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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A violência armada na I República - a Formiga Branca

                                                       Elementos da Formiga Branca.

Carlos Loures


A luta política na I República entre os diversos partidos e movimentos e, no interior de cada um deles, entre sensibilidades ou tendências, fez-se com uma violência que não se quedou – como acontece nos dias de hoje – pelas guerras oratórias: atentados, arremesso de bombas, os espancamentos, eram, infelizmente, coisa vulgar. Foi o facto de os diferentes movimentos políticos não se terem entendido que conduziu à extinção da I República, como se sabe.

Com a eleição de Manuel de Arriaga, a 24 de Agosto de 1911, o Governo Provisório, constituído após a implantação da República, apresentou a sua demissão. Nessa altura, eram já públicos os desentendimentos entre os líderes republicanos. Manuel de Arriaga, apoiado por António José de Almeida e Brito Camacho, obteve 121 votos, contra os 81 de Bernardino Machado, aliado de Afonso Costa. No Outubro seguinte, reuniu o Congresso do Partido Republicano e o novo Directório eleito ficou quase exclusivamente constituído por elementos ligados a Afonso Costa, facto que determinou uma primeira segmentação do PRP.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Noctívagos, insones & afins: O homem que assassinou Sidónio Pais - por José Brandão

No que respeita ao homem que assassinou Sidónio País as coisas não são muito claras. Libertado, em 19 de Outubro de 1921, por um grupo ligado à revolta da Noite Sangrenta, só muito mais tarde José Júlio da Costa voltará a ser preso, e desta vez para sempre. Um indivíduo chamado António Maria Fernandes, morador no Bairro de Alfama, decidira dar caça ao matador de Sidónio Pais. Na posse de um salvo-conduto passado pelo Ministério do Interior, que lhe permitia, se necessário, requisitar o auxílio da Guarda Republicana, este ignorado funcionário público pôs-se a percorrer o País e, depois de ter estado em Garvão e no Algarve, consegue saber que José Júlio da Costa se encontrava numa pensão para os lados de Matosinhos, para onde se dirige, acompanhado de um irmão de Júlio da Costa.


Na sexta-feira, 14 de Janeiro de 1927, o prédio onde se situa o Hotel e Café Central de Matosinhos está cercado pela Guarda Republicana e o proprietário, Alberto Midões, não terá muitas dúvidas em resolver o assunto, entregando José Júlio da Costa aos seus captores.

sábado, 16 de outubro de 2010

Leva da Morte – 16 de Outubro de 1918

Carlos Loures




Local onde ocorreu a chacina da "Leva da morte"

92 anos depois, há quem queira descrever o consulado sidonista como um oásis de ordem no meio do caos da I República. Esquecem-se, entre outros actos de despotismo, os que pretendem branquear o sidonismo, do sinistro episódio da «Leva da Morte», ocorrido em 16 de Outubro de 1918. No ano anterior tinham acontecido muitas coisas – em Janeiro partira para França a primeira brigada do Corpo Expedicionário Português. Portugal entrava na Grande Guerra. Os contingentes continuariam a seguir para a frente de batalha. Em 25 de Abril formou-se o terceiro governo de Afonso Costa. Em Maio noticiavam-se as primeiras «aparições» de Fátima, logo aproveitadas pelas forças conservadoras.

domingo, 10 de outubro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (2), por José Brandão

Alfredo da Silva

Miguel Figueira de Faria

Bertrand Editora, 2004

Paixão pela indústria, risco e audácia permanente nos negócios. Alfredo da Silva foi inegavelmente o capitão da indústria portuguesa. Este notável e proeminente empreendedor dedicou toda a sua vida, uma longa e vasta carreira, a construir um império no qual se integrava uma extensa rede de empresas que marcaram profundamente a vida económica nacional. A CUF (Companhia União Fabril), a Tabaqueira, o Estaleiro da Rocha do Conde de Óbidos (futura Lisnave), a Carris, o Banco Totta – são exemplo do Património emblemático a que Alfredo da Silva deu corpo.

Alfredo Silva manteve uma relação de cordialidade com Oliveira Salazar com evidentes vantagens para ambos, políticas para Salazar e empresariais para Alfredo da Silva.

