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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O capital e a capital

Carlos Loures

Nesta semana da Economia, não queria deixar de abordar um tema afim. Escolhi falar sobre capital. Acontece que Capital é palavra com muitos significados. Das mais importantes acepções destaco duas, dois substantivos com géneros diferentes – o capital, acepção do foro da Economia; a capital, na área da geopolítica. Dois famosos livros, entre muitos outros, celebram cada uma das acepções - «O Capital», de Karl Marx, e «A Capital», do nosso Eça. Como adjectivo tem também a sua importância – pena capital, por exemplo, para quem a ela tiver sido condenado, assume uma dimensão transcendente. Muito mais dramático do que não ter capital ou ainda pior do que viver nos subúrbios da capital.

“A Capital”, de Eça de Queirós, foi um romance que viria, depois, a dar lugar à sua obra-prima «Os Maias». Refere-se à capital de Portugal – Lisboa. No seu livro, Eça relata as vicissitudes de um provinciano numa capital, também ela provinciana. Porque naquela época final do século XIX, tal como agora, a capital era um espelho do País. Como se cada país tivesse a capital que merece.
Terá sido a necessidade de centralizar, de criar estruturas como, por exemplo, a Casa da Mina e da Índias que levou à criação de uma capital .. Creio que não se utilizava ainda, no século XV, o termo «capital», mas Lisboa começou nessa altura, como maior cidade do País, a concentrar as funções de «cabeça do Império», pois ali se acumulavam todos os órgãos gestionários quer das frotas que demandavam os mares, execução de mapas (o termo «cartografia» só apareceu no século XIX), armazenamento das mercadorias que saíam e entravam, e toda essa complicada operação de logística que implicava infra-estruturas fixas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Teatro do absurdo - algumas reflexões - (I)

Paulo Rato

Só num outro artigo me será possível "comentar" o artigo do Carlos Loures e os comentários que suscitou.
Começarei, no entanto, pelo lamento da Augusta Clara sobre os poucos participantes em certos debates.
Creio que a estrutura dos blogues dificulta, ela própria, estes debates: cada "página" é tão depressa "ocupada" que, em poucas horas de uso blogueiro, atingimos o recado fatal: "mensagens antigas". Ora, quantas vezes não chego, sequer, a saber se um comentário meu teve continuidade, porque me impaciento com o tempo improdutivo que já gastei, após navegar por uma, duas, ou mais dezenas de páginas, sem encontrar vestígios do artigo comentado?

Apesar de não ser tão participante como gostaria, estou certo de que diversos comentários que já coloquei no blogue, contendo ideias, argumentos, raciocínios que (valessem o valessem) seriam adequados, por exemplo, a "este" debate, não foram lidos, por terem chegado "fora de prazo", pela maior parte, senão por todos os meus companheiros de bloguice.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Os Carlos e a Igreja. Darwin e a Teoria da Evolução

Augusta Clara de Matos



Quando embarcou no Beagle, Charles Darwin lia a Bíblia, segundo testemunhos dos marinheiros do navio. Por isso, não é de admirar o episódio relativo a Karl Marx e à sua obra O Capital que o filósofo quis fazer chegar às mãos de Darwin. Consta mesmo que lhe terá querido dedicar o segundo volume. Mas Darwin não aceitou, respondendo de forma evasiva que era um biólogo e não percebia nada dessas coisas.

O curioso é que Marx sabia perfeitamente que Darwin não era nenhum revolucionário nem partilhava as suas ideias. É, pois, presumível que lhe admirasse o trabalho, a honestidade e o rigor com que o levara a cabo.

Embora não sem críticas, Marx e Engels admiravam Charles Darwin.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O que importa o nome da rosa? - a rose by any other name would smell as sweet - l’important c’est la rose.

