Não haveria nada mais fácil no mundo das histórias que escrever um conto de Natal com Menino Jesus ou sem ele, se não fosse dar-se o caso de que uma criança que nasce está sempre nascendo. O nosso grande erro, esquecidos como em geral andamos das infâncias que vivemos, foi pensar que as crianças nascem uma única vez e que depois de nascidas se limitam a ficar à espera de que o tempo passe e as transforme em adultos, os quais, como deveríamos saber, constituem uma espécie diferente de seres humanos. A criança começa por nascer uma vez, que é a de vir ao mundo, e depois continua a nascer para compreendê-lo: não tem outro remédio nem há outra maneira. Como se verá pelas duas breves histórias que se seguem, ambas autênticas, ambas verdadeiras.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Viver a rádio
Manuela Degerine
Não, estou a falar de outra coisa, rádio não é o que se ouve no carro, um sushi de 3 T, taças, tempo e trânsito; não é a rádio portuguesa. Em Portugal não consigo encontrar nada melhor do que as Antenas 1 e 2 – duas estações que, por razões distintas, não me satisfazem.
A Antena 1 é a rádio dos engarrafamentos: de manhã e à tarde. Os directores de programas não ouvem rádio, sem dúvida, por isso arrumaram-na no armazém das antiguidades, pensando que os portugueses também não ouvem, excepto quando se encontram presos no trânsito. Parece-lhes que ninguém ouvirá rádio por gosto e ainda menos por vício, mas apenas quando não tenha outra opção ou pior... outra maneira de matar o tempo. Por conseguinte, durante estas horas, as dos engarrafamentos, a rádio dá o melhor que tem e, entremeados com os 3 T, que se repetem, obsessivos, há uma ou outra crónica – que dura dois minutos. Lugares Comuns, às 9, O Senhor Comendador, às 19 horas. Por exemplo. Ou o Portugalex. E um ou outro debate, cortado, evidentemente, pelo estado do trânsito. Ou pela temperatura nas Penhas Douradas. (Não perceberam que os dez milhões portugueses se estão nas tintas para a interrupção da estrada entre Mosteiro e Vila Facaia. Ou para os menos dois graus nos píncaros da Serra da Estrela.) E o debate pode ser sobre futebol (à segunda-feira) ou, mais frequente, ser substituído por um desafio de futebol – claro. Esta rádio é apenas uma maneira de esvaziar as cabeças. É uma lavagem de cérebro. É na verdade uma forma de matar tempo. Fora destes momentos privilegiados de quase nada, a Antena 1 transforma-se em nada ao quadrado e, das dez à uma, das duas às seis, aos domingo e feriados, impõe os 3 T entremeados com música anglo-saxónica: na Antena 1 a cantiga não corre o risco de ser uma arma. Durante estas horas de máxima letargia, de acefalia comatosa, de Alzheimer radiofónico, quem abre e fecha as torneiras dos 3 T e da música é uma ou outra senhora que fica tristinha quando vê passar uma nuvem. As senhoras alternam com uma voz masculina (omitamos o nome), a qual despeja música quase sem comentários, nem sequer sobre o calor, tão bom para quem está de férias; devo-lhe contudo as mais belas pérolas da minha colecção. (Obrigada!) Por exemplo: numa tarde em que lançava uma entrevista (dois minutos) a propósito da edição do texto autobiográfico que inspirou o romance de José Saramago, este senhor terá ouvido ou lido mal, talvez lhe fizessem uma gralha, se calhar, de propósito (deve ser uma tentação para quem o rodeia) – e o título do romance de José Saramago metamorfoseou-se em Levantado do Balcão.
Com uma rádio destas, os portugueses que, ao contrário do que pensam os directores de programas, não são parvos – sim, os portugueses vivos e curiosos e maliciosos, que querem aprender, crescer, rir, informar-se, sonhar, ser estimulados – deixaram, claro, de ouvir rádio. (Não querem matar o tempo; preferem vivê-lo.) E têm razão: esta rádio é uma perda de cérebro. Por isso, quando me irrito com a rádio portuguesa, encontro uma uniforme indiferença; há muitos anos que os meus interlocutores não sabem o que é isto... Mesmo no carro, eles ouvem música.
Resta a Antena 2. Que tem, uma ou outra vez, bons programas. O maior defeito da Antena 2 é que não fala. Ou fala pouco E eu gosto de palavras. Quero uma rádio que fale comigo. Por isso, entre o futebol (Antena 1) e a ópera checa (Antena 2), não escolho: desligo o aparelho. Prefiro pensar em silêncio. Prefiro ler (se for possível). Prefiro ouvir um CD. Ou, na maior parte das vezes, ouvir a rádio France-Culture – ah, sim: graças à Internet. Ou, nos momentos em que, mesmo vivendo em Lisboa, sinto saudades de Portugal, oiço a rádio Amália; a qual, ao menos, transmite música portuguesa.
Ao invés do que pensam os directores de programa, a rádio pode ser ouvida fora dos engarrafamentos. Se tiver uma rádio de qualidade, ligo-a logo que me levanto, oiço rádio enquanto tomo o pequeno almoço, oiço rádio no duche, oiço rádio à hora do almoço, oiço rádio enquanto janto, oiço rádio antes de me deitar... Oiço três horas quotidianas de rádio. E, se tiver uma rádio que me apaixone, me prenda, me cative – oiço ainda mais rádio.
Nos outros países, em França, na Inglaterra, por exemplo, a rádio continua viva, criadora, enriquecedora – e necessária. Fala-se de rádio nos jantares entre amigos. Em Portugal, quando protesto contra a nulidade da rádio, fitam-me com perplexidade. Rádio? Não sei, não oiço. Não admira. No entanto há tanta gente que gostaria de ouvir uma rádio inteligente... Os desempregados. Os que trabalham em casa. Os que sofrem de insónias. Os que ouviriam rádio no emprego, se... Os escritores que fazem uma pausa... E muitos outros. São milhões de perdidos auditores. Ou de auditores insatisfeitos. Ou de auditores descontentes.
Um serviço público?... Eu diria antes: um desmazelo público. E aquilo que menos me agrada na rádio portuguesa é, na verdade, a imagem de mim que parecem ter aqueles que a fazem. Não, obrigada!
Não, estou a falar de outra coisa, rádio não é o que se ouve no carro, um sushi de 3 T, taças, tempo e trânsito; não é a rádio portuguesa. Em Portugal não consigo encontrar nada melhor do que as Antenas 1 e 2 – duas estações que, por razões distintas, não me satisfazem.
A Antena 1 é a rádio dos engarrafamentos: de manhã e à tarde. Os directores de programas não ouvem rádio, sem dúvida, por isso arrumaram-na no armazém das antiguidades, pensando que os portugueses também não ouvem, excepto quando se encontram presos no trânsito. Parece-lhes que ninguém ouvirá rádio por gosto e ainda menos por vício, mas apenas quando não tenha outra opção ou pior... outra maneira de matar o tempo. Por conseguinte, durante estas horas, as dos engarrafamentos, a rádio dá o melhor que tem e, entremeados com os 3 T, que se repetem, obsessivos, há uma ou outra crónica – que dura dois minutos. Lugares Comuns, às 9, O Senhor Comendador, às 19 horas. Por exemplo. Ou o Portugalex. E um ou outro debate, cortado, evidentemente, pelo estado do trânsito. Ou pela temperatura nas Penhas Douradas. (Não perceberam que os dez milhões portugueses se estão nas tintas para a interrupção da estrada entre Mosteiro e Vila Facaia. Ou para os menos dois graus nos píncaros da Serra da Estrela.) E o debate pode ser sobre futebol (à segunda-feira) ou, mais frequente, ser substituído por um desafio de futebol – claro. Esta rádio é apenas uma maneira de esvaziar as cabeças. É uma lavagem de cérebro. É na verdade uma forma de matar tempo. Fora destes momentos privilegiados de quase nada, a Antena 1 transforma-se em nada ao quadrado e, das dez à uma, das duas às seis, aos domingo e feriados, impõe os 3 T entremeados com música anglo-saxónica: na Antena 1 a cantiga não corre o risco de ser uma arma. Durante estas horas de máxima letargia, de acefalia comatosa, de Alzheimer radiofónico, quem abre e fecha as torneiras dos 3 T e da música é uma ou outra senhora que fica tristinha quando vê passar uma nuvem. As senhoras alternam com uma voz masculina (omitamos o nome), a qual despeja música quase sem comentários, nem sequer sobre o calor, tão bom para quem está de férias; devo-lhe contudo as mais belas pérolas da minha colecção. (Obrigada!) Por exemplo: numa tarde em que lançava uma entrevista (dois minutos) a propósito da edição do texto autobiográfico que inspirou o romance de José Saramago, este senhor terá ouvido ou lido mal, talvez lhe fizessem uma gralha, se calhar, de propósito (deve ser uma tentação para quem o rodeia) – e o título do romance de José Saramago metamorfoseou-se em Levantado do Balcão.
