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domingo, 2 de janeiro de 2011

Sobre as avaliações, sobre os rating, sobre os professores

Júlio Marques Mota


Em tempos idos pensava que o neoliberalismo não avançava tão rapidamente na sociedade portuguesa como o está a fazer actualmente no ensino, mesmo quando o sistema dá sinais evidentes de estar quase defunto. Feita a reforma do ensino superior, dita reforma de Bolonha, pensava eu, ingenuamente, que algum pudor haveria em avançar com mais reformas antes de estabilizar esta e portanto que se passaria primeiro por uma análise em profundidade desta reforma, na óptica de quem a lançou no terreno, neste caso na óptica de Mariano Gago e de quem o acompanha, de quem o defende, de quem o serve ou d equem é obrigado a servi-lo. Mas não, mais uma vez me enganei. O ritmo de reformas avança, e agora é a avaliação dos docentes que avança, é o sentido da classificação, da quantificação da qualidade que se pretende, pretende-se assim o impossível mas como não é crível que intelectuais e técnicos assumidos andem a trabalhar para querer o que toda a gente sabe que é impossível, então o objectivo é outro, para mim é certo de que o que se pretende é garantir, agora ou depois, um certo ritmo da desclassificação, um certo ritmo de redução de custos. De resto, agora nem sequer se fala em promoções. Então avalia-se oara quê? Alguém é capaz de me dizer? Penso ter razão e, se assim é, ninguém mente pois nos tempos de crise que se vivem em que todos os cofres estão vazios, promover, significa agora despromover, e é disso que se anda à procura. Evita-se a mentira de o dizer.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O que se vai passar na economia americana em 2011

Robert Reich

(Enviado por Júlio Marques Mota)


Um texto importante - Robert Reich, ex-ministro do Trabalho na Administração Clinton escreve sobre a América. A ler com atenção e com atenção descobre-se que escreve também sobre o que está para além da América.
E sobre a América cada vez mais dividida entre a América dos ricos e a América dos pobres, deixa-nos uma sugestão, uma sugestão a pensar numa regime democrático. Diz-nos Reich: «Haverá, certamente, um momento em que a diferença entre as duas economias será tão grande e tão evidente que ninguém mais a poderá ignorar. Progressistas, gentes esclarecidas do Tea Party, Independentes, organizações de trabalhadores, minorias e os jovens formarão um novo movimento progressista com a missão de voltar a unir a América.» E é tudo. Parece pouco mas é muito. Júlio Mota






O que é que se vai passar na economia americana em 2011? Se nos estamos a referir aos benefícios das grandes empresas e a Wall Street, o próximo ano será provavelmente um bom ano. Mas se falamos da média dos trabalhadores americanos, estamos muito longe de pensar que será um bom ano .


As duas economias da América - a da Grande Finança e a da economia da família média de trabalhadores - vão continuar a divergir. Os lucros das empresas vão continuar a aumentar, como o dos mercados bolsistas. Mas os salários típicos não irão em nenhum lado aumentar , o desemprego continuará a ser elevado, as longas filas dos desempregados vai continuar a aumentar, a retoma do alojamento permanecerá no ponto morto e a confiança dos consumidores continuará em baixa.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Será necessário enquadrar e endurecer as políticas orçamentais na zona euro?

(Enviado por Júlio Marques Mota)


Não o esqueçamos, a crise financeira de 2007 a 2009 não foi provocada por políticas orçamentais descabidas dos países da zona euro. A crise deve-se à cegueira e à avidez dos mercados financeiros assim como às estratégias macroeconómicas insustentáveis dos países anglo-saxónicos e dos países muito competitivos (Alemanha, China). Antes da crise, os países da zona euro não praticavam políticas extravagantes quanto a aumentos das despesas públicas. Pelo contrário, a parte das despesas públicas no PIB tinha diminuído de 2,5 pontos de 1997 a 2007; em 2007, o saldo público global dos países da zona apresentava apenas um défice de 0,6% do PIB, inferior ao nível requerido para estabilizar a dívida. No entanto desde a criação da zona euro, o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), mal concebido, foi uma fonte permanente de tensões entre a Comissão e os Estados-Membros. As instâncias europeias, polarizadas sobre normas arbitrárias em termos de défice público, foram incapazes de levar a cabo uma coordenação satisfatória das políticas económicas que apoiasse um crescimento satisfatório na Europa e que evitasse o crescimento das disparidades entre os Estados-Membros.

Apresentando Júlio Marques Mota


Júlio Marques Mota, nasceu em 1943 na freguesia do Fratel, concelho de Vila Velha de Ródão, distrito de Castelo Branco. Faz parte do corpo docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Por sua iniciativa foram traduzidos e publicados títulos significativos no meio editorial português dos últimos cinco anos, tais como, O Futuro do Sucesso: Viver e Trabalhar na Nova Economia, de Robert Reich (Lisboa, Terramar, 2004); A Democracia e o Mercado, de Jean Paul Fitoussi, (Lisboa, Terramar, 2005); As Deslocalizações de Empresas: Ainda Teremos Empregos Amanhã?, de Philippe Villemus, (Lisboa, Edições Asa, 2007),; Tornar Eficaz a Globalização, de Joseph Stiglitz, (Lisboa, Edições Asa, 2007). Algumas destas obras foram ou são utilizadas nas unidades curriculares a que está afecto.

Com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes, organiza os Ciclos Integrados de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC desde 2005-2006. No âmbito destes Ciclos, organizaram-se também sessões de projecção e debate de documentários e filmes temáticos, com a presença de variadíssimos professores e investigadores, de várias áreas científicas e de vários institutos e universidades portuguesas e estrangeiras.

É autor dos seguintes ensaios: Caderno de Exercícios Práticos de Finanças Internacionais, Coimbra, FEUC, 2004; Mercado Cambial e Integração Financeira: Mercado Cambial, Produtos Derivados e Globalização Financeira, Vol. 1, Coimbra, FEUC, edição revista 2004; Comércio Internacional, Crescimento Económico e Termos de Troca: A Análise Neoclássica, Coimbra: FEUC, 2007; Preços Relativos e Evolução das Remunerações Reais dos Factores, Coimbra, FEUC, 2007; Complementos de Ricardo e a Contribuição de Stuart Mill, Coimbra, FEUC, 2007.