Carlos Loures

Para quem aspira a uma democracia plena, o cenário da vida política portuguesa, da nossa «democracia», não podia ser mais desolador. Quando o ar está abafado dentro de casa, abre-se a janela e aspira-se ar puro. Porém, abrindo a janela, olhando globalmente o planeta, o ar é mais sufocante e o panorama é ainda mais assustador. Como num pesadelo ou num quadro de Dalí, num labirinto soturno, seres humanos sonâmbulos, errantes, incaracterísticos, vagueiam, enquanto um animal mutante e híbrido os persegue, devora e logo os regurgita devidamente educados, transformados em humanóides-socializados, em membros indiferenciados de uma gigantesca colmeia com milhares de milhões de corações, pulsando ao mesmo ritmo. Um a um, os seres vão sendo agarrados. Mas não fogem, oferecem-se aos dentes da fera com a indiferença de quem nada quer fazer para o evitar. Porque ser devorados e regurgitados, convertidos em peças da máquina global, parece ser o principal objectivo das suas vidas. E chamam a essa transmutação perversa «originalidade»!

Herbert Marcuse (1898-1979), o filósofo norte-americano de origem alemã, um dos mais importantes pensadores da Escola de Francoforte, explica-nos como o sistema, através de um marketing sofisticado, e utilizando os seus dispositivos de controlo, consegue que o «homem-unidemensional» assuma como seus os objectivos do sistema e como suas as necessidades do sistema (confundindo as formas de satisfação socialmente exigidas com as formas de satisfação genuinamente individuais – formas que, numa sociedade saudável, deveriam estar em dialéctico conflito). «Deste modo», conclui Marcuse, «a sociedade estabelecida assenta nos próprios pensamentos, nos próprios sentimentos e inclusivamente nos próprios corpos da maioria dos indivíduos».

terça-feira, 27 de julho de 2010

De cada um, segundo as suas capacidades, a cada um, segundo as suas necessidades!

Carlos Mesquita

Lembro-me de um filme publicitário inglês em que um casal idoso, viajando no seu automóvel, ouve uma canção Punk (em alemão parece-me) e segue o ritmo da música alegremente, abanando o capacete e rindo cúmplices um para o outro; em rodapé passa a legenda, a letra é toda obscenidades. O slogan era qualquer coisa do género, “ não faça figuras tristes, matricule-se na escola de línguas XPTO”. São muitos os exemplos de gafes monumentais do nosso mundo político quando fazem citações para armar em cultos, usando frases de notáveis, a maior parte das vezes fora do contexto, para evidenciar que leram um ou outro teórico, ou simplesmente repetindo expressões que andam por aí, e que nunca usariam se soubessem a sua origem. Recentemente, Aguiar Branco discursando pelo PSD, resolveu transformar a sessão solene das comemorações do 36º aniversário do 25 de Abril, num cómico stand up, citando uma frase de Lenine que podia ter sido escrita por um carteiro dos CTT ou um dirigente de clube de futebol da segunda circular. Satisfeito pelo efeito – gargalhadas da plateia – continuou o número, expelindo uma versão livre de um parecer da revolucionária polaca e fundadora do partido comunista alemão, Rosa Luxemburgo, sobre a liberdade; aqui, ele ou quem lhe escreveu a conversa, teve o cuidado de truncar a frase, pois a expressão completa dita por políticos tão pouco respeitadores da liberdade dos outros, pediria uma barra de sabão azul e branco para lavar a boca. Mas a situação mais bizantina a que assisti ultimamente, foi o novel ideólogo laranja Calvão da Silva, em declarações sobre a proposta de revisão constitucional do PSD, que pretende higienizar a lei fundamental retirando-lhe os marxismos das letras e da pontuação. Disse Calvão da Silva: “É preciso que o Estado seja mais justo e equitativo na distribuição da riqueza, não tratando todos por igual (…) e que se aplique o princípio, a cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas possibilidades”. Calvão da Silva, professor universitário e presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD, devia saber que estava a citar Karl Marx, e logo a rematar um paleio argumentativo anti-marxista. E não é um Marx qualquer, uma frase encontrada nos perdidos e achados como a citação de Lenine feita por Aguiar Branco, mas um texto fundamental para os marxistas que é a “Crítica ao programa de Gotha”. Calvão da Silva podia ter recuperado o princípio de distribuição para uma sociedade de transição, mas resolveu defender o critério para uma sociedade socialista, aquele que Marx entendia que na “fase superior do comunismo” a “sociedade poderá inscrever nas suas bandeiras: De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades.”

