Luís Moreira
O que os divide? O que os une?
O PS, nasceu pelas mãos de republicanos que acreditavam profundamente na Liberdade política e só mais tarde descobriram a economia de mercado. O PSD, nasceu na primavera marcelista, convencido que seria possível mudar as coisas por dentro. Acreditava que a melhoria do nível de vida, conseguido por uma economia mais aberta levaria o país para a democracia.
Mas, ambos, mesmo não estando na governação, estão no poder, ficaram ligados, qual gémeos siameses, numa teia de interesses que os leva a estarem de acordo no essencial e, na verdade, pouco os separa.
Após, os primeiros dirigentes, gente batida na vida e com carreira profissional, chegaram aqueles que se fizeram nas Jotas, sem curriculum académico e/ou profissional, juntam-se nos gabinetes ou nas administrações das empresas, presas fáceis para quem verdadeiramente manda!
Após a saída de cena de Ferro Rodrigues e Leonor Beleza, talvez os últimos com peso próprio, a classe política está marcada quando é sujeita às exigências da governação, como o caso bem recente do deputado Branquinho, aceitando um emprego numa empresa parceira até agora dos socialistas, mas que os ventos soprando em direcção diversa, a levaram a mudar ,interessada que está na privatização da RTP que um futuro governo PSD ameaça levar a efeito.
O centrão está aí e nada de verdadeiramente muda, seja qual for o partido que esteja no governo, temos um Estado paralelo criado pelos dois partidos que dá emprego a boys e que assegura as correias de transmissão necessárias, afastando a administração pública do que é fundamental.
O que fazer? Enquanto cheirar a poder as várias facções dentro dos dois principais partidos não se reordenam em novos partidos, misturando e dando de novo, por forma a afastar do poder os grupos económicos de sempre e as corporações que se sentam à mesa do orçamento.
O futuro não é fácil, enquanto os boys (do PS e do PSD) enriquecem o povo empobrece.
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
sábado, 2 de outubro de 2010
O Orçamento é uma espécie de confessionário.
Luis Moreira
O Orçamento tem como parceiro natural o PSD diz o PS sem se rir, da mesma forma que os parceiros naturais do PS nas eleições são o BE e o PCP .O PS precisa de um parceiro para, naturalmente, arcar com as medidas neoliberais e anti-populares que aí vêm e quem melhor do que quem lhe pode tirar o poder?
O relatório da OCDE não é bem o que por aí anda nos jornais e na boca dos PS, é bem pior, como a despesa é muito inflexível, vai-se pela receita, mais impostos, o que vai arrefecer a economia ainda mais, quando a economia da Alemanha cavalga a 4% nós nem aos 1% chegamos. Se tivéssemos o trabalho de casa feito, podíamos agora beneficiar com as exportações para a Alemanha, mas como não fizemos, andamos a sonhar com o TGV e o aeroporto, outros beneficiarão.
O trabalho de casa era ter dado prioridade às PMEs, como toda a gente aconselhou o governo, que são quem exporta, quem cria postos de trabalho e as que mais rapidamente se acomodam às novas condições. Infelizmente, as políticas económicas foram dirigidas para os bancos, para as empresas publicas e para os megainvestimentos, deixando para segundas núpcias os investimentos de proximidade.
O Orçamento é a confissão dos pecadores, já não podem esconder mais os pecados capitais, trava-se o TGV, o aeroporto, os contentores de Alcântara pagam milionárias indemnizações , as locomotivas já não vêm, e os submarinos andam debaixo de água a ver se a gente se esquece das comissões...
Por mim,para além das avés marias da praxe, levavam com o FMI...
PS: já depois do texto escrito o governo anunciou as medidas que jurava que nunca faria. Não há almoços grátis!
O Orçamento tem como parceiro natural o PSD diz o PS sem se rir, da mesma forma que os parceiros naturais do PS nas eleições são o BE e o PCP .O PS precisa de um parceiro para, naturalmente, arcar com as medidas neoliberais e anti-populares que aí vêm e quem melhor do que quem lhe pode tirar o poder?