Com colaboração de Luís Peres Lopes e Margarida Antunes, publicou: Crise do Sistema Monetário Internacional e a Criação de um Sistema Monetário Regionalizado: O Caso Europeu, FEUC, Coimbra, 2006;

Em co-autoria com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes publicou A Crise da Economia Global: Alguns Elementos de Análise, Lisboa, LIVRE, 2009. Também em co-autoria com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes publicou os seguintes artigos: “A Economia Global e a Crise da Dívida Soberana na União Europeia: A Situação de Portugal e Espanha”, Indicadores Econômicos FEE, vol. 38, nº 2, 2010; “Vom Stabilitäts - und Wachstumspakt zu den Finanzmärkten: der Fall Portugals und Spaniens” (“Do Pacto de Estabilidade e Crescimento aos Mercados Financeiros: Os Casos de Portugal e Espanha”), Kurswechsel, vol. 3, 2010, pp. 101-108; “História de um Ciclo de Cinema, de uma Visão do Ensino Superior”, Rua Larga, Revista da Reitoria da Universidade de Coimbra, n.º 28, Abril, 2010, pp. 51-55. Em co-coordenação com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes publicou o seguinte livro, Financeirização da Economia: A Última Fase do Neoliberalismo, Lisboa, LIVRE, 2010.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ainda a Irlanda, ainda a União Económica e Monetária (2)

(Conclusão)


Marc Roche

(Texto enviado por Júlio Marques Mota)

Nem sabemos por que partitura devemos começar para apresentar Sean FitzPatrick, o homem orquestra deste banco que se tornará em 2007 o primeiro banco do país em termos de capitalização bolsista? Pelas pratos da história atormentada desta terra céltica, pelos címbalos da bolha imobiliária ou pelo violino deste que pretendia enganar o seu destino de contabilista? Este filho de pequeno agricultor, jogador e grande adepto do jogo do rugby na sua juventude, confundir-se-ia.


Com um diploma no bolso de estudos comerciais do University Colégio de Dublim, Sean Fitz Patrick entra em 1976 como tesoureiro para um pequeno banco de negócios, o Irish Bank of Commerce. Passa rapidamente a figura dominante neste banco . No fim de uma série de fusões-aquisições audaciosas, nasce, uma década mais tarde, Anglo Irish Bank na sua forma actual.


A obsessão deste personagem estranho , pequeno em estatura e de sorriso malicioso, era a de alcançar o pelotão da frente. Na ausência de uma rede de balcões não pode fazer forte concorrência aos dois mastodontes locais, Bank of Ireland e Allied Irish Bank, como banco comercial. Sean FitzPatrick atira-se de frente para o sector do imobiliário , ferro de lança da formidável expansão da economia irlandesa. O estabelecimento bancário financia-se junto do mercado interbancário.


Para satisfazer as necessidades dos promotores apressados, o Anglo Irish concede os seus empréstimos em poucas horas enquanto que os seus rivais exigem várias semanas de reflexão. Para este negociador impar com uma moral de aço, só o resultado conta, disposto a sacrificar as verificações habituais . O dinheiro brilha.


O microcosmo de Dublin olha para com ironia para a carreira deste outsider que não quer continuar a sê-lo. Porque Sean Fitz Patrick anda mesmo à procura de respeitabilidade. Este sujeito exuberante por vezes incómoda, “Seanie”, que não actua nem com discrição nem de luvas brancas está totalmente sintonizado com os seus mais fortes clientes , uma dúzia de promotores do imobiliário. “Self-made-men reaccionários, filisteus cúpidos, novos ricos no pior sentido do termo”, martela Frank McDonald, jornalista do Irish Times.


A elite financeira tira-lhe o seu chapéu. Acedendo em 2000 à presidência da associação bancária irlandesa, Sean FitzPatrick torna-se uma das peças soberanas deste famoso triângulo tóxico que compreende banqueiros, profissionais da construção e políticos. O patrão de Anglo Irish Bank joga evidentemente com mestria o jogo dos pequenos truques e das cunhas que são a norma nesta sociedade clânica onde todos se conhecem. Administrador da Dublin Docklands Development Authority, a organização responsável pela renovação dos estaleiros da capital, nomeia o presidente desta instituição para o seu conselho fiscal.


Autoritário, o patrão de Anglo Irish Bank é um adepto do exercício solitário do poder. A direcção oferece-se a si-mesma salários e bónus exorbitantes, vantagens em espécies e em planos de reforma colossais sem sequer informar a Administração . Este decepador de cabeças rebeldes neutraliza os controladores de riscos. A imprensa é silenciada pelos rendimentos em publicidade da bolha imobiliária. Irish Times, o jornal diário de referência, que investiu maciçamente num site de anúncios imobiliários, passa sob silêncio as advertências dos raros peritos que gritam à avisar dos perigos de sobreaquecimento, da bolha..






Luxuosos escritórios de representação são abertos nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Suíça, a fim de financiar grandes obras à Nero. Um departamento de fusões-aquisições, a actividade de cambista, a gestão de tesouraria e um banco privado são assim criados para oferecer toda a gama dos serviços aos promotores. Se tal loucura das grandezas houve, esta foi claramente inspirada e incentivada pela explosão das actividades financeiras . Anglo Irish Bank sonhava simplesmente imitar Goldman Sachs. É de resto o responsável das actividades americanas, David Drumm, que Sean FitzPatrick escolhe, em 2005, para lhe suceder na Direcção-Geral. Um delfim de 38 anos não fará sombra àquele que se tornará o presidente não executivo.


A partir daí, em meados de 2007, a máquina ganha embalagem . Sob o efeito do rebentamento “da bolha”, as cotações na Bolsa caem a pique . Anglo Irish Bank jura alto e bom som que não há fogo no lago e que o Banco sairá das suas dificuldades: Mas o contribuinte deve levar a mão à carteira. Em Dezembro de 2008, Sean FitzPatrick e David Drumm são forçados à demissão.