Democracia - homens bons vs turba

Carlos Loures

Em Outubro de 1987, Karl Popper (1902-1994), veio fazer uma conferência a Lisboa a convite de Mário Soares, então presidente da República. Nessa conferência, contou como, atraído na juventude pelo Comunismo, foi verificando ao longo da vida que a teoria da História de Marx e a sua profecia sobre o advento do Socialismo, apresentavam muitas falhas. Quem sou eu para contestar Popper, mas, na minha modesta opinião, as falhas não foram de Marx, que só podia raciocinar com os elementos de que dispunha – a máquina a vapor, símbolo da Revolução Industrial, estava a revolucionar o mundo do trabalho, a transformar artífices em operários, a criar um «proletariado» e um «lumpen» ou seja, um «subproletariado». Quanto a esta última classe, colocada à margem do processo produtivo, Marx entendia-a como susceptível de se unir à vanguarda revolucionária ou de ser instrumentalizada e transformada em núcleo principal do exército contra-revolucionário. Gente que nada tem é mais vulnerável às promessas, sobretudo às falsas promessas.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

CARTA AOS REDACTORES DO BOLETIM DA FEDERAÇÃO DO JURA


Caros companheiros,

Eu não posso nem devo deixar a vida pública sem vos endereçar uma última palavra de reconhecimento e de simpatia.

Faz quatro anos e meio aproximadamente que nós nos conhecemos, e apesar de todos os artifícios de nossos inimigos comuns e das calúnias infames que lançaram contra mim, conservastes vossa estima, vossa amizade e vossa confiança em mim. Vós não vos deixastes intimidar por esta denominação de “Bakunineeianos” que eles lançaram em vossos rostos, preferindo guardar a aparência de serem homens dependentes, do que a certeza de terdes sido injustos.

Por sinal, sempre tivestes, e em alto grau, a consciência da independência e da perfeita espontaneidade das vossas opiniões, tendências, actos, e a pérfida intenção dos nossos adversários era tão transparente, por outro lado, que não pudestes tratar as suas insinuações caluniosas e ferinas de outra forma, se não com o mais profundo desprezo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

CARTA AOS REDACTORES DO BOLETIM DA FEDERAÇÃO DO JURA

Caros companheiros de desgraça!

A espada de Demócles, com a qual nos ameaçaram por tanto tempo, acaba, enfim, de cair sobre as nossas cabeças. Não é exactamente uma espada, mas a arma habitual do Sr. Marx, um monte de imundícies.

Com efeito, na nova circular privada do Conselho Geral de Londres, datada de 5 de Março de 1872, mas entregue à publicidade, segundo parece, durante estes últimos dias, nada falta: invenções ridículas, falsificações de princípios e de factos, insinuações odiosas, mentiras cínicas, calúnias infames, enfim, todo o arsenal guerreiro do Sr. Marx em campanha. É uma colectânea mediocremente sistematizada de todas as histórias absurdas e imundas que a maldade mais perversa do que espiritual dos judeus alemães e russos, seus amigos, seus agentes, seus discípulos e, ao mesmo tempo, os lacaios executores das suas grandes obras, propagou contra todos nós, mas sobretudo contra mim, durante três anos aproximadamente, e principalmente desde esse infeliz Congresso de Basileia, no qual ousámos votar, com a maioria, contra a política marxista.

domingo, 18 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

Carta ao Journal de Genève
Aos Senhores Redactores do Jornal de Genebra

Senhores,

Não faz parte dos meus hábitos responder às injúrias e às calúnias dos jornais. Eu teria tido muito trabalho, realmente, se tivesse querido apurar todas as besteiras que, desde 1869, sobretudo, se divertem a debitar em minha conta.

Entre os meus caluniadores mais furiosos, ao lado dos agentes do governo russo, eu situo naturalmente o Sr. Marx, o chefe dos comunistas alemães, que, sem dúvida, por causa do seu tríplice carácter de comunista, alemão e judeu, me odiou, e que, dizendo nutrir igualmente um grande ódio contra o governo russo, em relação a mim pelo menos, nunca deixou de agir em plena harmonia com ele.

