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domingo, 2 de janeiro de 2011

Voz que escuta, de Políbio Gomes dos Santos







Políbio Gomes dos Santos 
(1911-1939)
Voz Que Escuta

João Machado


No corrente ano de 1911 faz cem anos que nasceu Políbio Gomes dos Santos. No mesmo ano nasceram Manuel da Fonseca e Alves Redol, conforme já foi lembrado aqui no VerbArte. Políbio Gomes dos Santos faleceu em 1939, de tuberculose. No mesmo ano concorrera aos Jogos Florais Universitários de Coimbra, vencendo o prémio António Nobre, com um volume de poemas que mais tarde foi incluído no Novo Cancioneiro, e publicado em 1944. Esse volume tomou o título de Voz Que Escuta, de um dos poemas nele incluídos. Políbio Gomes dos Santos publicara anteriormente, em 1938, As Três Pessoas, outro livro de poemas, que Alexandre Pinheiro Torres, na apresentação que faz do poeta e da sua obra, incluída na edição da Caminho do Novo Cancioneiro saída em 1989, considera indispensável ler para se poder apreciar inteiramente o segundo volume da obra. 

Apresento-vos a seguir Poema da Voz Que Escuta, para recordarmos Políbio Gomes dos Santos e a sua obra, neste ano em que se completa o centenário do seu nascimento:

Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo, 
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta. 



Bertolt Brecht


João Machado


1898 - 1956


Bertolt Brecht foi um dramaturgo, encenador e poeta alemão. Pelas descrições que lemos da sua vida percebemos que esteve sempre ligado ao teatro, e que este foi sempre o seu grande interesse. Teve de fugir da Alemanha com o advento do nazismo, viveu e trabalhou nos EUA e na Europa, e voltou a Berlim em 1948, onde fundou o Berliner Ensemble. A sua relação com o regime vigente na RDA foi contraditória; viu o partido comunista ordenar a retirada de cena da peça A Condenação de Lúculo, mas posteriormente atribuíram-lhe o prémio Estaline; os seus detractores acusam-no de lealdade ao regime, mas nunca terá aderido ao partido comunista. O que é inegável é que foi um autor de primeira importância. John Willett (1917-2002), um dos estudiosos da sua vida e obra, que traduziu várias das suas peças para inglês, no artigo que escreveu para a Enciclopédia Collier's, sublinha que Brecht foi acima de tudo um poeta com um grande domínio sobre as formas e os estilos, o que lhe permitia transmitir ao seu trabalho, sobretudo na sua fase mais madura, como que uma simplicidade forçada, com uma força verbal e uma energia que marcavam decisivamente as suas peças. A sua característica principal era o modo aperfeiçoado como conseguia combinar os elementos componentes do seu teatro (as palavras, a música, o enredo, a montagem, a encenação, a teoria) num todo, com tudo relacionado com a sua visão do mundo, marxista, plebeia e antimilitarista (os termos são de Willett). 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010






Um Salão na Internet




João Machado

Para todos um feliz Ano Novo
Venham muitas vezes ao Estrolabio
Passem palavra a todo o nosso povo
A ver se este mundo fica mais sábio


Ao nosso blogue vêm botar discurso
Muitos, de todas as cores e alturas
Trazem poemas, desenhos, pinturas
E entram, sem precisarem de concurso.


Permitam que vos apresente uns versos (bem melhores!) que Richard Wagner pôs Hans Sachs a cantar nos Mestres Cantores de Nuremberga, e Nietzsche cita na Origem da Tragédia:

Amigo, a verdadeira obra do poeta
É anotar e interpretar sonhos.
Acreditai que a ilusão mais certa
Vive no sonho dos humanos.
A arte de versejar e de poetar
É dizer a verdade do sonhar.



FELIZ ANO NOVO! DE TODA A EQUIPA DO ESTROLABIO

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Coimbra na Literatura

João Machado

Coimbra é uma cidade milenária. Tendo em conta a sua localização e atendendo aos factos históricos não admira que tenha sido sempre um pólo de atracção importante. Foi capital de Portugal até ao reinado de D. Afonso III. Ali se realizaram as primeiras cortes de que há memória, em 1211, de onde saíram as primeiras Leis Gerais do Reino, que centravam o poder nas mãos do rei, e tentavam acabar com os abusos da nobreza e do clero. A implantação da Universidade confirmou a cidade como um grande centro cultural, e a maior cidade do centro do país.