Com a edição deste livro, a Bertrand dá a conhecer a vida e labor de um dos mais marcantes se não mais influente empresário português do século XX.
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Alguns Aspectos da Vida em Lisboa

1850-1926

Vários

Lisboa, 1983

O texto aqui presente foi realizado no decurso do ano lectivo de 1980-81, como trabalho de avaliação contínua de grupo, na cadeira de História Contemporânea de Portugal.

Foi escolhido, pelo conjunto da turma, para simbolizar o primeiro passo dado no caminho de uma pedagogia participativa que nesse ano timidamente se ensaiava e se vem, desde então progressivamente consolidando.

É publicado sem qualquer alteração com as qualidades e defeitos.

Alguns temas nele aflorados já foram objecto de críticas e aprofundamento em trabalhos realizados por outros grupos, nos anos lectivos que se seguiram, e serão oportunamente publicados.

Lisboa, 14 de Setembro de 1983

Ângela Guimarães

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Alma Nacional

Revista Republicana

António José de Almeida

(Direcção)

Lisboa, 1910
Revista republicana que veio a lume no limiar do 5 de Outubro, constitui um repositório marcante da sociedade que antecedeu a implantação da república. Foi dirigida e editada semanalmente em Lisboa, pelo médico António José de Almeida e prolongou-se de 10 de Fevereiro a 29 de Setembro de 1910, 34 números. Ao longo das suas páginas, faz o ataque virulento das instituições monárquicas, do rei, perfilhando uma atitude abertamente anti-clerical. Os artigos de carácter doutrinário são da autoria de António José de Almeida, que também assina Álvaro Vaz, e de Raul Proença, que publica textos não assinados ou subscritos por "Varius". A Alma Nacional é predominantemente política e social. Preocupa-se com alguns temas que são pedra de toque da imprensa anarquista da época: libertação da mulher, o casamento burguês, a sexualidade, o feminismo, a educação do povo.

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Que República!?

José Brandão

Desde os primeiros dias do novo regime saído da revolução de 5 de Outubro de 1910 que os principais dirigentes republicanos eram vistos com preocupante desconfiança por um cada vez mais numeroso lote de críticos, de indiscutível autoridade e de comprovado passado histórico.

Poucos ou nenhum dos grandes nomes que vão assumir a condução da República em 1910 irão conseguir escapar ilesos a uma das mais formidáveis e avassaladora vaga de ataques de que há memória num regime de colegialidade governativa. Nuns casos mais justos, noutros não tanto, toda essa avalanche acusatória acabava desgraçadamente por ter sempre alguma razão de ser.

Uma paciente e interessada observação do que foram alguns desses intermináveis clamores de reprovação pode dar ideia da «doença infantil» que terá atingido, logo à nascença, a República portuguesa.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A proclamação (Centenário da República)



Faz agora exactamente 100 anos, às 9 da manhã de 5 de Outubro de 1910, a bandeira da República foi içada na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. José Relvas fez a proclamação do regime e a nova insígnia nacional, que andava em milhares de mãos, feita artesanalmente, lá subiu no mastro perante uma multidão que enchia o Largo do Pelourinho (ou do Município). Estas mudanças são sempre traumáticas para quem as sofre com elas não concordando. As duas principais cidades do País eram maioritariamente republicanas e esse factor foi decisivo. Num país com 80% de analfabetos, as elites culturais eram também maioritariamente pelo fim da Monarquia. Mas, naturalmente, havia um número elevado de monárquicos mesmo entre os que contestavam a situação existente. Desde 1890, com a humilhante cedência perante o ultimato britânico, a instituição monárquica sofrera um rude golpe. Desde as comemorações camonianas de 1880, o ideal republicano vinha-se impondo entre grande parte da população – mas, além do ideal político subsidiário da Revolução Francesa de 1789,os dislates, na política e na vida pessoal, de D. Carlos foram uma das alavancas para o triunfo da República.

Guerra Junqueiro - Excerto de "Finis Patriae"

Os Jograis do Atlântico - Edite Gil e Francisco Félix Machado, recitam um excerto de Finis Patriae, de Guerra Junqueiro.