De um dia para outro, os ídolos dos jovens diplomados irlandeses tornaram-se uma caricatura dos novos ricos . Os grandes conversadores como são as gentes de Dublin diziam mal deles nos pubs com o mesmo ardor com que os elogiavam ainda há pouco tempo antes . Cada um se interroga sobre a atitude incompreensível dos revisores de contas e auditores que não deram nenhum sinal de alarme quando ainda era tempo, sobre a carência das autoridades de tutela que nada foram capazes de prever e enfim sobre a forma ligeira dos políticos que fecharam os olhos .


Sobretudo, um dos mitos fundadores da República do Sudeste ganhou nesta tormenta: o acesso à propriedade. Na National Gallery de Merrion Square, um quadro de Erskine Nicol datado de 1853 mostra uma família de roupa esfarrapada que carrega com os seus magros haveres a lançar um último olhar para a exploração agrícola de que acabam de ser expropriados. “Como a fome e as perseguições, a proibição aos católicos de comprar um bem imobiliário imposta pelo colonizador britânico até 1882 permaneceu no imaginária de um povo durante muito tempo oprimido”, insiste o senador independente David Norris, professor de Literatura comparada.


“A casa de um Irlandês é o seu castelo ”, tinha-se o costume de dizer aquando do triunfo do Tigre céltico, parafraseando a obsessão dos vizinhos britânicos em tornarem-se proprietários. Nestes dias, os muros do Shelbourne Hotel, lugar diariamente frequentado por James Joyce, ressoam com a advertência de Finnegans Wake, um das suas obras-primas: “A casa de um irlandês é o seu caixão“.


(Marc Roche, Anglo Irish Bank - Un scandale irlandais, Le Monde, 19.12.2010 )

















sábado, 25 de dezembro de 2010

Ainda a Irlanda, ainda a União Económica e Monetária (1)

Um texto sobre a Irlanda, sobre a forma como se alimentou a dimensão da bolha, da crise, que agora a maioria de todos nós está a pagar. Viveu-se  e vive-se um período  em que para alguns tudo era ou é  permitido enquanto que a outros tudo  era ou passou agora a ser exigido, é o que texto também mostra. Estranha duplicidade de critérios, marca inegável do neoliberalismo que os governos dos Estados membros da UEM, de direita ou de esquerda apelidados, assim como  a Comissão Europeia tudo fazem para manter. Talvez por  isso ninguém viu, ninguém previu o que aí estava a acontecer, salvo por ironia ou por destino, James Joyce  quandon escreveu: “A casa de um irlandês é o seu caixão“..
Júlio Marques Mota

 Anglo Irish Bank- Um escândalo irlandês
Roche Marc
Como um pequeno banco de retalho criado em 1964  se  transformou  num imenso casino que desmoronou como um castelo de cartas? A História da ascensão e da queda do Banco que é símbolo dos erros  da economia irlandesa. Por Marc Roche
Simon Kelly é um jovem promotor imobiliário irlandês. Antes de ter estar falido, era frequentemente convidado a tomar o pequeno - almoço  com os  emissários do Anglo Irish Bank, o seu principal Banco para obtenção de fundos . O cenário: uma pequena sala do Shelboume Hotel forrado a  tecido almofadado, ao abrigo dos ouvidos  indiscretos. A ementa: ovos mexidos com bacon e chouriço. E também café. Uma primeira cafeteira, depois uma segunda. “Tudo se passava nesta fase da conversa, recorda-se o promotor. Um simples aperto de mão  selava um projecto de várias dezenas de milhões de euros. Anglo Irish Bank financiava, de olhos fechados,  os projectos mais loucos.
Simon Kelly fez destes encontros no velho Hotel  a base  do seu livro, Breakfast with Anglo, consagrado a  maior  falência financeira da verdejante Irlanda . O actual presidente do Anglo Irish Bank, Alan Dukes, terá sem dúvida todo o tempo de  se irritar  ao olhar para as vitrines dos livreiros. Os dias  do seu poder , símbolo dos erros e abusos da forte expansão imobiliária irlandesa entre 1997 e 2007, estão de facto contados.  Face ao falhanço da operação de resgaste financeiro e ao facto das perdas líquidas atingirem  uma profundidade abissal, a União Europeia e o Fundo Monetário internacional exigiram, com efeito,  o encerramento do banco, declarado em falência a 19 de Novembro de 2010, como uma das condições  para a concessão de uma ajuda internacional à Irlanda.
Como o céu de Dublin, Alan Dukes passa do sorriso o mais feliz a  uma tristeza latente: «os antigos dirigentes cometeram o grave erro de se concentrarem num único sector , a construção , violando assim todas as normas de prudência », explica este  ex-ministro da economia que alcançou este seu posto algumas semanas antes do banco ter sido colocado sob a tutela do Estado, em Janeiro de 2009.
O Estado-maior anterior deixou atrás de si o caos. Com a sua chegada, a nova equipa de direcção descobre um sistema gangrenado, cheio de conflitos de interesses e de compromissos . Na  primeira fila estavam  os antigos dirigentes  que encheram bem os seus  bolsos. O anterior presidente, Sean FitzPatrick, tinha uma gestão, no mínimo muito pessoal , como testemunham os empréstimos concedidos de 88 milhões de euros a si-mesmo,  a  título privado e no maior  segredo. Estes fundos foram investidos com associados seus numa  plataforma de exploração petrolífera  na Nigéria, num complexo hoteleiro na  Hungria, num  casino em  Macau. Por seu lado, o director geral, David Drumm, também levantou 8 milhões de euros sem o conhecimento dos outros  para comprar   duas vastas propriedades, uma em Dublin, a outra em Capa Cod, no Massachusetts.
Fazer crer que há  uma riqueza que  não existe e dissimular uma dívida que  existe: ao longo dos anos, a maquilhagem das contas do balanço tinha-se tornado a norma contabilística. Assim, uma instituição  financeira irlandesa que trabalhava sobre hipotecas , uma caixa que trabalhava no imobiliário, emprestou cerca de  7,3 mil milhões de euros através de  incríveis  acrobacias para esconder os prejuízos na véspera da  publicação dos resultados de 2007  do Anglo Irish Bank. Por último, recorrendo a  produtos financeiros sofisticados para confundir  as pistas, o banco financiou em cerca de  28%  o seu aumento de capital com as contas de um grupo de clientes . E isto  será apenas o princípio . Porque até agora, o inquérito da polícia  tem-se defrontado com uma sabotagem  dos códigos informáticos que permitem aceder aos documentos mais comprometedores.  Além disso, os faltosos transferiram os seus activos (casas, automóveis luxuosos, etc.) para as suas  esposas. Como é que uma  pequena sociedade criada em 1964, especializada no seu início no financiamento da compra de material electrodoméstico, se   conseguiu transformar  num imenso casino que se desmoronou como um castelo de cartas ?
(Continua)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Reforma de Bolonha: Porquê, como, para quê? - 1*



