(Conclusão)
O FIM - «FALANDO SOZINHO, COMO UM CONDENADO»
Fialho de Almeida «Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fora!», diz Raul Brandão. E continua: «Este, de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se conseguiram apoderar, agarrado à terra, conservador, discutindo com o padre da freguesia os melhoramentos da sua igreja, este é – enfim! enfim! – o descendente autêntico dos cavadores alentejanos. Custou... As suas melhores obras – as que sonhou e nunca se resolveu a escrever – leva-as ele para a cova... De quando em quando ainda tem uma revolta: – É horrível a vida na aldeia. Se não fossem os livros, já me tinha suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e desta vida artificial de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguém, não tenho ninguém com quem comunicar. São de bronze aqueles filhos da p...! E nem a mais pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos perdidos!... – Fuja. – Não posso. Quem me há-de tratar daquilo? E, depois, criei interesse às oliveiras que plantei, à vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em que pego num livro e saio. Há uma estrada em volta de Cuba – e eu ali ando à roda, toda a noite, a falar sozinho como um condenado!»
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Fialho de Almeida - 2
(Continuação)
FIALHO FICCIONISTA. A «GUERRA» COM EÇA
Embora seja mais conhecido pela sua faceta de cronista panfletário, Fialho de Almeida é um admirável contista, tendo legado à literatura portuguesa algumas das mais belas páginas que nesse género se escreveram (como, por exemplo e entre muitos outros, A Ruiva, O Sineiro de Santa Ágata ou O violinista Sérgio num café da Mouraria, texto com que abre um dos panfletos do primeiro volume de Os Gatos). . Porém, usando sempre de uma extrema exuberância verbal, atinge esses momentos de grande beleza estilística, para logo a seguir usar uma linguagem eivada de galicismos (como diz Brandão, talvez apenas para seduzir alguns seus epígonos de café, os tais «noctâmbulos» que o escutavam e admiravam?). Por outro lado, alguns escritos seus raiam mesmo os limites do mau gosto e da grosseria (o que ocorre, nomeadamente, em numerosos textos de Os Gatos).
Como ele próprio reconhece, é um «prosador colérico», um crítico demolidor, impiedoso e, por vezes, excessivo e injusto. Terá sido o caso da sua polémica com Eça de Queirós. Costuma dizer-se que os críticos literários mais severos e implacáveis foram ou são, em geral, escritores frustrados. Esta, como todas, é uma generalização abusiva, pois Fialho deixou-nos das mais belas páginas da literatura do seu tempo, nomeadamente alguns dos seus contos. Não nos legou, porém, um só romance. As tentativas que fez nesse sentido saíram frustradas. Terá essa circunstância algo a ver com a violência com que analisa Os Maias?
FIALHO FICCIONISTA. A «GUERRA» COM EÇA
Embora seja mais conhecido pela sua faceta de cronista panfletário, Fialho de Almeida é um admirável contista, tendo legado à literatura portuguesa algumas das mais belas páginas que nesse género se escreveram (como, por exemplo e entre muitos outros, A Ruiva, O Sineiro de Santa Ágata ou O violinista Sérgio num café da Mouraria, texto com que abre um dos panfletos do primeiro volume de Os Gatos). . Porém, usando sempre de uma extrema exuberância verbal, atinge esses momentos de grande beleza estilística, para logo a seguir usar uma linguagem eivada de galicismos (como diz Brandão, talvez apenas para seduzir alguns seus epígonos de café, os tais «noctâmbulos» que o escutavam e admiravam?). Por outro lado, alguns escritos seus raiam mesmo os limites do mau gosto e da grosseria (o que ocorre, nomeadamente, em numerosos textos de Os Gatos).
Como ele próprio reconhece, é um «prosador colérico», um crítico demolidor, impiedoso e, por vezes, excessivo e injusto. Terá sido o caso da sua polémica com Eça de Queirós. Costuma dizer-se que os críticos literários mais severos e implacáveis foram ou são, em geral, escritores frustrados. Esta, como todas, é uma generalização abusiva, pois Fialho deixou-nos das mais belas páginas da literatura do seu tempo, nomeadamente alguns dos seus contos. Não nos legou, porém, um só romance. As tentativas que fez nesse sentido saíram frustradas. Terá essa circunstância algo a ver com a violência com que analisa Os Maias?
