quarta-feira, 28 de julho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo LXII

Décima sexta etapa: em Vilarinho (continuação)

São cinco horas. Cumpre comer no tacho, por isso despacho-me, incapaz de me expor, em tal figura, perante olhos alheios: quero jantar enquanto estou sozinha. Por outro lado, levantando-me, todos os dias, às seis horas, mudei de fuso horário e sinto há muito apetite.

Estou a acabar de jantar. Pus na massa queijo de ovelha e uma colher de azeite, este também encontrado no armário, salpiquei com tomilho e orégãos, que trago ad hoc de Tomar (são leves). Ficou muito boa: comi o equivalente de uma pratada. Concluída a refeição com uma maçã e uma laranja, já saboreio um pedaço de chocolate preto, refeita do cansaço e do frio, quando oiço vozes no exterior.

Abro e vejo quatro mulheres, com imensas mochilas, cobertas com todo o equipamento jamais inventado para proteger os caminhantes da chuva, desde que há chuva e caminhantes, as quais inquirem onde ficam os outros quartos. Explico que outros quartos não há e, para dormir, mesmo aqui, restam três lugares. Todavia elas passam dez minutos a meter as chaves em todas as fechaduras daquela correnteza de portas. E acabam por voltar:

- Não se importa que fiquemos aqui as quatro?

- À vontade!

São finlandesas. Duas magras, duas gordas, duas mais velhas, duas mais novas, uma mãe, uma filha e duas amigas… Dito assim parecem uma dúzia, é normal, foi assim que me pareceram: numerosas e barulhentas. Trazem, para além das mochilas gigantes, dos impermeáveis delas e de tudo o que lhes pertence, diversos sacos cheios de comida. Entram, espalham tudo, as mochilas, os sacos, as varas, as botas, as peúgas, as camisolas, os impermeáveis de impermeáveis – deixa de haver um centímetro livre para pôr um bico de pé no chão. Escapo-me para cima do beliche. Inquirem se achei o percurso agradável.

- Não.

- Ah!

Já comentei o assunto com os irlandeses, não quero glosar outra vez o trajecto do Porto a Vilarinho. Claro que na Maia podem criar uma passagem para peões, a qual servirá para turistas e peregrinos mas, sem dúvida, servirá ainda mais para os habitantes, porém a zona industrial e o resto do percurso... São o que são. Não adianto conversa. Aviso que não há água quente. Elas declaram que não transpiraram durante o dia – acredito.

Começam a tirar fotografias. Primeiro três, com as poses e os sorrisos, depois outra tira a fotografia, as seguintes três mudam de pose e repetem o sorriso. Pedem que lhes tire várias fotografias. Pegam no meu bordão, que estorva os movimentos, colocam-no por detrás das oito varas. Fazem ginástica por cima das bagagens. Depois preparam o jantar, continuando a tirar fotografias, tomate, pimento, chouriço, queijos, fruta, bolos, vai um sorriso para a máquina, apresentados por toda a bancada, em cima dos papéis de embalagem – não há pratos. Bebem cerveja, mais fotografias, com uma Sagres na mão, com duas cerejas na orelha, com a rodela de chouriço num palito... Muitos risos.

A certa altura, uma mostra de longe, sorrindo desvanecida, como objecto prodigioso e nunca visto, em plástico colorido, o conjunto de faca e colher, numa ponta, garfo, na outra ponta. Cada uma possui o seu, diferente apenas na cor: azul, verde, amarelo e vermelho.

Olho – tentando aprofundar o que vai naqueles cérebros. Será que comunicam aos iberos a invenção do garfo? Ou do plástico? Terei feito tal cara... A senhora sublinha logo, inquieta e pressurosa, antes que me apodere, fuja quiçá com ele, que não oferece o objecto prodigioso, precisa dele para a viagem. Aquele fenómeno continua aliás a não me maravilhar: conheço o objecto, há décadas, nos serviços de piquenique, tanto em Portugal, como em França. Trata-se aliás de uma tendência frequente no design nórdico: a reciclagem – e actualização – de formas existentes. Aqui a inovação, se alguma há, está nas cores.

Oferecem-me então batatas fritas. Não, obrigada. Já comi, não tenho fome; e mesmo que tivesse... Não aceito prendas de toda a gente. A mãe da mais nova oferece-me uma embalagem de manteiga, que sem dúvida lhe deram ontem no avião e traz portanto há vinte e quatro horas na mochila – não, obrigada!

Num romance de E. M. Forster (Um Quarto Com Vista), uma personagem defende que, só depois de lhes fazerem um exame, deviam autorizar os ingleses a atravessar o Canal – para não envergonharem o país. Talvez não fosse má ideia os finlandeses organizarem, digamos: um estágio de formação para os viajantes. Ou algo assim. Caso contrário, os outros europeus, que raro encontram finlandeses, correm o risco de ficar com esta imagem grotesca.

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