Com uma rádio destas, os portugueses que, ao contrário do que pensam os directores de programas, não são parvos – sim, os portugueses vivos e curiosos e maliciosos, que querem aprender, crescer, rir, informar-se, sonhar, ser estimulados – deixaram, claro, de ouvir rádio. (Não querem matar o tempo; preferem vivê-lo.) E têm razão: esta rádio é uma perda de cérebro. Por isso, quando me irrito com a rádio portuguesa, encontro uma uniforme indiferença; há muitos anos que os meus interlocutores não sabem o que é isto... Mesmo no carro, eles ouvem música.
Resta a Antena 2. Que tem, uma ou outra vez, bons programas. O maior defeito da Antena 2 é que não fala. Ou fala pouco E eu gosto de palavras. Quero uma rádio que fale comigo. Por isso, entre o futebol (Antena 1) e a ópera checa (Antena 2), não escolho: desligo o aparelho. Prefiro pensar em silêncio. Prefiro ler (se for possível). Prefiro ouvir um CD. Ou, na maior parte das vezes, ouvir a rádio France-Culture – ah, sim: graças à Internet. Ou, nos momentos em que, mesmo vivendo em Lisboa, sinto saudades de Portugal, oiço a rádio Amália; a qual, ao menos, transmite música portuguesa.
Ao invés do que pensam os directores de programa, a rádio pode ser ouvida fora dos engarrafamentos. Se tiver uma rádio de qualidade, ligo-a logo que me levanto, oiço rádio enquanto tomo o pequeno almoço, oiço rádio no duche, oiço rádio à hora do almoço, oiço rádio enquanto janto, oiço rádio antes de me deitar... Oiço três horas quotidianas de rádio. E, se tiver uma rádio que me apaixone, me prenda, me cative – oiço ainda mais rádio.
Nos outros países, em França, na Inglaterra, por exemplo, a rádio continua viva, criadora, enriquecedora – e necessária. Fala-se de rádio nos jantares entre amigos. Em Portugal, quando protesto contra a nulidade da rádio, fitam-me com perplexidade. Rádio? Não sei, não oiço. Não admira. No entanto há tanta gente que gostaria de ouvir uma rádio inteligente... Os desempregados. Os que trabalham em casa. Os que sofrem de insónias. Os que ouviriam rádio no emprego, se... Os escritores que fazem uma pausa... E muitos outros. São milhões de perdidos auditores. Ou de auditores insatisfeitos. Ou de auditores descontentes.
Um serviço público?... Eu diria antes: um desmazelo público. E aquilo que menos me agrada na rádio portuguesa é, na verdade, a imagem de mim que parecem ter aqueles que a fazem. Não, obrigada!
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Sempre Galiza! - Síntese do reintegracionismo contemporâneo (21), por Carlos Durão
coordenação de Pedro Godinho
Síntese do reintegracionismo contemporâneo (21)
por Carlos Durão
(continuação)
Joan Coromines fala de “unificação ortográfica galego-portuguesa” (1976, 53: 277-282). Ele já deixara clara antes a sua atitude a respeito da pertença do galego à lusofonia, no seu Diccionario crítico etimológico de la lengua castellana.
Para J.R. Rodrigues Fernandes é “galaico-português” (1978); também emprega o termo “regeneracionismo”; e Ramom Sarmiento trata dos “regeneracionistas” (1984: 163-169), como mais tarde V.R. Fagim e J.L. Valinha (vide infra); curiosamente F. Fernández Rei fala, no entanto, da “postura rexeneracionista que propugna un galego identificado” (1991, 5: 29-40), e “O rexeneracionismo defende a elaboración dun estándar autónomo, dun galego identificado que continúe a tradición literaria contemporánea e que estea próximo á fala viva, pero depurada e modernizada” (2008, 72: 503-526), onde também: “Hai moito tempo que teño ben claro que o galego moderno é unha lingua románica reemerxente, moi afín á portuguesa pero independente dela e, por suposto, independente do castelán, que ocupa o seu teito lingüístico” (por outras palavras: castelão=teito do galego); porém confessa: “Dans une perspective strictement linguistique, nous pouvons admettre que le galicien et le portugais parlés aujourd’hui constituent une seule et même langue abstand” (1993, 6: 89-120); e: “Desde o comezo da romanística científica, coa gramática das linguas románicas de 1836 do alemán F. Diez, considérase o galego un dos dialectos portugueses.” Ainda: “O galego verbo do portugués non é lingua abstand, porque a distancia estrutural entre ambos é escasa, especialmente cando se comparan falas de puntos próximos nas dúas beiras do Miño ou da raia seca; pero si é unha lingua ausbau: o galego moderno é lingua independente do portugués moderno fundamentalmente por razóns sociolingüísticas e literarias [...]/Desde o punto de vista da distancia estrutural poderíase falar dunha soa lingua, aínda que a conciencia xeral dos falantes e da gran maioría dos escritores que están a elaborala desde o Rexurdimento é que se trata de linguas diferentes, estreitamente afíns, pero diferentes./Son linguas porque os seus escritores, os seus lingüistas, as súas institucións e as respectivas sociedades quixeron e queren que sexan linguas, a pesar da escasa distancia lingüística cun idioma veciño, distancia que, por outra parte, non é doado medir, mentres que o grao de elaboración pode medirse” (2008).
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Evento - As palavras de Saramago
Eva Cruz
As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam... As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do disse ou tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do verbo. E as palavras escorrem tão fluidas como o "precioso líquido".
Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador... E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares. Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não ouça outra palavra.
A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça. Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se mude em Seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato. Há também o silêncio.
O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio.
Mas só o trigo dá pão.
As minhas palavras a Saramago
Levantado do chão
como só os Homens são capazes
não há morte que te leve.
A Lucidez da tua obra
curará os olhos da cegueira.
E as palavras de ternura do teu Evangelho
correrão límpidas como um rio
regando a terra
onde só o trigo há-de crescer
e dar pão.
As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam... As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do disse ou tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do verbo. E as palavras escorrem tão fluidas como o "precioso líquido".
Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador... E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares. Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não ouça outra palavra.
A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça. Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se mude em Seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato. Há também o silêncio.
O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio.
Mas só o trigo dá pão.
As minhas palavras a Saramago
Levantado do chão
como só os Homens são capazes
não há morte que te leve.
A Lucidez da tua obra
curará os olhos da cegueira.
E as palavras de ternura do teu Evangelho
correrão límpidas como um rio
regando a terra
onde só o trigo há-de crescer
e dar pão.
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Arte Poética. Nicolas Boileau-Despréaux,José Saramago, Josep Anton Vidal e Hélia Correia
Nicolas Boileau-Despréaux
(Paris, 1636 – 1711)
A ARTE DE ESCREVER
(fragmento)
Há certos espíritos cujos sombrios pensamentos São como nuvem espessa, sempre emaranhados, O dia da razão não saberia atravessá-la.
Antes, pois, de escrever, aprendam a pensar.
Conforme a nossa ideia é mais ou menos escura Assim a expressão, ou menos nítida ou mais pura.
O que se concebe bem exprime-se claramente, E as palavras para o dizer chegam facilmente.
(...)
Gosto mais dum riacho que sobre a macia areia Num prado cheio de flores lentamente passeia, Do que duma torrente transbordante, tempestuosa, Correndo cheia de pedras, em terreno lamacento.
