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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra



Manuela Degerine


Capítulo CXXI

Epílogo

A mulher que via passar os comboios (conclusão)

- Interessa-me. E até os leitores fazem perguntas... A última vez que dei notícias, querias sair daquela varanda. Em Pontevedra… Nos dias seguintes andei atrás de ti no Caminho de Santiago. Caminhas mais depressa do que eu, perdi-te de vista à saída de Rio Tinto. E não te encontrei nos albergues… Dormiste onde?

- Não tens nada com isso.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra 120



Manuela Degerine

Capítulo CXX

Epílogo

A mulher que via passar os comboios

Cheguei ontem de Santiago de Compostela. Neste momento desço a Almirante Reis, atenta a quem por mim passa, não apenas por, nesta avenida, a atenção ser necessária, mas igualmente por curiosidade. Não conheço em Paris nada que se assemelhe a esta avenida... Há as prostitutas, não apenas as profissionais do Largo do Intendente que, não raro, vão e vêm, mas também uma ou outra, em fim de carreira que, de vez em quando, tenta por aqui o negócio; e, claro, lá em baixo, na esquina da Rua da Palma com a de S. Lázaro, encontram-se várias de serviço. Há os clientes. Há os chulos e seus assessores. Há os sem-abrigo, cuja cantina se situa em frente da igreja dos Anjos e, por esta razão, pouco daqui se afastam. Há os drogados, com ou sem abrigo, arrumadores ou não de carros, muitos discretos, alguns excitados, não poucos buscando financiamento, outros alheios a qualquer realidade, um parece dormir no meio do passeio, uma arruma o entulho dentro do contentor... Há os vendedores de droga e seus adjuvantes. Há os bêbedos que transbordam das tascas para o passeio. Há romenos assaltando os passantes e romenas arrecadando a receita. Há comerciantes chineses e indianos, há clientes indianos e chineses. (Não confundir os romenos com os indianos. Quanto às romenas e indianas, exclui-se qualquer confusão.) Há os chineses das limousines e seus guarda-costas. Há africanos de todas as origens, atraídos por acasos, tráficos e convívios. Há as brasileiras novas com portugueses velhos. Há as donas de casa. Há os clientes dos cafés, cervejarias, restaurantes e marisqueiras. Há os turistas dos hotéis. Há brasileiros de chinelo, senhoras de chapéu, gente tatuada e perfurada. Há pais que vão buscar os filhos à escola. Há o arquivo fotográfico, seus artistas, técnicos e visitantes. Há a Misericórdia, há as associações. Há os empregados e clientes de supermercados, lojas de fruta, material de cozinha, electrodomésticos, bugigangas, móveis novos e em segunda mão, roupa nova e em segunda mão... Para abreviar, digamos: há de tudo nesta avenida.

sábado, 25 de setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra



Manuela Degerine

Capítulo CXVIII

Conclusões

Estou a escrever no dia 10 de Setembro de 2010. Regressei há quatro meses e reintegrei-me na vida lisboeta. Quase como antes.

Impõe-se agora questionar:

- O que resta do Caminho de Santiago?

Em primeiro lugar houve um considerável alargamento da minha terra. Até aqui eu conhecia a região de Lisboa, Tomar e os arredores, Sarzedas do Vasco e seu enquadramento, as paisagens do Alentejo, alguns espaços da orla costeira, os museus e cidades do centro e sul do país... Conhecia melhor Portugal do que a maioria dos outros portugueses; mas seguindo sempre pelas estradas. O Caminho de Santiago deu-me outro ponto de vista.

O património de um país não se encontra apenas em museus, monumentos e espaços protegidos pela Unesco; a travessia de Lisboa a Valença revelou-me paisagens de um inestimável património natural. Os percursos entre Arneiro das Milhariças e Fátima tal como entre Barcelos e Valença foram os supremos momentos desta descoberta. (Chorei diante da televisão quando, em Julho e Agosto, vi arder as florestas por onde passei.)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo CXVII

Regresso de Santiago de Compostela

Surpreendo-me no dormitório: os radiadores estão ligados. Não esperava tamanho desvelo nesta instituição. Adormeço. Porém, passada uma hora, sinto-me gelada. Levanto-me, toco no radiador: está frio. Ah... Isto já não me surpreende.

Não consigo voltar a adormecer. Tenho frio. Decido ir, às escuras, tentando não fazer barulho, à mochila, procurar a camisola das fibras tecnológicas e, quase de madrugada, ainda ponho o blusão da D. Graziela por cima do saco-cama. Acabo por dormir.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra



Manuela Degerine


Capítulo CXVI

Vigésima sexta etapa: em Santiago de Compostela (continuação)

Percorro a cidade tentando ultrapassar um mal-estar que, em certos momentos, chega a ser vertigem. Nunca sofri de agorafobia mas aqui há instantes durante os quais, presa na multidão, no aperto de uma rua, preciso de fechar os olhos, respirar com calma – a angústia acalma-se.

