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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Saudades de Coimbra


(Foto de José Magalhães)
 Estamos a chegar ao fim deste dia que dedicámos inteiramente à cidade de Coimbra. Vamos ouvir Saudades de Coimbra, com música (e letra) de Edmundo de Bettencourt, interpretada pelo guitarrista clássico Silvestre Fonseca.



Vamos terminar este Dia de Coimbra e, claro, somos bastante previsíveis, mas quem resiste a, nesta altura, dizer que "Coimbra tem mais encanto na hora da despedida"? Não é verdade, porque o encanto de Coimbra está em nos apanhar de surpresa quando chegamos à cidade. Mas a canção de Fernando Machado Soares é uma maravilha e ela aí está:



A Cidade-Poesia

(Foto de José Magalhães)




Quatro poetas falam de Coimbra e do Mondego - Coimbra, berço de movimentos literários, é fonte de inspiração para canções e poemas - é a cidade-poesia.

Carlos de Oliveira


ELEGIA DE COIMBRA


Gela a lua de março nos telhados
e à luz adormecida
choram as casas e os homens
nas colinas da vida.


Correm as lágrimas ao rio,
a esse vale das dores passadas,
mas choram as paredes e as almas
outras dores que não foram perdoadas.


Aos que virão depois de mim
caiba em sorte outra herança:
o oiro depositado
nas margens da lembrança.


(in Mãe Pobre, 1945).

Há mais vida para além da Universidade.


Foto de José Magalhães

Coimbra, capital do Distrito de Coimbra, é a maior concentração urbana da subregião do Baixo Mondego, com uma população que ultrapassa os cem mil habitantes. Os estudantes representam cerca de 30% dessa população. Recheada de referências históricas e culturais, foi Capital Nacional da Cultura em 2003. Coimbra, a Lusa Atenas, designação vulgarmente usada, tem indústrias, comécio - a sua área de influência estende-se por ume região com cerca de dois milhões de habitantes. Tem vida para além da Universidade.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

QUE DRAMA, MEU DEUS, ESTÁ FRIO!

José Magalhães

 



Brrrrr … Que frio!

Mais um drama se abateu sobre os cidadãos portugueses. Já não bastava a recessão que teima em não acabar, veio agora o frio.

Nestes dias, a temperatura desceu muito. Os termómetros marcam valores abaixo de zero em muitos locais do país, e parece que vai continuar assim mais algum tempo. Imagine-se que até no Algarve faz frio, em Dezembro, a meio do mês, quase com o Inverno a entrar-nos pelas portas dentro.

O que parece ser um facto é que Portugal tirita de frio.

As rádios e as televisões desdobram-se em reportagens e entrevistas com os habitantes de Bragança, de Chaves, da Guarda ou da Covilhã, e até de Faro. Vão à procura de saber como se sobrevive a tamanha calamidade. Em todo o lado as respostas são as mesmas. Não há grandes variações. – olhe menina (normalmente são meninas que fazem estas reportagens), pomos mais uma camisola ou um cachecol, acendemos a lareira ou ligamos um aquecedor, andamos mais depressa quando estamos na rua, e já está. De manhã vamos à janela e se está mais fresquito, agasalhámo-nos melhorzinho. A vida é assim, sabe?!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A Mercearia do Senhor Janeira

José Magalhães



Dia a dia dou por mim a beber a minha cidade, sem sofreguidão, saboreando cada momento, cada pessoa, cada rua, cada viela, avenida ou alameda.

Aprecio o sol coado pela suave bruma, engulo com satisfação os ditos, os palavrões, a calma do senhor que está sentado num banco de jardim a ler o jornal, ou a senhora atarefada que com o saco meio cheio vem da mercearia.

Com muito vagar, sinto o tempo a passar pelo meu corpo, andando para trás, e revejo a vida da minha rua na altura em que eu era pouco mais que adolescente e olhava tudo e todos, julgando que os não via.
Na minha rua havia de tudo, gente de todas as classes sociais e lojas e fábricas e tudo. Era uma rua muito completa e variada. Havia a farmácia, havia “a” mercearia e ainda outra mercearia e depois também um mini-mercado, havia uma garagem para concerto de automóveis e um picheleiro, duas lojas de modas e miudezas, uma padaria e um talho, uma fábrica de botões e uma escola primária, dois sapateiros e uma loja de antiguidades, uma loja de coleccionismo e uma tabacaria, e ainda um marceneiro e um senhor já muito velhinho que se dedicava a fazer lindíssimas caixinhas de madeira para guardar os utensílios de costura. Havia de tudo na minha rua, ou quase de tudo, já que não havia um café ou um restaurante. Nas outras só havia gente, boa, má e também assim-assim. E toda a gente vinha à minha rua para se abastecer. Era uma rua muito movimentada, ainda o é, mas nada parecida com o que um dia foi.

A loja do senhor Janeira, “a” mercearia, foi durante muitos anos o centro de tudo. Na altura, já lá vão muitos anos, tudo parecia girar à volta da mercearia, daquela mercearia. O senhor Janeira e a irmã, enfermeira muito competente e que trabalhava num dos grandes hospitais da cidade e fazia uns serviços de enfermagem nas redondezas, e a mãe deles, eram o centro do centro da rua. Pela pequena loja deles passavam todas as empregadas de toda a gente de bem da rua, e mais as das ruas que havia à volta da minha. Por lá se ouviam desabafos, mexericos, e conversas de circunstância. Até que apareceram os hiper-mercados e os clientes fugiram, e na mesma altura a velhice o atacou, e à irmã, como antes tinha feito à mãe deles. Por fim, depois da morte da mãe e mais tarde da irmã, sucumbiu à falta de clientes e fechou a mercearia tendo vendido o terreno onde ela estava instalada. Acabou a viver sozinho, falando quase com ninguém, tendo como única companhia um cãozito de raça cão, já sem os desabafos, os mexericos ou as conversas de circunstância com que antes o animavam, esquecido por muitos, lembrado por muito poucos.