O relatório da OCDE não é bem o que por aí anda nos jornais e na boca dos PS, é bem pior, como a despesa é muito inflexível, vai-se pela receita, mais impostos, o que vai arrefecer a economia ainda mais, quando a economia da Alemanha cavalga a 4% nós nem aos 1% chegamos. Se tivéssemos o trabalho de casa feito, podíamos agora beneficiar com as exportações para a Alemanha, mas como não fizemos, andamos a sonhar com o TGV e o aeroporto, outros beneficiarão.
O trabalho de casa era ter dado prioridade às PMEs, como toda a gente aconselhou o governo, que são quem exporta, quem cria postos de trabalho e as que mais rapidamente se acomodam às novas condições. Infelizmente, as políticas económicas foram dirigidas para os bancos, para as empresas publicas e para os megainvestimentos, deixando para segundas núpcias os investimentos de proximidade.
O Orçamento é a confissão dos pecadores, já não podem esconder mais os pecados capitais, trava-se o TGV, o aeroporto, os contentores de Alcântara pagam milionárias indemnizações , as locomotivas já não vêm, e os submarinos andam debaixo de água a ver se a gente se esquece das comissões...
Por mim,para além das avés marias da praxe, levavam com o FMI...
PS: já depois do texto escrito o governo anunciou as medidas que jurava que nunca faria. Não há almoços grátis!
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Governo de Salvação Nacional
Luis Moreira
Nenhum governo assente num partido ou mesmo em vários partidos estará disposto a fazer o que o interesse nacional exige. Tomar as duríssimas medidas de contenção da despesa sem as quais não vai ser possível equilibrar as contas, como todos já percebemos, pois marcará o partido para muitos anos, e nenhum quer passar por essa prova.
O PS governou em maioria absoluta e fez gala disso, não partilhou a governação, foi o quero,posso e mando, e agora tenta a todo o transe puxar para a área da tomada de decisão, o PSD, querendo partilhar os escombros. Há três meses atrás, o PSD, foi chamado a colaborar para que o PEC fosse aprovado em Bruxelas. Como já hoje é evidente, apesar de um aumento da receita por via do aumento brutal dos impostos, o déficit cresceu em vez de diminuir, ao invés do que está a acontecer em Espanha e Grécia. E a razão é só uma, o PS não consegue nem quer fazer os cortes na despesa primária que a situação exige. Quem tem dúvidas olhe para os avanços e recuos nos grandes investimentos que não têm impacto, a curto prazo, no bolso dos contribuintes e que só não vão em frente porque a realidade (leia-se a falta de quem nos empreste dinheiro em condições aceitáveis) se impôs. A não ser assim a vocação socialista de despesismo do PS cavalgaria esses investimentos, não prioritários, alegremente.
Há, pois, que avançar para um governo de salvação nacional, capaz de olhar para o interesse nacional e não para os votos. O tempo urge, a credibilidade do governo cá dentro e lá fora não é nenhuma, o FMI ronda e a taxa de juro atinge máximos insuportáveis. Este teatro entre PS e PSD quer dizer que chegou o momento de a realidade vir à luz do dia, já se fala no corte do 13º mês e no aumento de impostos.
A bem da Nação, o PSD não deve embarcar no canto da sereia, não há crise nenhuma se o governo de Sócrates cair, a democracia tem soluções. Desde logo pode governar em 2011 com o orçamento de 2010 o que traz várias vantagens, tem os limites da despesa e da receita do ano anterior, o que só por si é uma contenção de gastos. O grande problema, como todos andam a dizer há pelo menos dois anos, é que a economia desfalece sem o dinheiro que foi retirado às empresas e às famílias, ou se reduz a despesa ou é necessário aumentar o PIB em 15 000 milhões/ano o que é impossível sem investimento e com uma procura débil, por isso, todos os anos a nossa dívida aumenta naquele número.
