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sábado, 2 de outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -13

(Continuação)


Cena 13


Sonhos de amor

( Em gravação o fado da “Triste Feia”. Berta, em casa . É jovem e espera por Carlos Deita-se num sofá fingindo dormir .Jogo de sedução entre os dois.)

Berta – meu amor

Carlos – minha mulherzinha

Berta – estás feliz?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -12

(Continuação)

2o. Acto




A confissão

(Berta Maia - chapéu e véu, agente Barbosa Viana).

Barbosa Viana – D. Berta Maia, o Abel Olímpio está muito perturbado e não mostrou nenhum interesse em voltar a vê-la.

Berta Maia – sr. Barbosa Viana, eu não desisto. Quero vê-lo. Por favor, tragam-mo.

( Barbosa Viana traz Abel Olímpio, muito pálido, com ar de tuberculoso).

Berta Maia – Ai, Abel, como tu estás! Morres e eu fico sem saber nada! O que é que te fizeram?

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 193 e 194 (José Brandão)


Um Jornal na Revolução

Jacinto Baptista

Seara Nova, 1966

O Século, apesar das suas opiniões. era, predominantemente, jornal de informação, enquanto o outro, O Mundo, a despeito das suas informações, se afirmava, essencialmente, jornal de opinião, não devia diferir muito, à data da revolução de Outubro, senão a tiragem, pelo menos a cotação de que um e outro fruíam no mercado de leitores, a avaliar pela publicidade (quer-se atestado mais qualificado?) que, por igual, preenche o espaço de ambos nas edições que lançam para a rua, por exemplo no dia 7 de Outubro de 1910: num, como noutro caso, uma página inteira de anúncios para cinco de texto.

Mas, apesar de tudo, não se tome como rigorosamente infalível o critério de avaliar a expansão de um jornal só pela quantidade de anúncios que insere: desconsertar-nos-ia. O País daquele mesmo dia 7, que reparte as suas quatro páginas em duas de anúncios e duas de redacção.

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Um Marinheiro Romântico

Bourbon e Menezes

Lisboa, 1924

A viúva de José Carlos da Maia agradece a Rocha Marfins e a Bourbon e Meneses a sua anuência para a publicação deste livrinho como homenagem a seu infeliz marido, e dedica-o ao seu querido filho Francisco Manuel para no exemplo da vida honestíssima e altamente Patriótica de seu Pai aprender a imitá-lo.

Também o dedica aos poucos mas excelentes Amigos que se comoveram ante a tragédia horrível, e tem manifestado o seu protesto, prestando culto á memória de seu adorado Marido, carinhos esmolas e benefícios á mulher e ao filhinho que ele tanto amou.
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -8

(Continuação)


Cena 7



O Dente de Ouro começa a falar

(Criada, com uma carta)

Criada – Também chegou correio, minha senhora.

Berta Maia – Uma carta de Coimbra, da penitenciária, do Abel Olímpio!...

(Lê e em simultâneo …)

domingo, 26 de setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -7

(Continuação)

Cena 6


Memórias de Carlos da Maia

Ciclorama com bambus chineses

(Berta Maia recorda Carlos da Maia )

Berta - (estende a mão sem folha) o que é isto ?

Carlos – (com folha na mão) mostra. Ah, é uma carta do Sun–Yat-Sen...o 1º. Presidente da China...

Berta – que engraçado!

Carlos - na altura, não teve muita graça. Antes disso, ele esteve exilado em Macau, foi médico no hospital. Não o aceitavam em nenhum país. Como Macau tinha um estatuto de independência (quase), ficou por ali.

Berta – Que interessante. E essa carta, porquê?

Carlos – Essa carta é de 1916, quando eu era governador. Sun-Yat-Sen estava outra vez no exílio, e o governo de direita da China pediu a Portugal a extradição dos criminosos que tinham fugido para Macau. Claro que os tais criminosos que eles pediam eram os revolucionários, os companheiros de Sun-Yat-Sen. Os assassinos e ladrões podiam continuar em paz, no exílio dourado de Macau, organizando seitas, o jogo, o negócio do ópio.

Berta – e tu não entregaste nenhum republicano chinês.

(Separados, mimam beijos)

Carlos – como é que adivinhaste? Não foi fácil, houve uma grande luta diplomática, o Império Britânico a pressionar a Republica Portuguesa, mas ganhámos.

Berta - mas, a Inglaterra...

Carlos – nossa velha aliada, não é? Berta, Bertinha, menina bonita, tão ingénua...um Império, é um Império, é para mandar em tudo e todos. Não duram toda a vida, mas enquanto puderem...lembras-te da guerra do ópio? Os Chineses revoltaram-se porque , a dada altura, os Ingleses condenavam à morte os trabalhadores que se recusavam a tomar ópio...além de um grande negócio, a droga era para os acalmar...claro que os Ingleses não tomavam ópio... ( risos)

(Carlos da Maia deixa cair a folha e desaparece; Berta Maia mima abraço, “acorda” da evocação, levanta-se , vê a folha no chão e pega nela)

Berta Maia – Macau…

Criada – ( com cesto com comida, ovos, uma galinha) - Minha senhora, vieram entregar isto.

Berta Maia – Quem mandou isso?

Criada – Disseram que era da parte de um grande amigo do seu marido.

Berta Maia – Põe na cozinha. O Carlos, que tinha tantos amigos... agora, já nem dizem o nome.