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domingo, 19 de dezembro de 2010
Fialho de Almeida - 1
Carlos Loures
ENTRE EMPLASTROS E PÍLULAS
Quando em 1866, com apenas nove anos de idade, José Valentim Fialho de Almeida ruma a Lisboa a ideia da família é dar-lhe a possibilidade de estudar e de se formar a nível superior. Matriculado no Colégio Europeu, no Largo do Barão, ali frequenta os estudos regulamentares até 1872. Na sua Autobiografia, publicada em A Esquina, Fialho relata ter sido sempre um bom estudante, «uma criaturinha triste e sossegada», razões que se juntam ao facto de seu pai nunca o poder vir visitar e de, devido à sua pobreza, não poder mandar bons presentes ao director, para lhe valerem seis anos de privações e de maus tratos, suportados por uma «resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho», que pela vida fora irá ser, segundo ele, a sua independência e a sua força. Escutemos então a voz do próprio Fialho: «No meu tempo de colegial [...] a vida no internato era a seguinte. Erguíamo-nos da cama às cinco horas, Verão e Inverno, estudávamos até às oito, hora regulamentar do almoço [...] depois do que, entrávamos de novo nas salas de estudo, onde nos amesendávamos até às quatro da tarde [...] Quatro horas dadas, caligrafia durante hora e meia, e ia-se jantar.[...] Nas aulas. quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo [...] Os dormitórios eram no andar de cima dum prédio velho, grosseiramente adaptado à moradia de tamanha tropa de indivíduos [...] Os banhos raríssimos. Aos domingos de manhã, meia hora de ginástica em argolas e barras, não obrigatória, mas à vontade das famílias, que ainda nesse tempo, as da província sobretudo, consideravam a ginástica como um exercício de palhaços.»1 Mas, se, como por estas palavras se pode ver, as coisas já não estão a correr muito bem ao nosso jovem alentejano, elas irão ainda piorar. Em 1872, por se ter agravado a já de si precária situação económica da família, vê-se obrigado a abandonar o colégio. Tem 15 anos e arranja uma modesta colocação como praticante de farmácia numa lúgubre botica do Largo do Mitelo, perto do Campo de Santana. Aí vive sete anos a «apodrecer entre emplastros e pílulas». Diz ele: «Ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei. Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma berundaga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis, à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que, que de manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse o caixão onde acabar os meus grotescos males por uma vez. A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia, e rançuns de unguentos pré-históricos.»
ENTRE EMPLASTROS E PÍLULAS
Quando em 1866, com apenas nove anos de idade, José Valentim Fialho de Almeida ruma a Lisboa a ideia da família é dar-lhe a possibilidade de estudar e de se formar a nível superior. Matriculado no Colégio Europeu, no Largo do Barão, ali frequenta os estudos regulamentares até 1872. Na sua Autobiografia, publicada em A Esquina, Fialho relata ter sido sempre um bom estudante, «uma criaturinha triste e sossegada», razões que se juntam ao facto de seu pai nunca o poder vir visitar e de, devido à sua pobreza, não poder mandar bons presentes ao director, para lhe valerem seis anos de privações e de maus tratos, suportados por uma «resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho», que pela vida fora irá ser, segundo ele, a sua independência e a sua força. Escutemos então a voz do próprio Fialho: «No meu tempo de colegial [...] a vida no internato era a seguinte. Erguíamo-nos da cama às cinco horas, Verão e Inverno, estudávamos até às oito, hora regulamentar do almoço [...] depois do que, entrávamos de novo nas salas de estudo, onde nos amesendávamos até às quatro da tarde [...] Quatro horas dadas, caligrafia durante hora e meia, e ia-se jantar.[...] Nas aulas. quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo [...] Os dormitórios eram no andar de cima dum prédio velho, grosseiramente adaptado à moradia de tamanha tropa de indivíduos [...] Os banhos raríssimos. Aos domingos de manhã, meia hora de ginástica em argolas e barras, não obrigatória, mas à vontade das famílias, que ainda nesse tempo, as da província sobretudo, consideravam a ginástica como um exercício de palhaços.»1 Mas, se, como por estas palavras se pode ver, as coisas já não estão a correr muito bem ao nosso jovem alentejano, elas irão ainda piorar. Em 1872, por se ter agravado a já de si precária situação económica da família, vê-se obrigado a abandonar o colégio. Tem 15 anos e arranja uma modesta colocação como praticante de farmácia numa lúgubre botica do Largo do Mitelo, perto do Campo de Santana. Aí vive sete anos a «apodrecer entre emplastros e pílulas». Diz ele: «Ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei. Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma berundaga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis, à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que, que de manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse o caixão onde acabar os meus grotescos males por uma vez. A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia, e rançuns de unguentos pré-históricos.»
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sábado, 18 de dezembro de 2010
Guilherme de Azevedo(1839-1882) - IV
Carlos Loures
Escritor «menor»?
Guilherme de Azevedo, no que se refere à opinião que dele faziam os seus coevos, foi estimado por Junqueiro (que ljhe dedicou a Velhice do Padre Eterno), por Magalhães Lima e por Bordalo, louvado por Antero e por tantos outros, exaltado por Ramalho e um pouco ridicularizado, diga-se, embora com algum carinho, pela pena ferina, cruelmente impiedosa, de Fialho de Almeida que, sendo ele próprio um «rapaz da província ao assalto da capital», parece não ter perdoado a Guilherme a sua ousadia de, vindo de Santarém, ter conquistado as colunas dos principais jornais de Lisboa e do País e de serem as suas crónicas lidas avidamente, os seus ditos e frases jornalísticas repetidos pelas mesas dos cafés e de ter sido convidado a fixar-se em Paris (que, na época, era por aqui considerada a capital do mundo, a fonte de todas as ideias e prodígios). Outros contemporâneos, que com ele conviveram e se cruzaram, manifestaram o seu respeito por este homem que as circunstâncias da vida tornaram amargo, mas que em vez de fel destilava pela sua pena um humor ácido, talvez, mas humor, em todo o caso.