Ao fim de sete anos de governação de José Sócrates estamos num beco sem saída, temos pela frente o empobrecimento do país e das pessoas, continuaremos a divergir dos outros países da UE, já somos os últimos e vamos continuar a ser os últimos.
Este governo está esgotado não tem soluções, anda à deriva ( 2 semanas depois de anular os concursos do TGV. TTT, aeroporto, já começou a dizer que os vai reabrir dentro de 6 meses), nem as milionárias indemnizações às empresas concorrentes o protegem do desvario de que está possuído.
Nenhum governo assente num partido ou mesmo em vários partidos estará disposto a fazer o que o interesse nacional exige. Tomar as duríssimas medidas de contenção da despesa sem as quais não vai ser possível equilibrar as contas, como todos já percebemos, pois marcará o partido para muitos anos, e nenhum quer passar por essa prova.
O PS governou em maioria absoluta e fez gala disso, não partilhou a governação, foi o quero,posso e mando, e agora tenta a todo o transe puxar para a área da tomada de decisão, o PSD, querendo partilhar os escombros. Há três meses atrás, o PSD, foi chamado a colaborar para que o PEC fosse aprovado em Bruxelas. Como já hoje é evidente, apesar de um aumento da receita por via do aumento brutal dos impostos, o déficit cresceu em vez de diminuir, ao invés do que está a acontecer em Espanha e Grécia. E a razão é só uma, o PS não consegue nem quer fazer os cortes na despesa primária que a situação exige. Quem tem dúvidas olhe para os avanços e recuos nos grandes investimentos que não têm impacto, a curto prazo, no bolso dos contribuintes e que só não vão em frente porque a realidade (leia-se a falta de quem nos empreste dinheiro em condições aceitáveis) se impôs. A não ser assim a vocação socialista de despesismo do PS cavalgaria esses investimentos, não prioritários, alegremente.
Há, pois, que avançar para um governo de salvação nacional, capaz de olhar para o interesse nacional e não para os votos. O tempo urge, a credibilidade do governo cá dentro e lá fora não é nenhuma, o FMI ronda e a taxa de juro atinge máximos insuportáveis. Este teatro entre PS e PSD quer dizer que chegou o momento de a realidade vir à luz do dia, já se fala no corte do 13º mês e no aumento de impostos.
A bem da Nação, o PSD não deve embarcar no canto da sereia, não há crise nenhuma se o governo de Sócrates cair, a democracia tem soluções. Desde logo pode governar em 2011 com o orçamento de 2010 o que traz várias vantagens, tem os limites da despesa e da receita do ano anterior, o que só por si é uma contenção de gastos. O grande problema, como todos andam a dizer há pelo menos dois anos, é que a economia desfalece sem o dinheiro que foi retirado às empresas e às famílias, ou se reduz a despesa ou é necessário aumentar o PIB em 15 000 milhões/ano o que é impossível sem investimento e com uma procura débil, por isso, todos os anos a nossa dívida aumenta naquele número.
Ao fim de sete anos de governação de José Sócrates estamos num beco sem saída, temos pela frente o empobrecimento do país e das pessoas, continuaremos a divergir dos outros países da UE, já somos os últimos e vamos continuar a ser os últimos.
Este governo está esgotado não tem soluções, anda à deriva ( 2 semanas depois de anular os concursos do TGV. TTT, aeroporto, já começou a dizer que os vai reabrir dentro de 6 meses), nem as milionárias indemnizações às empresas concorrentes o protegem do desvario de que está possuído.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Sondagem: alegres e nobres para Cavaco
Luís Moreira
A sondagem do CM dá 54% para Cavaco, 28% para Alegre e um resultado residual para Nobre. Cavaco ganharia à primeira volta, ele que há quatro anos ganhou com 51%. Os 28% de Alegre são o que vale hoje o PS, embora não se confundam pois andarão por aqui os 8% do BE.