Acelerem lentamente e sem perder coragem, Vinte vezes empreendam a vossa obra:
Limpem-na sem cessar e tornem a limpá-la; Acrescentem algumas vezes mas outras eliminem.
("Art Poétique", 1674)
José Saramago
(Azinhaga, Golegã, 1922 — Tías, Lanzarote, 2010)
ARTE POÉTICA
Vem de quê o poema? De quanto serve
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
(Os Poemas Possíveis)
______________________
Josep Anton Vidal
(Barcelona, 1945 )
MOT A MOT
Veus l'horitzó i dius lluny, sents l'aire i dius presència,
sents la pluja i dius vida; veus la mar, dius remor,
veus els ulls d'un infant i dius tendresa,
veus la dona que infanta i dius dolor i amor, i dius misteri;
veus l'home i dius paraula, veus el pa i dius suor,
sents el vol d'un insecte i dius silenci,
mires els ulls del vell i dius record.
Veus els camins que han obert les petjades
i dius somnis i afanys i llibertat...
Veus el cel i dius tot i inabastable,
veus la volta estelada de la nit
i dius inconegut, dius infinit,
i dius immensitat, etern, petit...
Sents que et batega el cor i dius esforç,
dius coratge, dius lluita i ideals...
Et veus sol, i abatut, i miserable,
i dius jo, i dius tu, i dius nosaltres...
I veus les ombres créixer en el ponent del dia
i dius temps, i dius mort.
Així, mot rere mot, neix el poema
–allunyada presència, sorda remor de vida–,
il•lusió fugaç d'un món travat i fet,
un univers complet –i irreal, tanmateix–
on cada mot ocupa - vençut i dòcil, pulcre -
el lloc que li pertoca en un ordre aparent...
[La tendresa, l'amor, el dolor i el misteri,
el treball, la paraula, el silenci, el record,
els somnis i els afanys, la llibertat.
I el tot, inabastable. I el plural, impossible,
del jo, del tu, de l'altre.
I l'esforç obstinat, les idees, la història
–tanta sang, tants deliris, tants i tants crims, tants plors,
tantes vides desfetes per somnis miserables,
tants reis i tants messies, tants profetes i augurs,
tantes fes, tantes pors, tanta i tanta pregària,
tantes paraules buides, tants destins, tans amors,
tants camins que s'encreuen i tanta solitud,
tants savis, tants poetes, tants senyors i tants déus–]
...per teixir i desteixir sentits contra l'absurd,
per merèixer aquest temps d'atzar que en diem vida,
per ofegar el dolor de ser com som
–mesquins, inconsistents, fràgils, impurs–
i guanyar, mot a mot, la dignitat de viure.
PALAVRA A PALAVRA
(versão em português de Carlos Loures)
Fitas o horizonte e dizes longe, aspiras o ar e dizes presença,
sentes a chuva e dizes vida; vês o mar, dizes rumor,
vês os olhos de uma criança e dizes ternura,
vês a mulher parir
e dizes dor e amor, e dizes mistério;
vês o homem e dizes palavra, vês o pão e dizes suor,
ouves o voo do insecto e dizes silêncio,
fitas os olhos de um velho e dizes recordação.
Vês os caminhos abertos pelos passos
e dizes sonhos e desejos e liberdade…
Vês o céu e dizes todo e inatingível,
vês a abóbada estrelada da noite
e dizes ignorado, dizes infinito,
e dizes imensidão, eterno, pequeno…
Ouves bater o teu coração e dizes esforço,
dizes coragem, luta e ideais…
Vês-te só, abatido e miserável,
e dizes eu, e dizes tu e dizes nós…
E vês as sombras crescer ao pôr-do-sol
e dizes tempo e dizes morte.
Assim, de palavra em palavra, nasce o poema
– longínqua presença, surdo rumor de vida –
fugaz ilusão de um mundo feito e acabado,
um universo completo – e contudo irreal –
no qual cada palavra ocupa - vencida e dócil
o lugar que lhe cabe numa ordem aparente…
(A ternura, o amor, a dor e o mistério,
o trabalho, a palavra, o silêncio, a recordação,
os sonhos e os anseios, a liberdade.
E o todo, inatingível. E o plural, impossível,
do eu, do tu, do outro.
E o esforço obstinado, as ideias, a história
– tanto sangue, tantas quimeras, tantos e tantos crimes, tanto pranto,
tantas vidas desfeitas por sonhos miseráveis,
tantos reis e tantos messias, tantos profetas e augures,
tantas fés, tantos medos, tanta e tanta prece,
tantas palavras vazias, tantos destinos, tantos amores,
tantos caminhos que se cruzam e tanta solidão,
tantos sábios, tantos poetas, tantos senhores e tantos deuses.)
… para tecer e destecer sentidos contra o absurdo,
para merecer este tempo de acaso a que chamamos vida
para afogar a dor de ser como somos
– mesquinhos, inconsistentes, cobardes, impuros –
e ganhar, palavra a palavra, a dignidade de viver.
___________________
Hélia Correia
(Lisboa, 1949)
ARTE POÉTICA
Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Com música de sua autoria, José Jorge Letria canta este poema de Hélia Correia no Coliseu de Lisboa em 2009
(Paris, 1636 – 1711)
A ARTE DE ESCREVER
(fragmento)
Há certos espíritos cujos sombrios pensamentos São como nuvem espessa, sempre emaranhados, O dia da razão não saberia atravessá-la.
Antes, pois, de escrever, aprendam a pensar.
Conforme a nossa ideia é mais ou menos escura Assim a expressão, ou menos nítida ou mais pura.
O que se concebe bem exprime-se claramente, E as palavras para o dizer chegam facilmente.
(...)
Gosto mais dum riacho que sobre a macia areia Num prado cheio de flores lentamente passeia, Do que duma torrente transbordante, tempestuosa, Correndo cheia de pedras, em terreno lamacento.
Acelerem lentamente e sem perder coragem, Vinte vezes empreendam a vossa obra:
Limpem-na sem cessar e tornem a limpá-la; Acrescentem algumas vezes mas outras eliminem.
("Art Poétique", 1674)
José Saramago
(Azinhaga, Golegã, 1922 — Tías, Lanzarote, 2010)
ARTE POÉTICA
Vem de quê o poema? De quanto serve
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
(Os Poemas Possíveis)
______________________
(Barcelona, 1945 )
MOT A MOT
Veus l'horitzó i dius lluny, sents l'aire i dius presència,
sents la pluja i dius vida; veus la mar, dius remor,
veus els ulls d'un infant i dius tendresa,
veus la dona que infanta i dius dolor i amor, i dius misteri;
veus l'home i dius paraula, veus el pa i dius suor,
sents el vol d'un insecte i dius silenci,
mires els ulls del vell i dius record.
Veus els camins que han obert les petjades
i dius somnis i afanys i llibertat...
Veus el cel i dius tot i inabastable,
veus la volta estelada de la nit
i dius inconegut, dius infinit,
i dius immensitat, etern, petit...
Sents que et batega el cor i dius esforç,
dius coratge, dius lluita i ideals...
Et veus sol, i abatut, i miserable,
i dius jo, i dius tu, i dius nosaltres...
I veus les ombres créixer en el ponent del dia
i dius temps, i dius mort.
Així, mot rere mot, neix el poema
–allunyada presència, sorda remor de vida–,
il•lusió fugaç d'un món travat i fet,
un univers complet –i irreal, tanmateix–
on cada mot ocupa - vençut i dòcil, pulcre -
el lloc que li pertoca en un ordre aparent...
[La tendresa, l'amor, el dolor i el misteri,
el treball, la paraula, el silenci, el record,
els somnis i els afanys, la llibertat.
I el tot, inabastable. I el plural, impossible,
del jo, del tu, de l'altre.
I l'esforç obstinat, les idees, la història
–tanta sang, tants deliris, tants i tants crims, tants plors,
tantes vides desfetes per somnis miserables,
tants reis i tants messies, tants profetes i augurs,
tantes fes, tantes pors, tanta i tanta pregària,
tantes paraules buides, tants destins, tans amors,
tants camins que s'encreuen i tanta solitud,
tants savis, tants poetes, tants senyors i tants déus–]
...per teixir i desteixir sentits contra l'absurd,
per merèixer aquest temps d'atzar que en diem vida,
per ofegar el dolor de ser com som
–mesquins, inconsistents, fràgils, impurs–
i guanyar, mot a mot, la dignitat de viure.