É, pela generalidade dos investigadores e historiadores da literatura portuguesa (como, por exemplo, Mário Dionísio), considerado um «escritor menor». Porém, o que significa ser um escritor menor? Será que existe ou em algum tempo existiu uma medida objectiva que permita avaliar da grandeza ou da menoridade de quem cria? A esse respeito, voltamos a Manuel Simôes que, na introdução à edição de 1981 de A Alma Nova, nos diz:
«As razões por que a história das ideias e, de modo particular, a história da literatura, não conserva de um autor senão uma referência de segunda ordem são complexas e dependem muitas vezes de circunstâncias externas ao próprio movimento dos factos sociais, impostas como são por condicionamentos propositadamente desviantes da cultura progressista de um país. Compreende-se, por isso, que Guilherme d’Azevedo tenha sido um autor esquecido, ignorado pela feroz máquina repressiva que tem canalizado a cultura portuguesa, e posto no índex das figuras marginais da história das ideias precursoras do socialismo em Portugal.»
E, mais adiante: «Guilherme d’Azevedo, numa espécie de testamento poético» [...]«e acentuando a função social do seu verbo, manifesta a esperança de que alguns dos seus versos, pelo menos, «fiquem presos/como fios de luz, ao manto da Justiça!». Que um tal desiderato se cumpriu é coisa que mesmo o leitos de hoje poderá verificar e porventura ampliar com a perspectiva histórica que o tempo lhe coferiu; simultaneamente dar-se-á também conta de como tem sido injusto e injustificado o esquecimento duma figura que activamente participou na batalha da «geração de 70» e que, não obstante a evidência de elementos catalisadores (e sua colocação retórica) de gazetilha, foi a primeira voz com incidência na renovação da forma poética do último quartel do nosso século XIX.»
O fim
No dia 6 de Abril de 1882, quinta-feira de Endoenças, Bordalo Pinheiro dirige-se à Casa de Saúde Dubois, no Faubourg Saint-Denis, onde Guilherme está internado. No Março anterior um grupo de amigos o levara para lá. Uma enfermeira detém-o à entrada - o amigo está muribundo, avisa-o. De facto, no seu quarto, o poeta agoniza. Pouco depois, aparecem também, Tomás Lino de Assunção e o dramaturgo Eduardo Garrido. Guilherme tenta ainda comunicar com eles, estendendo-lhes dois dedos trémulos. Ao cabo de uma hora tudo está terminado. Bordalo modela-lhe em gesso a máscara mortuária. No sábado seguinte, seguido por um escasso grupo de amigos, faz-se o funeral. Descreve Fialho:
«Este enterro foi a mais triste coisa que se pode imaginar. Chovia, e os amigos do morto eram tão poucos! De sorte que no cemitério o préstito cerrava-se, fazendo-se ainda mais pequeno, por que não se perdesse naquela terra estrangeira esse calor da Pátria que vinha dos corações batendo de ansiedade. Cada qual lhe lançou então na cova a pá de terra consoante os ritos de amizade, e ouvia-se a voz do visconde de Faria dizer fanhosamente:
– Eu cá sempre o tive por uma pessoa ordinária: três anos em Paris, e nem sequer um cartão me foi deixar ao consulado!...»
Os seus restos mortais são trasladados para Portugal em 1887.
(Excerto de uma biografia publicada pelo autor em "Vidas Lusófonas")
A alma nova / Guilherme d'Azevedo ; introdução e notas de Manuel Simões. - Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda, imp. 1981. |
Guilherme de Azevedo, no que se refere à opinião que dele faziam os seus coevos, foi estimado por Junqueiro (que ljhe dedicou a Velhice do Padre Eterno), por Magalhães Lima e por Bordalo, louvado por Antero e por tantos outros, exaltado por Ramalho e um pouco ridicularizado, diga-se, embora com algum carinho, pela pena ferina, cruelmente impiedosa, de Fialho de Almeida que, sendo ele próprio um «rapaz da província ao assalto da capital», parece não ter perdoado a Guilherme a sua ousadia de, vindo de Santarém, ter conquistado as colunas dos principais jornais de Lisboa e do País e de serem as suas crónicas lidas avidamente, os seus ditos e frases jornalísticas repetidos pelas mesas dos cafés e de ter sido convidado a fixar-se em Paris (que, na época, era por aqui considerada a capital do mundo, a fonte de todas as ideias e prodígios). Outros contemporâneos, que com ele conviveram e se cruzaram, manifestaram o seu respeito por este homem que as circunstâncias da vida tornaram amargo, mas que em vez de fel destilava pela sua pena um humor ácido, talvez, mas humor, em todo o caso.
É, pela generalidade dos investigadores e historiadores da literatura portuguesa (como, por exemplo, Mário Dionísio), considerado um «escritor menor». Porém, o que significa ser um escritor menor? Será que existe ou em algum tempo existiu uma medida objectiva que permita avaliar da grandeza ou da menoridade de quem cria? A esse respeito, voltamos a Manuel Simôes que, na introdução à edição de 1981 de A Alma Nova, nos diz:
«As razões por que a história das ideias e, de modo particular, a história da literatura, não conserva de um autor senão uma referência de segunda ordem são complexas e dependem muitas vezes de circunstâncias externas ao próprio movimento dos factos sociais, impostas como são por condicionamentos propositadamente desviantes da cultura progressista de um país. Compreende-se, por isso, que Guilherme d’Azevedo tenha sido um autor esquecido, ignorado pela feroz máquina repressiva que tem canalizado a cultura portuguesa, e posto no índex das figuras marginais da história das ideias precursoras do socialismo em Portugal.»
