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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Apresentando Alexandra Pinheiro

 Alexandra Costa Pinheiro nasceu em Lisboa no ano de 1966. Licenciada em Direito pela
 Universidade de Lisboa, tentou  a carreira da advocacia, mas depressa se apercebeu de que uma certa falta de formalismo e adversidade aos requerimentos, colidiam com o espírito da profissão. A partir daqui ouçamos a sua história contada na primeira pessoa:

« Passei a trabalhar num banco Holandês – ABN AMRO – na área de consultoria financeira. Foi uma época de aprendizagem intensa porque trabalhava numa organização mundial integrada, diariamente contactava com colegas de vários países do mundo que me traziam perspectivas de trabalho e formas de vida muito diferentes (ainda não se falava em globalização). Estar numa organização Holandesa, formou-me na franqueza (que nós Portugueses apelidamos de antipatia), na objectividade, no planeamento e no cumprimento de prazos, na avaliação sistemática pelo chefe e na imperiosa concretização do que nos proponhamos desenvolver. Paradoxalmente, uma organização exigente, movimentava-se num dos melhores sistemas sociais do mundo, onde os nórdicos levavam os seus direitos “à risca”.
Mas os filhos chamavam por mim e ser mãe não se compatibilizava com as viagens e permanências no estrangeiro. Ao mesmo tempo, a maternidade despertou novas emoções que me levaram a perder o entusiasmo pelos números e pelas análises financeiras. No engano, que teria mais disponibilidade, fundei uma empresa de actividade culturais para crianças “Pequenos Vagabundos”. Ser empresária não é nada fácil: tudo o que ganhava só tapava os gastos com a contabilista e impostos, e não valia para as minhas insónias com a preocupação das despesas ao fim do mês. Dediquei-me, então, a uns trabalhos de free lancer em diversas áreas. No tempo livre, comecei a fazer uns voluntariados e, foi assim, que fui parar ao FLE e me apaixonei pela educação. O que gosto de fazer: estar com a família e com eles ver os filmes de sempre – A Música no Coração, A Vida é Bela e tantos outros clássicos, passear na praia ou ir ao teatro. Música e Livros – sou inconstante, ora oiço e leio muito, ora nada. Estou numa fase de música clássica e de pouca leitura – o último foi O SARI VERMELHO – Javier Moro, uma preparação para a minha viagem à índia. Neste momento, leio devagar, LIVRO de José Luís Peixoto.»

Bem-vinda ao Estrolabio, Alexandra Pinheiro.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Fialho de Almeida - 2

(Continuação)

FIALHO FICCIONISTA. A «GUERRA» COM EÇA

Embora seja mais conhecido pela sua faceta de cronista panfletário, Fialho de Almeida é um admirável contista, tendo legado à literatura portuguesa algumas das mais belas páginas que nesse género se escreveram (como, por exemplo e entre muitos outros, A Ruiva, O Sineiro de Santa Ágata ou O violinista Sérgio num café da Mouraria, texto com que abre um dos panfletos do primeiro volume de Os Gatos). . Porém, usando sempre de uma extrema exuberância verbal, atinge esses momentos de grande beleza estilística, para logo a seguir usar uma linguagem eivada de galicismos (como diz Brandão, talvez apenas para seduzir alguns seus epígonos de café, os tais «noctâmbulos» que o escutavam e admiravam?). Por outro lado, alguns escritos seus raiam mesmo os limites do mau gosto e da grosseria (o que ocorre, nomeadamente, em numerosos textos de Os Gatos).

Como ele próprio reconhece, é um «prosador colérico», um crítico demolidor, impiedoso e, por vezes, excessivo e injusto. Terá sido o caso da sua polémica com Eça de Queirós. Costuma dizer-se que os críticos literários mais severos e implacáveis foram ou são, em geral, escritores frustrados. Esta, como todas, é uma generalização abusiva, pois Fialho deixou-nos das mais belas páginas da literatura do seu tempo, nomeadamente alguns dos seus contos. Não nos legou, porém, um só romance. As tentativas que fez nesse sentido saíram frustradas. Terá essa circunstância algo a ver com a violência com que analisa Os Maias?

domingo, 19 de dezembro de 2010

Fialho de Almeida - 1

Carlos Loures


ENTRE EMPLASTROS E PÍLULAS



Quando em 1866, com apenas nove anos de idade, José Valentim Fialho de Almeida ruma a Lisboa a ideia da família é dar-lhe a possibilidade de estudar e de se formar a nível superior. Matriculado no Colégio Europeu, no Largo do Barão, ali frequenta os estudos regulamentares até 1872. Na sua Autobiografia, publicada em A Esquina, Fialho relata ter sido sempre um bom estudante, «uma criaturinha triste e sossegada», razões que se juntam ao facto de seu pai nunca o poder vir visitar e de, devido à sua pobreza, não poder mandar bons presentes ao director, para lhe valerem seis anos de privações e de maus tratos, suportados por uma «resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho», que pela vida fora irá ser, segundo ele, a sua independência e a sua força. Escutemos então a voz do próprio Fialho: «No meu tempo de colegial [...] a vida no internato era a seguinte. Erguíamo-nos da cama às cinco horas, Verão e Inverno, estudávamos até às oito, hora regulamentar do almoço [...] depois do que, entrávamos de novo nas salas de estudo, onde nos amesendávamos até às quatro da tarde [...] Quatro horas dadas, caligrafia durante hora e meia, e ia-se jantar.[...] Nas aulas. quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo [...] Os dormitórios eram no andar de cima dum prédio velho, grosseiramente adaptado à moradia de tamanha tropa de indivíduos [...] Os banhos raríssimos. Aos domingos de manhã, meia hora de ginástica em argolas e barras, não obrigatória, mas à vontade das famílias, que ainda nesse tempo, as da província sobretudo, consideravam a ginástica como um exercício de palhaços.»1 Mas, se, como por estas palavras se pode ver, as coisas já não estão a correr muito bem ao nosso jovem alentejano, elas irão ainda piorar. Em 1872, por se ter agravado a já de si precária situação económica da família, vê-se obrigado a abandonar o colégio. Tem 15 anos e arranja uma modesta colocação como praticante de farmácia numa lúgubre botica do Largo do Mitelo, perto do Campo de Santana. Aí vive sete anos a «apodrecer entre emplastros e pílulas». Diz ele: «Ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei. Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma berundaga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis, à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que, que de manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse o caixão onde acabar os meus grotescos males por uma vez. A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia, e rançuns de unguentos pré-históricos.»