A direita agita-se por causa do casamento gay, procura, ou faz que procura, alguem que possa pressionar Cavaco, desde logo a Igreja pela voz do Cardeal de Lisboa e do CDS lançando para a mesa o nome de Bagão Félix.É fogo fátuo, a direita não vai correr o risco de dar a vitória a Alegre como, ao contrário, a esquerda deu a vitória a Cavaco com as suas divisões entre Alegre e Soares.
Quem está Presidente tem grandes vantagens, como mostra o facto de terem sido sempre reeleitos, e numa situação miserável como a que temos pela frente, com um governo descredibilizado e forçado a tomar medidas impopulares, ninguem se atreve a abrir um "melão" novo na Presidência da Republica.Vamos pois ter Cavaco.
Mas Cavaco bem pode começar, como já começou, a usar expressões mais duras como "situação insustentável" que é raríssima no seu discurso, mas que se viu obrigado a usar, num cada vez maior distanciamento do governo e de Sócrates, não vá apanhar com a "peçonha" que de um momento para o outro assaltou o governo.
Se Alegre fizesse o pleno da Esquerda, talvez o máximo que conseguisse fosse obrigar Cavaco a uma segunda volta vexatória, mas nem isso vai conseguir, há muito PS que não lhe perdoa e o PCP vai, como sempre faz, tocar a reunir à volta de um candidato que só serve para isso, para tocar a reunir.
O que esta mais que provável vitória de Cavaco possa meses depois influir nas eleições legislativas é coisa que não se adivinha, mas a direita está próxima de conseguir o velho sonho de Sá Carneiro: um Presidente, uma maioria, um governo!
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sexta-feira, 4 de junho de 2010
Opinião. Cavaco, outro “berdadeiro” independente
Carlos Mesquita
Pronunciei-me sobre Fernando Nobre, hoje toca a vez a Cavaco Silva, o único dos três candidatos (este é oficioso por enquanto) à presidência da República, que foi secretário-geral de um partido, o PSD. Cavaco tem a tarefa de parecer independente facilitada; a campanha que o coloca distanciado do partido a que pertence, tem anos, resmas de artigos de opinião foram escritos com esse fim e são imensos os comentadores e jornalistas que ao longo da carreira política do actual presidente o têm arrumado fora do partido, criaram-lhe essa imagem, é mas não é, apesar de ser não se assume como sendo, está acima, ao lado, ou de costas, para o PSD, conforme as suas conveniências conjunturais. Pode-se duvidar se Cavaco quando líder do PSD era do PSD. No entanto o seu partido, (ou ex-partido) não lhe nega apoios; todas as linhas do PSD, e são mais que as linhas do TGV do tempo de Durão Barroso/Ferreira Leite, concordam em ampará-lo na candidatura ao segundo mandato como presidente. Todas? Não! Como se diria na introdução de mais uma aventura de Astérix. Alguns católicos do PSD juntos com o CDS e a Igreja, e os seus mais leais fiéis, (ou seja, o sector democrata cristão e cristãos pouco democratas) depois da promulgação por Cavaco Silva, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, põem em causa esse apoio. Este novo elemento é decisivo para medir a facilidade de Cavaco em ser ou não reeleito; os cavaquistas desvalorizam a controvérsia, mas o país, diz-se, é maioritariamente católico. Os activistas anti-casamento gay juntaram mais de 200mil assinaturas para pedir um referendo, número semelhante aos dos movimentos anti-aborto.
Responsáveis da Igreja católica e figuras da direita procuram alternativas ao nome do actual presidente, e o CDS já disse que poderia sustentar um nome da sua área como opção a Cavaco Silva. Qualquer que seja a evolução destas iniciativas, a Igreja e também políticos e comentadores conservadores, não deixarão de levar o tema do “casamento gay” para o período da campanha presidencial, não sendo previsível que esses sectores deixem morrer o assunto em nome das contrariedades económicas e financeiras. Cavaco Silva desiludiu quem nele votou, também pelas comodidades oferecidas à governação de Sócrates, e agora para se furtar à discussão vem dizendo que só pensa na crise, em campanha eleitoral vai ter de abandonar esse paleio.