PALAVRA A PALAVRA
(versão em português de Carlos Loures)
Fitas o horizonte e dizes longe, aspiras o ar e dizes presença,
sentes a chuva e dizes vida; vês o mar, dizes rumor,
vês os olhos de uma criança e dizes ternura,
vês a mulher parir
e dizes dor e amor, e dizes mistério;
vês o homem e dizes palavra, vês o pão e dizes suor,
ouves o voo do insecto e dizes silêncio,
fitas os olhos de um velho e dizes recordação.
Vês os caminhos abertos pelos passos
e dizes sonhos e desejos e liberdade…
Vês o céu e dizes todo e inatingível,
vês a abóbada estrelada da noite
e dizes ignorado, dizes infinito,
e dizes imensidão, eterno, pequeno…
Ouves bater o teu coração e dizes esforço,
dizes coragem, luta e ideais…
Vês-te só, abatido e miserável,
e dizes eu, e dizes tu e dizes nós…
E vês as sombras crescer ao pôr-do-sol
e dizes tempo e dizes morte.
Assim, de palavra em palavra, nasce o poema
– longínqua presença, surdo rumor de vida –
fugaz ilusão de um mundo feito e acabado,
um universo completo – e contudo irreal –
no qual cada palavra ocupa - vencida e dócil
o lugar que lhe cabe numa ordem aparente…
(A ternura, o amor, a dor e o mistério,
o trabalho, a palavra, o silêncio, a recordação,
os sonhos e os anseios, a liberdade.
E o todo, inatingível. E o plural, impossível,
do eu, do tu, do outro.
E o esforço obstinado, as ideias, a história
– tanto sangue, tantas quimeras, tantos e tantos crimes, tanto pranto,
tantas vidas desfeitas por sonhos miseráveis,
tantos reis e tantos messias, tantos profetas e augures,
tantas fés, tantos medos, tanta e tanta prece,
tantas palavras vazias, tantos destinos, tantos amores,
tantos caminhos que se cruzam e tanta solidão,
tantos sábios, tantos poetas, tantos senhores e tantos deuses.)
… para tecer e destecer sentidos contra o absurdo,
para merecer este tempo de acaso a que chamamos vida
para afogar a dor de ser como somos
– mesquinhos, inconsistentes, cobardes, impuros –
e ganhar, palavra a palavra, a dignidade de viver.
___________________
Hélia Correia
(Lisboa, 1949)
ARTE POÉTICA
Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Com música de sua autoria, José Jorge Letria canta este poema de Hélia Correia no Coliseu de Lisboa em 2009
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Nicolas Boileau-Despréaux
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
José e Pilar
Clara Castilho
Organizado pela Apordoc na segunda metade de Outubro, o doclisboa apresenta todos os anos em antestreia os melhores documentários da última temporada e reúne uma série de programações não competitivas, incluindo a retrospectiva de um autor internacionalmente aclamado.
As masterclasses do festival são públicas e gratuitas. Os encontros informais com os realizadores estimulam o diálogo entre os profissionais e o público.
Ao longo do festival os participantes também podem assistir e participar no Forum Internacional para Co-produções Lisbon Docs (pitching), nos encontros profissionais docbreakfast e na Happy Hour diária, Guest meet Guest.
Pois, no dia 16, em que José Saramago faria 88 anos, ali poderá ser visto o documentário José e Pilar, do realizador português Miguel Gonçalves Mendes (licenciado em Cinema pela Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo recebido várias distinções, em que se destacam o prémio Migliore Opera Portoghese di Cultura e Tradizioni d’Europa 2003 por D.Nieves- curta-metragem documental sobre a Galiza e o Prémio Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004 por Autografia - um retrato do poeta e pintor surrealista Mário Cesariny de Vasconcelos).
Do texto que nos fala deste filme, que pode ser lido na Visão de 7 de Outubro, podemos ficar a saber que o filme tem estreia comercial simultânea em 22 salas de cinema português, com 16 cópias enviadas para o Brasil, com exibição prevista em 10 cidades brasileiras. O filme resulta de um trabalho de 4 anos, 240 horas de filmagens, cinco meses só para seleccionar imagens, um ano e meio para montar… A leitura deste artigo aguça o apetite. Espero só vir a saber onde poderei ir ver o filme, já que, no dia 16 vai ser impossível.
Organizado pela Apordoc na segunda metade de Outubro, o doclisboa apresenta todos os anos em antestreia os melhores documentários da última temporada e reúne uma série de programações não competitivas, incluindo a retrospectiva de um autor internacionalmente aclamado.
As masterclasses do festival são públicas e gratuitas. Os encontros informais com os realizadores estimulam o diálogo entre os profissionais e o público.
Ao longo do festival os participantes também podem assistir e participar no Forum Internacional para Co-produções Lisbon Docs (pitching), nos encontros profissionais docbreakfast e na Happy Hour diária, Guest meet Guest.
Pois, no dia 16, em que José Saramago faria 88 anos, ali poderá ser visto o documentário José e Pilar, do realizador português Miguel Gonçalves Mendes (licenciado em Cinema pela Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo recebido várias distinções, em que se destacam o prémio Migliore Opera Portoghese di Cultura e Tradizioni d’Europa 2003 por D.Nieves- curta-metragem documental sobre a Galiza e o Prémio Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004 por Autografia - um retrato do poeta e pintor surrealista Mário Cesariny de Vasconcelos).
Do texto que nos fala deste filme, que pode ser lido na Visão de 7 de Outubro, podemos ficar a saber que o filme tem estreia comercial simultânea em 22 salas de cinema português, com 16 cópias enviadas para o Brasil, com exibição prevista em 10 cidades brasileiras. O filme resulta de um trabalho de 4 anos, 240 horas de filmagens, cinco meses só para seleccionar imagens, um ano e meio para montar… A leitura deste artigo aguça o apetite. Espero só vir a saber onde poderei ir ver o filme, já que, no dia 16 vai ser impossível.
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Maratona Poética - chegam agora Nicolas Boileau,José Saramago, Josep Anton Vidal e Hélia Correia. Ah, e vem também o José Jorge Letria.
Nicolas Boileau-Despréaux
(Paris, 1636 – 1711)
A ARTE DE ESCREVER
(fragmento)
Há certos espíritos cujos sombrios pensamentos São como nuvem espessa, sempre emaranhados, O dia da razão não saberia atravessá-la.
Antes, pois, de escrever, aprendam a pensar.
Conforme a nossa ideia é mais ou menos escura Assim a expressão, ou menos nítida ou mais pura.
O que se concebe bem exprime-se claramente, E as palavras para o dizer chegam facilmente.
(...)
Gosto mais dum riacho que sobre a macia areia Num prado cheio de flores lentamente passeia, Do que duma torrente transbordante, tempestuosa, Correndo cheia de pedras, em terreno lamacento.
Acelerem lentamente e sem perder coragem, Vinte vezes empreendam a vossa obra:
Limpem-na sem cessar e tornem a limpá-la; Acrescentem algumas vezes mas outras eliminem.
("Art Poétique", 1674)
José Saramago
(Azinhaga, Golegã, 1922 — Tías, Lanzarote, 2010)
ARTE POÉTICA
Vem de quê o poema? De quanto serve
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
(Os Poemas Possíveis)
______________________
Josep Anton Vidal
(Barcelona, 1945 )
MOT A MOT
Veus l'horitzó i dius lluny, sents l'aire i dius presència,
sents la pluja i dius vida; veus la mar, dius remor,
veus els ulls d'un infant i dius tendresa,
veus la dona que infanta i dius dolor i amor, i dius misteri;
veus l'home i dius paraula, veus el pa i dius suor,
sents el vol d'un insecte i dius silenci,
mires els ulls del vell i dius record.
Veus els camins que han obert les petjades
i dius somnis i afanys i llibertat...
Veus el cel i dius tot i inabastable,
veus la volta estelada de la nit
i dius inconegut, dius infinit,
i dius immensitat, etern, petit...
Sents que et batega el cor i dius esforç,
dius coratge, dius lluita i ideals...