Quase sem dar por ela, sinto saudades desses tempos. Como se fosse hoje, começam a chegar as figuras do passado, sem que para mim olhem, entretidas no seus afazeres. A senhora alta, comprida, que vivia na esquina, larga o amanho da terra que ainda tem, ou a lida da casa e vem à rua gritar pelo neto “Chiiiiicooo!”, e o Chico que não respondia, nunca respondia, era uma dor de alma ouvir aquela avó quase aflita e às vezes até uma canseira, e a avó que não parava de gritar por ele, até que muito tempo depois se ouvia lá do cimo da rua, de longe, “Já vooooouu!”, a empregada do doutor da casa amarela que à porta do senhor Janeira, com os pés no passeio e a cabeça dentro da loja, pede duas cebolas e três batatas, ah!, e também dois tomates e uma alface, que o senhor doutor gosta muito, ponha tudo numa saquinha que eu vou ali à farmácia aviar um medicamento para o menino que tem tosse e já cá venho buscar e logo à tarde cá virei pagar, - não é preciso menina, diz o senhor Janeira, fica na conta, o outro doutor, de verde, que de verde sempre se vestia, a sair da garagem no seu Renault verde, sempre cedo na manhã, tudo verde, que na Guarda Fiscal era preciso ser-se pouco verde para dar com as sacanices dos malandros, e a garagem a fechar-se pela mão da filha ou da esposa amantíssima, nunca vistas na rua, a não ser por breves momentos, sem que alguém delas soubesse o que quer que fosse, pagando tudo a dinheiro, falando de nada, só das compras, - quanto é?, obrigado, que a vida delas só a elas pertencia, nada na conta do mês do merceeiro, homem bom mas que não tinha nunca ninguém com quem falar a não ser as empregaditas dos doutores da rua e, se calhar por via disso, tudo fazia para que se tivesse uma conta mensal lá na loja para fidelizar os fregueses e ter mais um motivo para dar uma de conversa, pouca que fosse. Meus pais e mais tarde eu, quando já homem com vida instalada e filhos para criar, tínhamos. Não custava nada e sempre se ajudava o homem!

Hoje já não mora nenhum deles lá na rua, morreram todos e os herdeiros venderam as casas, mas a saudade maior vai para o senhor Janeira e para a sua mercearia.

Bebo a minha cidade como outros bebem o que está à sua frente em cima da mesa do café. Mesmo sem dar por isso, mesmo que o não queira, distraído ou nem por isso.

Não sei porque me lembrei de tudo isto. Às vezes é assim, lembro-me de coisas que hoje já nada têm a ver com o meu dia-a-dia. Acontecimentos, pessoas, actos e factos, que fui bebendo ao longo da vida. Coisas de que nos lembramos com o avançar da idade, creio eu.

Qualquer dia sou um velho, como outros o foram antes de mim, e só me vão restar estas recordações, e também a capacidade de olhar para elas com a calma e com o desprendimento de quem tem muito mais, mesmo que não tenha.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Christmas Carols

José Magalhães

Estava em Trafalgar Square nos primeiros dias deste Dezembro pelas 5 da tarde. Era já noite cerrada. Depois de ter visitado a National Gallery of London e de me ter deleitado com quadros magníficos de pintores não menos aclamados mundialmente, como Rembrandt, Monet, Picasso, Renoir e Van Gogh, só para referir os que sempre mais me impressionaram, e de uma infinidade de outros, sentia na cara a breve brisa quase gelada que se fazia sentir.

De mão dada com minha mulher, olhava a estátua de Lord Nelson quando reparei que aos pés da coluna e nas costas do Vice-Almirante estava um presépio rodeado a cerca de alguns metros por uma barreira metálica que impedia a aproximação das pessoas, algumas das quais já se encontravam por lá encostadas, como que a ganhar vez.

Curiosos, como sempre somos nesses casos, aproximamo-nos!

Ao longe ouvia-se, vindo o som do meu lado esquerdo, música, e entrevejo a custo uma espécie de pequeno cortejo, com uma fanfarra a meio, tendo à frente um padre e alguns acólitos. Dirigia-se ao local onde estava exposto o presépio, com o “ministro” a comandar.

O pequeno cortejo demorou cerca de cinco minutos a chegar até à nossa beira, e quando olho à minha volta, já imensas pessoas de todas as idades, desde crianças de colo a velhos muito velhos, esperavam calmamente. Um dos acólitos distribuiu uns panfletos, e quase todas as pessoas aceitaram.

Ainda não conseguia imaginar o que se estava a passar, mas era de certeza alguma coisa importante e agradável. O frio era de rachar, menos de zero graus seguramente, e toda a gente estava com um ar de completa satisfação.

Era em tudo parecido com algumas coisas que já antevira no meu país, organizado pelos padres locais, lá pelas aldeias e vilas. Estava com dúvidas sobre se iria ser celebrada uma mini missa campal ou qualquer outra coisa do género.

Só quando vi algumas pessoas, poucas, a persignarem-se, entendi que a religião era a Anglicana. Mas como se parecia com a minha, Católica Romana. Diziam as mesmas coisas e de maneira muito semelhante, embora com uma menor carga de seriedade (mais tarde, num outro dia, assistimos na catedral de St Paul´s a uma lição de catequese sobre o nascimento de Cristo, e com a excepção de uma certa liberdade de linguagem acompanhada de uma enorme alegria, nada vimos de diferente do que aprendemos e de como aprendemos na nossa juventude).