E, mais adiante: «Guilherme d’Azevedo, numa espécie de testamento poético» [...]«e acentuando a função social do seu verbo, manifesta a esperança de que alguns dos seus versos, pelo menos, «fiquem presos/como fios de luz, ao manto da Justiça!». Que um tal desiderato se cumpriu é coisa que mesmo o leitos de hoje poderá verificar e porventura ampliar com a perspectiva histórica que o tempo lhe coferiu; simultaneamente dar-se-á também conta de como tem sido injusto e injustificado o esquecimento duma figura que activamente participou na batalha da «geração de 70» e que, não obstante a evidência de elementos catalisadores (e sua colocação retórica) de gazetilha, foi a primeira voz com incidência na renovação da forma poética do último quartel do nosso século XIX.»
O fim
No dia 6 de Abril de 1882, quinta-feira de Endoenças, Bordalo Pinheiro dirige-se à Casa de Saúde Dubois, no Faubourg Saint-Denis, onde Guilherme está internado. No Março anterior um grupo de amigos o levara para lá. Uma enfermeira detém-o à entrada - o amigo está muribundo, avisa-o. De facto, no seu quarto, o poeta agoniza. Pouco depois, aparecem também, Tomás Lino de Assunção e o dramaturgo Eduardo Garrido. Guilherme tenta ainda comunicar com eles, estendendo-lhes dois dedos trémulos. Ao cabo de uma hora tudo está terminado. Bordalo modela-lhe em gesso a máscara mortuária. No sábado seguinte, seguido por um escasso grupo de amigos, faz-se o funeral. Descreve Fialho:
«Este enterro foi a mais triste coisa que se pode imaginar. Chovia, e os amigos do morto eram tão poucos! De sorte que no cemitério o préstito cerrava-se, fazendo-se ainda mais pequeno, por que não se perdesse naquela terra estrangeira esse calor da Pátria que vinha dos corações batendo de ansiedade. Cada qual lhe lançou então na cova a pá de terra consoante os ritos de amizade, e ouvia-se a voz do visconde de Faria dizer fanhosamente:
– Eu cá sempre o tive por uma pessoa ordinária: três anos em Paris, e nem sequer um cartão me foi deixar ao consulado!...»
Os seus restos mortais são trasladados para Portugal em 1887.
(Excerto de uma biografia publicada pelo autor em "Vidas Lusófonas")
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Guilherme de Azevedo(1839-1882) - III
| Fialho de Almeida |
(Continuação)
O estilo de Guilherme de Azevedo dobra-se com admirável flexibilidade a todos os caprichos da fantasia; de sorte que, dado o facto sobre o qual o artigo tem de ser bâclé para o jornal do dia seguinte, ele arranca-lhe de dentro em cinco tiras de papel tudo o que se lhe pedir: cabriolas, guinchos, métodos científicos, carrancas de palhaço, religiões, filosofias, buca-pés, baba de tigre, teorias de arte, formas de governo, bandeirolas, blasfémias ou pastilhas. Exercendo uma considerável força de crítica e de mordacidade sobre os compadrios caturras da sociedade de Lisboa, ele nunca teve inimigos. Quando há meses partiu para Paris, onde presentemente reside, li eu num jornal que vinte e três dos seus amigos tinham ido dizer-lhe adeus. Vinte e três amigos, para um homem que não tem pelo menos dois ou três ministros fechados em cada mão, parecce-me ser o mais expressivo elogio que se pode fazer à bonomia de um malicioso. E esse elogio, Guilherme de Azevedo merece-o mais que ninguém, porque nunca a fibra belicosa de um mais arrogante sapador revestiu o coração ingénuo de um melhor rapaz.» Este texto lavrado num registo encomiástico serve de contrapeso á descrição, talvez realista, mas ácida de Fialho de Almeida, nas páginas que, no número 40 de Os Gatos, dedica ao escritor santareno.
(Excerto da biografia publicada pelo autor em "Vidas Lusófonas")
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Guilherme de Azevedo(1839-1882) - I
Carlos Loures
Na segunda metade do século XIX, Santarém, apesar da sua proximidade da capital, era uma cidade tipicamente provinciana. A visão de uma vila adormecida, bucólica, como a que Almeida Garrett nos descreveu em Viagens na Minha Terra, não sofrera alterações de monta nas poucas décadas que entretanto tinham decorrido. A cidade portuguesa que aparte Lisboa segundo o polígrafo Alberto de Almeida Pimentel, mereceu dos estudiosos de arte um mais elevado número de obras, a chamada capital do gótico. Bela, mas entediante. Bucolismo e tédio que os poderes vigentes procuram manter num sono vigiado por um «bom senso» de uma elite burguesa que tudo controla em termos económicos, políticos e sociais. Nada escapava à abrangente visão desse grupo dominante, muito menos as manifestações culturais.