Para me sujar aos olhos do público, o Sr. Marx não somente recorreu aos órgãos de uma imprensa muito complacente, serviu-se também dos correspondentes íntimos, dos comités, das conferências e dos próprios congressos da Internacional, não hesitando em fazer desta bela e grande Associação que ele tinha ajudado a fundar, um instrumento das suas vinganças pessoais.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

 MARX E A INTERNACIONAL: CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA - 5 (Continuação)




Os operários de todas as profissões, de todas as comunas, de todas as regiões e de todas as nações, constituem uma grande e única fraternidade internacional, organizada para empreender esta luta contra o mundo burguês; quem falte a esta solidariedade prática na luta, indivíduo, secção, ou grupo de secções, é um traidor.


Eis a nossa lei realmente, única obrigatória. Há, além disso, as disposições do regulamento primitivo que impõe a cada secção o dever de pagar anualmente ao Conselho Geral dez centavos por cada um dos seus membros, enviar-lhe a cada três meses um relatório detalhado sobre a sua situação interna e atender a todas as suas reclamações quando elas estiverem conformes aos estatutos gerais, e eis tudo. Quanto ao resto, quer dizer, tudo o que constitui a própria vida, o próprio desenvolvimento, o programa e o regulamento particulares das secções, as suas ideias teóricas, assim como a propaganda destas ideias, a sua organização e a sua federação material, desde que nada do objectivo real esteja em contradição com os princípios e com as obrigações explicitamente enunciados nos estatutos gerais, é deixado à plena liberdade das secções.

Esta inexistência de um dogma único e de um governo central na nossa grande Associação Internacional, esta liberdade quase absoluta das secções, revoltam o doutrinário e o autoritarismo do homem de Estado – profeta Mazzini. E, entretanto, foi precisamente esta liberdade que ele denomina anarquia e que, fundada sobre a verdadeira fonte e base criadora da nossa unidade real, sobre a identidade real da situação e das aspirações do proletariado de todos os países, foi esta liberdade que criou uma verdadeira conformidade de ideias e de toda a potência da Internacional.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

MARX E A INTERNACIONAL: CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA - 4 (Continuação)


Mas, desde o Outono de 1868, os chefes, os propagadores e os agitadores, em grande parte judeus, do Partido da democracia socialista, que tinha acabado de se formar, sempre sob a inspiração de Marx, no norte da Alemanha, começaram a conquistar para o seu lado os judeus da Áustria, e juntos puseram-se a magnetizar, a fazer sermão, a enganar os operários alemães da Áustria. Eles não trabalharam em vão. Há um ou dois meses, os mesmos operários alemães de Viena, reunidos novamente numa grande assembleia popular e já organizados segundo o programa e sob a direcção dos chefes do partido da democracia socialista, traduzindo dali por diante, sob inspiração exclusivamente tudesca, o cosmopolitismo no sentido do pangermanismo, declaram-se partidários da grande pátria alemã, quer dizer, do Estado pangermânico, que se diz popular, do qual eles esperam estupidamente a emancipação do proletariado, como se um grande Estado pudesse ter outra missão que não a de subjugar o proletariado.


Examinaremos esta questão numa próxima oportunidade, caros amigos. Enquanto se espera, vós compreendereis que esta nova resolução teve como consequência natural alijar do movimento do proletariado todos os operários não alemães da Áustria.

Na Suíça, vemos hoje, sempre sob a influência directa e em nome dos princípios deste mesmo programa da democracia socialista tudesca, todos os operários dos cantões alemães, em Zurique e na Basileia sobretudo, mas também em Argóvia e em Berna, a reivindicação de quê?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

MARX E A INTERNACIONAL: CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA - 3  (Continuação)


Na realidade, é a camarilha alemã que domina e faz tudo no Conselho Geral. Os seus membros ingleses, como verdadeiros insulares, e ingleses que são, ignoram o continente, só se preocupam exclusivamente com a organização das massas operárias em seu próprio país. Tudo o que se fazia no Conselho Geral era unicamente feito pelos alemães sob a direcção exclusiva de Marx.

