nele, como em Antero, a cabeça e o coração travaram renhida batalha.

MIGUEL DE UNAMUNO

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Cartas I


[1852] – 1881

Antero de Quental

Editorial Comunicação, 1989

Antero de Quental é porventura a personalidade mais fascinante que alguma vez surgiu no panorama literário e cultural português um dos nossos raros heróis culturais, chamou-lhe Eduardo Lourenço.

Em 1858, recém-chegado de «uma ilha remota e imersa no seu plácido sono histórico», lidera a juventude universitária coimbrã em todos os conflitos que surgiram entre o conservadorismo académico e o espírito revolucionário estudantil.

Em 1864, aos 23 anos, a hegemonia pseudocultural de Lisboa é abalada com o seu folheto Bom Senso e Bom Gosto que transforma a polémica literária conhecida por Questão Coimbrã numa luta pela independência intelectual e liberdade de opinião.

Dotado de um carácter superior e de uma vigorosa personalidade, a admiração, o respeito e o ascendente que exerceu sobre os seus contemporâneos foram unanimemente…

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Cartas II

1881 – 1891

Antero de Quental

Editorial Comunicação, 1989

Diante de nós vai desenrolar-se a evolução de toda uma vida onde o despojamento e a procura consciente da perfeição constituem a característica dominante. «Propus-me uma coisa muito difícil porque vou vendo que se parece muito com santidade», escreverá um dia a Germano Meireles.

Os acontecimentos importantes da sua vida, aqueles que o catapultaram para a ribalta das letras ou da política, têm nestas cartas tratamento muito desigual. Assistimos assim à pouca ou quase nenhuma importância que a Questão Coimbrã lhe mereceu, e ela foi, no que lhe diz respeito, uma violentíssima explosão de indisciplina criativa e revolucionária. Dir-se-ia que os folhetos Bom Senso e Bom Gosto e a Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais haviam esgotado todo o assunto que não seria digno de ser discutido na intimidade.

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domingo, 29 de agosto de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 127 e 128 (José Brandão)


Operárias e Burguesas

Maria Alice Samara

Esfera dos Livros, 2007

No final do século XIX, princípios do século XX, estas mulheres iniciaram uma dura e longa batalha pela sua emancipação e igualdade a nível social, político e cultural. Adelaide Cabete, médica, professora e uma incansável lutadora; Alice Pestana, sempre em defesa da educação feminina e da criança; Guiomar Torrezão, a operária das letras que fez dos jornais e das suas obras publicadas em livro as armas da sua luta; Domitila de Carvalho, a primeira mulher a entrar na porta férrea da Universidade de Coimbra; Regina Quintanilha, a primeira mulher a vestir uma toga; Angelina Vidal, que deu a sua voz pelos mais desfavorecidos; Maria Rapaz, que se fez passar por homem para conseguir melhores condições de vida, são algumas das vozes deste livro. Muitas destas ambições caíram por terra com o final da I República e com o advento do Estado Novo que procura remeter as mulheres para a esfera doméstica.
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As Origens da República

Flausino Torres

Prelo, 1965

Não é preciso ser um genial observador para, de 1870 em diante, verificar que ou a monarquia muda de rumo imediatamente ou caminha apressadamente para o seu desaparecimento.

Não são só os republicanos que pensam desta forma; porque as primeiras forças republicanas estão nascendo nesse momento.

Mas os monárquicos, metidos ou não na organização política ou administrativa do tempo, se não afirmam expressamente que a monarquia vai morrer, atacam-na, contudo, de tal maneira que outra coisa não se pode esperar para o futuro.

Isto não quer dizer que alguns dos maiores escritores da época não continuem a trabalhar para a monarquia. Tendo até por vezes partido da república! Lembramos neste momento Oliveira Martins, Ramalho Ortigão e Antero de Quental. Qualquer deles passa para o serviço da monarquia.

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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O Romantismo social português:6 - Antero de Quental

Sílvio Castro

A exaltação da utopia enquanto fator de existência informa praticamente toda a vida de Antero de Quental. Com uma conclusão aparentemente contraditória, o suicídio, a procurada solitária morte no banco do jardim público de Ponte Delgada, em 11 de Setembro de 1891. O mesmo suicídio que aterrorizou o religioso João de Deus, mas que não o impediu de dedicar ao mais jovem amigo o belíssimo epitáfio, “No túmulo de Antero”:

“Aqui jaz pó: eu não; eu sou quem fui,
- Raio animado dessa Luz celeste,
À qual a morte as almas restitue,
Restituindo à terra o pó que as veste.”

João de Deus constituiu para Antero uma referência primordial. Ainda que aparentemente entre os dois poetas as distinções sejam claramente visíveis, assim aconteceu. O mesmo Antero capaz da mais profunda participação com o lirismo condicionado preferencialmente pela reflexão filosófica, o mesmo Antero que diante da complexidade dos fenômentos sociais procurava através da experiência direta e prática as possíveis soluções para os mesmos, percorrendo o mundo a procura de novas possibilidades do agir coerente, esse mesmo Antero é aquele que admira irrestritamente o poeta de Flores de Campo e que dele partira seja para a conquista lírica, seja para uma visão específica da mensagem do liberalismo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Iberismo? Não, obrigado! (1)

Carlos Loures

A ideia de uma Península Ibérica unida politicamente não é nova. Não falando nos episódios históricos remotos em que ora Portugal, ora Castela, se tentavam mutuamente devorar, através de artimanhas, como a política de casamentos entre descendentes das linhas dinásticas ou de acções militares, episódios que tiveram o seu auge quando, entre 1580 e 1640, três reis de Castela e Aragão juntaram à sua coroa dual a de Portugal, reportando-nos a tempos mais recentes, o ideal do Iberismo tem feito correr tinta e dado que falar. Vejamos.