Júlio Marques Mota




Sobre o caos em que se tornou o ensino universitário abateu-se o chamado processo de Bolonha, obcecado pela uniformização, baralhando os títulos e graus, e eivado por uma pedagogia simplista. O primeiro acto de qualquer governo com um mínimo de sensatez tem de ser a revogação das abstrusas disposições desse pseudo-acôrdo feito à revelia de professores e investigadores, que não tiveram a coragem de o rejeitar e se sujeitaram a passar sob as forcas caudinas.

(Vitorino Magalhães Godinho, Os problemas de Portugal, os problemas da Europa, 2.ª ed., Lisboa, Edições Colibri, 2010, p. 62).

Introdução


Num documento da Comissão Europeia, Educação & Formação para 2010: A urgência das reformas necessárias para o sucesso da Estratégia de Lisboa, pode ler-se: “Na recente reunião que realizaram em Berlim, os Ministros da Educação reafirmaram firmemente o seu empenho na criação de um quadro europeu de referência para as qualificações de nível universitário e solicitaram a aceleração das reformas necessárias na arquitectura dos diplomas, nos sistemas de garantia de qualidade e no reconhecimento mútuo de qualificações” .

Este excerto é elucidativo das intenções da reforma de Bolonha. O que aqui está em causa é o reforço da construção do mercado único europeu e, em particular, a intensificação da mobilidade do trabalho no espaço da União Europeia. Pretende-se assim que o “quadro europeu de referência” seja um espaço de homogeneização e de medida das diferentes habilitações que cada um dos Estados-membros possui e que no mercado devem ser valorizadas, avaliadas, certificadas, como investimento.

Na concepção do mercado único europeu está o primado da livre concorrência e do indivíduo como agente económico, sendo o colectivo apenas visto como um conjunto de indivíduos e não como uma sociedade. De acordo com isto, passou-se a assumir a formação como um investimento individual da responsabilidade cada vez maior do estudante. Inversamente, cria-se assim condições para se ir indo desresponsabilizando o Estado pelas Universidades. Neste quadro, para além disto, a educação passa a ser vista como uma acumulação de saberes e/ou competências, mais destas do que daqueles, a serem negociadas num espaço mais vasto que anteriormente.

Bolonha representa mais uma componente deste grande mercado do ensino e formação, vem trazer o primado das competências negociáveis no mercado, dos marketable skills, sobre os saberes. Ou seja, o que se pretende desde logo é que seja o mercado a ditar às instituições universitárias os conteúdos e as práticas de aprendizagem, com a consequente desvalorização dos saberes. Isto é assim na medida em que se quer que seja o mercado o normalizador e quem valida, em última instância, essas formações escolares e os trajectos individuais de cada estudante. Assim se compreende a multiplicidade de opções escolares em muitos cursos, em que as licenciaturas são equivalentes a autênticos menu à la carte, em nome da liberdade e da responsabilidade individual do estudante investidor arbitragista, do estudante que para escolher tem que ser já conhecedor do que precisa de saber, como se fosse possível sabê-lo a priori apenas a partir dos dados presentes do mercado de trabalho, como se este não fosse instável e, por isto, muitas das vezes imprevisível, como se a decisão individual nunca entrasse em colisão com a de muitos outros que individualmente tomaram a mesma opção.

Neste contexto, a função da Universidade é pois a de criar “especialistas” dotados de um stock de competências que se vendam bem no mercado e ao menor custo, ou seja, que permitam a cada futuro trabalhador entrar no mercado de trabalho. O resto, o que faltar à formação para que cada um se adapte às condições exigidas pelo mercado em cada momento caberá de novo à decisão individual, trabalhador ou empresas, num contexto de um vasto mercado de ensino e formação que se pretende que seja cada vez mais resultante do sector privado.

A lembrar tudo isto está um conjunto de declarações da ministra do Ensino Superior em França, Valerie Pècresse, feitas em Outubro de 2010, quando lhe perguntaram para que serve a publicação do Palmarés das Universidades:



Nous devions cette information aux familles et aux étudiants. Car, pour s'orienter à l'université et pour réussir ensuite sur le marché du travail, il faut être correctement informé sur les performances des différentes filières. Longtemps, les universités ont considéré que leur responsabilité s'arrêtait à la délivrance du diplôme. Depuis la loi de 2007 sur l'autonomie des universités, l'insertion professionnelle et l'orientation sont devenues leurs nouvelles missions, comme le souhaitaient les étudiants, aux côtés de la formation et de la recherche.
C'est aussi un instrument de pilotage pour tous. Pour les universités elles-mêmes, afin qu'elles puissent réfléchir aux améliorations nécessaires des filières les moins professionnalisantes, et pour l'Etat, qui en tiendra compte dans ses dotations financières aux campus. D'ici à 2012, nous allons pouvoir bâtir de vrais indicateurs de performance nationaux qui seront intégrés dans le calcul de l'allocation des moyens, comme le prévoit la loi de 2007 .


Este é pois o quadro de Bolonha, este é o quadro de regulação do espaço europeu onde homens e empresas podem ser vistos de igual para igual, objecto de investimentos produtivos, cuja rentabilidade depende exclusivamente das condições dos mercados. Mas a ministra francesa chama a atenção para uma outra implicação de tudo isto: no caso de não haver empregos para os licenciados, tal facto não representa um disfuncionamento do sistema económico e político nem um disfuncionamento do mercado, porque este é sempre eficiente, representa antes a incapacidade ou a incompetência da Universidade em responder às necessidades daquele e, por isso, deve ser sujeita a uma revisão das suas dotações orçamentais.