Vamos ouvir Falam Casebres de Pescadores, também de Guerra Junqueiro, poema musicado pelo maestro Fernando Lopes-Graça


Canta Luísa Barriga, acompanhada ao piano por Rui Pintão.

domingo, 3 de outubro de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 197 e 198 (José Brandão)

A Vida da República Portuguesa

Objectos do Quotidiano

Manuela Rêgo

Lisboa, 1981

Foi da varanda dos Paços do Concelho, que no dia 5 de Outubro de 1910 se proclamou a República em Portugal. Abria-se então um novo ciclo na história do nosso sistema político e institucional, pelo estabelecimento definitivo dos valores e princípios da cidadania, do sufrágio e da separação dos poderes. Nem o longo e nefasto "Estado Novo", com os seus sonhos perversos de restauracionismo monárquico, conseguiria alguma vez abolir a República, cujo ideal constituía já, em 1926, parte integrante da vida e do quotidiano dos portugueses.

Desde a primeira hora, o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa apoiou com todo o interesse esta exposição, de acordo com o espírito divulgador que tem orientado a acção deste executivo municipal. Os últimos acontecimentos no mundo, a evolução das formas de poder e do seu exercício democrático.

João Soares

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A Vida Romanesca de Teixeira Gomes

Urbano Rodrigues

Editora Marítimo Colonial, 1944

Foi longe de Portugal, na capital inglesa, que tive o grande gosto de conhecer Teixeira Gomes. Encantado com o espírito europeu dos seus livros, com a elegância helénica da sua prosa, tinha o maior desejo de o ver e de o ouvir, tanto mais que me diziam maravilhas do seu talento de conversador e da sua distinção pessoal. Mas não apareceu essa oportunidade nem antes da sua nomeação para a Corte de S. James nem depois, nas suas raras visitas a Lisboa. Apertei-lhe a mão pela primeira vez em Victoria Station quando ali foi esperar a missão que ia tratar com o Governo de Sua Majestade Britânica as delicadas questões referentes à nossa participação na guerra de 1914. Representava o nosso Pais o dr. Afonso Costa, Ministro das Finanças no Governo da «União Sagrada», e o dr. Augusto Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros. O meu cargo era o de secretário do chefe da missão.

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O Regicídio e a Carbonária - II (Centenário da República)

(Continuação)

Carlos Loures

A fórmula do juramento que os neófitos pronunciavam perante a assembleia de iniciados encapuçados, era a seguinte: «Juro, pela minha honra de cidadão livre, guardar segredo absoluto dos fins da existência desta sociedade, derramar o meu sangue pela regeneração da Pátria, obedecer aos meus superiores e que os machados dos rachadores de cada canteiro se ergam contra mim se faltar a este solene juramento.

Os populares iniciados, operários quase todos eles, foram colocados nas Choças que com o abandono dos académicos tinham ficado muito desguarnecidas. A primeira Choça, exclusivamente formada por trabalhadores, recebeu o nome de “República”.

A Alta-Venda, comando supremo da Carbonária, era composta pelo Grão-Mestre eleito na Venda Jovem-Portugal e por mais quatro Bons Primos nomeados e escolhidos por este de entre os membros da Carbonária Portuguesa. Os nomes eram conservados como secretos. Esta Alta-Venda era a instância máxima da Carbonária Portuguesa.

Para além da estrutura civil acima descrita, havia em paralelo uma outra organização constituída por militares, com um organograma similar ao do ramo civil. Por ser gente mais disciplinada e enquadrada hierarquicamente, o ritual de iniciação era bastante simplificado, quase se limitando ao juramento.

sábado, 2 de outubro de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 195 e 196 (José Brandão)

A Verdade Sobre Afonso Costa

Alberto Guimarães

Lisboa, 1935

«Almocei e jantei bem. Provavelmente, venho a sair da prisão ainda mais gordo, e sobretudo com maior abdómen, do que tinha quando cá entrei.»

Muito mais engordaria ele depois da proclamação da República.