Et veus sol, i abatut, i miserable,
i dius jo, i dius tu, i dius nosaltres...
I veus les ombres créixer en el ponent del dia
i dius temps, i dius mort.
Així, mot rere mot, neix el poema
–allunyada presència, sorda remor de vida–,
il•lusió fugaç d'un món travat i fet,
un univers complet –i irreal, tanmateix–
on cada mot ocupa - vençut i dòcil, pulcre -
el lloc que li pertoca en un ordre aparent...
[La tendresa, l'amor, el dolor i el misteri,
el treball, la paraula, el silenci, el record,
els somnis i els afanys, la llibertat.
I el tot, inabastable. I el plural, impossible,
del jo, del tu, de l'altre.
I l'esforç obstinat, les idees, la història
–tanta sang, tants deliris, tants i tants crims, tants plors,
tantes vides desfetes per somnis miserables,
tants reis i tants messies, tants profetes i augurs,
tantes fes, tantes pors, tanta i tanta pregària,
tantes paraules buides, tants destins, tans amors,
tants camins que s'encreuen i tanta solitud,
tants savis, tants poetes, tants senyors i tants déus–]
...per teixir i desteixir sentits contra l'absurd,
per merèixer aquest temps d'atzar que en diem vida,
per ofegar el dolor de ser com som
–mesquins, inconsistents, fràgils, impurs–
i guanyar, mot a mot, la dignitat de viure.
PALAVRA A PALAVRA
(versão em português de Carlos Loures)
Fitas o horizonte e dizes longe, aspiras o ar e dizes presença,
sentes a chuva e dizes vida; vês o mar, dizes rumor,
vês os olhos de uma criança e dizes ternura,
vês a mulher parir
e dizes dor e amor, e dizes mistério;
vês o homem e dizes palavra, vês o pão e dizes suor,
ouves o voo do insecto e dizes silêncio,
fitas os olhos de um velho e dizes recordação.
Vês os caminhos abertos pelos passos
e dizes sonhos e desejos e liberdade…
Vês o céu e dizes todo e inatingível,
vês a abóbada estrelada da noite
e dizes ignorado, dizes infinito,
e dizes imensidão, eterno, pequeno…
Ouves bater o teu coração e dizes esforço,
dizes coragem, luta e ideais…
Vês-te só, abatido e miserável,
e dizes eu, e dizes tu e dizes nós…
E vês as sombras crescer ao pôr-do-sol
e dizes tempo e dizes morte.
Assim, de palavra em palavra, nasce o poema
– longínqua presença, surdo rumor de vida –
fugaz ilusão de um mundo feito e acabado,
um universo completo – e contudo irreal –
no qual cada palavra ocupa - vencida e dócil
o lugar que lhe cabe numa ordem aparente…
(A ternura, o amor, a dor e o mistério,
o trabalho, a palavra, o silêncio, a recordação,
os sonhos e os anseios, a liberdade.
E o todo, inatingível. E o plural, impossível,
do eu, do tu, do outro.
E o esforço obstinado, as ideias, a história
– tanto sangue, tantas quimeras, tantos e tantos crimes, tanto pranto,
tantas vidas desfeitas por sonhos miseráveis,
tantos reis e tantos messias, tantos profetas e augures,
tantas fés, tantos medos, tanta e tanta prece,
tantas palavras vazias, tantos destinos, tantos amores,
tantos caminhos que se cruzam e tanta solidão,
tantos sábios, tantos poetas, tantos senhores e tantos deuses.)
… para tecer e destecer sentidos contra o absurdo,
para merecer este tempo de acaso a que chamamos vida
para afogar a dor de ser como somos
– mesquinhos, inconsistentes, cobardes, impuros –
e ganhar, palavra a palavra, a dignidade de viver.
___________________
Hélia Correia
(Lisboa, 1949)
ARTE POÉTICA
Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Com música de sua autoria, José Jorge Letria canta este poema de Hélia Correia no Coliseu de Lisboa em 2009
E às três horas, Abu Tamman traz consigo Adília Lopes, Manuel Maria e Florbela Espanca (com o Luís Represas)
(Paris, 1636 – 1711)
A ARTE DE ESCREVER
(fragmento)
Há certos espíritos cujos sombrios pensamentos São como nuvem espessa, sempre emaranhados, O dia da razão não saberia atravessá-la.
Antes, pois, de escrever, aprendam a pensar.
Conforme a nossa ideia é mais ou menos escura Assim a expressão, ou menos nítida ou mais pura.
O que se concebe bem exprime-se claramente, E as palavras para o dizer chegam facilmente.
(...)
Gosto mais dum riacho que sobre a macia areia Num prado cheio de flores lentamente passeia, Do que duma torrente transbordante, tempestuosa, Correndo cheia de pedras, em terreno lamacento.
Acelerem lentamente e sem perder coragem, Vinte vezes empreendam a vossa obra:
Limpem-na sem cessar e tornem a limpá-la; Acrescentem algumas vezes mas outras eliminem.
("Art Poétique", 1674)
José Saramago
(Azinhaga, Golegã, 1922 — Tías, Lanzarote, 2010)
ARTE POÉTICA
Vem de quê o poema? De quanto serve
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
(Os Poemas Possíveis)
______________________
(Barcelona, 1945 )
MOT A MOT
Veus l'horitzó i dius lluny, sents l'aire i dius presència,
sents la pluja i dius vida; veus la mar, dius remor,
veus els ulls d'un infant i dius tendresa,
veus la dona que infanta i dius dolor i amor, i dius misteri;
veus l'home i dius paraula, veus el pa i dius suor,
sents el vol d'un insecte i dius silenci,
mires els ulls del vell i dius record.
Veus els camins que han obert les petjades
i dius somnis i afanys i llibertat...
Veus el cel i dius tot i inabastable,
veus la volta estelada de la nit
i dius inconegut, dius infinit,
i dius immensitat, etern, petit...
Sents que et batega el cor i dius esforç,
dius coratge, dius lluita i ideals...
Et veus sol, i abatut, i miserable,
i dius jo, i dius tu, i dius nosaltres...
I veus les ombres créixer en el ponent del dia
i dius temps, i dius mort.
Així, mot rere mot, neix el poema
–allunyada presència, sorda remor de vida–,
il•lusió fugaç d'un món travat i fet,
un univers complet –i irreal, tanmateix–
on cada mot ocupa - vençut i dòcil, pulcre -
el lloc que li pertoca en un ordre aparent...
[La tendresa, l'amor, el dolor i el misteri,
el treball, la paraula, el silenci, el record,
els somnis i els afanys, la llibertat.
I el tot, inabastable. I el plural, impossible,
del jo, del tu, de l'altre.
I l'esforç obstinat, les idees, la història
–tanta sang, tants deliris, tants i tants crims, tants plors,
tantes vides desfetes per somnis miserables,
tants reis i tants messies, tants profetes i augurs,
tantes fes, tantes pors, tanta i tanta pregària,
tantes paraules buides, tants destins, tans amors,
tants camins que s'encreuen i tanta solitud,
tants savis, tants poetes, tants senyors i tants déus–]
...per teixir i desteixir sentits contra l'absurd,
per merèixer aquest temps d'atzar que en diem vida,
per ofegar el dolor de ser com som
–mesquins, inconsistents, fràgils, impurs–
i guanyar, mot a mot, la dignitat de viure.
PALAVRA A PALAVRA
(versão em português de Carlos Loures)
Fitas o horizonte e dizes longe, aspiras o ar e dizes presença,
sentes a chuva e dizes vida; vês o mar, dizes rumor,
vês os olhos de uma criança e dizes ternura,
vês a mulher parir
e dizes dor e amor, e dizes mistério;
vês o homem e dizes palavra, vês o pão e dizes suor,
ouves o voo do insecto e dizes silêncio,
fitas os olhos de um velho e dizes recordação.
Vês os caminhos abertos pelos passos
e dizes sonhos e desejos e liberdade…
Vês o céu e dizes todo e inatingível,
vês a abóbada estrelada da noite
e dizes ignorado, dizes infinito,
e dizes imensidão, eterno, pequeno…
Ouves bater o teu coração e dizes esforço,
dizes coragem, luta e ideais…
Vês-te só, abatido e miserável,
e dizes eu, e dizes tu e dizes nós…
E vês as sombras crescer ao pôr-do-sol
e dizes tempo e dizes morte.