Depois de uma curta prelecção, deram início à cerimónia, que era nem mais nem menos que cantar os Christmas Carols.

Todas as várias centenas de pessoas presentes cantavam (sim, aos poucos o espaço encheu e eram já centenas as pessoas presentes), num coro de vozes muito afinadas. O folheto que tinham distribuído no início tinha as letras para os menos avisados como eu.

O espírito natalício tinha invadido, e de que maneira, toda a gente.

Nunca na minha vida me tinha apetecido tanto cantar. Senti-me comovido, muito comovido!

A comunhão entre os presentes era total.

Não senti nenhuma diferença, antes pelo contrário, por estar entre cristãos que um dia me disseram serem diferentes de mim. Éramos afinal todos iguais. Todos com o mesmo Cristo no fundo dos nossos corações, e o desejo de paz no mundo muito enraizado.

Acabado o canto, senti-me leve e com um quentinho na alma, esquecido das minhas razões de agora para gostar cada vez menos destes dias consumistas e relembrando o tempo da minha infância em que tudo era belo fácil e alegre, em paz com o mundo e muito, mas muito mais feliz.

Acabado o canto, e enquanto a multidão dispersava com um sorriso nos lábios e um brilhozinho nos olhos, senti que tinha aprendido uma lição e que se calhar ainda haverá alturas em que poderemos voltar a dizer “abençoada época natalícia”.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O ‘MEU’ JANEIRO - cento e quarenta e duas velas se apagam hoje


José Magalhães
No dia 1 de Dezembro de 1868, nasceu o jornal «O Primeiro de Janeiro». Deve o seu nome às manifestações da «Janeirinha». Durante os primeiros anos da sua vida, o diário foi crescendo em tiragem e em importância, até se tornar no melhor jornal de Portugal.
Era já, ao fim de pouco tempo de existência, uma referência Nacional, e assim o foi durante dezenas de anos.
Era o jornal onde melhor se escrevia em Portugal. Por lá passaram os mais ilustres intelectuais do nosso País.
Atravessou incólume períodos conturbados da vida Nacional, como a implantação da República as primeira e segunda guerras mundiais ou a transição para o actual regime, acabando por se debater com a mais grave crise da sua história, na década de 1980, quando o seu enorme património foi desbaratado.
Hoje, o jornal continua, já sem o seu emblemático edifício na Rua de Santa Catarina, e sem os grandes nomes que o ajudaram a consolidar-se a nível Nacional, mas com a mesma vontade de se afirmar e de fazer jus a um passado de glória.

«O Primeiro de Janeiro» é, sempre o foi, o «meu» jornal. Por influência de um primo por quem tinha uma amizade e admiração enormes, Emílio Loubet, grande jornalista que também coloborou no Norte Desportivo, meu pai sempre o teve em sua casa e o leu religiosamente.
Uma das muitas imagens que guardo de meu pai, é a de o ver sentado no piso de baixo do autocarro de dois andares da carreira A, à hora de almoço e a caminho de casa, lendo o Janeiro, dobrando-o cuidadosamente de modo a não incomodar ninguém (nem sempre arranjávamos lugar no mesmo banco). Com meu pai aprendi nessa altura, como dobrar o jornal para bem o ler com os solavancos dos transportes, já que era bem maior do que hoje é, talvez do dobro do tamanho.

O meu primeiro contacto com o jornal, aconteceu ainda nem ler sabia. Não teria mais de três ou quatro anos, e aos domingos de manhã, aconchegado na cama de meus pais via avidamente a banda desenhada de «O Príncipe Valente», de «O sr. Calisto» e do «Zé do Boné». E foi assim depois durante muitos anos. Era a altura da semana que melhor me sabia e em que mais eu sentia a felicidade da vida que levava. O aconchego dos meus pais e o poder partilhar a leitura do jornal. Nessas alturas, sentia-me já um homem. Quase se poderia dizer que foi com aquelas páginas que comecei a ler e que tomei o gosto pela leitura..

Ao longo da minha vida, o Janeiro foi presença diária e leitura obrigatória. Mais tarde, já homem, e numa fase anterior a esta que agora vivemos, fui leitor fervoroso dos cadernos «Das Artes Das Letras» e «Se7e», entregava aos meus filhos mais novos «O Janeirinho» de modo a que se habituassem como eu me tinha habituado, a ler o jornal, e enviava semanalmente o «Caderno das Regiões Concelho do Porto» que saía às sextas-feiras, para a minha filha mais velha que habitava na Madeira, para que não perdesse o contacto com o jornal e com a região. E que saudades que a falta desses cadernos me fazem.
Hoje, sinto-me honrado em poder ver algumas palavras minhas publicadas neste «meu» jornal.

Actualmente luta-se, lutamos todos os que de uma forma ou de outra colaboramos com o nosso Janeiro, pela continuação da sua existência e por continuarmos a vê-lo nas bancas em lugar de destaque. Os dias que atravessamos são madrastos e sem complacência, pejados de dificuldades, sendo que as económicas estão cada vez mais com importância acrescida e numa primeira linha de influência. A competição é enorme e só os números das tiragens e das vendas de publicidade interessam.
Mas o «O Primeiro de Janeiro» apesar das múltiplas adversidades vai continuar, estou convencido disso, cada vez mais forte, a caminho de se tornar de novo, num dia que se deseja muito próximo, numa referência no panorama jornalistico e literário Português.

Ainda vamos voltar a ouvir pelas ruas do Porto o pregão: «Olhó Janeeeiiirooo».
Parabéns, Janeiro, pelos teus cento e quarenta e dois anos, e obrigado por me deixares fazer parte dos que lutam pelo teu bom nome, prestígio e projecção.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Noctívagos, insones & afins: A Vizinha

José Magalhães


Qualquer pessoa que esteja no sítio certo, à hora certa, tem a possibilidade de testemunhar uma parte da história de todos nós.