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terça-feira, 18 de maio de 2010
Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 5
Carlos Leça da Veiga
Em Portugal “não existe Democracia” e “em certos casos, não estamos melhor do que antes do 25 de Abril”
Prof. Doutor Vitorino Magalhães Godinho
O sintoma que historicamente mais revela a decadência das classes dirigentes em Portugal é o cansaço de ser autónomo” e “A partir de agora (em 2004), a Constituição portuguesa de 1976, totalmente subvertida, pode ser posta em causa por qualquer regulamento comunitário, mesmo o mais comezinho
Prof. Doutor João Ferreira do Amaral
Salvo para aqueles crentes, convictos indefectíveis de estar a viver-se em Democracia – mais uma outra vez volta a haver situacionistas – parece não ser difícil concordar-se que temos uma Constituição inadequada e incapacitada de servir a generalidade da população portuguesa e que, por igual, embora com muito maior gravidade, estamos sujeitos a uma dependência política, económica, cultural, ecológica e militar alienígena que vicia a História nacional e dá cor escura ao futuro dos portugueses. Não será por haver quem aceite esta situação – mesmo que seja uma maioria indiscutível – que isso fará passá-la a poder ser tida como justa, aceitável que seja. Até as maiorias, bem sabido, já têm feito as piores escolhas, como disso é um paradigma histórico, todos recordá-lo-ão, a vitória eleitoral obtida por Hitler.
Os pecados capitais posteriores ao 25 de Abril são, de facto, uma Constituição política que não garante aquela Democracia que o século XXI exige e, também, a situação de sujeição a interesses politico-económicos comandados pelo exterior. De facto, a Constituição actual não serve a generalidade das necessidades sociais da maioria da população, não ambiciona accionar as boas vivências duma efectiva participação cívica e, também, não menos grave, por força da sua ambiguidade, permite acolher uma situação de dependência do exterior que, como incontestável – a experiência está a mostrá-lo – tudo embaraça, senão tolhe, inclusive liquida a esperança em viverem-se melhores dias.
Em Portugal “não existe Democracia” e “em certos casos, não estamos melhor do que antes do 25 de Abril”
Prof. Doutor Vitorino Magalhães Godinho
O sintoma que historicamente mais revela a decadência das classes dirigentes em Portugal é o cansaço de ser autónomo” e “A partir de agora (em 2004), a Constituição portuguesa de 1976, totalmente subvertida, pode ser posta em causa por qualquer regulamento comunitário, mesmo o mais comezinho
Prof. Doutor João Ferreira do Amaral
Salvo para aqueles crentes, convictos indefectíveis de estar a viver-se em Democracia – mais uma outra vez volta a haver situacionistas – parece não ser difícil concordar-se que temos uma Constituição inadequada e incapacitada de servir a generalidade da população portuguesa e que, por igual, embora com muito maior gravidade, estamos sujeitos a uma dependência política, económica, cultural, ecológica e militar alienígena que vicia a História nacional e dá cor escura ao futuro dos portugueses. Não será por haver quem aceite esta situação – mesmo que seja uma maioria indiscutível – que isso fará passá-la a poder ser tida como justa, aceitável que seja. Até as maiorias, bem sabido, já têm feito as piores escolhas, como disso é um paradigma histórico, todos recordá-lo-ão, a vitória eleitoral obtida por Hitler.
Os pecados capitais posteriores ao 25 de Abril são, de facto, uma Constituição política que não garante aquela Democracia que o século XXI exige e, também, a situação de sujeição a interesses politico-económicos comandados pelo exterior. De facto, a Constituição actual não serve a generalidade das necessidades sociais da maioria da população, não ambiciona accionar as boas vivências duma efectiva participação cívica e, também, não menos grave, por força da sua ambiguidade, permite acolher uma situação de dependência do exterior que, como incontestável – a experiência está a mostrá-lo – tudo embaraça, senão tolhe, inclusive liquida a esperança em viverem-se melhores dias.