Mas é notar a sua insistência no problema alimentar. Não há um único dia de cativeiro em que tal preocupação não se apresente ao seu espírito. Até ao oitavo e último dia da sua detenção ele exprime o seu contentamento ante a boa mesa, anotando no seu canhenho:

«Esta manhã, depois de um bom almoço de linguado, bife de vitela, queijo da serra, fruta e doce…

O estilo é o homem... Este estilo que resume gulodice, que deixa desvendar em embrião o homem que à frente de um bando voraz havia de roer o Pais até aos ossos, só podia ter saído da mão pesada e papuda de Afonso Costa.

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                                                           Vermelhos, Brancos e Azuis


Rocha Martins

Lisboa, 1948

Julgo não ser lícito ocultar o que se sabe quando a verdade pode servir de exemplo, de incentivo ou de aviso para não se repetirem erros, delitos e até crimes.

Não manifesto opiniões; apresento factos à semelhança do que fiz nos meus livros anteriores do mesmo género, desde João Franco e o seu Tempo a D. Carlos, História do seu Reinado e de D. Manuel II às Memórias sobre Sidónio Pais.

São testemunhos sinceros. Já que o destino me colocou em situação de, por vezes, lidar com personagens históricos, aqui os apresento como os considerei, sem paixão nem parcialidade.

Eram meus amigos esses portugueses ilustres; mas a sua amizade não me leva a enaltecê-los. Joeirei tudo na peneira do tempo. Ficou só o grão; voou a poeira, a que ainda podia cegar-me.

Rocha Martins

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -12

(Continuação)

2o. Acto




A confissão

(Berta Maia - chapéu e véu, agente Barbosa Viana).

Barbosa Viana – D. Berta Maia, o Abel Olímpio está muito perturbado e não mostrou nenhum interesse em voltar a vê-la.

Berta Maia – sr. Barbosa Viana, eu não desisto. Quero vê-lo. Por favor, tragam-mo.

( Barbosa Viana traz Abel Olímpio, muito pálido, com ar de tuberculoso).

Berta Maia – Ai, Abel, como tu estás! Morres e eu fico sem saber nada! O que é que te fizeram?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 191 e 192 (José Brandão)

Um Ano de Ditadura – Discursos de Sidónio Pais

João de Castro

Lisboa, 1924


Os canhões da Rotunda em 8 de Dezembro de 1917, dia de Nossa Senhora, sagravam o Libertador.

O que era ele e o que queria? Isso não importa. Era o Libertador. Era o homem capaz de congregar numa só energia todas as energias, num só sonho de esperança todas as desventuras. Era alguém que sozinho, desacompanhado, sem preparação nem génio político, acordou um país para a esperança de viver. Era um Messias, um desejado, mas trabalhando como devia contra as falsas ideologias, contra os estrangeiros, contra a indisciplina e a anarquia, contra a horda invasora contra tudo o que se congregara na demagogia. Era o Desejado, o entusiasmador do povo, mas ao mesmo tempo aquele que pelo seu aparecimento e existência mostraria o novo caminho.

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Um Escritor Confessa-se

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrand, 1974

Penso às vezes – por poesia, claro está – que talvez tivessem cometido esse intrigante e ilógico disparate por respeito fidalgo pela população lisboeta – em 1919 republicana até ao fundo dos ossos. Pressentiram possivelmente que seria criminoso conquistar pela astúcia uma cidade em que os homens e as mulheres, quando tomaram consciência da situação, vieram para as ruas aos gritos de horror entusiástico, a rebuscar nos museus e nos recantos dos alçapões as poucas armas existentes.

Qualquer servia para os grupos combatentes improvisados: mosquetes com azebre, espetos de assar carne, bacamartes de carregar pela boca, pistolões ferrugentos, paus de vassoura afiados e, principalmente, essas espantosas balas de água que são as duras lágrimas dos olhos determinados.

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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -8

(Continuação)


Cena 7



O Dente de Ouro começa a falar

(Criada, com uma carta)

Criada – Também chegou correio, minha senhora.

Berta Maia – Uma carta de Coimbra, da penitenciária, do Abel Olímpio!...

(Lê e em simultâneo …)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -9

(Continuação)

Cena 8

Pesadelo

(Berta Maia com o bébé. Acarinha-o, canta canção de embalar. Adormece).


(Faróis.Sons do pesadelo e da camioneta. Dente de Ouro e grupo de marinheiros apontam armas a Machado dos Santos encostado a uma parede).