Subimos à Oficina do Peregrino, na Rua do Vilar, para requerer a compostela. Pensava não a pedir, todavia agora, acompanho Sérgio; saio com ela na mão. Mais um diploma, afinal, nem mais nem menos importante do que os outros... Nenhum me obrigou a transpirar tanto e, vendo bem, não é certo que, para obter os outros, aprendesse mais.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra



Manuela Degerine

Capítulo CXV

Vigésima sexta etapa: em Santiago de Compostela

De Ponte de Lima até aqui, isto é, desde que há albergues, pouco nos inquietou a localização, entre sinais e indicações do roteiro, lá nos dirigimos sem hesitar. Por isso e – sem dúvida – por não querer pensar no fim da viagem: não preparei a chegada a Santiago de Compostela. Prepará-la seria informar-me, tanto nos albergues precedentes como entre os peregrinos, sobre as características e localizações dos diferentes albergues. Falaram-me de um situado por detrás da catedral, Sérgio dispõe de uma direcção que lhe corresponde; procuramos. Depois de várias idas e vindas, com as mochilas, claro, mais os vinte e dois quilómetros com elas percorridos, evidentemente, após ziguezagues, questionamento de habitantes e empregados de lojas, quando lá chegamos, declaram-nos que o pretendido se encontra fechado.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

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Manuela Degerine

Capítulo CXIV

Vigésima sexta etapa: de Padrón a Santiago de Compostela (continuação)

O sol brilhou durante a manhã e agora começa a haver calor. As peúgas, que viajam há dois dias penduradas na mochila, estão outra vez sujas mas finalmente secas. São – no último dia – as primeiras peças de roupa que, de Águeda para cá, secaram sem o complemento térmico dos meus 37°.

Talvez o leitor se interrogasse numerosas vezes sobre esta mania de lhe comunicar cada compra de pão e lavagem de camisola. Talvez, numa primeira impressão, isto possa sugerir futilidade natural ou desmazelo narrativo porém, tal como o praticante de ioga repete determinados sons ou frases com o objectivo de esvaziar o espírito de pensamentos e preocupações que o impeçam de alcançar uma concentração profunda, também aqui, no Caminho de Santiago, o pão, os pés, a roupa, o albergue e a mochila são as constantes que, associadas ao ritmo e ao esforço da caminhada, construem um estado de espírito – e importa que os meus leitores o compreendam. Numerosas agências tratam disto tudo no Camiño Francés porém, nestas circunstâncias, o Carreiro de Santiago – como foi designado noutras épocas – não passa de um vulgar passeio (ou apenas de ginástica; o que não me interessa).

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo CXIII

Vigésima sexta etapa: de Padrón a Santiago de Compostela

Saímos do albergue já depois das oito horas, após demorado, copioso pequeno-almoço – precisamos de aligeirar as mochilas – e narrativa da peripécia do telemóvel, com os risos e comentários anexos, a conhecidos e desconhecidos, entre os quais a família franco-alemã, os estudantes, a rapariga espanhola, uma outra rapariga, ainda ofendida, a quem a dona do telemóvel acusara, ouvindo o extraviado tocar no beliche dela (era ao lado, no de Sérgio).

Hoje é o dia dezasseis de Maio de 2010. Parece-me ter saído há meses de Tomar – faz exactamente duas semanas. Resta-me percorrer uma etapa de vinte e dois quilómetros.

Se dependesse de mim, prolongava a caminhada. Muitos peregrinos continuam até Finisterra, onde é tradição queimarem a roupa: um ritual de passagem a outra vida. (Sérgio, que só parte de hoje a oito dias, projecta prosseguir a viagem.) Porém eu preciso de regressar a Lisboa.

domingo, 19 de setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra




Manuela Degerine

Capítulo CXII

Vigésima quinta etapa: em Padrón (continuação)

Na camarata não vemos Victor nem os venezianos mas, em contrapartida, reencontramos a família franco-germânica e a rapariga espanhola; esta sem o português. (Quando chegamos: uma senhora espanhola trata-lhe as bolhas dos pés.)

Preciso de carregar o telemóvel e, por não haver tomada junto do beliche, vou colocá-lo mais longe. Não sou do género que investe as economias em portentos da tecnologia; no entanto, com tanta gente em movimento, mesmo sem o objecto ser precioso, prefiro manter-me nas vizinhanças. Sérgio questiona se volto a sair. Respondo que não: vou escrevendo e vigiando o telemóvel. Ele sai. Eu de facto escrevo mas, apenas o indicador do telemóvel muda para o verde, arrumo todos os pertences e, não obstante haver luz do sol lá fora – deito-me.