Por sinal, até Setembro de 1871, a acção do Conselho Geral, do ponto de vista propriamente internacional, foi totalmente nula, de tal forma nula que jamais cumpriu com as obrigações que os Congressos tinham, um de cada vez, imposto, como por exemplo as circulares que ele devia publicar todos os meses sobre a situação geral da Internacional e que jamais publicou. Em relação a este facto houve muitas razões. Inicialmente, o Conselho Geral sempre foi muito pobre. Nós que conhecemos bem o estado das finanças da Internacional, rimos e continuamos a rir quando lemos, nos jornais oficiais e oficiosos de diferentes países, as fábulas sobre as somas imensas que Londres envia para todos os lugares para fomentar a revolução. O facto é que o Conselho Geral sempre se encontrou numa posição financeira excessivamente miserável.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)


MARX E A INTERNACIONAL:CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA -2
Na realidade, é a camarilha alemã que domina e faz tudo no Conselho Geral. Os seus membros ingleses, como verdadeiros insulares, e ingleses que são, ignoram o continente, só se preocupam exclusivamente com a organização das massas operárias em seu próprio país. Tudo o que se fazia no Conselho Geral era unicamente feito pelos alemães sob a direcção exclusiva de Marx.

Por sinal, até Setembro de 1871, a acção do Conselho Geral, do ponto de vista propriamente internacional, foi totalmente nula, de tal forma nula que jamais cumpriu com as obrigações que os Congressos tinham, um de cada vez, imposto, como por exemplo as circulares que ele devia publicar todos os meses sobre a situação geral da Internacional e que jamais publicou. Em relação a este facto houve muitas razões. Inicialmente, o Conselho Geral sempre foi muito pobre. Nós que conhecemos bem o estado das finanças da Internacional, rimos e continuamos a rir quando lemos, nos jornais oficiais e oficiosos de diferentes países, as fábulas sobre as somas imensas que Londres envia para todos os lugares para fomentar a revolução. O facto é que o Conselho Geral sempre se encontrou numa posição financeira excessivamente miserável.

Não deveria ser assim se todas as secções que se encontram estabelecidas sob a bandeira da Internacional, em todos os países, lhe tivessem regularmente enviado os dez centavos por membro ordenados pelos estatutos. A maioria das secções não o fez, até aqui.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

MARX E A INTERNACIONAL: CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA


Dezembro de 1871. Instituto Internacional de História Social de Amesterdão.

A guerra acaba de ser declarada ao Conselho Geral. Mas não vos assustais, caros amigos, a existência, a potência e a unidade real da Internacional não sofrerão, porque sua unidade não está em cima, não está num dogma teórico uniforme imposto à massa do proletariado, tampouco num governo mais ou menos ditador como aquele que o Congresso dos operários mazzinianos acaba de instituir em Roma; ela está em baixo: na identidade da situação material dos sofrimentos, das necessidades e das aspirações do proletariado de todos os países; a potência da Internacional não reside em Londres, ela está na livre federação das secções operárias autónomas de todos os países e na organização, de baixo para cima, da solidariedade prática entre elas. Eis os princípios que nós defendemos hoje contra as usurpações e contra as veleidades ditatoriais de Londres que, se elas pudessem triunfar, matariam a Internacional, com certeza.

Um Conselho Geral da Internacional, que esteja sedeado em Londres ou em outro lugar, só é suportável, possível, na medida em que é revestido de atributos modestos de um Bureau central de, apenas, correspondência. É também aproximadamente o único papel que lhe atribuem nossos estatutos gerais. Mas tão logo ele queira se tornar um governo real, ele se torna necessariamente uma monstruosidade, uma absoluta impossibilidade. Imaginem um tipo de monarca universal, colectivo, impondo sua lei, seu pensamento, seu movimento, sua vida aos proletários de todos os países, reduzidos ao estado de miséria! Mas seda, paródia ridícula do sonho ambicioso dos Césares, dos Carlos V, dos Napoleão, sob a forma de uma ditadura universal, socialista e republicana. Seria um golpe de misericórdia dado na vida espontânea de todas as outras secções, a morte da Internacional.

domingo, 11 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

CARTA A ALPHONSE ESQUIROS

Cercanias de Marselha. 20 de Outubro de 1870. Instituto Internacional de História Social de Amesterdão.