Na segunda metade do século XIX, Santarém, apesar da sua proximidade da capital, era uma cidade tipicamente provinciana. A visão de uma vila adormecida, bucólica, como a que Almeida Garrett nos descreveu em Viagens na Minha Terra, não sofrera alterações de monta nas poucas décadas que entretanto tinham decorrido. A cidade portuguesa que aparte Lisboa segundo o polígrafo Alberto de Almeida Pimentel, mereceu dos estudiosos de arte um mais elevado número de obras, a chamada capital do gótico. Bela, mas entediante. Bucolismo e tédio que os poderes vigentes procuram manter num sono vigiado por um «bom senso» de uma elite burguesa que tudo controla em termos económicos, políticos e sociais. Nada escapava à abrangente visão desse grupo dominante, muito menos as manifestações culturais.
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domingo, 31 de outubro de 2010
Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (20), por José Brandão
Galeria de Figuras Portuguesas
Luís Augusto Palmeirim
Perspectivas & Realidades, 1989
O político é geralmente um homem enfastiado fastidioso, a quem correm mal os negócios públicos pior ainda os domésticos. O primo de outro primo que já foi pretendente e não obteve lugar que pretendia, é político: é político o mandrião que precisa de um arranjo para se casar; é finalmente político o empregado que duplicou os recibos dos seus vencimentos; o lojista em vésperas de falência; o artista sem fregueses, o operário que não chega nunca à hora de ponto.
A primeira cor da bandeira do político é liberdade. Outras, conforme os tempos, crismam-se de: – Progresso – melhoramentos materiais – economias e moralidade. Como o pedir custa pouco, o político pede tudo, até tributos bem pesados... que não pesem a ninguém.
___________________
Os Gatos
Fialho de Almeida
Editora Ulisseia, 1986
Fialho de Almeida foi um esteta que esbanjou toda uma vida em busca de perfeição para as suas criações literárias e desperdiçou os últimos anos na amargura de não ter podido, ou sabido, dar corpo a uma obra-prima. Marcado pelo estigma da instabilidade, foi o eterno insatisfeito, consumido em inquietude e azedume, os quais desabafava em violentos sarcasmos. Mas esse «outro lado» de Fialho, revestido de bondade e delicadeza (em geral ignorado da maioria, que dele sempre retém apenas a imagem do revoltado), levaria Raul Brandão a afirmar: «se o virassem do avesso, escorria ternura».
Embora não partilhando com rigor absoluto do método de Sainte-Beuve (o critico literário do século XIX que sustentou ser impraticável dissociar a análise de toda e qualquer obra de feição literária, do indivíduo que a concebe, e dai o seu conceito taxativo «tal árvore, tal fruto»), tentaremos traçar o percurso biográfico do homem e do escritor.
_______________________

Guerristas e Antiguerristas
João Medina
Lisboa, 1986
Este ramalhete de estudos, todos eles à excepção de um só (o de Luís Alves de Fraga) – produtos do labor universitário na Faculdade de Letras de Lisboa, escritos por alunos do Mestrado em História Contemporânea da mesma casa, vem decerto acrescentar ao fenómeno da intervenção lusa na Grande Guerra conhecimentos, documentos e perspectivas de enorme interesse. Não receamos afirmar que, ao estrear-se com este punhado de artigos, a colecção dos cadernos CUO surge como passo feliz e fecundo, já que seria difícil reunir em volume estudos de tanta segurança, competência e acerto. Oxalá colecção agora encetada abra à historiografia portuguesa caminhos tão inovadores e criteriosos como os que neste volume se iniciaram.
Lisboa, Setembro de 1985
JOÃO MEDINA
___________________
Luís Augusto Palmeirim
Perspectivas & Realidades, 1989
O político é geralmente um homem enfastiado fastidioso, a quem correm mal os negócios públicos pior ainda os domésticos. O primo de outro primo que já foi pretendente e não obteve lugar que pretendia, é político: é político o mandrião que precisa de um arranjo para se casar; é finalmente político o empregado que duplicou os recibos dos seus vencimentos; o lojista em vésperas de falência; o artista sem fregueses, o operário que não chega nunca à hora de ponto.
A primeira cor da bandeira do político é liberdade. Outras, conforme os tempos, crismam-se de: – Progresso – melhoramentos materiais – economias e moralidade. Como o pedir custa pouco, o político pede tudo, até tributos bem pesados... que não pesem a ninguém.
___________________
Os Gatos
Fialho de Almeida
Editora Ulisseia, 1986
Fialho de Almeida foi um esteta que esbanjou toda uma vida em busca de perfeição para as suas criações literárias e desperdiçou os últimos anos na amargura de não ter podido, ou sabido, dar corpo a uma obra-prima. Marcado pelo estigma da instabilidade, foi o eterno insatisfeito, consumido em inquietude e azedume, os quais desabafava em violentos sarcasmos. Mas esse «outro lado» de Fialho, revestido de bondade e delicadeza (em geral ignorado da maioria, que dele sempre retém apenas a imagem do revoltado), levaria Raul Brandão a afirmar: «se o virassem do avesso, escorria ternura».
Embora não partilhando com rigor absoluto do método de Sainte-Beuve (o critico literário do século XIX que sustentou ser impraticável dissociar a análise de toda e qualquer obra de feição literária, do indivíduo que a concebe, e dai o seu conceito taxativo «tal árvore, tal fruto»), tentaremos traçar o percurso biográfico do homem e do escritor.
