Manuela Degerine
Capítulo LXXXIV
Vigésima primeira etapa: de Valença ao Porrinho (continuação)
A partir de Tui contamos com mais esta facilidade: o caminho é assinalado através de marcos quilométricos que indicam a distância até Santiago de Compostela.
Entramos na cidade, chegamos à catedral. Vemo-nos perante uma estrutura compacta, pormenorizamos a fachada e o portal românico, depois poisamos as bagagens, visitamos o museu, com as demoras que merece, observamos o interior da catedral, subimos ao terraço, espreitamos do miradouro... Avistamos algumas casas em ruínas: sintoma funesto. Na catedral encantam-nos as representações do céu, do inferno, do purgatório e dos limbos... Uma imagem de Santiago lutando com os sarracenos recorda-me: é o santo da reconquista.
Até à crise de 1383-1385, os portugueses invocavam Santiago, porém a partir daí, sobretudo nas lutas com Castela, passaram a invocar S. Jorge: Santiago era o protector dos inimigos. Terá isto contribuído para o esquecimento da peregrinação jacobeia, juntando-se aos factores que, por toda a Europa, causaram tal declínio? Nos textos lidos, a partir do século XVI, encontro com mais frequência a palavra romeiro do que a palavra jacobeu. Romeiro ganhou, a pouco e pouco, o sentido de peregrino, provando ser a peregrinação a Roma mais frequente do que a Santiago.