Assim, de palavra em palavra, nasce o poema
– longínqua presença, surdo rumor de vida –
fugaz ilusão de um mundo feito e acabado,
um universo completo – e contudo irreal –
no qual cada palavra ocupa - vencida e dócil
o lugar que lhe cabe numa ordem aparente…
(A ternura, o amor, a dor e o mistério,
o trabalho, a palavra, o silêncio, a recordação,
os sonhos e os anseios, a liberdade.
E o todo, inatingível. E o plural, impossível,
do eu, do tu, do outro.
E o esforço obstinado, as ideias, a história
– tanto sangue, tantas quimeras, tantos e tantos crimes, tanto pranto,
tantas vidas desfeitas por sonhos miseráveis,
tantos reis e tantos messias, tantos profetas e augures,
tantas fés, tantos medos, tanta e tanta prece,
tantas palavras vazias, tantos destinos, tantos amores,
tantos caminhos que se cruzam e tanta solidão,
tantos sábios, tantos poetas, tantos senhores e tantos deuses.)
… para tecer e destecer sentidos contra o absurdo,
para merecer este tempo de acaso a que chamamos vida
para afogar a dor de ser como somos
– mesquinhos, inconsistentes, cobardes, impuros –
e ganhar, palavra a palavra, a dignidade de viver.
___________________
Hélia Correia
(Lisboa, 1949)
ARTE POÉTICA
Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Com música de sua autoria, José Jorge Letria canta este poema de Hélia Correia no Coliseu de Lisboa em 2009
E às três horas, Abu Tamman traz consigo Adília Lopes, Manuel Maria e Florbela Espanca (com o Luís Represas)
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
As citações de Saramago -3

Luis Moreira
Depois dos livros as citações de Saramago para melhor compreensão do homem e do escritor.
Ateísmo
Provavelmente sou um homem bastante religioso. Bom para ser ateu como eu sou, deve ser preciso um alto grau de religiosidade.
Criação
Sou um tipo com uma certa disciplina, de trabalho organizado e de pensamento organizado também.Há um momento em que sinto que o livro vem aí.Digamos que há a gestação, a dor do parto e depois a criança nasce...
Deus
Se se considera legítimo, não havendo provas, que se diga que Deus existe, tambem se deve considerar legítimo que se diga que não.(...) Para mim não existe Deus.
Educação
A Língua, o instrumento fundamental da comunicação, é tratada como se fosse um esfregão.Os jovens saem da Universidade a escrever mal, e quem escreve mal, não consegue pôr por escrito uma ideia.
Escrita
Há uma certa disciplina, que no fundo consiste em escrever todos os dias. E é indeferente que seja de manhã ou à noite ou à tarde, ou quando apeteça.Se há uma ideia e vale a pena desenvolvê-la, naturalmente chegas-se ao computador e vai andando. Não romantizo nada o ofício.
Jesus Cristo
Acho que é uma figura fascinante, mesmo para mim, que não sou crente, não sou crente de nenhuma religião. Pode pensar-se que como não crente, não tenho direito algum de me apaixonar por uma figura como Jesus Cristo. Não estou de acordo. Qualquer escritor, todo o escritor deveria, um dia, confrontar-se com a figura de Jesus Cristo
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010
As citações de Saramago - 2
Após os livros, as citações mais importantes de Saramago, para melhor conhecermos o homem e o escritor.
Capitalismo
O capitalismo que se anuncia como panaceia , um processo de salvação da Humanidade, não promete nada, não faz promessas; anuncia, isso sim, que está tudo ao alcance das pessoas (...) Por isso, como não promete, não decepciona. A tragédia do socialismo é precisamente essa : não cumprindo o que prometera de facto, decepciona muito mais!
Comunismo
Comunismo é um estado de espirito. (...) acontece que sou uma espécie de comunista hormonal ... não posso deixar de o ser. Pode dizer-me: depois de tudo o que aconteceu ... e parece-me mal que tenha acontecido e condeno quem o fez. Mais recentemente converti isto na declaração; o comunismo é um estado de espirito...
Democracia
A democracia ocupou o lugar de Deus.(...) o poder real não está nos palácios do governo, está sim nos conselhos de administração das multinacionais que decidem a nossa vida.
Crise
Algumas pessoas da classe média, que há poucos anos eram solidárias, ajudavam os outros em situação dificil, um pouco por todo o mundo, encontram-se agora numa situação em que têm de ser ajudadas. (...) os responsáveis andam aí em limusinas, receberam compensações astronómicas depois de terem levado as empresas à falência.
Dinheiro
É dificil imaginar uma sociedade sem dinheiro, embora se vá tornando cada vez mais invisivel com esta proliferação de cartões de crédito. O cartão de crédito é mais que uma liquidação de uma conta, é uma afirmação de poder social.
Impostos
Sou mais honesto a pagar os meus impostos que muitos dos ricaços que estão por aí, que os sonegam, que os escondem e os levam para praísos fiscais.
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terça-feira, 24 de agosto de 2010
As citações de Saramago
Depois dos livros que aqui deixamos com uma breve resenha de cada um deles, vamos ter as citações que melhor ajudam a compreender o pensamento de Saramago. Durante vários dias não faltaremos.
Amor
"Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira e, se acontece, há que recebê-lo".
Pilar del Rio
"Estamos sempre juntos, aqui ou quando viajamos. Então como hei-de dizer? encontrei a pessoa de que precisava. Com 63 anos, quando já não se espera nada, encontrei o que faltava para passar a ter tudo. Portanto, há de facto esse sentido de família, da solidão, mas no fundo aqui a família nuclear não são dois mais X, é o casal. E podemos estar sozinhos, sem ninguem, que não nos faz diferença nenhuma".
Mulheres
"As mulheres são os motores dos homens.Na minha infância, quando vivia com os meus avós maternos, via-se perfeitamente que naquela casa a grande força era a minha avó. E durante toda a vida pude sempre comprovar que num casal a figura forte é a da mulher.O homem alimenta-se da força delas."
Blogoesfera
"Inventei uma expressão que acho bonita: escrever na infinita página. E é essa a sensação: ao mesmo tempo que se estão inscrevendo nessa página as palavras que escrevo, outras,muitas,por toda a parte, estão a ser escritas."
Felicidade
"Eu podia ser felícissimo como homem e ter uma pouca sorte danada como escritor. No meu caso, sinto-me em paz com o meu trabalho, sei o que quero fazer e julgo que faço aquilo que quero. Como homem posso dizer de mim mesmo que sou um homem feliz"
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Iberismo? - Não, obrigado! (2)
Carlos Loures
Em entrevista à agência Lusa, em Novembro de 2008, Arturo Pérez-Reverte escritor espanhol, defendeu a existência da Ibéria como país único, sem fronteiras que separem Espanha e Portugal. Entende ser «um absurdo» que os dois países vivam «tão desconhecidos um do outro». Afirma haver «uma Ibéria indiscutível que está entre os Pirenéus e o estreito de Gibraltar, com comida, raça, costumes, história em comum e as fronteiras são completamente artificiais", Para ele, o maior erro histórico de Filipe II, no século XVI, foi não ter escolhido Lisboa como capital do império. “Teria sido mais justo haver uma Ibéria, e a história do mundo teria sido diferente". Acrescentou que a Ibéria não existe de jure, mas "qualquer espanhol que venha a Portugal se sente em casa e qualquer português que vá a Espanha sente o mesmo". (..)"É uma realidade incontestável" que precisa de um empurrão social e não político para ser concretizada”(…)”. O mundo de hoje "é um lugar de grandes mudanças sociais". O " Ocidente pacífico, sereno, poderoso, com alguma coerência cultural e social do século XX não poderá continuar. O Ocidente como o entendemos está na sua etapa final"-
Em entrevista à agência Lusa, em Novembro de 2008, Arturo Pérez-Reverte escritor espanhol, defendeu a existência da Ibéria como país único, sem fronteiras que separem Espanha e Portugal. Entende ser «um absurdo» que os dois países vivam «tão desconhecidos um do outro». Afirma haver «uma Ibéria indiscutível que está entre os Pirenéus e o estreito de Gibraltar, com comida, raça, costumes, história em comum e as fronteiras são completamente artificiais", Para ele, o maior erro histórico de Filipe II, no século XVI, foi não ter escolhido Lisboa como capital do império. “Teria sido mais justo haver uma Ibéria, e a história do mundo teria sido diferente". Acrescentou que a Ibéria não existe de jure, mas "qualquer espanhol que venha a Portugal se sente em casa e qualquer português que vá a Espanha sente o mesmo". (..)"É uma realidade incontestável" que precisa de um empurrão social e não político para ser concretizada”(…)”. O mundo de hoje "é um lugar de grandes mudanças sociais". O " Ocidente pacífico, sereno, poderoso, com alguma coerência cultural e social do século XX não poderá continuar. O Ocidente como o entendemos está na sua etapa final"-
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sábado, 14 de agosto de 2010
Os Livros de Saramago
Luis Moreira
continuação...
