(Enviado por Clara Castilho)João dos Santos - Uma vez, era secretário de um congresso internacional de Psicanálise que houve aqui em Lisboa, já há muito anos, e veio um jornalista ter comigo e perguntou¬-me inesperadamente, à entrada para uma sessão, o que era para mim a Psicanálise. E eu saí-me com esta: a Psicanálise é a arte de reconciliar as pessoas com a sua infân¬cia. Hoje digo o mesmo, mas acrescento que é também a arte de fazer com que as pessoas recuperem a sua infância. O que acontece neste poema é que há uma parte própria do Pessoa que dá uma imagem severa, agreste, do céu e de Deus e de outras figuras desse imaginário, e há outra parte dele que idealiza o Menino Jesus como um menino muito humano. Uma coisa não é incompatível com a outra, todos nós fazemos isso, porque uma coisa é a verdade das ideias e outra é a verdade dos senti¬mentos. E desta última que falam o povo e os poetas. (Julgo que o culto do Espírito Santo tem também que ver com isso.) E muito fácil para nós dizer que o pai era casado com a mãe, que há uma célula masculina e uma célula feminina, e tudo o resto que vem nos manuais. Dizer isso é fácil. O problema é que a criança não pode aceitar emocionalmente que as coisas sejam realmente assim. Temos todos necessi¬dade de esconder de nós próprios a emoção que tivemos ao saber que alguma coisa de íntimo, de particular, de secreto se passou com os nossos pais. Isso acontece com toda a gente, até com o professor catedrático de sexologia duma universidade que fosse imaginariamente a melhor do mundo.
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domingo, 19 de dezembro de 2010
O pecado de saber demais * (I)
(Enviado por Clara Castilho)João dos Santos - Uma vez, era secretário de um congresso internacional de Psicanálise que houve aqui em Lisboa, já há muito anos, e veio um jornalista ter comigo e perguntou¬-me inesperadamente, à entrada para uma sessão, o que era para mim a Psicanálise. E eu saí-me com esta: a Psicanálise é a arte de reconciliar as pessoas com a sua infân¬cia. Hoje digo o mesmo, mas acrescento que é também a arte de fazer com que as pessoas recuperem a sua infância. O que acontece neste poema é que há uma parte própria do Pessoa que dá uma imagem severa, agreste, do céu e de Deus e de outras figuras desse imaginário, e há outra parte dele que idealiza o Menino Jesus como um menino muito humano. Uma coisa não é incompatível com a outra, todos nós fazemos isso, porque uma coisa é a verdade das ideias e outra é a verdade dos senti¬mentos. E desta última que falam o povo e os poetas. (Julgo que o culto do Espírito Santo tem também que ver com isso.) E muito fácil para nós dizer que o pai era casado com a mãe, que há uma célula masculina e uma célula feminina, e tudo o resto que vem nos manuais. Dizer isso é fácil. O problema é que a criança não pode aceitar emocionalmente que as coisas sejam realmente assim. Temos todos necessi¬dade de esconder de nós próprios a emoção que tivemos ao saber que alguma coisa de íntimo, de particular, de secreto se passou com os nossos pais. Isso acontece com toda a gente, até com o professor catedrático de sexologia duma universidade que fosse imaginariamente a melhor do mundo.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Criança – Uma obra em aberto
Clara Castilho
HISTÓRIAS CONTADAS POR CRIANÇAS – O QUE ELAS NOS QUEREM DIZER - I
“Não se pode escrever com a caneta e com a mão, mas com ideia e com imaginação”
(João dos Santos)
Na Instituição onde trabalho – Casa da Praia – dá-se grande importância às actividades de livre expressão, como forma de fazer emergir os sentires, as experiências, os saberes e as motivações das crianças, ligando-as a outras formas de expressão (desenhada, dramatizada, gravada ou escrita).
Inicialmente reflexo de simples relatos ou descrição elementar de situações, as histórias das crianças vão-se tornando, progressivamente, mais complexas e criativas. Valorizadas através do seu registo, transformando as “histórias” ditas em escritas a criança apercebe-se que aquele registo tem um significado.
A imaginação de histórias pelas crianças surge, assim, de uma forma natural, permitindo a projecção de conflitos, medos e fantasias.
Eis um exemplo:
A. foi um menino que nos chegou com 8 anos. Não conseguia ficar sentado numa cadeira, atirava-se para trás, gritando frases desconexas. Não vou contar toda a sua história. Mas ele, da mãe só se lembrava que tinha ao cabelo amarelo, mas desculpava-a dizendo: “ ela não me abandonou num sítio qualquer, foi à porta do meu avô”. Foi todo um trabalho de “reconstrução” que chegou a bom termo. A. foi capaz de imaginar as seguintes histórias:
HISTÓRIAS CONTADAS POR CRIANÇAS – O QUE ELAS NOS QUEREM DIZER - I
“Não se pode escrever com a caneta e com a mão, mas com ideia e com imaginação”
(João dos Santos)
Na Instituição onde trabalho – Casa da Praia – dá-se grande importância às actividades de livre expressão, como forma de fazer emergir os sentires, as experiências, os saberes e as motivações das crianças, ligando-as a outras formas de expressão (desenhada, dramatizada, gravada ou escrita).
Inicialmente reflexo de simples relatos ou descrição elementar de situações, as histórias das crianças vão-se tornando, progressivamente, mais complexas e criativas. Valorizadas através do seu registo, transformando as “histórias” ditas em escritas a criança apercebe-se que aquele registo tem um significado.
A imaginação de histórias pelas crianças surge, assim, de uma forma natural, permitindo a projecção de conflitos, medos e fantasias.
Eis um exemplo:
A. foi um menino que nos chegou com 8 anos. Não conseguia ficar sentado numa cadeira, atirava-se para trás, gritando frases desconexas. Não vou contar toda a sua história. Mas ele, da mãe só se lembrava que tinha ao cabelo amarelo, mas desculpava-a dizendo: “ ela não me abandonou num sítio qualquer, foi à porta do meu avô”. Foi todo um trabalho de “reconstrução” que chegou a bom termo. A. foi capaz de imaginar as seguintes histórias:
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