Camões dá-nos uma imagem da importância de Coimbra, referindo-se a D. Dinis:

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva;
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar de Mondego a fértil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.
(Lusíadas, Canto III, estrofe 97)

E mais adiante, numa nota triste:


Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano de alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
(Lusíadas, Canto III, estrofe 120)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

VerbArte - Duas visões diferentes sobre o Natal





Duas visões diferentes sobre o Natal

João Machado


Muitas vezes temos dúvidas sobre o que representa para nós o Natal. Apresento-vos aqui dois pontos de vista diferentes. Alguns de vós acharão que são totalmente opostos. Outros dirão que, embora diferentes, até podem coexistir. O primeiro ponto de vista é dado através de um conto de Tolstoi (1828-1910). Ora leiam, uma história que o autor de Guerra e Paz e de Anna Karenina escreveu, passada no Natal :



Conto de Natal

Leon Tolstoi

Um camponês russo, muito cristão, pedia nas suas orações que Jesus o viesse visitar à sua humilde cabana.
Na véspera do Natal sonhou que o Senhor lhe iria aparecer. Teve tanta certeza da visita que, logo que acordou, se levantou-se e imediatamente começou a limpar e a arrumar a casa para receber o tão esperado hóspede.
Lá fora, uivava uma violenta tempestade de granizo e neve, e o camponês  prosseguia as suas tarefas domésticas, ao mesmo tempo que vigiava a sopa de legumes, que era o seu prato preferido.
De vez em quando ia olhar a estrada, sempre na expectativa. Passado algum tempo, viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade no meio do nevão. Era um pobre bufarinheiro, que carregava às costas um fardo bastante pesado. Com pena do homem, saiu da cabana e foi ao encontro do pobre mercador. Levou-o para o interior, pôs sua roupa a secar perto do lume da chaminé e repartiu com o hóspede a sopa de legumes. Apenas consentiu em deixá-lo partir quando viu que recuperara forças para retomar a jornada.
Olhando depois pela janela, vislumbrou uma mulher na estrada coberta de neve. Foi ter com ela e  deu-lhe abrigo na choupana. Fê-la sentar-se próximo da chaminé, deu-lhe de comer, agasalhou-a com a sua capa... Não a deixou partir enquanto não viu que tinha de novo forças suficientes para a caminhada.
A noite  caía... E Jesus não vinha!
De esperança quase perdida, foi novamente foi á janela e perscrutou a estrada atapetada de neve. A custo viu uma criança,  percebendo que se encontrava perdida e  enregelada pelo frio... Saiu mais uma vez, pegou na criança ao colo e levou-a para a cabana. Deu-lhe de comer, e não demorou muito para que a visse adormecida junto ao calor da chaminé.
Cansado e desolado, o camponês sentou-se e acabou também ele por adormecer junto ao fogo.
Porém, de súbito, uma luz radiosa, que não provinha da lareira, iluminou tudo! Diante do pobre homem, surgiu risonho o Senhor, envolto  numa túnica branca!

- Ah! Senhor! Esperei-Vos todo o dia e não aparecestes, lamentou-se.

Jesus respondeu:
- Por três vezes,  visitei  hoje a tua cabana: o mercador que socorreste, aqueceste e alimentaste...era Eu! A pobre mulher, a quem deste a capa...era Eu! E essa criança que salvaste da tempestade, era Eu também... O Bem que a cada um deles fizeste, a mim mesmo o fizeste.
(Traduzido de uma edição francesa)


___________________________

Tolstoi, a partir de certa idade, converteu-se e mostrou mesmo pendor para o misticismo. É a fase de Sonata a Kreutzer e de Resurreição. Este conto provavelmente data dessa altura (não tenho a certeza). Mas agora apresento-vos este vídeo, que nos foi remetido pelo Rui Oliveira. E depois, temos este ponto vista bastante diverso. Esta história do Natal on-line terá alguma coisa a ver com a atitude de Jesus Cristo, quando expulsou os vendilhões do Templo? Será uma denúncia do evento comercial em que se tornou a festa da Natal? Ou será apenas para nossa diversão? Pronunciem-se, por favor.



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010









Esta coisa das preferências nas leituras …

João Machado


É um problema mais complicado do que talvez pareça a muita gente. Sem dúvida que gostos não se discutem (vocês não digam nada a ninguém, mas eu cá não concordo nada com esta afirmação). Mas o facto é que isto das leituras pesa muito, e de que maneira.