A noite será outra vez, sem dúvida nenhuma, num espaço tão denso, tórrida e sonora; não dou por nada. Acordo com um alarme. E um vozeirão. Que não me despertam completamente. Depreendo – ao fim de quanto tempo? – que se fala de um telemóvel. Não presto atenção... mas vou acordando. O tumulto aumenta. Acabo por me sentar.

Mais adiante, Sérgio, que não compreende o espanhol, vê que acordei e, intrigado com o tom, alarmado com o som, antes todos murmuravam – inquire o que se passa. Explico que roubaram o telemóvel a uma mulher. Ou ela o perdeu. Ou algo assim.

- Era o que me parecia... Não te preocupes com o teu. Quando cheguei, estavas a dormir: arrecadei-o.

Levo vários segundos a decifrar a mensagem.

- O meu telemóvel guardei-o eu...

- Não era o teu?!

- Não... O meu está aqui.

Não acabei ainda de falar, o pobre Sérgio salta do beliche, entrega o objecto à sanhuda proprietária – e fica muito envergonhado. (Meio atordoada pelo sono, quando compreendo a situação: faço o esforço de não me rir.)

Na casa de banho, em frente do espelho, explico o quiproquó à senhora; a qual possui o mesmo modelo que eu. (Que mundo este...) É quem ontem tratou os pés da rapariga espanhola. Viaja com o marido e uma amiga; ou com um casal – não percebo a qual das duas corresponde o senhor. Já havia reparado nestes três peregrinos muito amáveis e bem-educados...

Dali a pouco oiço a mesma peregrina queixar-se dos ratos. (Valha Santiago a esta dama!) Guardou comida dentro da mochila: roeram-na até chegarem onde lhes interessava.

Regozijo-me por ter dormido num beliche superior... Por mais cuidado e higiene – aqui está tudo muito limpo – que haja, a própria densidade de ocupação, cada um trazendo as suas bagagens, dentro das quais há comida, basta para atrair os roedores. (Aprendi isto, há muitos anos, numa noite de terror em Badajoz.)

sábado, 18 de setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine
Capítulo CXI

Vigésima quinta etapa: em Padrón

A entrada em Padrón é magnífica: o rio de águas transparentes deixando ver peixes e plantas, ao lado o passeio público com um túnel de plátanos, agora ainda sem folhas, Cela e Rosalía, a igreja de Santiago ao fundo, à esquerda a ponte, a fonte com a chegada do santo a Padrón e, por cima, a harmoniosa igreja do Carmo.

Subimos a ladeira pavimentada com lajes polidas e muito musgo nos intervalos das pedras – encontramos a rapariga mexicana. Caminha coxeando e soltando ais: tem grandes bolhas nos pés. Lembramos que amanhã a estas horas estará em Santiago de Compostela; o que, de maneira evidente, não lhe acalma a dor.

O albergue encontra-se a meio da encosta que conduz à igreja do Carmo. Para quem é sensível à estética das pedras, aos volumes e efeitos espectaculares... a calçada é soberba, o edifício bonito, há um cruzeiro, há a igreja... Não me canso de admirar.

No rés-do-chão do albergue situam-se a recepção, as casas de banho, os duches e a cozinha; no sótão, com paredes de pedra nua, chão e tecto de madeira, encontramos um dormitório de 48 lugares em beliches colados uns aos outros; escolho, como é costume, um beliche superior.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O crescimento das crianças

Raúl Iturra



B-Pilar



Também entre os galegos, as crianças som acarinhadas. Ainda bebés, com mimos. Ao crescerem, com disciplina. Uma disciplina ligada às horas de trabalho do adulto. Uma disciplina que não pune, mas ensina como optar. A opção, essa lógica de procurar o que é melhor para quem obedece e para quem diz mandar. A opção que Pilar aprendeu e que a levou a Compostela. Em uma Galiza dos anos sessenta, ainda sob a mão firme do Governo Central espanhol, essa ditadura de cinquenta anos de um general que não permitia outra língua que a oficial castelhana. Mas Pilar, como a sua mãe e o seu pai e irmãos, ião falando a língua herdada do lusitano. Aprendiam o que era oficial e de interacção, em Galego também, esse lusitano antes definido neste texto.