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Guerristas e Antiguerristas
João Medina
Lisboa, 1986
Este ramalhete de estudos, todos eles à excepção de um só (o de Luís Alves de Fraga) – produtos do labor universitário na Faculdade de Letras de Lisboa, escritos por alunos do Mestrado em História Contemporânea da mesma casa, vem decerto acrescentar ao fenómeno da intervenção lusa na Grande Guerra conhecimentos, documentos e perspectivas de enorme interesse. Não receamos afirmar que, ao estrear-se com este punhado de artigos, a colecção dos cadernos CUO surge como passo feliz e fecundo, já que seria difícil reunir em volume estudos de tanta segurança, competência e acerto. Oxalá colecção agora encetada abra à historiografia portuguesa caminhos tão inovadores e criteriosos como os que neste volume se iniciaram.
Lisboa, Setembro de 1985
JOÃO MEDINA
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terça-feira, 26 de outubro de 2010
Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (18), por José Brandão
As Farpas
Eça de Queiroz
Ramalho Ortigão
Principia, 2004
A presente edição dos textos que, sob o título As Farpas, foram publicados em 1871-1872 visa um duplo propósito: por um lado, proporcionar a quantos se interessam pelos estudos queirosianos a oportunidade, até hoje inexistente, de poderem dispor da sua edição original; por outro lado, dar a conhecer ao grande público, na sua pureza, uma obra que, na versão conhecida sob o título de Uma Campanha Alegre, se apresenta diferente e editada de forma descuidada.
Diz Maria Filomena Mónica que As Farpas marcaram uma época, o que não nos deve surpreender dada a sua originalidade, fruto da “raiva sentida por uma nova geração diante da burguesia que se instalara no poder após a Regeneração de 1851”.
__________________
Fialho D’Almeida
Um Decadente em Revolta
Lucília Verdelho da Costa
Frenesi, 2004
É SEMPRE DIFÍCIL EXPLICAR por que razão nos interessamos por um autor, e não por outro. Fialho de Almeida é, sem dúvida, um dos intelectuais mais notáveis de finais do século XIX mas também, e injustamente, um dos mais esquecidos. Fialho foi um dos primeiros a contribuir para tal fenómeno: é que ele foi, quis ser, um escritor marginal. Este desiderato não obstou a que, do ponto de vista literário, a sua obra não se tivesse já prestado a bastantes ensaios. No entanto, é sempre o contista que tem merecido a atenção dos estudiosos. As suas crónicas não mereceram ainda a atenção devida, tanto pelo seu estilo como pelo seu conteúdo.
O nosso propósito é o de evidenciar como, através delas, e também dos seus contos, se afirma o pensamento de Fialho sobre a sociedade em que viveu e o seu grito de revolta com o qual construiu o mito do génio incompreendido, à margem do mundo das letras, que foi o primeiro a forjar.
______________________

Figuras Gradas de A Voz do Operário
Raul Esteves dos Santos
Lisboa, 1936
Entre os factos que um maior significado imprimem à comemoração do 58.° aniversário do nosso jornal e ao 53.° da fundação desta Sociedade, destacam-se, pelo invulgar brilho que lhe empresta, a inauguração solene de duas lápidas em que se esculpiram o nome de algumas das personalidades, que mais relevantes serviços prestaram em vida a esta «Grande Catedral do Bem».
A inauguração de duas lápidas corresponde a uma sentida homenagem de saudade e um preito de justiça, promovida por uma Instituição que um grupo de honrados cabouqueiros há mais de meio século idealizou o, com as bagas do seu amargurado suor, ergueu tão alta e tão forte que aqueles que a contemplam são forçados a olhá-la com a mais respeitosa das admirações.
Não será demais afirmar que só o povo humilde e sofredor cultiva em alto grau o espírito de justiça. Só ele possui a admirável intuição que lhe faz adivinhar o segredo das almas.
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Eça de Queiroz
Ramalho Ortigão
Principia, 2004
A presente edição dos textos que, sob o título As Farpas, foram publicados em 1871-1872 visa um duplo propósito: por um lado, proporcionar a quantos se interessam pelos estudos queirosianos a oportunidade, até hoje inexistente, de poderem dispor da sua edição original; por outro lado, dar a conhecer ao grande público, na sua pureza, uma obra que, na versão conhecida sob o título de Uma Campanha Alegre, se apresenta diferente e editada de forma descuidada.
Diz Maria Filomena Mónica que As Farpas marcaram uma época, o que não nos deve surpreender dada a sua originalidade, fruto da “raiva sentida por uma nova geração diante da burguesia que se instalara no poder após a Regeneração de 1851”.
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Fialho D’Almeida
Um Decadente em Revolta
Lucília Verdelho da Costa
Frenesi, 2004
É SEMPRE DIFÍCIL EXPLICAR por que razão nos interessamos por um autor, e não por outro. Fialho de Almeida é, sem dúvida, um dos intelectuais mais notáveis de finais do século XIX mas também, e injustamente, um dos mais esquecidos. Fialho foi um dos primeiros a contribuir para tal fenómeno: é que ele foi, quis ser, um escritor marginal. Este desiderato não obstou a que, do ponto de vista literário, a sua obra não se tivesse já prestado a bastantes ensaios. No entanto, é sempre o contista que tem merecido a atenção dos estudiosos. As suas crónicas não mereceram ainda a atenção devida, tanto pelo seu estilo como pelo seu conteúdo.