Todas as histórias deveriam começar por “era uma vez…”.

Esta não foge à regra.

Era uma vez uma rua que tinha uma rotunda mesmo ao fundo, e que tinha o nome de uma cidade do Magrebe.

Por lá parávamos, todos os fins de tarde em amena cavaqueira, o Zeca do gás, meu saudoso amigo que partiu cedo na vida e de quem todos gostávamos, eu e mais um ou outro companheiro, mesmo à porta do João da padaria.

Esta rua, que tinha o nome de uma cidade do Magrebe, era uma rua onde nunca se passava nada. Era uma rua amorfa.

Bem, não totalmente. Durante cinco minutos em cada dia, de segunda a sexta-feira, e sempre ao fim da tarde, alguma coisa mexia. . .

Quando passava na rua, a vizinha não deixava ninguém indiferente.

Mexia com os sentidos todos. Todos os cinco sem excepção.

Os olhos lacrimejavam e impediam uma visão perfeita (às vezes).

Os ouvidos deixavam de ouvir tudo o que se passava em redor, concentrando-se no som dos tacões a baterem, ritmados, na calçada.

Deixava de se sentir fosse o que fosse, por via de um formigueiro nas mãos. Os dedos tamborilariam na mesa (se a houvesse) ou ficavam irrequietos nos bolsos.

O rasto de perfume, bloqueava qualquer outro cheiro. Havia até quem voasse atrás dele, mesmo sem dar por isso.

Um sabor a papel de música provocado pela boca seca chegava de imediato.

Ao longo do tempo que durou a história que agora conto, e que quase chegou a um ano, na imaginação criada nas mentes dos sempre presentes, provocada pela passagem da vizinha, muitos mataram a sede das suas muitas léguas de isolamento sem bandeira nem hino. Desde exércitos a caravanas, montados em cavalos e camelos ou simplesmente a pé, desde crianças a adolescentes e a adultos, durante o tempo que durava o repicar das Avé Marias no sino da Igreja, o sorriso de felicidade inundava os rostos. A atmosfera de degelo embrutecido, dava lugar ao cantar das águas de Março em pleno anúncio da Primavera. Como que por encanto, despiam a carga negra que as suas vidas lhes vestiam logo pela manhã, e os sonhos e a esperança regressavam como que para sempre.

Deus bafejara a vizinha com a perfeição das formas, e quem a olhava, com o sonho do mel, qual perfume da antiguidade, e remédio para todos os males ou alimento para a felicidade eterna.

A vizinha trabalharia por certo, num local importante. Sempre vestida a rigor, fosse Verão ou Inverno. O cabelo bem arranjado, as unhas das mãos e dos pés (quando se viam) impecavelmente envernizadas. A roupa, bem, a roupa deveria ser de marca, ou então de costureiro.

Era assim que todos a viam.

Ninguém lhe conhecia namorado ou marido, nem qualquer outra coisa do género. Corria a ideia de que vivia sozinha, sem a companhia de cão ou gato.

Não se sabia de onde vinha nem para onde ia. Simplesmente aparecia à porta do 37 bem cedo da manhã, e era por lá que entrava aos fins da tarde.

Quando regressava do seu (suposto) trabalho, a rua parava.

Um dos merceeiros da rua, solteirão praticante e já entrado na idade, aparecia à porta, sorrateiramente. Baixo, forte e razoavelmente simpático, era o comerciante mais antigo que lá havia. Sempre esteve por lá. Ninguém se lembra do tempo em que ele lá não estava. Vivia quase só. Desde a morte da mãe e mais recentemente da irmã, solteira como ele e também já entradota, que assim era. Como companhia, o canídeo de raça cão, branco, a que dera o nome de Berlim.

Lá ao fundo, já na rotunda, o barbeiro, por cujas mãos já todos os habitantes da rua e arredores tinham passado, olhava pelo vidro da barbearia, esquecendo por momentos o seu sonho de criança, que sempre o acompanhara ao longo das horas do dia e da noite, e que era, correr mundo solitariamente numa barcaça. Apesar desse sonho, ou por causa dele, o Vila Verde, assim lhe chamavam por causa da terra onde tinha nascido, era casado, sabia-se, e não tinha descendência.

O outro merceeiro, homem que se considerava importante muito por via de ter um filho letrado, com casa aberta quase na esquina da rua do meio, virava-se de costas, não fosse a sua mulher notar o olhar babado e quase lascivo.

O farmacêutico, filho e neto dos farmacêuticos anteriores, há décadas estabelecidos na rua, anafado e pai de dois pimpolhos rechonchudos, compunha a bata imaculada e olhava de soslaio, esquecendo-se da freguesa que diariamante comprava os supositórios para a tosse.

O Neca alfaiate, que tinha sido cozinheiro na tropa quando estivera em comissão no ultramar, parava de trabalhar, não fosse o corte das calças do sr Antero ficar mal feito.

O Pedro sapateiro, lança um piropo de mau gosto, como de costume.

O empregado do café Avenida (chamava-se assim apesar da estreiteza da rua) dá um estalo com a língua, e o sr engenheiro, que dava aulas (privadas) de matemática e de física e que estava desempregado ia para dois anos, sentado na esplanada suspira e pensa que afinal a vida se não esgota no emprego que não tem.

Enquanto isso, e alheia a tudo, a vizinha continuava com o seu passo pausado, descendo a rua em direcção ao largo.

A D. Aninhas, esposa amantíssima do António carniceiro, faz cara feia à sua passagem.