É neste contexto, cremos, que se pode perceber a lógica da Comissão Europeia que no documento já citado refere que as grandes questões que ao ensino superior são postas são o financiamento, a diversidade das instituições nas suas funções e nas suas prioridades e a criação de pólos de excelência, o que parece indicar o caminho para a existência de Universidades a duas ou mais velocidades.

Analisar a reforma do ensino universitário, dita reforma de Bolonha, analisar os seus efeitos presentes e perspectivar as suas consequências no futuro cremos ser hoje imperioso, necessário e urgente, se quisermos escapar à lógica redutora do ensino universitário que está a ser imposta em nome da ideia de eficiência dos mercados inerente à concepção do mercado único europeu.

Curiosa esta concepção do espaço económico europeu e o quadro em que se inserem as políticas aí praticadas que nos levaram à situação de crise em que nos encontramos, curiosa arquitectura institucional da União Europeia que não é capaz de dar nenhum sinal, não é capaz de utilizar nenhum instrumento de política económica — porque provavelmente não é capaz de o conceber — como resposta contra a quase morte lenta em que estão política e economicamente a colocar a ideia original de Europa comunitária, tudo isto em nome, sublinhe-se, da soberania dos mercados.

Ser-se contra a situação presente é ser-se igualmente contra Bolonha e é neste plano que se vai inserir o nosso discurso.


Sobre a crise, sobre Bolonha


Neste texto, optámos por apresentar um exemplo tirado da economia americana para caracterizar e ilustrar a profundidade de conhecimentos que se deve exigir a um estudante de Economia no mundo de hoje, o que é completamente o contrário do que é possível com a reforma de Bolonha. O exemplo escolhido foi a análise do mercado dos cereais e em particular o do trigo na principal Bolsa de mercadorias do mundo, o Chicago Mercantile Exchange. Não foi por acaso que escolhemos este exemplo e escolhemo-lo por uma série de razões, todas elas graves no contexto de crise presente, razões que passamos a expor:


1. O trigo é um produto base na alimentação de muitos milhões de pessoas, cujos preços têm sido sujeitos a fortes oscilações e objecto de subida continuada durante um certo período de tempo, o que levou muitos milhões de pessoas à situação de fome.


2. Trata-se de um mercado determinante no estabelecer do preço de um bem fundamental, o pão, preço esse que serve de referência para os agricultores de todo o mundo.


3. Sobre o mercado do trigo, tomámos conhecimento de um documento de Junho de 2009 do Senado americano intitulado Excessive Speculation in the Wheat Market que é um claro exemplo do que deve ser um trabalho feito a nível governamental. Não conhecemos nada na Europa de equivalente. A análise em questão debruça-se em profundidade sobre o que são os produtos derivados nestes mercados, produtos estes que como sabemos foram elementos-chave na presente crise. Neste texto sublinham-se bem as diferenças entre as políticas da Administração Roosevelt e as políticas neoliberais das últimas décadas que desregularam completamente estes mercados.


4. A partir do documento referido, podemos discutir, no limite do possível, a problemática dos efeitos da especulação sobre os mercados de matérias-primas e de produtos alimentares bem como a necessidade de que esta seja contida em certos limites, os limites de bona fide, e que pressupõem uma vigilância constante da especulação nestes mercados se queremos que eles cumpram os objectivos para que desde longa data foram criados.


*Observatório Pedagógico do ISEG – 3.º Seminário anual
Bolonha: Diferentes Olhares, 3 de Novembro de 2010


(Continua)
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Carta aberta ao Presidente da República

Coimbra, 15 de Dezembro de 2010


Ex.mo Senhor Presidente da República


Com conhecimento: ao Primeiro-Ministro, ao Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e aos líderes parlamentares.


Senhor Presidente, tomo a liberdade de lhe escrever esta carta porque, enquanto professor e cidadão, estou altamente preocupado com a erosão do tecido social em Portugal, e na Europa também, fruto não só da terrível situação de crise dita financeira pela qual estamos a passar e que é, sobretudo, o resultado do modelo económico, social e político que lhe está subjacente e preocupado igualmente estou, e muito, com a situação de crise que atravessa a Universidade em Portugal, fruto sobretudo de políticas anteriormente seguidas, fruto sobretudo da reforma de Bolonha, fruto portanto do mesmo modelo de referência que nos levou à situação actual. Uma Universidade em profunda crise e tão grande, na minha opinião, que não posso deixar de colocar aqui e de deixar à sua apreciação as razões do meu descontentamento.


Senhor Presidente, a crise da dívida soberana portuguesa amainou, o espectáculo oferecido pelos políticos dos dois maiores partidos, esse transitoriamente ao mesmo nível ficou, nos grandes bancos o nosso dinheiro, esse se embolsou, e o povo, esse continua a não perceber o que ninguém nunca lhe explicou: porque está a sofrer cada vez mais, a pagar cada vez mais e a dever cada mais e em nome de quê ou porquê? Que terá ele feito de mal para sofrer esta violência, agora? Num mundo e numa sociedade onde impere a honestidade, a justiça, a transparência, numa sociedade de profunda raiz democrática portanto, cada um deve ser responsável pelos seus erros e deve saber assumi-los; mas então que alguém lhes diga, a eles e a nós também, senhor Presidente, quais os erros que cada trabalhador desempregado neste sistema cometeu para que agora se deva sentir penalizado, quais os erros que levam a que cada criança com fome nele e dele se possa sentir culpada, quais os erros que cada velho que passou a vida a trabalhar duramente deles se possa sentir responsável para que veja os seus direitos de há muito tempo adquiridos agora fortemente anulados? Que haja alguém que lhes explique, pelo menos a eles, aos desempregados, às crianças com fome e com pobreza garantida como futuro, aos velhos que do passado foram bem enganados, para onde foram os vários milhares de milhões de euros que do bolso de cada um deles e de todos eles foram retirados para no BPN serem aplicados sem que nada tenha sido tocado na Sociedade Lusa de Negócios nem em ninguém que deles muito antes os delapidou e então, aqui, foi a favor de quem? Ninguém, nunca ninguém lhes disse nada, senhor Presidente, e todos nós lamentamos que assim tenha sido.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Países em Desenvolvimento, Matérias-primas e Cooperação Económica

O grupo de docentes da FEUC dinamizador e organizador do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC, este ano intitulado Reflexões sobre a economia global em crise: migrantes, cidades, mercados, governação, vem com o presente texto dar a conhecer o programa da terceira sessão do Ciclo com o tema específico Países em Desenvolvimento, Matérias-primas e Cooperação Económica, que se realizará a 13 de Dezembro de 2010 e que contará com a presença de Alice Sindzingre, Olivier Vallée, Ricardo Soares de Oliveira, Carlos Pimenta, Adelino Fortunato e Joaquim Feio. Aproveitamos ainda para expor algumas das razões que levaram à realização desta sessão.