Machado Santos – Vocês, rapazes, estão levando-me por equívoco. Eu, em casa, estava esperando o carro que deveria levar-me a Belém, onde Manuel Maria Coelho, o chefe da revolução, está a esta hora depondo do poder António José de Almeida, para logo a seguir, empossar-me a mim, Machado Santos, no cargo de Presidente da República. Entendem? Eu é que vou ser o Presidente. Vocês, rapazes, estão, estão levando-me preso por equívoco, sim, por equívoco, por equívoco, por equívoco...

Augusto Gomes – Não oiçam este malandro. Ele é que levou este país à desgraça.

Dente de Ouro – O senhor Augusto Gomes é que sabe. Mas custa-nos um bocado.

Augusto Gomes – Vocês estão aqui para fazer o que se combinou. Se recusarem, esperem pelo castigo.Fogo!

(Descarga. Machado Santos escorrega e cai).

Augusto Gomes (Tira a carteira, os anéis e o relógio de algibeira a Machado Santos) – Eu guardo isto. Levem-no para a morgue.

(Saída da camioneta)

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 187 e 188 (José Brandão)

Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora…

Jacinto Baptista

Livraria Bertrand, 1977


Jornal diferente dos outros (mesmo oposto aos outros), voz singular da Imprensa portuguesa no período compreendido aproximadamente entre o fim de primeira guerra e o advento da ditadura militar, o diário A Batalha (1919-1927) é uma das mais salientes e vigorosas projecções do nosso movimento operário organizado. A sua linha de vida – nascimento, ascensão, apogeu, declínio e morte (compulsiva) – acompanha e reflecte, durante quase uma décadas a sorte do proletariado português na fase de deterioração mortal da I República. Subordinada a uma ideologia específica – o sindicalismo revolucionário –, A Batalha não foi solidária, ou raramente foi solidária, do regime que entendia ser a expressão política do principal inimigo: a democracia burguesa. Mas apenas um ano sobreviveu o jornal operário à I República.
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Teófilo Braga
e a Lenda do Crisfal

Delfim Guimarães


Editora Guimarães, 1909




Razão de ser deste livro
Quando em Maio de 1908 tornamos pública a conclusão a que havíamos chegado de ser Crisfal um pseudónimo do autor da Menina e moça, como procurámos demonstrar no volume recentemente dado a estampa: Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal) tínhamos o convencimento pleno de que seria bem acolhida por quantos se interessam pelo estudo da nossa História literária, com excepção apenas do Sr. Dr. Teófilo Braga. O laureado professor do Curso Superior de Letras não perdoa a quem quer que seja que ouse discordar de suas sentenças, nem vê com bons olhos que outros, que não S. Exa., encarem problemas que se prendam com a História da literatura portuguesa.
E neste caso do Poeta Crisfal, o sr. dr. Teófilo Braga não desejava que ninguém bulisse, pelo motivo que teremos ocasião do apontar no decurso deste livro.

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Trabalho infantil em 1910 - (Centenário da República)


De um colaborador recebemos esta informação sobre um acontecimento de há 100 anos:

No dia 24 de Setembro de 1910 registou-se em Portugal uma greve de rapazes entre os 6 e os 11 anos que trabalhavam na fábrica de estamparia dos Olivais. As crianças, em número de cinquenta, que ali laboravam, e cujo tarefa consistia em dar tinta aos oficiais estampadores, resolveram não trabalhar enquanto o seu salário não fosse aumentado.

Dizia o jornal O Século, que dava a notícia:

“Toda aquela petizada, plenamente convencida da legitimidade do seu direito a exigir mais recompensa pelo seu trabalho”, reclamava um aumento do seu salário para os 120 réis diários, em vez dos 80 réis que recebiam.

No dia seguinte será noticiada no mesmo jornal que os pequenos grevistas tinham conseguido um aumento de 20 réis, voltando a situação à normalidade.

O autor da notícia aproveitou a oportunidade para exprimir em Setembro de 1910 a sua esperança de que:

«… a sociedade de amanhã, composta de homens conscientes dos seus direitos, saberá sacudir todos os jugos violentos, a que ainda hoje se encontra submetida, e procurar, pelo próprio esforço, inteligentemente orientado, a sua emancipação económica e o seu bem estar social».