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segunda-feira, 10 de maio de 2010
A síndrome de Estocolmo

Carlos Loures
Todos já ouviram falar desta patologia que, basicamente, consiste na disfunção psicológica que leva um sequestrado a identificar-se com o sequestrador. A designação deriva de um facto ocorrido em Estocolmo no ano de 1973 – durante um assalto a um banco, os reféns, sequestrados durante seis dias, mostraram-se, depois de libertos, solidários com os assaltantes mesmo durante o processo judicial. A solidariedade da vítima para com o seu captor nasce com pequenos gestos de urbanidade do sequestrador para com o sequestrado e cimenta-se durante o processo de libertação por parte das autoridades policiais, em que o sequestrado se identifica com o assaltante no receio de ser vitimado durante a luta.
Uma visão lúcida da realidade é difícil e as pequenas atenções dos bandidos transformam-se, na memória da vítima, em rasgos de bondade. Por outro lado, os sequestrados têm tendência em ser dóceis com os captores, procurando uma fuga a represálias. Uma estratégia de sobrevivência, digamos que dá lugar a uma bela amizade.
A evolução da síndrome é subconsciente, a vítima não tem consciência da progressão do trauma. Por outro lado, esta não afecta todas as vítimas em cativeiro, alguns defendem-se desenvolvendo um ódio, porventura exagerado (mas saudável), aos captores. A síndrome, de espectro abrangente, tipifica também o afecto que muitas mulheres vítimas de violência nutrem pelos maridos agressores.
Em grupos alargados, lugares e transportes públicos, ouve-se, desde que os governos são eleitos democraticamente em Portugal, protestos contra a forma como somos governados. Ninguém parece apoiar o partido que está no poder – fervem as anedotas, os boatos, as acusações… Foi sempre para mim um mistério como é que situações de descontentamento generalizado dão lugar a vitórias, por vezes rotundas, dos partidos que estão por detrás dos governos tão duramente criticados. Outro aspecto interessante da chamada psicologia de massas é, pessoas que votam em partidos de direita e que às vezes até se mostram saudosas da ditadura, quando os seus interesses pessoais são de alguma maneira afectados, invocarem «as conquistas de Abril».
Mas esta é uma questão anedótica e marginal. O mistério que gostava de ver esclarecido é como é que partidos que já se viu como governam continuarem a ter a maioria dos votos dos eleitores. Então surge uma explicação – a síndrome de Estocolmo – reféns do neo-liberalismo, nós os eleitores, cativos do círculo vicioso, ciclo e circo fantasioso, que faz alternar um dos dois partidos no poder – ganhámos afecto aos captores, somos seduzidos pelos pequenos gestos amáveis que travestem a violência de impostos e de medidas lesivas do nosso bem-estar.
Quando faço a pergunta directamente a votantes no PS ou no PSD, as pessoas encolhem os ombros e respondem - «é que os outros não dão garantias de poder governar». Talvez seja verdade. PCP e Bloco de Esquerda talvez até nem fossem capazes de governar e permanecer fiéis aos seus princípios. Talvez se «pragmatizassem». Porém, os dois compadres do bloco central deram já amplas garantias de não conseguirem governar na acepção nobre do termo. Porque «governar-se», perdoe-se-me o chulismo, eles conseguem sempre.
Sofremos colectivamente da síndrome de Estocolmo.
Só essa explicação pode justificar que continuemos a eleger e a confiar em quem faz de nós e dos nossos votos passadeira para satisfazer ambições pessoais, enriquecer o currículo e beneficiar interesses dos grandes empresários, ponte para negociatas obscuras…
Não, não somos nem masoquistas nem tão estúpidos como parecemos; estamos é afectados pela síndrome de Estocolmo.
Isto explica tudo, não acham?.
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