Um lusitano misturado de castelhano, lusitano castellanisado. A conversa do lar era dividida entre o galego persistente da mãe, e o castelhano bem falado pelo pai. E o galego castelhano que os filhos, os irmãos de Pilar, ião combinando entre essa obrigação, ditada por lei, de aprender a vida social, na escola, em língua oficial; e o galego da vida denominada rural pelos professores que eles tinham. Professores ou maestros, como aí são denominados, de origem também rural, mas forçados a saber o saber na língua oficial, que não era o galego. O mundo estava dividido não apenas em hierarquias, bem como cada hierarquia tinha uma língua diferente. A classe mais pobre, era galego, a classe com mais recursos, era castelhano. A classe intelectual, um galego antigo feito para bater o castelhano. Esse castelhano que Pilar me falava todos os dias, para evitar o português que eu usava em casa e que ela não entendia. Era a diferença das línguas lusas, especialmente esse português de mil anos e o galego banido por dezenas de anos… Uma Pilar que, em pequena, olhava para o chão quando eu falava para ela, faz 26 anos, e que hoje olhava de olhos nos olhos, mediadas as conversas, com música de Haydn (1797) que ouvia-mos na rádio do carro, ou as sonatas de flauta do Teleman (1772-1773) enquanto corríamos de casa em casa e de Bispado em Bispado.

domingo, 13 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo XVIII

Etapa 6: Fátima (conclusão)

No refúgio encontro dois espanhóis a fazer o jantar. Ele é de Santiago de Compostela, segue pela segunda vez o Caminho, na primeira partiu de Saint-Jean-Pied-de-Port e agora de Lisboa; comunicamos em galaico-português, uma ou duas vezes peço-lhe para repetir, por exemplo, quando ele pronuncia Xulho (Julho). Ela percorre-o pela terceira vez, as primeiras por variantes do Caminho Francês, neste momento pela Via Lusitana. Inquiro porquê. Ele sublinha logo que não tem motivações religiosas, no entanto já foi a Roma, a Lurdes, a Santiago pelo Caminho Francês, agora passa por Fátima e continua para Santiago, afirma crer numa transcendência que não é apenas católica, projecta ir em seguida à Meca e a Jerusalém. Ela caminha para descobrir as forças que em si traz; em Março, quando foi a Santiago pela primeira vez, incharam-lhe os pés, teve que cortar as botas para as descalçar, caíram-lhe as unhas – mas não interrompeu a caminhada. Também gosta de ver paisagens, descobrir cidades, encontrar outros caminhantes porém, mais que tudo, deseja voltar a sentir, pela terceira vez, a emoção da chegada a Compostela; confessa que faz muitos pedidos a Santiago.

Estes dois andarilhos percorrem no mínimo quarenta quilómetros por dia e caminham, por enquanto, quase sempre à beira das estradas, para irem mais depressa, pois dispõem de um pecúlio reduzido e os alojamentos, nesta parte do percurso português, ao contrário do que se passa em todo o espanhol, são muito incertos – por exemplo, os bombeiros de Santarém, onde esperavam ser acolhidos, não lhes deram pousada.

Quando chegaram ao refúgio, tomaram duche, lavaram a camisola do dia, que amanhã hão-de vestir húmida pois, para limitarem o peso da bagagem, só trazem duas cada um. Depois de jantar, vão ao santuário; voltam uma hora mais tarde.

Chega então um neozelandês. Andou perdido a pé, foi recuperado por um autocarro de peregrinos e, chegado a Fátima, deu inúmeras voltas de joelhos à capela das aparições. Dorme numa tenda de campismo mas utiliza a cozinha e a casa de banho do refúgio.

Na manhã seguinte tomamos o pequeno almoço todos juntos. Os espanhóis oferecem o chá, eu o chocolate preto, o neo-zelandês o seu colossal apetite: devora os croissants dos espanhóis. Peregrinou num santuário da Croácia, se bem percebi, em Roma, em Lurdes, aqui... Fátima deve todos os dias atrair malucos desta espécie.

Os espanhóis partem logo a seguir. Despedimo-nos com simpatia. Ver-nos-emos em Santiago.

sábado, 12 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra



Manuela Degerine

Capítulo XVII

Etapa 6: Fátima

Em S. Bento de Labre acolhem-me com solicitude, mostram-me o dormitório das mulheres, a casa de banho, a cozinha, inquirem se trouxe saco-cama, explicam as luzes, a abertura e o fechamento das portas. Largo a mochila, tomo banho, mudo de roupa, instalo o saco em cima de uma cama, vou – mais leve: que prazer – visitar Fátima. Sábado, duas horas e meia da tarde, os parques de estacionamento estão cheios de autocarros, as mesas de merenda repletas de farnéis: frangos e coelhos assados, panelas de arroz, centos de pastéis, imensos pães-de-ló, pacotes e pacotes de bolos... Eu comi na Giesteira duas sanduíches preparadas em Minde com um sumptuoso queijo de ovelha.

Dou uma volta completa pelos espaços religiosos do santuário. Observo o desencanto dos peregrinos, lançando as velas para um monte, por falta de espaço para elas arderem verticalmente. Sento-me na Capela das Aparições. Olho à minha volta: os peregrinos são idosos. O que será Fátima daqui por cinquenta anos? Os netos destes peregrinos continuarão a vir? É provável. O povo precisa de apoio nas dificuldades, encontra-o fazendo promessas, que devem depois ser cumpridas; Fátima reforça-lhes a esperança.