Criada – Minha senhora, as pessoas andam com medo de falar, depois destes crimes, as pessoas são assim. Está aqui o jornal.

(Mostra jornal)

Berta Maia – (lê) Augusto Gomes, o empresário teatral, assassinou a actriz Maria Alves. Sabes quem é?

Criada – É o senhor do teatro, não é ?

Berta Maia – Sim, um empresário teatral que está ligado a todas as conspirações monárquicas, amigo do Alfredo da Silva da CUF, e ... uma testemunha da morte de Machado Santos...

(No Tribunal)

Augusto Gomes – Eu tinha ido a Pedrouços para uma missão de confiança, e fui ao Arsenal. Uns civis armados disseram-me que estavam à espera do senhor Cunha Leal para o assassinarem. Corri ao quarto do oficial de dia onde estavam António Granjo e Cunha Leal e convenci-o a ir ao hospital tratar do ferimento que já tinha no braço.

Depois do hospital fui a casa do Sr. Presidente da República e vi que só tinha dois polícias a protegê-lo. Dirigi-me ao Sr. Manuel Maria Coelho, chefe do golpe e pedi protecção para o Sr. Dr. António José de Almeida. Depois fui ao Rossio e meti-me num carro para ir para casa; passando no Intendente, um grupo armado disse que o carro seria preciso para levar um cadáver à morgue. Contra as minhas súplicas, mataram o Almirante Machado Santos. E consegui, a muito custo, que não fossem a casa dos senhores Barros Queiroz e Sotto Mayor, que também estavam condenados a morrer. Horrorizado com tanto sangue inocente que tinha visto correr, fugi para casa.

(Sai)

(Continua)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma - 2, de Hélder Costa

(Continuação)

Cena 2


Pesadelo


(Percurso da camioneta fantasma. Som da viatura misturado com derrapagens e música.Pausa. Passos. Pancadas numa porta com aldraba).


Berta Maia (jovem, cabelos soltos, camisa de dormir) - Quem é?

Abel Olímpio - O Sr. comandante Carlos da Maia.

Berta Maia - quem?

Abel Olímpio - O Sr. Coronel Manuel Maria Coelho quer falar com o Sr. Comandante.

Carlos Maia (em camisa) - Mandem-me um oficial da minha patente para me acompanhar.

Abel Olímpio - Tem de vir já. São ordens.


Berta Maia (de joelhos) – Larguem o meu marido, deixem-no. Ele nunca fez mal nenhum. Sempre protegeu os marinheiros. Deixem-no!

Carlos da Maia – Levanta-te Berta, uma senhora não suplica a esta gente!

(Abel Olímpio empurra Carlos da Maia. Choro de bébé. Som e saída da camioneta).

(Continua) A cena 3 entra às 23 horas .

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma-1, de Hélder Costa

Na manhã do dia 19 de Outubro de 1921 deu-se mais um golpe militar contra um governo republicano. Demissão do Ministério e nem soou um tiro.

O golpe nascera na Armada e tinha a chefiá-lo um dos heróis do 31 de Janeiro, o Tenente – Coronel Manuel Maria Coelho. Tratava-se, portanto, de um golpe de esquerda contra o governo de António Granjo, prestigiado combatente transmontano nas forças republicanas que se opusera a Paiva Couceiro. Este governo imprimia medidas impopulares para tentar equilibrar a bancarrota e combater o desemprego e a miséria do após-guerra.

domingo, 22 de agosto de 2010

Repúblca nos livros de ontem nos livros de hoje - 113 e 114 (José Brandão)

As Minhas Entrevistas com Abel Olímpio

“O Dente de Ouro”

Berta Maia

Lisboa, 1928

Porque escrevi este livro

Tu, meu filhinho, ficaste órfão aos seis meses, toda a tragédia se desenrolou à tua vista e tu sorrias, sorrias sempre! Deus Meu! Pensei que um dia a tua alma estimaria ler estas páginas, escritas por tua Mãe, sem ódios, sem gritos de vingança, e então uma lágrima rolaria pela tua face, serena, sem revoltas, amparado à cruz de Cristo, forte, altivo na tua dor, orgulhoso de teu Pai!

Berta Maia, viúva de Carlos da Maia – uma das vítimas do 19 de Outubro – empenhou-se corajosamente na busca de quem tinham sido os mandantes dos assassinos. Conseguiu mesmo entrevistar na prisão «o Dente de Ouro», responsável pela morte do seu marido.
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As Minhas Memórias

3 Volumes

Cunha Leal

Lisboa, 1966

O livro, que me proponho escrever, vai ser a resultante dum conjunto de afectuosas, mas insistentes pressões familiares.

Entendem os meus filhos que a personalidade do pai tem sido desvirtuada mercê de observações sistematicamente eivadas de leviandade ou de má fé. Julgam que constitui para mim obrigação indeclinável dizer de minha justiça em causa própria, mostrar ao meu pais com honrada sinceridade o que sou, o que fiz e o que pretendi, mas não me deixaram fazer. Em suma, incitam-me nada mais, nada menos do que a escrever as minhas memórias!

Sou um homem que, através duma vida já longa, nunca contrariou, antes pretendeu sempre favorecer, a instauração na nossa Terra duma organização económica, social e política, susceptível de atenuar sensivelmente as gritantes desigualdades, que estão gerando o surdo descontentamento dos seus habitantes.

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