O nosso Estrolabio anda com vontade de entrar no assunto. Temos aquela rubrica Os Dez Livros mais lidos do Século XX, a qual, se bem me lembro (nada de comparações com o Nemésio; formidável o Mau Tempo no Canal), até à data, teve escassas participações. Mas as participações que houve foram de alto gabarito. Talvez por isso alguns tenham hesitado em dar o seu contributo. No meu caso, também não contribuí até à data, por várias razões que vou tentar explicar.

Quando começo a pensar no assunto fico atrapalhado. Ocorrem-me ideias diversas. Para começar, assalta-me uma data de nomes, uns atrás dos outros, e fico na dúvida. A alguns tinha que os ler outra vez. Recordo-me de Dostoievsky, que li quase todo há quarenta e tal anos, e encho o peito, e ver se consigo ir lê-lo outra vez. Reli há uns meses parte do Crime e Castigo e fiquei novamente de boca aberta. Será que ainda estou assim jovem?

Mas li o Germinal do Zola, há mais de cinquenta anos. Lembro-me tão bem … e eu era tão novo. Deve ser um dos tais livros da minha vida. Problema: estes que acabo de referir foram todos escritos no século XIX. Portanto não contam para a nossa estrolábica rubrica. Por vezes organizo-me e ponho-me a pensar no Camus. A Peste é para a lista, sim, senhor. E porque não O Estrangeiro, ou O Exílio e o Reino? Começam novamente as dúvidas. O Saramago, pronto, só ponho O Ano da Morte de Ricardo Reis. Mas se calhar estou a ser injusto com O Evangelho segundo Jesus Cristo, não é? E O Memorial do Convento? O Sartre tem que entrar (eh pá, vocês desculpem, mas A Idade da Razão, quem não a leu faz favor de ir ler. Eu sei que o Sartre era snob (isso dizem, mas não têm razão, uns tipos que refiro mais abaixo), mas caramba, aquilo vai até ao tutano. Bom, mas já que falamos em snobismo, O Ulisses, não é? Levei quase um ano a lê-lo (em inglês, meninos, com o dicionário ao lado, que muitas vezes não me servia de nada), mas garanto-vos que gostei. Vocês não acreditam, mas eu gostei. Bolas (era outra a palavra que disse alto, mas lembrei-me da Augusta Clara, da Ethel, da Clara, etc. Claro que a ver se as provoco). E para continuarmos com o snobismo, o Raymond Chandler tem que entrar. Desta vez ponho só o Farewell, my Lovely, e deixo de fora The Big Sleep, The High Window e o resto. Ficam de fora também os títulos em português, porque não me lembro. É o snob. E na passada, não esqueçam o Manuel Vasquez Montalban. Galíndez, de leitura obrigatória. A Autobiografia do General Franco, Os Mares do Sul. Que inveja que eu tenho! Já agora não posso deixar de vos lembrar A Balada do Mar Salgado, do Hugh Pratt (era melhor dizer do Corto Maltese, não acham?).

É pouco patriótico deixar os portugueses de fora. Eu não concordo com o patriotismo (é só conversa, que eu sofro á brava com os desaires da inditosa pátria, no futebol e no resto), mas realmente o Manuel da Fonseca e o seu Cerro Maior têm de lá estar. Este gajo põe-me tão parvo quando o leio … E acrescentem o Branquinho da Fonseca e O Barão, tão curioso. Mas deixei-me voltar aos russos e lembrar-lhes um tipo fabuloso, o Mikhail Bulgakov. Li O Mestre e Margarida em Janeiro de 1971, estava de cama, horrivelmente doente. Uma visita do diabo a Moscovo, sim, já depois da revolução … Fartei-me de rir. Se não leram, leiam, que se divertem. E o Soljenitsyne, e Um Dia na Vida de Ivan Denisovich. O homem era reaça, ao que dizem, mas genial, sem dúvida.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

VerbArte - O movimento neo-realista





O movimento neo-realista. Dois centenários a comemorar em 2011. Uma proposta.


João Machado


Nos anos trinta do século passado apareceu o movimento neo-realista, uma corrente artística que muitos associaram (talvez com diferentes fundamentos) à oposição ao regime ditatorial vigente. As precárias  condições de vida em que, na época, vivia grande parte da população portuguesa, a fortíssima injustiça que sobre esta recaía,  justificavam que os artistas e intelectuais não afectos ao regime sobre elas se debruçassem, e que sentissem o dever de as mostrar nas suas obras, de modo a fazer sentir a necessidade da sua urgente transformação. Daí a forte componente política do neo-realismo, expressão usada pela primeira vez em 1935 por Álvaro Salema, em artigo publicado no semanário Gládio.