Cidadão e Senhor,

Eu tive a honra de vos endereçar, por um de meus amigos de Marselha, uma brochura que publiquei sob o título: Lettres à un Français sur la crise actuelle.

Ela contém cartas escritas no mês de Agosto, bem antes da capitulação de Sedan. Mas o editor, meu amigo, que as encurtou singularmente, para não dizer que as castrou, acreditando sem dúvida que ainda não era o momento para dizer toda a verdade, achou por bem também datá-las de Setembro.

Estas cartas – endereçadas a um amigo, ao cidadão Gaspard Blanc de Lyon, um dos jovens mais devotados ao bem da França que encontrei, e que o Sr. Challemel-Lacour, comissário extraordinário, mantém na prisão sob a acusação ridícula e odiosa de ser um agente dos prussianos – vos provarão, espero, cidadão Esquiros, que eu também não sou nem o amigo, nem o partidário do rei da Prússia, nem de nenhum déspota do mundo.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine - (Raúl Iturra)

Programa para um projecto de revista

Carta a Peter Lavrov

Muito estimado Petr Lavrovitch,

Após um longo silêncio, é-me finalmente possível responder concretamente às vossas questões concretas. A carta que me escreveste encontrou nosso pequeno grupo numa crise passageira. Antes que eu pudesse vos responder, tínhamos necessidade de definir e esclarecer muitas coisas e ao mesmo tempo, nos livrarmos de outras.

Eu posso hoje vos dar certeza de que rompemos definitivamente todas nossas relações com Sr. Netchaev; de agora em diante, ele não terá mais nada a ver, nem directa, nem indirectamente, com tudo aquilo que nós pudermos empreender. Nosso amigo em comum, Sazin, portador desta carta, vos explicará as razões dessa ruptura.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine - (Raúl Iturra)

A  título de introdução

Carta a seu irmão Pavel

Eu amo, Pavel, eu amo imensamente; eu não sei se posso ser amado como gostaria de sê-lo, mas não desespero; eu sei pelo menos que se tem muita simpatia por mim; eu devo e quero merecer o amor daquela que amo, amando-a religiosamente, quer dizer, activamente; - ela está submetida à mais terrível e à mais infame escravidão; - e devo libertá-la combatendo seus opressores e acendendo em seu coração o sentimento de sua própria dignidade, suscitando nela o amor e a necessidade da liberdade, os instintos da revolta e da independência, lembrando a ela o sentimento de sua força e de seus direitos. Amar é querer a liberdade, a completa independência do outro, o primeiro acto do verdadeiro amor, é a emancipação completa do objecto que se ama; não se pode verdadeiramente amar senão a um ser perfeitamente livre, independente não somente de todos os outros, mas mesmo e sobretudo daquele pelo qual é amado e que ele próprio ama. Eis minha profissão de fé política, social e religiosa, eis o sentido Intimo, não apenas de minhas acções e de minhas tendências políticas, mas também, quanto eu possa, o de minha existência particular e individual, pois o tempo em que estes dois tipos de acção podiam ser separados já está bem longe de nós; agora o homem quer a liberdade em todas as acepções e aplicações desta palavra, ou então ele não a quer absolutamente. Querer, amando, a dependência daquele a quem se ama, é amar uma coisa e não um ser humano, pois este só se distingue da coisa pela liberdade; e também se o amor implicasse a dependência, ele seria a coisa mais perigosa e a mais infame do mundo porque criaria uma fonte inesgotável de escravidão e de degradação para a humanidade. Tudo que emancipa os homens, tudo que, fazendo-os entrar neles mesmos, suscita o princípio de suas próprias vidas, de uma actividade original e realmente independente, tudo que lhes dá a força de serem eles próprios, – é verdadeiro; todo o resto é falso, libertário, absurdo. Emancipar o homem, eis a única influência legítima e benfeitora. Abaixo todos os dogmas religiosos e filosóficos, eles são mentiras; a verdade não é uma teoria, mas um facto; a vida é a comunidade de homens livres e independentes – é a santa unidade do amor brotando das profundezas misteriosas e infinitas da liberdade individual.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Introdução a Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

O socialismo e os seus começos ao longo do século XIX



Aconteceu a Revolução Industrial no Século XVIII na Grã-Bretanha. Rapidamente se espalhou por todo o Continente Europeu e as suas colónias. O emprego acontecia nas cidades, os campos e sítios rurais ficaram vazios.