A criada negra do sr doutor médico, que ele mandara vir das áfricas vai para muitos anos, como era de costume e de bom tom em pessoas da sua categoria e nível social, funga e vira a cara.

A mulher do (importante) merceeiro, olha para ele, desconfiada, esperando uma reacção que ele acaba por não ter.

A empregada da D. Vitória que está divorciada do sr Coronel do Exército (na verdade era só Tenente-Coronel), está a limpar os vidros, empoleirada na janela do segundo andar do número 14, e nem repara em nada.

Dois cães ladram grosso ao sentirem os passos da vizinha. Outro, ao longe, responde.

Dois miúdos, em idade escolar, na pré-adolescência, falam alto um para o outro:

- “João, João, mica!” (o verbo micar, usava-se com frequência na altura, e significa, olhar, mirar, observar…)

A sra professora de música, viúva ia para mais de dez anos do sr Francisco, Chefe das Finanças da altura, e que estava ameaçada de exclusão da carreira docente por não aceitar os regulamentos da avaliação imposta pela sra Ministra, aprecia de longe a vizinha, com conhecimento e nostalgia. Também um dia, ela fora assim!

Impávida e serena, a vizinha passa com o seu pisar calmo e certo. Acostumada aos olhares da populaça, ignora tudo à sua volta, não vê ninguém. Nem se dá ao trabalho de se preocupar com isso. Não olha para ninguém. Não cumprimenta seja quem for.

Chegada a sua casa, mete a chave na fechadura, entra e desaparece até ao dia seguinte.

- “Até amanhã, vizinha!” Pensa cada um para si. No dia seguinte será por certo outro dia de sol.



A vida na rua que tem ao fundo um largo, rotunda como lhe costumam chamar, e que tem o nome de uma cidade do Magrebe, voltava ao rame-rame de sempre. Recomeçavam as conversas, os pensamentos ganhavam novos rumos, e a vida seguia o seu caminho.

Dia após dia, a sua passagem era intimamente esperada, quase que com sofreguidão.

E assim foi durante meses, até ao dia em que a vizinha não veio. Nem de manhã, nem de tarde. E nos dias seguintes também não. Estaria doente? Precisaria de ajuda? A preocupação aumentava a cada passo nas faces dos habitantes da rua.

E ao fim do quarto dia de uma angústia que se via ao longe, veio uma camioneta de mudanças e levou tudo o que havia na casa que tinha o número 37.

Assim, de uma penada. Quase a correr. Num instantinho.

A tristeza e a estupefação ficaram marcadas nas caras de cada um deles.

A vizinha nunca mais foi vista. Nunca mais apareceu.

A rua, que era também um pouco a minha, nunca mais foi a mesma. Ficou ainda mais amorfa e cinzenta do que tinha sido. De longe a longe, nas conversas que sempre surgem, ainda se fala dela, da vizinha, de quem nunca ninguém soube o nome. E essas conversas ainda traduzem nostalgia e tristeza.

Aquelas pessoas só lhes restou a lembrança de um período áureo da vida da rua que tinha uma rotunda mesmo ao fundo, e que ostentava o nome de uma cidade do Magrebe.

domingo, 14 de novembro de 2010

Fotopoemas - O caminho

Texto de Manuela Degerine e
Fotografia de José Magalhães


Estou a escrever de memória. A fotografia de José Magalhães ficou na minha caixa do correio – em casa. E neste momento encontro-me numa estação do caminho de ferro: vou a Versailles. Vou a Versailles porque vi a fotografia de José Magalhães. Não tentei resistir: vou a Versailles.

Até há cerca de um ano, o parque de Versailles era, não propriamente o meu quintal, mas algo de muito familiar. Logo que inventava três horas livres, pegava na bicicleta, apanhava o comboio e, vinte minutos mais tarde, saía na estação de Versailles. Rue du maréchal Foch, boulevard de la Reine... chegava ao parque. Atravessava, sem parar, a Petite Venise, uma Veneza ínfima, na verdade, ponto de encontro dos turistas, por ter parques de estacionamento, um restaurante, vários quiosques, aluguer de barcos, bicicletas e Segway... Um espaço onde cheirava a crepes e café. Eu buscava outros odores. No outono e inverno, os cogumelos, a terra húmida, as folhas caídas, no fim da primavera, as flores de tília, uma ou outra vez, a relva recém-cortada e, em todas as estações, a bosta de cavalo: o parque é vigiado por polícia montada e alguns trabalhos florestais são realizados com cavalos.