O movimento neo-realista manifestou-se através de várias das artes maiores, como a pintura, nas obras de Júlio Pomar (1926 -), Lima de Freitas (1927-1998), Avelino Cunhal (1887-1966), e de outros. É também importante recordar a obra de Manuel Ribeiro de Pavia (1907 – 1957), Cipriano Dourado (1921-1981), e de outros artistas plásticos, que não se pode deixar cair no esquecimento.

Mas a maior visibilidade para o neo-realismo adveio sem dúvida da literatura, com um trio de gigantes a começar, Soeiro Pereira Gomes (1909-1949), Alves Redol (1911-1969) e Manuel da Fonseca (1911-1993). A literatura neo-realista incluiu muitos outros nomes, dos quais se devem destacar Fernando Namora, Mário Dionísio, Augusto Abelaira e sobretudo Carlos de Oliveira. Deixou para a posteridade um retrato vivo das condições em que viviam (melhor dito, sobreviviam) as classes mais desfavorecidas em Portugal, e dos mecanismos que condicionavam a vida dos que lhes pertenciam.



Tenho a convicção de que as preocupações do neo-realismo eram partilhadas por um grande número de autores que não se aproximaram claramente do movimento. Não é verdade que Aniki Bóbó, a primeira longa metragem de Manuel de Oliveira, estreada em 1942, o nosso centenário cineasta, tem afinidades com os  Esteiros (1941),  de Soeiro Pereira Gomes? O cineasta e o escritor tiveram, claro, experiências de vida e ideais diferentes. Mas a atenção de ambos foi atraída por situações parecidas, na Ribeira do Porto, e em Alhandra. E Volfrâmio (1944), de Aquilino Ribeiro, e a Lã e a Neve (1947), de Ferreira de Castro, não estão também próximos do neo-realismo? Porque não se consideram estes dois grandes escritores como integrando o movimento? Ao fim e ao cabo até lhe eram ideologicamente afins.




Em 1911 completar-se-ão cem anos sobre os nascimentos de Alves Redol e Manuel da Fonseca. As comemorações respectivas servirão com certeza para recordar e analisar as suas vidas e obras, mas poderão também  servir de ponto de partida para uma compreensão mais dilatada da génese do movimento neo-realista, da sua ligação à sociedade portuguesa da altura. E também para analisar as influências que sobre ele incidiram, e as que deixou para a posteridade.


Proponho que em 2011 o Estrolabio e o VerbArte incluam, com particular relevo, estes temas na sua agenda.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

VerbArte - Fernand Léger - The Discs in the city




The Discs in the City






João Machado




Fernand Léger (1881-1955) foi pintor, escultor e cineasta. Natural de Argentan, na Normandia, foi viver ainda bastante jovem para Caen, onde trabalhou numa firma de arquitectos. Posteriormente foi para Paris, onde se integrou no meio artístico e se lançou na pintura. Só relativamente tarde adoptou o cubismo, tendo sido, como muitos outros pintores desta escola, fortemente influenciado por Cézanne. Combateu na I Guerra Mundial, tendo sido gaseado na batalha de Verdun (1916). Foi também ceramista e autor de vários murais. 

A sua obra é dominada pelo ambiente citadino e industrial. Léger terá sentido um profundo impacto na transição do ambiente rural para o urbano, chegando alguns a detectar uma repulsa por este último no seu início de carreira como artista. Será talvez mais exacto apontar a influência do trabalho no atelier de arquitectura, que lhe despertou um grande interesse pela paisagem urbana, dominada pela presença de grandes edifícios, grandes máquinas e outros símbolos. Teve também influência do cinema, pelo qual se interessou muitíssimo, levando-o a acentuar a importância do movimento e da propulsão, simultaneamente com os problemas da dimensão e da luz.

Fernand Léger defendia que se deve pintar quadros bonitos, e não objectos bonitos. Criticava os pintores da Renascença, dos quais dizia não serem mais evoluídos do que  os da Antiguidade. A arte, segundo dizia, consiste em inventar e não em copiar. 