Uma luta começara: ao dos proprietários de meios de produção, que começaram a investir a sua fortuna em indústrias e manufacturas para fabricar bens que rendessem lucro e mais-valia, pagando salários miseráveis aos que proporcionavam os meios de trabalho, aos que cediam a sua força de trabalho e a da sua família, denominados mais tarde proletários, a seguir uma análise da situação social, da parte de um filósofo, Kart Heinrich Pembroke Marx.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Bakunine por Bakunine - uma série apaixonante dirigida pelo Professor Raúl Iturra

Amanhã, dia 1 de Julho daremos início à publicação de uma série de textos do grande revolucionário russo, Michael Bakunine, o principal teórico do anarco-sindicalismo. Cartas de Bakunine, com comentários e notas do Professor Raúl Iturra.

«A minha maior surpresa, foram os escritos de um aristocrata russo, aparentado com a família Romanov, mas um aristocrata subversivo que entregou a sua vida à defesa do povo, especialmente servos da gleba, que na Rússia Czarista havia muitos, e, mais tarde, por ter que fugir da prisão, dedicara o seu talento a causa operária, apesar dos pedidos do Imperador Czar Alexandre II, um liberal.

Solicitou de Michael Bakunine, a pessoa da minha descoberta, um anarco-sindicalista, que, durante os seus anos de prisão, escrevesse as suas Confissões, seria assim perdoado e sairia em liberdade. É esta a história que investiguei e que entrego parcialmente ao público. O resto está no livro sobre Marx».


A partir de amanhã, todos os dias, às 15 horas.

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sábado, 15 de maio de 2010

Um debate sobre etnopsicologia da infância

Raúl Iturra

Raramente as pessoas utilizam o telefone para falar. Especialmente por causa do incremento sem aviso do imposto sobre cada telefonema. O executivo usou o dia 13 de Maio para aumentar preços e taxas, estava cá Ratzinger, Papa Bento XVI dos Católicos, andavam todos a correr para receber uma bênção ou procurar um milagre, desses típicos de Fátima, uma fantasia que mantém ao povo calmo e reservado. Especialmente porque uma hierarquia desse tamanho, como bem sabemos, é a agência dos pecados, obediências e desobediências dos seres humanos que o ouvem. Há a célebre frase de Georg Friedrcih Hegel no seu texto citado páginas antes neste sítio de debate: Filosofia do Direito, 1920, Triers, Prússia, que o seu discípulo Kart Marx não se cansava de rebater, quer mo seu livro de 1843: Crítica a Filosofia do Direito de Hegel, e analisa com minúcia e profundidade no seu panfleto intitulado Manifesto Comunista, redigido como sabemos pela sua mulher, a Baronesa socialista Johanna von Westphalen, ou Jenny Marx, ou como os seus biógrafos a designam, Jenny la Rouge, como se intitula a biografia de Heins Friederick Peters, 1986, Allen & Winnin Londres. Acrescenta, como a biografia do pai escrita por Eleanor Marx-Avelling, que sem Jenny nunca teria existido Marx.

É o que falamos os adultos e o que nós usamos para estudar crianças, como fez Marx, usando o método dialéctico nos seus livros sobre a Teoria da Mais - valia de 1862, 1º volume, e 1863, o segundo.

Sobre crianças, Kart e Jenny pensam, debatem, amam imenso e as estudam, como mais tarde faria George Devereux na etnia Mohave dos USA. E nó, em Portugal, como está referido ao pé de cada ensaio.

São ensaios escritos após trabalho de campo com crianças e ensinados na minha universidade. Esquecemos, com Carlos Loures, esse 26% dos telefonemas, e acabou em, por enquanto, estes quatro textos de etnopsicologia, que com prazer entrego ao público. *

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*Estrolábio iniciará amanhã a publicação desta série de textos do Professor Raúl Iturra