A Caverna - 2 000
Era para ser "O Centro" porque a história conta-se à volta de um centro comercial, onde as pessoas vivem, ali, para comprar.Na obra, apresentam-se um centro comercial e uma pequena olaria, dois lugares absolutamente antagónicos.Um está em extinção o outro é inevitável. A visão de Saramago sobre o nosso mundo!
A Maior Flor do Mundo 2001
Livro destinado ao público infantil. E se as histórias de crianças fossem de leitura obrigatória para os adultos? A história de um menino que fez crescer a maior flor do mundo.O realizador espanhol Juan Pablo Etcheberry fez com ele uma animação.
O Homem Duplicado - 2002
A identidade de cada um e de todos. Sem identidade não és ninguem. O que acontece quando descobres o teu duplo? Convertes o teu igual em inimigo? Para preservares a identidade?
Ensaio Sobre a Lucidez - 2004
As eleições tinham corrido dentro da normalidade democrática. Quando se abriram as urnas todos os votos estavam em branco.Uma fábula poderosa sobre o apodrecimento da democracia.
Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido - 2005
Libreto sobre a figura mítica de D. Juan, escrito a convite do Teatro alla Scala de Milão. Desmitificar o mito, as ideias feitas sobre a dignidade e a indignidade, vivem juntas nos seres humanos.É preciso um esforço para que a primeira não se afogue no lamaçal da segunda.
continuação...
A Caverna - 2 000
Era para ser "O Centro" porque a história conta-se à volta de um centro comercial, onde as pessoas vivem, ali, para comprar.Na obra, apresentam-se um centro comercial e uma pequena olaria, dois lugares absolutamente antagónicos.Um está em extinção o outro é inevitável. A visão de Saramago sobre o nosso mundo!
A Maior Flor do Mundo 2001
Livro destinado ao público infantil. E se as histórias de crianças fossem de leitura obrigatória para os adultos? A história de um menino que fez crescer a maior flor do mundo.O realizador espanhol Juan Pablo Etcheberry fez com ele uma animação.
O Homem Duplicado - 2002
A identidade de cada um e de todos. Sem identidade não és ninguem. O que acontece quando descobres o teu duplo? Convertes o teu igual em inimigo? Para preservares a identidade?
Ensaio Sobre a Lucidez - 2004
As eleições tinham corrido dentro da normalidade democrática. Quando se abriram as urnas todos os votos estavam em branco.Uma fábula poderosa sobre o apodrecimento da democracia.
Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido - 2005
Libreto sobre a figura mítica de D. Juan, escrito a convite do Teatro alla Scala de Milão. Desmitificar o mito, as ideias feitas sobre a dignidade e a indignidade, vivem juntas nos seres humanos.É preciso um esforço para que a primeira não se afogue no lamaçal da segunda.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Os Livros de Saramago
Luís Moreira
continuar
Cadernos de Lanzarote (I -V) 1994
Saramago faz a conta-corrente dos seus dias em Lanzarote, descrevendo os seus dias, encontros, pensamentos e debate de ideias.
Ensaio Sobre a cegueira - 1995
É o livro de Saramago que mais vendeu em todo o mundo.Foi aptado ao cinema e ao teatro. É uma metáfora sobre a sociedade, em que as pessoas vão cegando, apresionando-se em sanatórios, em que reina a anarquia e prevalecem os instintos animalescos e a lei do mais forte.O fosso que separa os mais pobres dos mais ricos é cada vez mais profundo, tal qual o fosso que separa os que sabem dos que não sabem, explicação do escritor.
Todos os Nomes - 1997
É a história de um José, que vive sofrivelmente num registo civil e que um dia ao ver uma ficha de uma mulher, larga tudo para a encontrar, mas não encontra sequer o seu nome. A ficção e a vida a confundirem-se!
O Conto da Ilha Desconhecida - 1997
Uma casa com uma porta onde se fazem os pedidos ao Rei mas em que o Rei está sempre sentado na porta dos obséquios.O rei faz-se desentendido. Tal como na vida.
O Discurso de Estocolmo - 1998
Discurso integral de Saramago na cerimónia em que lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura
Folhas Políticas - 1999
Compilação de textos de Saramago com conteúdo político e ideológico, que mostram o caracter interventivo, militante e humanista do escritor.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Livros de Saramago

Luis Moreira
continuação
O Ano da Morte de Ricardo Reis - 1984
Saramago surpreende tudo e todos ao dar vida a um heterónimo de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, narrando-lhe os últimos dias vividos na Lisboa triste da época da consolidação dos fascismos na Europa.
A Jangada de Pedra - 1986
Imagine-se que a Península Ibérica se soltou do resto do continente e anda à deriva, em busca de um rumo.A metáfora em força, no mais Iberista dos livros do escritor. É demonstrado que somos todos hispanos e que aquilo que nos une a Espanha tambem nos separa daquilo a que chamamos Europa.
História do Cerco de Lisboa - 1989
O livro não é sobre o Cerco da Cidade de Lisboa de 1147, centra-se antes em Raimundo Silva, um revisor de provas de um livro chamado, precisamente,História do Cerco de Lisboa. Este, por sua vez,é cúmplice do próprio autor, narrador participativo.
O Evangelho Segundo Jesus Cristo - 1991
"Homens perdoai-lhes porque ele não sabe o que fez".
O livro dá uma nova perpectiva da história de Jesus, completando as lacunas de quatro evangelhos. Tal, como mais tarde em Caim, somos confrontados com um Deus mau e cruel.Tornou-se na mais polémica de todas as obras do autor, para o que contribuiu a estupidez de um secretário de estado da cultura,impedindo o livro de concorrer a um prémio internacional.
continuação...
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Livros de Saramago

continuação...
Que Farei com este Livro - 1980
Nova peça de teatro centrada na figura de Camões.Decorre entre a chegada de Camões a Lisboa, vindo da Índia e de Moçambique e a publicação da primeira edição de "Os Lusíadas".
Levantado do Chão - 1980
A história de uma família de latifundiários,cruza-se com as dificeis condições de vida dos trabalhadores braçais.Algumas das ideias base do autor são aqui exploradas:o cenário histórico, a importância dos ideais políticos e ideológicos e a luta dos humildes contra a opressão. Prémio cidade de Lisboa, 1980 e Prémio Ennio Flaiano, em 1992.
Viagem a Portugal - 1981
As anotações do viajante que percorre o país de lés a lés durante dois anos, é a génese deste livro, as referências históricas e culturais, as emoções do escritor.
Memorial do Convento - 1982
Romance brilhante, baseado nos amores trágicos de Blimunda e Baltazar, , sobre o pano de fundo da construção do Convento de Mafra por ordem de D.João V. Adapatado ao teatro e à òpera, é um dos mais conhecidos romances de Saramago.
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terça-feira, 10 de agosto de 2010
Livros de Saramago
Luís Moreira
Luís
Luis Moreira
continuação...
Os Apontamentos - 1976
Crónicas publicadas no Diário de Notícias. A política e a intervenção social dão o mote.
Manual de Pintura e Caligrafia - 1977
Foi durante muito tempo considerado o primeiro romance de Saramago. Um pintor em plena panne criativa procura a inspiração perdida, numa viagem a Itália.