Prosseguia à beira do Canal na direcção da Ferradura (Fer à Cheval). Lembro-me de, há dois ou três anos, a água do Canal ter gelado e haver, neste sítio, uma perseguição de cisnes: um namoro com patinagem aparatosa por cima do gelo. Fer à Cheval tem, no cimo das escadas, o Trianon. Eu continuava na direcção da Estrela (Étoile), desdenhava a pradaria à direita, torcia o pescoço à esquerda para avistar, muito ao fundo, quase minúsculo, no outro extremo do Canal, o palácio. Subira até chegar à Étoile – há pequenas encostas – e descia depois na direcção da Ménagerie, o espaço onde viviam os animais exóticos... e que agora serve de residência ao Presidente da República. Antes de chegar à Ménagerie, os ciclistas encontram duas opções: os que se poupam cortam pela beira do Canal, enquanto os mais desportistas sobem uma encosta, passam por detrás de um dos braços do Canal e, do outro lado, descem – vertiginosa e ludicamente – a simétrica encosta. Eu, cela va sans dire, pedalava encosta acima. Como a Ménagerie se tornou uma das residências, digamos, de campo, do Presidente de República, encontram-se nesta zona, distribuídos pelos caminhos e alamedas que a rodeiam, vários carros de polícia, cujos ocupantes matam o tédio mirando... as ciclistas; ao fim de algum tempo, eu já os conhecia, cumprimentava-os ao pedalar. E, claro, lançava-me encosta abaixo, pelo lado direito, prevenindo-me de algum preguiçoso que, depois de cortar pela beira do Canal, se atravessasse à minha frente. Não queria travar mas chegar o mais longe possível antes da primeira pedalada, uma distância muito variável, consoante o vento, favorável, contrário, lateral, forte, fraco... Seguia na direcção do Lago de Apolo, passava à frente dele, muito devagar, de pescoço torcido à direita, para admirar o palácio, seus lagos, estátuas, arbustos e turistas. (Há muitos anos, durante uma formação em Versailles, na hora do almoço, enquanto os colegas se fechavam numa pizaria, caminhei por ali, vendo um grupo de crianças a brincar dentro do lago, completamente gelado, enquanto caíam pesados farrapos de neve.) No Inverno as estátuas são embaladas numa tela esverdeada que as protege das intempéries. E as torna não menos belas... Dali à Petite Venise, o meu ponto de partida, é um instante. Completava assim a primeira volta: que não durara menos de quarenta e cinco minutos. Geralmente percorria mais duas vezes o perímetro do Canal. No entanto, nas épocas em que o terreno se encontrava mais enxuto, não olvidemos que Versailles foi construído num pântano, substituía uma das voltas pela excursão através do parque, que tem rebanhos de ovelhas, prados com vacas e cavalos, campos de milho, bosques, alamedas conduzindo à Horta do Rei ou à Aldeia da Rainha... E caminhos como este.

Estou a escrever de memória, não tenho a certeza se a fotografia mostra árvores de folha caduca. (Lembro-me da hera subindo pelos troncos.) Creio todavia que há muitos ramos coloridos e outros já sem folhas. As cores dominantes são o verde e o ruivo com, aqui e além, pequenas manchas douradas. O ouro é da luz ou das folhas?... De ambas, decerto... (Espero não deformar a imagem.)

Em Portugal quase todos os bosques são constituídos por pinheiros e eucaliptos, tornando-se portanto, com a erva e os fetos, mais verdes no inverno do que no verão; pode contudo ser de um dos caminhos que percorri este ano através do Minho. No outono, em Versailles, também nos podemos – quase – perder através de túneis de ramos e folhas... Como este. No parque há faias, freixos, tílias, plátanos, aveleiras, carvalhos, castanheiros e numerosas outras variedades de folha verde na primavera e no verão, colorida de maneira patética e luminosa no outono e, no inverno, ainda colorida, embora de maneira subtil: à beira de todo o Canal, as tílias, podadas, expõem à luz uma fechada vermelha constituída pelos rebendos das futuras folhas. Neste tipo de floresta as minhas estações preferidas são o outono e o inverno.

Inúmeras vezes prolonguei o passeio à beira do Canal até ao momento em que, com o pôr do sol, o real e o imaginário se confundem. O lusco-fusco... Mas não mostrará esta fotografia um nascer do sol?... A vida citadina raras vezes nos proporciona a contemplação da alvorada. Claro que, sobretudo no Inverno, nos levantamos todos muito antes – porém raro assistimos ao espectáculo. Devo o nascer do sol, quantitativamente, a um espaço de tortura – o último liceu onde dei aulas. Várias vezes cada ano, juntas as necessárias condições, hora e estado do tempo, no instante em que atravessava o parque de estacionamento, muito comprido, vi, lá ao fundo, o vermelho jorrar através do céu. Momento de euforia antes do horror. Costumava dizer a outros condenados, único comum reconforto, este liceu tem três coisas boas, os colegas, o nascer do sol e... o Carnaval. Mas isto já é outra conversa... (Para além de ser passado.) E cheguei à estação de Versailles.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Fotopoemas II - Envolver o idoso na comunidade


Texto de António Mão de Ferro e
Fotografia de José Magalhães



Muitos idosos vivem extraordinários dramas. Muitos não têm casa vivem com os filhos e sentem-se como estranhos, como se estivessem a mais, vivem amargurada solidão, sem ninguém que lhes dê apoio, nem afeto.

A dispersão que se verifica cada vez mais nos meios urbanos, acentua as dificuldades para um acompanhamento do idoso, dentro do seu núcleo familiar. Por isso é importante que se criem condições para que ele se sinta útil e possa participar na comunidade, transmitindo a sua experiência, sendo para isso necessário encontrar metodologias que envolvam a participação de idosos, crianças e jovens desenvolvendo assim a solidariedade intergeracional

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Fotopoemas II - Soneto ao poeta desgostoso


Poema de Carlos Mesquita e
Fotografia de José Magalhães


Águas que voam sobre pedras
Que bem fica perderes no porto…
tuas penas. Seca as lágrimas, (poeta)
Mais penas virão depois de morto


Apesar de tudo agora vives
espumando raiva no leito forte
Louva o vale relvado onde pariste
a força a glória e a semente


Muros incertos enfileirados
Em bichas de pedras cavalgadas
Rumo à ponte velha em pedaços


Augustas árvores desfolhadas
Nuvens sem graça e céu sombrio
Cobrem de musgo antigas fragas

Postal de inverno, névoa e frio
Embaciando o louco olhar
Que as margens deitam sobre o rio

Os vigaristas merecem ser presos (Como se fora um conto)

José Magalhães



Quem nos disse que já sabia o que nos ia acontecer? Todos e mais os outros!

Há muitos meses, anos até, que se ouve nas ruas, nas mesas de café, com vozes baixas e medrosas mas também em frases inflamadas e ditas bem alto, a revolta surda das gentes anónimas. E no entanto… !