Interessou-se por muitos campos da arte, como o mosaico, as ilustrações de livros, cenários teatrais e tapeçaria. A sua influência foi muito vasta, incluindo a pop art. Em 1924 produziu o filme Le Ballet Mécanique, o primeiro sem cenário, e também o primeiro filme de animação. 


Viveu muito tempo nos Estados Unidos da América. Contava que um dia, numa exposição em Nova Iorque, entraram uns negros de Harlem, e ficaram muito tempo a contemplar o quadro acima, The Discs in the City. A páginas tantas, vieram ter com ele, e perguntaram-lhe se não lhes podia oferecer o quadro. Tendo Léger perguntado para que o queriam, responderam que, quando o contemplavam, sentiam vontade de dançar. Léger recusou oferecer o quadro, mas depois dizia que eles é que mereciam  ter ficado com ele. 

VerbArte - A Comunicação Social e a Democracia




Jean Jaurès (1859-1914), líder socialista francês.


João Machado


Escrevi este post no início do Estrolábio. Embora tenham decorrido apenas pouco mais de seis meses, o problema da liberdade de expressão está desde então ainda mais agravado. Veja-se o que se está a passar com o Wikileaks. Não conheço os mentores desse projecto, não sei quem são. Mas sei que o que têm feito é da maior importância para a liberdade e a democracia. Ajudará com certeza a compreender e a interpretar muitos dos acontecimentos recentes, que tanto nos têm afectado. E porá à vista de todas algumas das mãos invisíveis que estiveram por detrás desses acontecimentos. Acima acrescentamos um fotografia de Jean Jaurès, líder socialista, defensor de Dreyfus e pacifista, que foi assassinado por um nacionalista fanático.

É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.

A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A NATO e o imperialismo


João Machado


Nos próximos dias 19 e 20 do corrente mês de Novembro, amanhã e depois de amanhã, realiza-se em Lisboa a cimeira da NATO. Vão ser tratadas questões como a situação no Afeganistão, a defesa anti-míssil, as relações com a Rússia, e outros temas. Parece claro que se vai procurar um maior envolvimento dos países europeus nas acções bélicas da NATO, sobre as quais alguns analistas prevêem um alargamento num futuro próximo. Vai-se discutir com certeza em que parte (ou partes) do planeta vão ser desenvolvidas as novas acções, no Irão, no Extremo Oriente ou na América Latina.

A NATO foi criada em 1949, na sequência do Tratado do Atlântico Norte, assinado em Washington pelos representantes de doze países. Anteriormente, em 1948, cinco países europeus, a Bélgica, a Holanda, o Luxemburgo, a França e o Reino Unido, tinham assinado o Tratado de Bruxelas, formando a Organização de Defesa da União da Europa Ocidental. Assim, foram estes países mais os EUA, o Canadá, Portugal, a Itália, a Noruega, a Dinamarca e a Islândia que posteriormente formaram a NATO. Esta actualmente conta com 28 países, todos situados na Europa, excepto os EUA e o Canadá.

É importante não esquecer que o grupo de países que assinou o Tratado de Bruxelas, sem o Reino Unido, mas com a Itália e a República Federal da Alemanha (ou Alemanha Ocidental), em 1951 formou a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), embrião do que hoje é a União Europeia. Em 1952 estes mesmos países assinaram um tratado que criava a Comunidade Europeia de Defesa (CED), que inclusive previa a criação de um exército permanente europeu. Mas este tratado nunca entrou em vigor por não ter sido ratificado pela França. A CED nunca chegou a ter uma existência real. Sem dúvida que a história recente e a situação predominante na Europa naquela altura influenciaram determinantemente estes acontecimentos. O receio do rearmamento alemão, o acender da guerra fria, a guerra da Coreia, a ameaça do conflito atómico entre o Leste e o Oeste, a emergência do Japão e da China no primeiro plano da cena internacional foram claramente factores de peso que levaram a que a NATO, organização que no início se pretendia que tivesse mais uma natureza política, mas que rapidamente assumiu um papel predominantemente militar, assumisse o papel de defensora do Ocidente e dos seus valores.