Objecto Quase - 1978
Seis contos, um dos quais tendo como protagonista a cadeira de que caiu Salazar em 1968.
Poética dos Cinco Sentidos - 1979
Obra colectiva, que inclui textos de Maria velho da Costa, Augusto Abelaira,Nuno Bragança, Ana Hatherley e Isabel da Nóbrega. Saramago escreve sobre o ouvido.
A Noite - 1979
Primeira peça de teatro. Na redacção de um jornal, desenvolve-se a acção, na noite de 24 para 25 de Abril de 1974.Foi considerada a melhor peça de teatro representada em 1979 pela Associação de Críticos Porugueses.
LuísLuis Moreira
continuação...
Os Apontamentos - 1976
Crónicas publicadas no Diário de Notícias. A política e a intervenção social dão o mote.
Manual de Pintura e Caligrafia - 1977
Foi durante muito tempo considerado o primeiro romance de Saramago. Um pintor em plena panne criativa procura a inspiração perdida, numa viagem a Itália.
Objecto Quase - 1978
Seis contos, um dos quais tendo como protagonista a cadeira de que caiu Salazar em 1968.
Poética dos Cinco Sentidos - 1979
Obra colectiva, que inclui textos de Maria velho da Costa, Augusto Abelaira,Nuno Bragança, Ana Hatherley e Isabel da Nóbrega. Saramago escreve sobre o ouvido.
A Noite - 1979
Primeira peça de teatro. Na redacção de um jornal, desenvolve-se a acção, na noite de 24 para 25 de Abril de 1974.Foi considerada a melhor peça de teatro representada em 1979 pela Associação de Críticos Porugueses.
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domingo, 8 de agosto de 2010
Os livros de Saramago
Luis Moreira
Nos próximos dias farei uma relação dos livros de José Saramago e, de cada um deles, uma pequena resenha .
Terra do Pecado - 1947
Desconhecido do público durante décadas, marcou a estreia literária do escritor, quando este tinha 25 anos e acabara de lhe nascer a filha,Violante. A acção localiza-se numa aldeia Ribatejana e é o desejo sexual de uma viúva pelo cunhado que desencadeia a intriga..Renegado durante muito tempo por Saramago, foi recuperado e editado pela Caminho, em 1977.No aviso que introduziu nessa nova edição, o escritor referia-se à sua estranheza perante o texto recuperado e o pouco futuro literário que este lhe parecia augurar.
Os Poemas Possíveis - 1966
Incursão do romancista pela poesia. Em breve perceberia que o seu caminho não seria esse.As convicções profundas do autor já estavam, contudo, lá, como em Criação. "Deus não existe ainda, nem sei quando/Sequer o esboço, a cor se afirmará/ No desenho confuso da paisagem/De gerações inúmeras nesta esfera//Nenhum gesto se perde, nenhum traço/ Que o sentido da vida é este só/ fazer da Terra um deus que nos mereça/ E dar ao Universo o Deus que espera"
(continua)
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terça-feira, 6 de julho de 2010
José Saramago e Correia da Fonseca ou As pessoas de valor terão dificuldade em viver em Portugal?
João Machado
Faleceu há poucas semanas José Saramago. A sua morte foi acompanhada por homenagens muito merecidas, e sem dúvida sinceras, na sua maioria. Mas apareceram também comentários depreciativos. Nesta fase, em que os méritos de Saramago como escritor já não são postos em causa (antes de lhe ser atribuído o Nobel e ter fama mundial certas pessoas chegavam a vir para os jornais dizer que ele não sabia escrever) os comentários depreciativos incidem com certa insistência sobre a sua passagem pelo Diário Notícias, com especial relevo para o despedimento, no Verão de 1975, de um grupo de jornalistas daquele jornal, autores de uma carta aberta em que contestavam as orientações que o jornal então seguia.
Sobre este caso, no semanário Vida Ribatejana, Correia da Fonseca, na sua coluna “Crónica TV”, saída à estampa em 30 de Junho, e que intitulou A calúnia, refere que o que o afastamento daqueles jornalistas aconteceu no seguimento de uma reunião geral de trabalhadores, que exigiu à Administração que fossem demitidos. E Correia da Fonseca, após recordar que quem demite ou admite o pessoal de qualquer jornal não é a Direcção, mas sim a Administração, termina a crónica dizendo:
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terça-feira, 22 de junho de 2010
Heresia: esse direito de Saramago e Ratzinger
Escultura de Gustaf Vasakyrkan em Estocolmo "Os santos triunfam sobre a heresia
…para José Saramago…
Heresia (do latim haerĕsis, por sua vez do grego αἵρεσις, "escolha" ou "opção") é a doutrina ou linha de pensamento contrária ou diferente de um credo ou sistema de um ou mais credos religiosos que pressuponha (m) um sistema doutrinal organizado ou ortodoxo. A palavra pode referir-se também a qualquer "deturpação" de sistemas filosóficos instituídos, ideologias políticas, paradigmas científicos, movimentos artísticos, ou outros. A quem funda uma heresia dá-se o nome de heresiarca, ou linha de pensamento contrária ou diferente de um credo ou sistema de um ou mais credos religiosos que pressuponha (m) um sistema doutrinal organizado ou ortodoxo.
A palavra pode referir-se também a qualquer "deturpação" de sistemas filosóficos Instituídos, ideologias políticas, paradigmas científicos, movimentos artísticos, ou outros.
…para José Saramago…
Heresia (do latim haerĕsis, por sua vez do grego αἵρεσις, "escolha" ou "opção") é a doutrina ou linha de pensamento contrária ou diferente de um credo ou sistema de um ou mais credos religiosos que pressuponha (m) um sistema doutrinal organizado ou ortodoxo. A palavra pode referir-se também a qualquer "deturpação" de sistemas filosóficos instituídos, ideologias políticas, paradigmas científicos, movimentos artísticos, ou outros. A quem funda uma heresia dá-se o nome de heresiarca, ou linha de pensamento contrária ou diferente de um credo ou sistema de um ou mais credos religiosos que pressuponha (m) um sistema doutrinal organizado ou ortodoxo.
A palavra pode referir-se também a qualquer "deturpação" de sistemas filosóficos Instituídos, ideologias políticas, paradigmas científicos, movimentos artísticos, ou outros.
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Nem morto está o fruto que tombou (um adeus a José Saramago)
Carlos Loures
Na passada sexta-feira, estava a almoçar com uns amigos quando na televisão disseram que José Saramago tinha morrido há minutos. Restaurante modesto, perto do mar, onde se serve bom peixe, com uma clientela heterogénea incluindo estrangeiros, surpreendeu-me o sopro de tristeza que percorreu a sala. Como se todos tivéssemos tido a noção da perda que nos atingia.
Quis vir logo para casa e escrever um texto de despedida a Saramago. Mas não pude, pois o almoço também era de trabalho. Quando cheguei vi que o Professor Raúl Iturra tinha escrito belas palavras, um poema. Fiz delas uma primeira homenagem do nosso blogue. Depois, a pouco e pouco, têm chegado depoimentos, comentários. Foi no domingo o Josep Vidal na carta que me endereçou, ontem um testemunho da Clara Castilho e outro do Luís Moreira, já hoje, um texto de Sílvio Castro. Aqui ficam também algumas palavras minhas.
Na passada sexta-feira, estava a almoçar com uns amigos quando na televisão disseram que José Saramago tinha morrido há minutos. Restaurante modesto, perto do mar, onde se serve bom peixe, com uma clientela heterogénea incluindo estrangeiros, surpreendeu-me o sopro de tristeza que percorreu a sala. Como se todos tivéssemos tido a noção da perda que nos atingia.
Quis vir logo para casa e escrever um texto de despedida a Saramago. Mas não pude, pois o almoço também era de trabalho. Quando cheguei vi que o Professor Raúl Iturra tinha escrito belas palavras, um poema. Fiz delas uma primeira homenagem do nosso blogue. Depois, a pouco e pouco, têm chegado depoimentos, comentários. Foi no domingo o Josep Vidal na carta que me endereçou, ontem um testemunho da Clara Castilho e outro do Luís Moreira, já hoje, um texto de Sílvio Castro. Aqui ficam também algumas palavras minhas.
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