Em nenhum momento o povo Português teve qualquer tipo de dúvida (excepto os mandantes deste pobre País e também os que querem vir a sê-lo, mas esses não pertencem ao povo) de que a Justiça em Portugal não funciona nem funcionará tão cedo, de que ninguém irá para a cadeia no famoso caso Casa Pia, da mesma forma que as dúvidas não existem sobre o mesmo desfecho em qualquer dos grandes casos de Justiça que ainda hoje correm nas barras dos tribunais.

Ninguém alguma vez duvidou de que o Orçamento para 2011 acabasse por ser aprovado, pese embora todo o folclore protagonizado pelo governo e por alguma oposição.

Toda a gente sabia que o actual Presidente da República se iria candidatar, apesar dos tabus em que é useiro e vezeiro e a que sempre nos habituou.

Não há quem não saiba, por força das evidências, que o ano de 2011 vai ser ainda mais terrível que o actual, embora ouçamos todos os dias o ainda nosso Primeiro a dizer que estamos cada vez melhor e que não precisamos do Fundo Monetário Internacional no nosso País.

Todos sabemos da falta de credibilidade do nosso governo a nível Nacional e Internacional, fruto das sucessivas mentiras e enganos do ainda nosso Primeiro e do seu Ministro das Finanças.

Não há dúvidas algumas, seja de que espécie forem, de que o ainda nosso Primeiro não quer governar e que espera ansiosamente que alguém piedoso o coloque dali para fora o mais rapidamente possível, e que no fundo, ninguém quer, hoje, o seu lugar.

Há muita gente do nosso País que duvida da capacidade do líder do maior partido da oposição para vir a ser o nosso próximo Primeiro e ao mesmo tempo o salvador da Pátria, e não se revê em qualquer outro que por cá existe.

Todo mundo Português sabe da enormidade de vigarices que por cá existem, dos roubos, desvios, compadrios, mentiras, subornos, influências, e de outros actos ilícitos e criminosos praticados pela grande maioria dos responsáveis pelo nosso País, e aceita que a Justiça feche os olhos ou finja que não vê, esperando no mais profundo do seu íntimo que um dia chegue a sua vez de ser e fazer como eles para poder enriquecer rapidamente.

Face a tudo isto, e a ainda uma mão cheia de coisas que não abordei aqui, só se pode concluir que o que nos acontece é totalmente culpa nossa que só falamos e nada fazemos de consequente, e que, enquanto povo, somos uma cambada de carneiros imbecis e ignorantes, e seguidores cegos de líderes vigaristas que mereciam ser presos e condenados a trabalhos forçados para todo o resto das suas vidas.

Mas isto vai tudo melhorar, o nosso País ainda vai ser um Pais em condições, com gente honesta e solidária, um dia, quem sabe, quando e se houver uma invasão ou uma outra revolução, quando toda a população de vígaros for presa, quando mudarmos a educação e as mentalidades das pessoas, ou quando mudarmos totalmente as gentes que cá vivem.

(www.atributos-1.blogspot.com)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

FotopoemasII - Espelho


Texto de Rui de Oliveira e
Fotografia de José Magalhães

Espelho (mesmo assim nada claro) do curso da política em Portugal ? Um trajecto, à direita, infelizmente mais largo, com abundantes escolhos, cuja saída se não vê, apenas se vislumbrando um muro ao fundo. À esquerda, um caudal mais vivo, é certo, mas ainda mais obstruido, sem escoamento útil. Grandes obras parecem ser necessárias para alargar o fluxo e galgar as barreiras visíveis. Como a foto quase não tem cor é difícil saber se predomina o verde da esperança ou o cinzento da melancolia. Certo é que não há o vermelho da indignação.

Rosa de Porcelana pintada (Como se fora um conto)

José Magalhães


No princípio do século vinte os hotéis e pensões tinham quartos para alugar que não possuíam quarto de banho. Este situava-se normalmente ao fundo do corredor e servia todos os quartos desse andar. Havia até pensões que tinham um só quarto de banho para os diversos andares dos quartos.

Na minha família havia um Padre. Quase todas as famílias tinham pelo menos um. Este, pelos anos vinte do século, era já entrado na idade. Teria bem mais de sessenta anos.

O Tio Padre, fazia palestras e orava em muitos locais para onde era convidado. Um dia teve de se deslocar a Chaves, em pleno Inverno, para falar, a convite de uma qualquer organização. Foi de Paços de Ferreira, onde residia, para Chaves, de charrete, como era hábito naquelas alturas.

Chegou a Chaves já o dia tinha acabado.

havia muito tempo, e dirigiu-se a uma pensão que ele conheceria bem, e onde já tinha quarto reservado. Jantou e recolheu-se.

Algum tempo depois, já em trajes de dormir, imagino-o eu em camisa branca e gorro por causa do frio, teve vontade de urinar. O frio era tanto que não lhe apetecia nada deslocar-se pelo corredor até à casa de banho.

Usava-se na altura e ainda se usou durante muitas décadas, um pote em cada quarto para utilizar sempre que as necessidades fisiológicas apertassem. Procurou-o por baixo da cama e como não o encontrou percorreu o quarto, que era pequeno, de ponta a ponta, não se esquecendo de procurar dentro do guarda-fatos, nas gavetas do pessiché, e por baixo da mesa de cabeceira. Nada! tinha levado sumiço. E ele apertadinho de todo, e o frio que apertava, que em Chaves, no Inverno, a coisa é dura.

De um modo ou de outro, o meu Tio Padre lá conseguiu resolver o seu problema.

De manhã, lavou-se na bacia que estava no quarto, usando para tal a água quase congelada que já lá estava e que ele havia despejado no dia anterior de numa jarra de porcelana que tinha uma rosa pintada, limpou-se a uma toalha de linho que lhe tinham colocado no quarto para esse efeito, desceu para tomar o pequeno almoço, pagou a estadia e abalou para o seu destino.