Os EUA, assim, sendo o principal suporte da NATO, financeiro e militar, assumiram o protagonismo da defesa daquilo que se chama o Ocidente. A trave mestra da ideologia política dominante neste país tem sido, desde sempre, o liberalismo económico, que culminou no capitalismo financeiro desenfreado, que tão grandes problemas tem causado, desde há mais de um século, com reflexos em todos o mundo. A sua actuação na esfera pública, com especial relevo nas relações internacionais, norteia-se pelos princípios do realismo político, que dá o primado na vida política ao prosseguimento do interesse nacional, independentemente de considerações ligadas à moral geral. A manutenção da segurança (com a óbvia ligação à defesa do statu quo) é outro ponto primordial. Estes princípios, definidos por Hans Morgenthau, ainda na década de quarenta, e prosseguidos por Henry Kissinger e outros, foram aceites e defendidos pelos sucessivos governos americanos, umas vezes mais entusiasticamente (terá sido o caso dos Bush, pai e filho), outras vezes menos (casos de James Carter e de Obama). O Pentágono, o complexo militar-industrial e outras instituições velam pela continuidade deste sistema, fortemente assente no poderio militar norte-americano.

Foi este conjunto de acontecimentos e de circunstâncias que nos trouxe até ao momento presente. O primeiro secretário-geral da NATO, Lord Ismay, disse que a NATO existia para manter os russos do lado de fora (out), os americanos do lado de dentro (in) e os alemães derrubados (down). Esta afirmação está sem dúvida desactualizada, os alemães são hoje em dia membros de pleno direito da NATO (mas a Europa continua com uma capacidade militar reduzida), e o programa da cimeira que começa amanhã prevê uma reunião ao mais nível com a Rússia, em que, ao que parece, se vai tentar um acordo sobre o escudo anti-míssil, suspenso o ano passado, mas que se quer relançar (há ali um gigantesco investimento que obviamente não se quer desperdiçar). Contudo aquela afirmação de Lord Ismay, um general inglês com uma longa carreira, dá uma ideia clara sobre o carácter que logo de início se pretendeu imprimir à organização.

A aventura no Afeganistão não parece bem encaminhada, e também se vai discutir com certeza o caminho futuro a tomar. As informações que existem indicam que os militares norte-americanos querem reforçar as forças no terreno para continuarem o conflito em posição de vantagem. A oposição republicana também aponta no sentido da continuação da guerra (assim como alguns democratas). Obama vai portanto continuar com este problema nos braços, e a discussão na cimeira vai provavelmente consistir em como os EUA vão angariar mais apoios para a intervenção no terreno, isto é, mais tropas.

Antigamente a existência da NATO era justificada pelos seus mentores com o perigo comunista. Agora é com o terrorismo e outras ameaças à segurança, como o crime organizado, o tráfico de droga, etc. Obviamente que parte destas competências são, ou deveriam ser, competência da ONU, a quem deviam ser facultados os meios para os prosseguir. Em vez disso os EUA, nomeadamente os seus sectores mais conservadores, hostilizam a ONU, e vetam no Conselho de Segurança moções da maior importância, como por exemplo as respeitantes à Palestina. É verdade que outros países com menos poder, alguns deles europeus, seguem o mesmo caminho, mas sabe-se que o fazem movidos por interesses particulares. E estamos suspensos para ver como no futuro vai actuar a China.

Talvez a Turquia veja reforçado o seu papel na cena internacional, se se confirmar a hipótese de parte do famigerado escudo anti-míssil ser deslocado para o seu território, para ficar mais directamente para o Irão. Este deverá continuar com o papel que lhe atribuíram de lobo mau, e de assim contribuir para a justificação da existência da NATO. Penso realmente que o governo iraniano e a teocracia dominante no país são detestáveis, e que era bom que mudassem rapidamente, mas são os iranianos que deverão ter a palavra decisiva. E que há outros perigos maiores no mundo, como o expansionismo israelita, ou a tensão na Coreia, para além da fome e das epidemias, situações que deveriam essas sim, merecer uma grande atenção dos maiores poderes mundiais. E não acredito que o Irão tenha poderes militares assim tão grandes como lhe parecem querer atribuir.

A minha opinião pessoal é que a NATO devia ser extinta, e os seus serviços (que tenham algum interesse) encaminhados para a ONU, ou para outras organizações com actuação adequada na cena internacional. Os EUA deveriam aceitar que são um país como os outros, rico e poderoso é certo, mas sujeito às regras gerais (por exemplo, para quando a sua adesão ao Tribunal Penal Internacional?). Agências internacionais, mantidas pelos governos, deveriam funcionar nas várias partes do mundo para tratar dos problemas da segurança e do bem-estar. Temo, é verdade, que isto que penso não passe de utopias, e que ainda falte muito para que tenhamos mais paz, transparência, bem-estar e liberdade, coisas que nunca foram o objectivo da NATO, mau grado as opiniões com que nos bombardeiam todos os dias os seus defensores.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Porque não acede o Saará Ocidental à independência?