Faltavam menos de duas semanas para a proclamação da República. Faltava, por certo, muito mais do que um século para se atingir a tal sociedade de homens conscientes.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 185 e 186 (José Brandão)


A Situação Política

Alfredo Pimenta

Lisboa, 1918

…como o regímen republicano que é diferente da pessoa do sr. Sidónio Pais, não merece confiança á Nação, esta, nas eleições de 28 de Abril, manifestando-se como se manifestou, deu provas evidentes do seu sentir monárquico, cercando os deputados e senadores, monárquicos de uma votação bem significativa.

A situação politica só se esclarecerá definitivamente no dia em que a Nação puder responder livremente á pergunta que se lhe faça sobre as instituições politicas que prefere. Por ora, sabemos isto apenas: a Nação é conservadora, e aclama quem lhe garantir, eficazmente e honradamente, o princípio da Autoridade. Nada mais.

l0 de Maio de 1918.
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Suicídios Famosos em Portugal

José Brandão

Europress, 2007

As histórias dos suicídios aqui apresentadas são apenas uma parte de tantas outras que ocorreram durante esse período que medeia entre o início da segunda metade do século XIX e vai até aos anos Trinta do século XX.

São figuras que se destacaram nos diversos campos da vida nacional e que optaram por pôr termo à vida recorrendo ao suicídio.

Apresentadas em dois blocos, em que o primeiro, de José Fontana a Florbela Espanca, contem exposição mais detalhada de cada uma das histórias, esta relação de 17 suicidas famosos ocupa a maior parte deste trabalho.

O segundo bloco, que começa em 1856 e se estende até 1934, resume-se a pequenas notas de cada uma das 30 ocorrência expostas.

São pois, um total de 47 vultos envolvidos num final de vida que é comum a todos eles.

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domingo, 26 de setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -7

(Continuação)

Cena 6


Memórias de Carlos da Maia

Ciclorama com bambus chineses

(Berta Maia recorda Carlos da Maia )

Berta - (estende a mão sem folha) o que é isto ?

Carlos(com folha na mão) mostra. Ah, é uma carta do Sun–Yat-Sen...o 1º. Presidente da China...

Berta – que engraçado!

Carlos - na altura, não teve muita graça. Antes disso, ele esteve exilado em Macau, foi médico no hospital. Não o aceitavam em nenhum país. Como Macau tinha um estatuto de independência (quase), ficou por ali.

Berta – Que interessante. E essa carta, porquê?

Carlos – Essa carta é de 1916, quando eu era governador. Sun-Yat-Sen estava outra vez no exílio, e o governo de direita da China pediu a Portugal a extradição dos criminosos que tinham fugido para Macau. Claro que os tais criminosos que eles pediam eram os revolucionários, os companheiros de Sun-Yat-Sen. Os assassinos e ladrões podiam continuar em paz, no exílio dourado de Macau, organizando seitas, o jogo, o negócio do ópio.

Berta – e tu não entregaste nenhum republicano chinês.

(Separados, mimam beijos)

Carlos – como é que adivinhaste? Não foi fácil, houve uma grande luta diplomática, o Império Britânico a pressionar a Republica Portuguesa, mas ganhámos.

Berta - mas, a Inglaterra...

Carlos – nossa velha aliada, não é? Berta, Bertinha, menina bonita, tão ingénua...um Império, é um Império, é para mandar em tudo e todos. Não duram toda a vida, mas enquanto puderem...lembras-te da guerra do ópio? Os Chineses revoltaram-se porque , a dada altura, os Ingleses condenavam à morte os trabalhadores que se recusavam a tomar ópio...além de um grande negócio, a droga era para os acalmar...claro que os Ingleses não tomavam ópio... ( risos)

(Carlos da Maia deixa cair a folha e desaparece; Berta Maia mima abraço, “acorda” da evocação, levanta-se , vê a folha no chão e pega nela)

Berta Maia – Macau…

Criada – ( com cesto com comida, ovos, uma galinha) - Minha senhora, vieram entregar isto.

Berta Maia – Quem mandou isso?

Criada – Disseram que era da parte de um grande amigo do seu marido.