Mais do que nunca, hoje, os países em desenvolvimento constituem um duplo palco, são duas faces da mesma realidade: por um lado, estão sujeitos a uma pressão enorme no que diz respeito à apropriação das matérias-primas e, por outro, estão sujeitos a uma situação de crise que para muitos deles se pode tornar insustentável, na sequência da recessão mundial, na sequência da redução dos níveis de solidariedade institucional, na sequência da desarticulação dos mercados a nível global, na sequência da ausência de mecanismos de regulação. Neste jogo de sequências não deixa de ser importante analisar a evolução das posições assumidas pelas Instituições de Bretton Woods sobre os países em desenvolvimento, evolução essa que não pode ser considerada independente da entrada da China no comércio mundial e da sua participação, também ela, na apropriação das matérias-primas.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Países em Desenvolvimento, Matérias-primas e Cooperação Económica

O grupo de docentes da FEUC dinamizador e organizador do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC, este ano intitulado Reflexões sobre a economia global em crise: migrantes, cidades, mercados, governação, vem com o presente texto dar a conhecer o programa da terceira sessão do Ciclo com o tema específico Países em Desenvolvimento, Matérias-primas e Cooperação Económica, que se realizará a 13 de Dezembro de 2010 e que contará com a presença de Alice Sindzingre, Olivier Vallée, Ricardo Soares de Oliveira, Carlos Pimenta, Adelino Fortunato e Joaquim Feio. Aproveitamos ainda para expor algumas das razões que levaram à realização desta sessão.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Os bancos irlandeses serão eles os responsáveis pela crise?

Está a terminar a nossa Semana da Economia,. Apresentámos, no passado dia 3, a versão original deste artigo de Marc Roch que trazemos hoje na tradução do Professor Júlio Marques Mota. São do Professor estas palavras que consigo transportam o repto de um debate. Debate que, na sequência de algumas das ideias aqui lançadas, seria útil e, por certo, esclarecedor.

Face ao descrito no texto que se segue e face às medidas impostas pela União Europeia e pelo FMI deixamos como interrogação: como é possível explicar aos nossos alunos e aos nossos netos, no quadro de sociedades estruturalmente desenvolvidas, as razões, os mecanismos e as respostas sobre a crise que estamos a passar, que estamos a viver, que estamos a sofrer ? Como é possível que os nossos alunos e os nossos filhos expliquem às gerações futuras o roubo que às gerações presentes é feito do seu próprio futuro e, de novo, roubo que é suposto ser feito, ele também, no quadro de sociedades consideradas altamente desenvolvidas ? Como questão final e face ao descrito no texto como se compreende, ainda no quadro de sociedades altamente desenvolvidas, que a União Europeia e o FMI sancionem os roubados da Irlanda, o seu povo, e não aqueles que o roubaram. Quem souber que responda.


E por esta via talvez abram o debate e que seja duro


Terão eles sido bem controlados?

Não terá A UE feito vista grossa durante muito tempo?

Todas as descrições que desde há vários anos ouvimos e lemos sobre o Tigre Celta, como foi a Irlanda baptizada devido às suas taxas de crescimento equivalentes às taxas dos Tigres Asiáticos (daí o nome) começavam invariavelmente por um sedutor paradoxo. E o paradoxo era a metamorfose das terras pantanosas, sem nada semeado, em altas torres todas elas de vidro e aço em movimento perpétuo.
A elite bancário estiveram no centro da transformação de um país rural e profundamente religioso num laboratório prodigioso do sector terciário. Mas, como o ilustra bem o actual colapso económico da Ilha Esmeralda, “os escândalos” acabaram por juntar um mundo financeiro em profundo conluio com os promotores do sector imobiliário e com e os políticos. Um triângulo tóxico...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Para uma redefinição da União Económica e Monetária Europeia: da crítica dos seus fundamentos à crítica da crise actual - 2

Júlio Mota, Luís Lopes e Margarida Antunes*



(Continuação)


A realidade actual impõe assim que se realize um verdadeiro debate democrático quando às opções de política económica possíveis. Como se assinala num recente manifesto intitulado Manifesto de Economistas Aterrados .


A maioria dos economistas que intervêm no debate público fazem-no para justificar ou racionalizar a submissão das opções políticas às exigências dos mercados financeiros… O modelo neoliberal continua a ser o único modelo legitimado, apesar dos seus falhanços bem evidentes…

Como economistas, estamos aterrados ao ver que essas políticas continuam a estar na ordem do dia e que os seus fundamentos teóricos não estão a ser postos em causa. Os argumentos utilizados, desde há trinta anos, para orientar as escolhas das políticas económicas europeias são, contudo, postos em causa pelos factos. A crise pôs a nu o carácter dogmático e sem fundamento da maior parte das pretensas evidências repetidas à saciedade pelos decisores políticos e pelos seus assessores. Quer se trate de eficiência e da racionalidade dos mercados financeiros, da necessidade de reduzir as despesas públicas para reduzir a dívida ou para reforçar o “pacto de estabilidade”, estas falsas evidências devem ser questionadas e mostrar-se a pluralidade de escolhas possíveis em política económica. Há outras opções possíveis e desejáveis, desde que primeiro se liberte a canga imposta pelo sector financeiro às políticas públicas.

Neste sentido, o grupo de docentes responsável pelo Ciclo de Cinema Debates e Colóquios na FEUC decidiu assim iniciar o Ciclo no presente ano lectivo com um debate alargado, que se quer profundo, sobre a União Europeia, sobre os seus fundamentos, o seu modelo económico, as suas opções presentes de resposta à crise económico-financeira. Em suma, perguntar então: o que está por detrás de tudo isto? Para quê tudo isto? Perguntas que devem ser feitas, respostas que podemos e devem ser encontradas na Faculdade de Economia e no Teatro Académico Gil Vicente, dias 10, 11 e 12 de Outubro com o Colóquio sobre a Europa e a projecção do filme O Cerco: a democracia nas malhas do neoliberalismo.