João Machado






A comunicação social trouxe várias notícias sobre os graves incidentes ocorridos a semana passada, quando forças marroquinas, usando de grande violência, desmantelaram um acampamento sarauí situado em Agdayam Izik, a pouco mais de quinze quilómetros de El Aaiún, a capital do Saará Ocidental. Estavam ali instaladas cerca de 25000 pessoas, e houve um grande número de vítimas entre elas, segundo informações fornecidas pelas duas partes, entre mortos e feridos. Estarão milhares de pessoas detidas. Este acampamento tinha sido montada cerca de um mês antes, para lançar um protesto pacífico pedindo a autodeterminação do território e melhoria das condições de vida das populações. Abaixo mostramos uma fotografia deste massacre.



Segundo o Expresso de 13 de Novembro, Aminatu Haidar, activista dos direitos humanos sarauí, e que esteve em Portugal a semana passada, informou que a situação poderá descambar em guerra civil. Diz ainda estar muito desiludida com a União Europeia, que mantém o silêncio sobre a situação, apesar de instada a pronunciar-se. O Público, o Esquerda.net, e a Associação de Amizade Portugal - Saará Ocidental informaram que, entretanto, Marrocos restringiu o direito à informação na zona, expulsou vários jornalistas espanhóis e deportou para Casablanca a deputada alemã Sevim Dagdelen, pertencente ao Die Linke, e à comissão de relações externas do parlamento alemão. E Espanha, antiga potência colonizadora, apesar de contar um cidadão seu entre os mortos, recusa-se a condenar a acção das autoridades marroquinas, atitude esta que não será estranha aos interesses que tem na zona.

domingo, 7 de novembro de 2010

Estive muito pouco tempo em Matosinhos


Mosteiro de Leça do Balio

João Machado


Segunda-feira passada, a Leninha e eu, chegámos à noite a Matosinhos, vindos direitos de Lisboa. Fomos lá participar numa reunião do projecto Eurostars, apoiado pela União Europeia, através do programa Eureka. Este projecto reúne quatro entidades, duas empresas, a Árctica, espanhola, de Valência, e a Inova Mais, portuguesa, de Matosinhos, mais duas instituições de solidariedade social, a APM (Associação de Parkinson de Madrid) e a APDPk (Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson). O seu objectivo é a preparação de um software que possibilite aos doentes serem apoiados nas suas residências, para quando executam exercícios das várias valências dos tratamentos (fisioterapia, terapia da fala, psicologia), poderem fazê-lo em interacção com os técnicos localizados nos serviços, usando o computador ou até a televisão digital. Mas hoje não vamos desenvolver mais este assunto. Vou falar-lhes um pouco de Matosinhos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Os mineiros do Chile e o rating, ou a política versus a economia

João Machado

Durou mais de dois meses a prisão de 33 mineiros chilenos a 700 metros de profundidade, numa mina onde as normas de segurança não eram devidamente respeitadas. O mundo inteiro acompanhou esta odisseia, e rejubilou quando finalmente foram salvos. O regozijo foi unânime à volta deste assunto. Até os clubes de futebol portugueses (que são, como todos sabemos, muito importantes!) querem confraternizar com os mineiros salvos.

Entretanto, li no Observer de 17 de Outubro último que a agência francesa de rating COFACE (http://www.coface.com/) deu ao Chile a nota (não é assim que se diz?) de A2. Esta informação veio na secção de análise de negócios do jornal, num comentário de Andrew Clark. Este terá contactado Xavier Denecker, director da COFACE em Inglaterra, que lhe terá referido que o salvamento dos mineiros terá resultado muito favorável para a economia chilena, porque terá dado aos investidores internacionais uma imagem de um país onde se consegue fazer negócio com segurança, na medida em que foi dada uma boa impressão em termos de tecnologia, solidariedade e eficiência. A COFACE classifica o Chile na categoria de A2, que corresponde a uma probabilidade baixa de risco para as entidades que ali queiram investir. O Reino Unido, em comparação, tem uma classificação de A3, que corresponde, para a COFACE, a uma probabilidade de risco aceitável, mas superior à do nível A2. Andrew Clark remata, com humor (se bom ou mau, vocês leitores dirão), com a conclusão de que, em termos financeiros, uma situação bem sucedida de socorro a mineiros poderia beneficiar muito a economia inglesa. E, sempre no mesmo tom, acaba a exclamar: “Ah, se a Senhora Thatcher não tivesse fechado todas as nossas minas …”