Horas de pois, a empregada da pensão entrou no quarto para as limpezas normais e reparou que em cima do pessiché estava a jarra da água com um bilhete encostado e que tinha qualquer coisa escrita nele. A pobre da rapariga não sabia ler, o que era comum nessa altura, e desceu as escadas em passo de corrida dirigindo-se ao dono da pensão.

- Ó se Maneli, o sô Padre esqueceu-se disto. Estava encostado à jarra de porcelana, a que tem a rosa pintada, que o senhor mandou colocar lá no quarto.

- Mostra lá rapariga.

A moçoila entregou-lhe a folha de papel, o sr Manuel colocou os óculos na ponta do nariz, e leu:


Rosa de porcelana pintada
Perfume não pode ter
Aqui deixo a minha graça
E o perfume do meu ser.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Fotopoemas II - Nem rei nem lei


Texto de Luís Rocha, poema de Fernando Pessoa e
Fotografia de José Magalhães

Chegar e ir-se embora sem aviso

é a sua natureza
Abraça mais que subjuga
Mostra mais do que esconde
Quando chega é uma certeza

- e mais não digo, mas peço ajuda ao Fernando Pessoa
e ele não a recusa:





Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Numa o que é mal numa o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!

(Fernando Pessoa in Mensagem)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Fotopoemas II - Desafio

Poema de Andreia Dias e
Fotografia de José Magalhães


Desafio, frio, fio…
O que tão vazio parece,
Tão cheio se transforma,
Quando o humano merece
E a alma pede reforma!
Fio, frio, desafio…
Será amanhecer?
Dá-me um arrepio
Só de ver, só de ver…
Mas quero corrupio,
Porque gosto de viver!
Frio, desafio, fio…
Será entardecer?
Calmaria urbana!
Não deixa de ser Natureza,
Esta, … é humana!

Desafio, frio, fio…

domingo, 7 de novembro de 2010

Fotopoemas II - Há quem olhe o mar, de passagem.


Texto de Paulo Rato e
Fotografia de José Magalhães


Há quem olhe o mar, de passagem.


Olha. Vê?

A onda rebenta, uma entre o – quase – infinito número das que sucessivas incansáveis chegam.

Como estas, outonais, força suspensa em brandura alva.

Quase crianças as outras com que no Verão brincamos ainda quando o crepúsculo se avizinha, cálido.

Nunca a placidez deste passo quando a tempestade as agiganta e a dúvida se insinua. Onde chegará tal fúria, tal altura?

Mas há quem ofereça a face às ondas e franco lhe há-de ser o olhar.

Tenso o corpo, entre desejo e espera.

A roda que nos encara em toda a sua raiada circunferência constrói a indefinição – da pausa ou do impulso.

A roda está ali e fala-nos de um limite - físico, branco, turbulento. Nada nos diz de outros limites.

Ela, a que ao horizonte oferece a face, sim.

Está ali o Mar. De crepúsculo e Outono?

Seja.

E as duas raparigas que passeiam e passam, plácidas.

E a que pára, olha e vê, interroga, sonha.

Vê a beleza de cada onda, irrepetível. A luz do poente, irrepetível. O reflexo em cor dessa luz - na areia, no cabelo, na roupa – irrepetível.

Interroga a fugacidade do momento, o ritmo das ondas, a humidade da praia, as pegadas na areia – a presença e a razão das coisas.

Sonha a partida ou a passagem – o Além do Aqui.



Há quem olhe e veja, interrogue, sonhe.

Este crepúsculo, esta praia, este mar?

Todos os crepúsculos, praias, mares.

Tudo o que existe para que Ela olhe e veja, interrogue, sonhe.



Ela, aqui, é a essência da Humanidade.

sábado, 6 de novembro de 2010

-Fotopoemas II - Nunca quis morrer num sábado ao sol




Poema de Paulo Melo Lopes e
Fotografia de José Magalhães

Nunca quis morrer num sábado ao sol
. Digo: asas de vento
(a memória da tua voz
: encontramo-nos na foz, na rocha escondida); e
a paz das palavras, deixa que te conte: sossega
acalma amorna abraça abranda. Digo: há
velocidades mais absolutas talvez que
as do movimento interno das asas: asas
dentro no corpo como bichos roendo
a pele, roendo o sangue, berrando à
saída. Digo: não morrerei num sábado ao sol.
E a certeza interna dos prazos menores da
vida esconde-se atrás da pedra dura rija
fria: digo: soubesse eu das asas do vento
carinhoso sobre a pele sobre a pele sabendo da pele.
Um mar passa longo, e dentro das vagas a memória desmaia.
Digo: há portas talvez mais velozes pelo movimento interno das asas
para o céu; e o movimento é este:

~~~~~~.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Fotopoemas II - In spiritu


Poema de Carlos Durão e
Fotografia de José Magalhães





Contemplo, de longe,
no escuro, sem ver,
com olhos, dormidos,
para comprender.

Espírito amigo,
permite-me estar
contigo, um instante,
por cima do mar.

Tu és como eu,
caminhas num sulco,
à beira do meu,
e buscas o mesmo:
Ensejo de amar.

Desejo-te sorte
no teu caminhar,
ao fim estaremos
juntinhos... na morte.

Iniciamos hoje a segunda série de Fotopoemas

Às 22:30 de hoje, começaremos a publicar a segunda série de Fotopoemas - fotografias de José Magalhães e poemas ou textos, nelas inspirados, da autoria de colaboradores do Estrolabio. Nos próximos dias e até à conclusão desta segunda série teremos, sempre às 22:30, uma bela fotografia e um poema ou texto que a ilustram.