Coimbra, 28 de Setembro de 2010



II. Manifesto de Economistas Aterrados “Crise e dívida na Europa: 10 falsas evidências, 22 medidas em debate para se sair do impasse”
1 de Setembro de 2010

Primeiros signatários: Philippe Askenazy (CNRS, Ecole d’économie de Paris), Thomas Coutrot (Conseil scientifique d’Attac), André Orléan (CNRS, EHESS), Henri Sterdyniak (OFCE)

Tradução para português: Júlio Mota, Luís Lopes e Margarida Antunes


Introdução

A recuperação económica global, possibilitada pela injecção maciça de despesas públicas na economia (desde os Estados Unidos à China), é frágil, mas real. Um só continente ficou para trás, a Europa. Retomar a via do crescimento deixou de ser a sua prioridade política. A Europa embarcou numa outra via: o da luta contra o défice público.

Na União Europeia, os défices são, é certo, elevados — 7% em média, em 2010 — mas muito menos do que os 11% registados pelos Estados Unidos. Embora alguns estados federais americanos com um peso económico mais importante do que o da Grécia, como, por exemplo, a Califórnia, estejam virtualmente falidos, os mercados financeiros decidiram especular sobre a dívida soberana dos países europeus, especialmente sobre os países do sul. A Europa deixou-se realmente cair na sua própria armadilha institucional: os Estados europeus têm de contrair empréstimos junto das instituições financeiras privadas, as quais, para concederem estes empréstimos, vão buscar liquidez, a baixo custo, ao Banco Central Europeu.

Os mercados financeiros têm, portanto, em seu poder a chave fundamental do financiamento dos Estados. Neste contexto, a falta de solidariedade europeia suscita a especulação, tanto mais que as agências de rating contribuem para aumentar a desconfiança.

Foi necessária a degradação da notação atribuída pela Moody's à dívida da Grécia, em 15 de Junho, para que os dirigentes europeus voltassem a falar de “irracionalidade”, termo que tinham tanto usado no início da crise dita do subprime. Da mesma forma, constata-se agora que a Espanha está muito mais ameaçada pela fragilidade do seu modelo de crescimento e do seu sistema bancário do que pela sua dívida pública.
A fim de “tranquilizar os mercados”, foi improvisado um Fundo de estabilização do euro e foram lançados por toda a Europa planos de cortes drásticos, frequentemente cegos, da despesa pública. Os funcionários públicos são os primeiros atingidos, nomeadamente em França, onde a subida das contribuições para a segurança social se traduzirá numa redução disfarçada dos salários. O número de funcionários diminui por toda parte, ameaçando os serviços públicos. Os benefícios sociais, da Holanda a Portugal, passando pela França, com a reforma das pensões actualmente em curso, estão em vias de ser gravemente amputados. O desemprego e a precariedade laboral vão necessariamente alastrar nos próximos anos. Estas medidas são irresponsáveis, quer do ponto de vista político, quer social, e até mesmo do ponto de vista estritamente económico.

Estas políticas, que terão acalmado momentaneamente a especulação, têm já consequências muito negativas no plano social em muitos países europeus, atingindo especialmente os jovens, o mundo do trabalho e os estratos mais frágeis. A prazo, irão inflamar as tensões na Europa e, consequentemente, ameaçar a própria construção europeia, que é muito mais do que um projecto económico. Pressupõe-se que a economia esteja ao serviço da construção de um continente democrático, pacificado e unido. Em vez disso, está a instalar-se por todo o lado uma espécie de ditadura dos mercados, em particular, actualmente, em Portugal, em Espanha e na Grécia, três países que ainda eram ditaduras no início da década de 70, há apenas cerca de quarenta anos.

A submissão a esta ditadura dos mercados não é aceitável, quer seja interpretada como uma forma de os governantes aterrados “tranquilizarem os mercados” ou como pretexto para imporem opções ideológicas, uma vez que está bem provada a sua ineficiência económica e o seu potencial destrutivo no plano político e social. Deve, portanto, ser lançado um verdadeiro debate democrático sobre as opções de política económica em França e na Europa. A maioria dos economistas que intervêm no debate público fazem-no para justificar ou racionalizar a submissão das opções políticas às exigências dos mercados financeiros. Certamente, todos os governos tiveram que improvisar planos de relançamento keynesiano e, até mesmo, em alguns casos, nacionalizar bancos temporariamente. Mas querem fechar este parêntesis o mais rapidamente possível. O modelo neoliberal continua a ser o único modelo legitimado, apesar dos seus falhanços bem evidentes. Fundado no pressuposto da eficiência dos mercados financeiros, este modelo propugna a redução das despesas públicas, a privatização dos serviços públicos, a flexibilização do mercado de trabalho, a liberalização do comércio, dos serviços financeiros e dos mercados de capitais, o alargamento da concorrência a todo o tempo e a todo o lado...

Como economistas, estamos aterrados ao ver que essas políticas continuam a estar na ordem do dia e que os seus fundamentos teóricos não estão a ser postos em causa. Os argumentos utilizados, desde há trinta anos, para orientar as escolhas das políticas económicas europeias são, contudo, postos em causa pelos factos. A crise pôs a nu o carácter dogmático e sem fundamento da maior parte das pretensas evidências repetidas à saciedade pelos decisores políticos e pelos seus assessores. Quer se trate de eficiência e da racionalidade dos mercados financeiros, da necessidade de reduzir as despesas públicas para reduzir a dívida ou para reforçar o “pacto de estabilidade”, estas falsas evidências devem ser questionadas e mostrar-se a pluralidade de escolhas possíveis em política económica. Há outras opções possíveis e desejáveis, desde que primeiro se liberte a canga imposta pelo sector financeiro às políticas públicas.

Fazemos seguidamente uma apresentação crítica dos dez postulados que continuam a inspirar quotidianamente as decisões das autoridades públicas em toda a Europa, apesar dos contundentes desmentidos espelhados na crise financeira e nas suas sequelas. Trata-se de falsas evidências que inspiram medidas injustas e ineficazes, em confronto com as quais apresentamos 22 contrapropostas. Cada uma delas não colhe necessariamente a unanimidade dos signatários deste texto, mas deverão ser levadas a sério, se queremos que a Europa saia do impasse.