Personalidades como Antero de Quental, Ana de Castro Osório, Latino Coelho, Sampaio Bruno, Teófilo Braga, entre os portugueses, manifestaram, de uma maneira ou de outra, a sua simpatia por essa união. Do lado castelhano, refere-se quase sempre o mesmo nome – Miguel de Unamuno, o grande escritor e pensador nascido no País Basco, mas indubitavelmente um homem da cultura castelhana, reitor da Universidade de Salamanca no conturbado ano de 1936 em que a Espanha iria mergulhar na maior tragédia da sua história.

sábado, 7 de agosto de 2010

Histórias de suicidios famosos em Portugal (José brandão)

Antero Tarquínio de Quental (1842-1891) - VII




Poeta e pensador português, natural de Ponta Delgada. Nascido a 18 de Abril de 1842, Antero recebeu uma esmerada educação religiosa, ao ponto de ter planeado tornar-se sacerdote, o que, a verificar-se, não seria caso único na família.

Diz-se, por exemplo, que, aos 12 anos já se extasiava com a poesia da Harpa do Crente, de Alexandre Herculano, uma poesia profundamente mística.

Aos 16 anos, porém, estava matriculado na Universidade de Coimbra, aonde chegavam as influências de vultos como Darwin, Proudhon, Marx, Michelet, Taine, Balzac, Flaubert, Zola, entre outros. Deste modo, não admira que, após a sua saída de S. Miguel, em carta autobiográfica, registe a seguinte confissão:
«Varrida num instante toda a minha educação católica e tradicional, caí num estado de dúvida e incerteza, tanto mais pungente quanto, espírito naturalmente religioso, tinha nascido para crer placidamente e obedecer sem esforço a uma regra reconhecida.»

Como o próprio Antero referiu numa carta a Cândido de Figueiredo, datada de 3 de Maio de 1881, dez anos antes da sua morte, era oriundo de uma família com antecedentes literários, de que destacava o Padre Bartolomeu de Quental «cujos sermões ainda hoje podem ser lidos com alguma utilidade» e o seu avô, André Ponte de Quental, «poeta nada vulgar» e amigo íntimo de Bocage. Segundo a mesma carta, publicou poemas, artigos e ensaios, entre os dezasseis e os dezassete anos, nos periódicos Prelúdios Literários, O Académico e O Instituto.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Histórias de suicidios famosos em Portugal - José Brandão


José Fontana (1840-1876) -II

Giuseppe Silo Domenico Fontana — dito José Fontana em português — filho de Maria Clara Bertrand Bonardelli e de Giovanni Battista Fontana, nasceu em Cablio (Suíça) a 28 de Outubro de 1840 e morreu em Lisboa a 2 de Setembro de 1876, tendo conservado sempre a nacionalidade suíça, como consta no registo do funeral, realizado no Cemitério Ocidental de Lisboa (Prazeres).

Com a profissão de encadernador e depois caixeiro de livraria, entrou para o serviço da Livraria Bertrand, da qual chegou a ser sócio.
Autodidacta, extraordinariamente culto, interessado nos problemas sociais da época, acompanhou a criação das primeiras associações operárias portuguesas e foi elemento decisivo para a criação do Partido Socialista em Portugal, no seguimento das resoluções do Congresso da Internacional Operária realizado em Haia e que preconizavam a criação de partidos operários nacionais.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O centenário da República – 1

Carlos Loures


Não queremos deixar de assinalar a passagem do centésimo aniversário da proclamação da República e, assim, vamos dedicar a esse importante acontecimento da nossa História contemporânea alguns textos. Cada um deles focará um acontecimento que, na nossa opinião, tenha contribuído para a queda do regime monárquico.

De notar, que estes despretensiosos flashes não pretendem substituir a abundante bibliografia que existe sobre o assunto. Na sua maior parte, obras concebidas por pessoas que dedicaram as suas vidas a investigar o período histórico que abordam. Estes textos, cuja informação foi muitas vezes colhida nessas obras de referência, procuram despertar o interesse pelos temas abordados e levar a ler alguns livros fundamentais. Não são monumentos, mas sim modestas tabuletas que a eles pretendem conduzir. Um dos textos futuros, o último, será dedicado à enumeração das principais obras que consultei. Eis então alguns dados.

Um dos primeiros defensores da instauração da República em Portugal foi o jornalista, escritor e político, José Félix Henriques Nogueira ( 1825-1858). Nos seus textos defendia o republicanismo e o socialismo. Expondo as suas teses sobre a instauração de um regime republicano, o municipalismo, o federalismo e o associativismo, escreveu artigos para jornais - Eco dos Operários (1851), Revolução de Setembro (1852), sendo fundador do Almanaque Democrático (1852-1855). Publicou a obra Estudos sobre a Reforma em Portugal (1852). Fundou em 1854, o jornal Progresso , que se ocupava de política e questões económicas. Natural de Torres Vedras, Henriques Nogueira morreu com apenas 33 anos. Defensor do associativismo, do cooperativismo e do iberismo, precursor da República e adepto do socialismo inspirado em homens como Charles Fourier, Louis Blanc ou Proudhon. É, por alguns historiadores considerado como um dos primeiros teóricos do ideal republicano.