Berta Maia – Põe na cozinha. O Carlos, que tinha tantos amigos... agora, já nem dizem o nome.

Criada – Minha senhora, as pessoas andam com medo de falar, depois destes crimes, as pessoas são assim. Está aqui o jornal.

(Mostra jornal)

Berta Maia – (lê) Augusto Gomes, o empresário teatral, assassinou a actriz Maria Alves. Sabes quem é?

Criada – É o senhor do teatro, não é ?

Berta Maia – Sim, um empresário teatral que está ligado a todas as conspirações monárquicas, amigo do Alfredo da Silva da CUF, e ... uma testemunha da morte de Machado Santos...

(No Tribunal)

Augusto Gomes – Eu tinha ido a Pedrouços para uma missão de confiança, e fui ao Arsenal. Uns civis armados disseram-me que estavam à espera do senhor Cunha Leal para o assassinarem. Corri ao quarto do oficial de dia onde estavam António Granjo e Cunha Leal e convenci-o a ir ao hospital tratar do ferimento que já tinha no braço.

Depois do hospital fui a casa do Sr. Presidente da República e vi que só tinha dois polícias a protegê-lo. Dirigi-me ao Sr. Manuel Maria Coelho, chefe do golpe e pedi protecção para o Sr. Dr. António José de Almeida. Depois fui ao Rossio e meti-me num carro para ir para casa; passando no Intendente, um grupo armado disse que o carro seria preciso para levar um cadáver à morgue. Contra as minhas súplicas, mataram o Almirante Machado Santos. E consegui, a muito custo, que não fossem a casa dos senhores Barros Queiroz e Sotto Mayor, que também estavam condenados a morrer. Horrorizado com tanto sangue inocente que tinha visto correr, fugi para casa.

(Sai)

(Continua)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 177 e 178 (José Brandão)

Sidónio

(Contribuição para a história do presidencialismo)

José Brandão

Perspectivas & Realidades, 1983

«Súcia de imbecis que somos (perdoem que o diga), súcia de feiticistas das palavras a quem as palavras bastam, súcia de adoradores do Verbo que se não fez carne nem peixe mas que se pode fazer peixe-espada, súcia de escravos vis sobre que os aventureiros trepam, às escaladas inconfessáveis e às torpezas sem nome!» (Raul Proença, Março de 1924).

Vale a pena começar qualquer livro com as palavras de um homem como Raul Proença.

Se o que Proença diz em 1924 tem ou não alguma coisa a ver com o momento presente, é problema que não se torna obrigatória e muito menos vital para a leitura do livro que está agora a ser apresentado.

Nele se pretende falar do Sidónio Pais de 1918 sem que isso signifique qualquer desprendimento em relação ao presente.

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O Dr. Sidónio Pais e a República Nova

1910-1918


Sérgio Gouveia


Lisboa, 1918



Depois da extraordinária manifestação que lhe fez a população de Caminha – sua terra natal – e ainda após os estrondosos aplausos de que foi alvo por parte do povo e da Academia de Coimbra, regressou o sr. dr. Sidónio Pais a Lisboa, e então a recepção que lhe foi feita, tocou as raias do delírio, ascendendo até ao deslumbramento de uma verdadeira apoteose, destas que não esquecem mais e que profundamente devem ter calado no ânimo de S. Ex.ª, dando-lhe a mais nítida impressão de que o país está com ele e nele vê a figura predominante da redenção da Pátria saturada de desmandos, de tiranias e de crueldades sem nome.


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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Mulheres que fizeram a diferença -(Centenário da República)

Clara Castilho


III – A IMPULSIONADORA DAS MATERNIDADES – ADELAIDE CABETE (1867-1935)

Em Elvas, famílias humildes apanhavam as célebres ameixas e trabalhavam noutros árduos trabalhos. Foi assim que cresceu Adelaide, que casou aos 18 anos, analfabeta.

Incentivada pelo marido, começou a estudar aos 20 anos. Aos 23 fez o exame de instrução primária. Com 27 anos terminou o curso dos liceus, já a viver em Lisboa. Na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, para onde entrou aos 29 anos, teve como professores Miguel Bombarda, Curry Cabral, Ricardo Jorge e Alfredo da Costa.