O nosso propósito é o de evidenciar como, através delas, e também dos seus contos, se afirma o pensamento de Fialho sobre a sociedade em que viveu e o seu grito de revolta com o qual construiu o mito do génio incompreendido, à margem do mundo das letras, que foi o primeiro a forjar.
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Figuras Gradas de A Voz do Operário
Raul Esteves dos Santos
Lisboa, 1936
Entre os factos que um maior significado imprimem à comemoração do 58.° aniversário do nosso jornal e ao 53.° da fundação desta Sociedade, destacam-se, pelo invulgar brilho que lhe empresta, a inauguração solene de duas lápidas em que se esculpiram o nome de algumas das personalidades, que mais relevantes serviços prestaram em vida a esta «Grande Catedral do Bem».
A inauguração de duas lápidas corresponde a uma sentida homenagem de saudade e um preito de justiça, promovida por uma Instituição que um grupo de honrados cabouqueiros há mais de meio século idealizou o, com as bagas do seu amargurado suor, ergueu tão alta e tão forte que aqueles que a contemplam são forçados a olhá-la com a mais respeitosa das admirações.
Não será demais afirmar que só o povo humilde e sofredor cultiva em alto grau o espírito de justiça. Só ele possui a admirável intuição que lhe faz adivinhar o segredo das almas.
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terça-feira, 19 de outubro de 2010
Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (11), por José Brandão
O Congresso Sindicalista de 1911

César Oliveira
Afrontamento, 1971
Quando se põe a hipótese de publicar documentos pertencente à história do movimento operário em Portugal, levantam-se, justamente, certos problemas. Grande parte desses problemas radicam no facto de ser desconhecida para as modernas gerações, a história do movimento operário, na sua trajectória dentro da evolução da sociedade portuguesa e no modo de produção dominante (situação objectiva, condições de vida, aspirações, formas organizativas e formas de luta, reivindicações, êxitos e fracassos) e, por outro lado, no que respeita à própria vida das organizações, às dificuldades e limitações quotidianas que integravam a luta dos trabalhadores portugueses.
Aquele desconhecimento só poderá ser anulado por intermédio de visões globais e exaustivas da história do movimento operário completadas com monografias e estudos parcelares que documentem aspectos e momentos da luta…
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Contos
Fialho de Almeida
Publicações Europa-América, s. d.
Carolina nasceu no dia da morte da mãe. Até ali, o coveiro vivera sem misérias, mas, morta a mulher, descobriu-se donde vinham as couves e ninguém mais lhas comprou. Não se sabe como a pequena se criara, mas aos doze anos era bonita, franzininha, o nariz arrebitado, descalça e cheia de remendos.
E sem consciência do que via, acompanhava o pai na sinistra ocupação de sepultar os mortos. Assim crescera. Naquela miseranda existência entrara a criar predilecções. Começou a amar principalmente os mortos que (…) iam habitar em sepulcros de mármore, com figuras sentimentais na fachada e pomposas inscrições nas lápides. Pode dizer-se que aprendeu a ler no cemitério, quando curiosa na sua pobreza esfrangalhada queria saber os nomes e posições ocupadas no mundo pelos que habitavam aquela branca cidade de mármores, de que se julgava rainha.
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Contos ao Luar
Júlio César Machado
Europress, 1991
Buscando os argumentos dos seus folhetins e contos na vida da Lisboa boémia oitocentista: nos teatros, na ópera, nos anais, nos salões de baile, nos botequins e, sobretudo, na rua, Júlio César Machado é um prolixo escritor que, ao seu tempo, teve a aura da glória e do reconhecimento público.
"Contos ao Luar" é uma colectânea onde a vida da Lisboa do século XIX perpassa colorida, em todos os tons, pelos imbróglios amorosos de um sentimentalismo tão ao gosto da época. Nesta reedição de "Contos ao Luar" cabe, ainda, uma referência especial ao prefácio da autoria de Vitor Wladimiro Ferreira, um especialista da literatura portuguesa oitocentista. Mais do que um prefácio, um notável ensaio sobre o autor e a sua época.
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César Oliveira
Afrontamento, 1971
Quando se põe a hipótese de publicar documentos pertencente à história do movimento operário em Portugal, levantam-se, justamente, certos problemas. Grande parte desses problemas radicam no facto de ser desconhecida para as modernas gerações, a história do movimento operário, na sua trajectória dentro da evolução da sociedade portuguesa e no modo de produção dominante (situação objectiva, condições de vida, aspirações, formas organizativas e formas de luta, reivindicações, êxitos e fracassos) e, por outro lado, no que respeita à própria vida das organizações, às dificuldades e limitações quotidianas que integravam a luta dos trabalhadores portugueses.
Aquele desconhecimento só poderá ser anulado por intermédio de visões globais e exaustivas da história do movimento operário completadas com monografias e estudos parcelares que documentem aspectos e momentos da luta…
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Contos
Fialho de Almeida
Publicações Europa-América, s. d.