(Continua)
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* Docentes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Ainda a carta enviada aos líderes parlamentares pelo Professor Júlio Marques Mota

Na sequência da edição da Carta Aberta aos Líderes Parlamentares, o Professor Júlio Marques Mota partilha connosco a emoção sentida ao ler um folheto que corrobora totalmente o que dizia na referida carta (cuja leitura pode ser feita, clicando sobre a barra da direita).



Mão amiga mandou-me este email, com um documento que aqui segue em anexo . Abri o documento, olhei, li, e com ele com ele me comovi , da mesma forma que o farão todas as crianças sem recursos do nossos país, se todos nós seguirmos a sugestão no referido texto inserida. Disso, eu sou a prova declarada e provada, ontem, hoje e, bem espero, ainda por muitas outras manhãs . Prova aos nossos deputados gritada e formalizada, mas pela maioria deles ignorada, o que é bem uma outra lição a aprender e também a não esquecer.

De livros se fala no protesto enviado por mim aos deputados, de livros se fala no documento em anexo e nele se propõe: “dê um final feliz à história de muitas crianças”. Uma sugestão que outros seguiram noutros tempos e de eu sou um pouco um exemplo, uma sugestão que agora a crise leva cada vez mais a declarar como urgente. Com livros dados e não emprestados, com livros não reclamados, com livros pela leitura por cada criança conquistados, ajudemos as crianças do nosso país a aprender a pensar que um outro mundo feito por eles e talvez ainda com a nossa ajuda, se não nos deixarmos imobilizar, é pois ainda possível.

De uma história, a minha, ou de um protesto não calado, o meu, até outras histórias que por eles, crianças, hão-de ser faladas e recontadas, é de livros que aqui se fala, de livros que se deram, de livros que hão-de continuar a dar.

domingo, 14 de novembro de 2010

Carta aberta do Professor Júlio Marques Mota aos líderes dos grupos parlamentares

Em Outubro passado, publicámos no Estrolabio uma carta aberta do Professor Júlio Marques Mota, docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra dirigida aos líderes parlamentares da Assembleia da República. Transcrevemos essa carta e o vigoroso testemunho nela contido.

De todos os líderes parlamentares só o Deputado José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda, respondeu ao Professor Marques Mota. Carta que incluímos neste dossiê.

Finalmente, este nosso importante documento é completado com uma carta de Júlio Marques Mota a José Manuel Pureza.

No seu conjunto, este nosso dossiê reúne documentação valiosa. Ela permite-nos tirar ilações sobre a cultura, a economia, a política, sobre a nossa sociedade.

Estrolabio agradece ao Professor Júlio Marques Mota e ao Deputado José Manuel Pureza a disponibilização da sua correspondência. Um agradecimento caloroso ao nosso colaborador António Gomes Marques, sem o qual a organização deste dossiê não teria sido possível.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Carta aberta aos líderes parlamentares do nosso país, a propósito de um menino pobre que eu fui (III)

(Conclusão)
Júlio Marques Mota*




E agora, que estou velho, esse menino pobre que eu fui e já não sou lembra-me que concretizou a insubmissão possível e num regime em que esta era praticamente impossível. E agora? Porquê esta submissão quase total aos mercados financeiros? Pergunta-me ele. Também aqui, responda-lhe quem souber. Mas é uma questão importante, tanto mais quanto hoje é a lógica destes mercados que é predominante. Viu-se e vê-se agora com as políticas de austeridade, em que os mercados financeiros ditam as leis, as normas, os regulamentos, as políticas orçamentais nacionais, que Bruxelas depois aproveita para tornar a impor e para reforçar os mecanismos de controlo. Rapidamente, os grandes operadores financeiros criaram um clima de instabilidade e de submissão dos Estados nacionais aos seus ditames, muito mais que antes da crise, clima a partir do qual estão a recuperar financeiramente do desastre que eles próprios criaram e nos impuseram, com a complacência de Bruxelas e dos governos nacionais. Fazem descarrilar as taxas de refinanciamento dos Estados nacionais, fazem descarrilar os encargos da dívida pública, fazem descarrilar os orçamentos nacionais, anulam ou condicionam os projectos de futuro de cada nação aos imperativos do presente que estes mercados impõem. Por detrás dessa imposição, desse pretendido controlo, está uma estranha certeza, uma estranha teoria, a de que os mercados são sempre eficientes e traduzem sempre o melhor, mesmo que este “melhor” possa ser o que temos estado a assistir. Estranha noção de eficiência em que se quer fazer assentar a democracia nos países da zona euro. Se dúvidas houvesse veja-se que o próprio Fundo Europeu de Estabilização Financeira precisou ele próprio do rating das agências privadas.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Carta aberta aos líderes parlamentares do nosso país, a propósito de um menino pobre que eu fui(I)

Júlio Marques Mota*





Coimbra, Outubro de 2010

Ex.mo Senhor Deputado

O menino pobre que eu fui nasceu algures numa aldeia do interior beirão, no início dos anos quarenta, num país rural fechado sobre si mesmo e sob um regime de ditadura. Com pais pobres, deles histórias lidas não ouvia e contadas também não. As que ouvia, eram ouvidas e sentidas nas homilias, ao domingo. Mais tarde, aprendeu a ler, e depois a ler histórias, graças a uma senhora desde há muito desaparecida, que mão amiga, que lhe emprestava em formato de quase livro folhetins do jornal O Século. Foi assim num tempo de pobres que tomou o primeiro contacto com a leitura de histórias, com a “literatura”. Esse menino pobre que eu fui cresceu e quis ir estudar para o liceu da época e da sua região. Na altura, era preciso fazer o exame de admissão ao liceu, mas … foi impedido por um detalhe impensável: como para isso teria que ser proposto pela sua professora primária, esta por iniciativa pessoal exigia 1.500$00 quando um camponês ganhava 18$00 por dia e era quando tinha trabalho. Era então preciso dinheiro e este não havia. Dinheiro não o tinha, o exame de admissão, esse, não o podia pois fazer.