Carolina nasceu no dia da morte da mãe. Até ali, o coveiro vivera sem misérias, mas, morta a mulher, descobriu-se donde vinham as couves e ninguém mais lhas comprou. Não se sabe como a pequena se criara, mas aos doze anos era bonita, franzininha, o nariz arrebitado, descalça e cheia de remendos.
E sem consciência do que via, acompanhava o pai na sinistra ocupação de sepultar os mortos. Assim crescera. Naquela miseranda existência entrara a criar predilecções. Começou a amar principalmente os mortos que (…) iam habitar em sepulcros de mármore, com figuras sentimentais na fachada e pomposas inscrições nas lápides. Pode dizer-se que aprendeu a ler no cemitério, quando curiosa na sua pobreza esfrangalhada queria saber os nomes e posições ocupadas no mundo pelos que habitavam aquela branca cidade de mármores, de que se julgava rainha.
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Contos ao Luar
Júlio César Machado
Europress, 1991
Buscando os argumentos dos seus folhetins e contos na vida da Lisboa boémia oitocentista: nos teatros, na ópera, nos anais, nos salões de baile, nos botequins e, sobretudo, na rua, Júlio César Machado é um prolixo escritor que, ao seu tempo, teve a aura da glória e do reconhecimento público.
"Contos ao Luar" é uma colectânea onde a vida da Lisboa do século XIX perpassa colorida, em todos os tons, pelos imbróglios amorosos de um sentimentalismo tão ao gosto da época. Nesta reedição de "Contos ao Luar" cabe, ainda, uma referência especial ao prefácio da autoria de Vitor Wladimiro Ferreira, um especialista da literatura portuguesa oitocentista. Mais do que um prefácio, um notável ensaio sobre o autor e a sua época.
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segunda-feira, 20 de setembro de 2010
República nos livros de ontem nos livros de hoje - 171 e 172 (José Brandão)
A Revolução Portuguesa
O 5 de Outubro
Jorge D’Abreu
Lisboa, 1912
De todos os relatos que vieram à tona da imprensa portuguesa sobre episódios do movimento que implantou a República no nosso país, conclui-se nitidamente esta coisa curiosa: raros foram o pontos do programa revolucionário que se cumpriram à risca. No entanto, o movimento triunfou. As longas horas de expectativa dolorosa, que uns passaram a desafiar a morte e outros a contas com a torturante ignorância da verdade, desfecharam na manhã de 5 de Outubro em delirante estralejar da vitória alcançada simultaneamente pelo esforço heróico de meia dúzia de patriotas e a inacção de centenares de descrentes. O movimento triunfou apesar de tudo: da ausência, no momento supremo, de elementos de coordenação revolucionara, do desânimo que bem cedo invadiu quase a totalidade dos dirigentes da campanha, da falta sensível de armamento destinado aos carbonários e outros civis.
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Saibam Quantos…
Fialho de Almeida
Clássica Editora, 1969
Lisboa, 1 de Novembro de 1910
Um mês depois de proclamada a República, a situação política não parece tão assegurada, nem tão certa a liberdade moral dos cidadãos, como a princípio prometiam os discursos dos ministros e o porta-voz optimista das suas gazetas.
Alguma coisa desandou na alma altruísta dos salvadores da pátria (chamemos-lhe assim, por enquanto), uma vez adquirida a certeza de que, pela liquidação infame dos partidos monárquicos, não mais será possível a volta da Monarquia; e esse alguma coisa teria apeado o Conselho dos seus primeiros propósitos de concórdia, e ter-lhe-ia acerbado na consciência, agora um, ao depois outro, certos sinistros propósitos de vingança.
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O 5 de Outubro
Jorge D’Abreu
Lisboa, 1912
De todos os relatos que vieram à tona da imprensa portuguesa sobre episódios do movimento que implantou a República no nosso país, conclui-se nitidamente esta coisa curiosa: raros foram o pontos do programa revolucionário que se cumpriram à risca. No entanto, o movimento triunfou. As longas horas de expectativa dolorosa, que uns passaram a desafiar a morte e outros a contas com a torturante ignorância da verdade, desfecharam na manhã de 5 de Outubro em delirante estralejar da vitória alcançada simultaneamente pelo esforço heróico de meia dúzia de patriotas e a inacção de centenares de descrentes. O movimento triunfou apesar de tudo: da ausência, no momento supremo, de elementos de coordenação revolucionara, do desânimo que bem cedo invadiu quase a totalidade dos dirigentes da campanha, da falta sensível de armamento destinado aos carbonários e outros civis.
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Saibam Quantos…
Fialho de Almeida
Clássica Editora, 1969
Lisboa, 1 de Novembro de 1910
Um mês depois de proclamada a República, a situação política não parece tão assegurada, nem tão certa a liberdade moral dos cidadãos, como a princípio prometiam os discursos dos ministros e o porta-voz optimista das suas gazetas.
Alguma coisa desandou na alma altruísta dos salvadores da pátria (chamemos-lhe assim, por enquanto), uma vez adquirida a certeza de que, pela liquidação infame dos partidos monárquicos, não mais será possível a volta da Monarquia; e esse alguma coisa teria apeado o Conselho dos seus primeiros propósitos de concórdia, e ter-lhe-ia acerbado na consciência, agora um, ao depois outro, certos sinistros propósitos de vingança.
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