O humor tem sempre aspectos positivos, digo eu. Mas há que ver a situação também sobre outros aspectos. O Chile tem uma economia bastante aberta ao exterior, e as suas exportações dependem muito do cobre. Este drama na mina de S. José, no Atacama, acabou bem, mas há que ter presente que houve riscos grandes de uma tragédia. Pessoalmente, penso que isso teria sido terrível, mas que a economia chilena teria continuado a sua marcha. Simplesmente, como foi possível acontecer este acidente? O custo do salvamento, lê-se noutra secção (News/World) do mesmo número do Observer, está estimado em 18 milhões de dólares. O dinheiro não é nada, pois as vidas humanas foram salvas. É contudo importante conhecer onde falhou a segurança na mina e tirar ilações. E se o salvamento tivesse corrido mal?

O recém-eleito Presidente chileno, Sebastián Piñera, após a eleição conheceu rapidamente uma quebra na sua popularidade, sem dúvida que por causa da crise económica, e do aumento considerável da pobreza no país. Ninguém o censura por ter investido tanto no salvamento da mina (embora, ao que parece, contrariando alguns dos seus conselheiros). E assim conseguiu aparecer à opinião pública, nacional e internacional, a uma luz muito favorável.

O comentário de Andrew Clark levanta ainda questões de outra natureza. É sabido a enorme influência que as agências de rating têm nas decisões dos governos ansiosos de captar investimentos. Mas pensemos em como é possível que o Chile (país aliás muito estimável), tenha uma classificação melhor que o Reino Unido? Este tem sem dúvida, uma economia muito mais sólida. Tem uma governação de qualidade razoável, embora sem dúvida que questionável em muitos aspectos. O seu sistema judicial (aspecto que parece ser muito tido em conta pelas agências, por causa da cobrança de dívidas) é também tido como bom (há o caso do Vale e Azevedo, que parece destoar aqui, mas vamos por agora ignorá-lo). Que explicações poderemos ter aqui? A China e a Espanha, em situações muito diferentes, também têm classificações de A3.

Vivemos numa época em que o poder económico se parece sobrepor ao poder político. As consequências que daí advêm para a democracia e para o bem-estar dos povos são pesadas. Os problemas da informação e da circulação de capitais estão na mão de um número reduzido de pessoas e de entidades, e a transparência nesta campo é reduzida, para não dizer que é nula. A resposta tem de ser dada ao nível público, nacional e internacional. No aspecto concreto da informação económica e financeira é necessário haver organismos públicos que divulguem informações sobre o estado da economia das várias partes do mundo, destinadas não só aos empresários, mas também a quem procura trabalho. A globalização, muito falada e aclamada há alguns anos atrás parece estar um tanto posta de parte, sem dúvida que devido à formidável crise financeira que nos assola. Penso que seria rever muito do que foi dito e, mais uma vez, defender a necessidade da informação para todos, condição básica para o aprofundamento da democracia, indispensável para que esta não seja apenas uma caricatura.


Arte poética; António Osório, João Machado, Vasco Graça Moura.


António Osório
(Setúbal, 1933)

PESO DO MUNDO


A poesia não é, nunca foi
uma enumeração ou composto
de exuberância, bondade,
altitude, nem arado
ou dádiva sobre chão
prenhe de mortos.

Nem o arrependimento
de Deus por ter criado o homem
com o rosto da sua memória,
ao lado dos seus vermes.

Tão-pouco fôlego dos que amam
abrindo a porta límpida
do corpo e chovendo sobre a terra,
ou carregam como tartarugas
o peso do mundo.

Nem reverência por um tigre,
pela leveza maligna de todas as patas,
pela sonolência junto à estirpe
aprisionada também
na dureza de ser tigre.

É o milagre de uma arma
total, de uma só palavra
reduzindo o átomo à completa inocência.

(A Ignorância da Morte)






João Machado
(Lisboa, 1943)

SOBRE UM MAU POETA

Vou contar-vos uma tragédia
De um senhor que queria ser poeta
Fazer lindos versos tinha por meta
Resultava sempre uma fraca comédia

Rimas pobres era uma praga
Pontapés na gramática em cada linha
Pois a falta de talento esmaga
Quem tem pouco juízo na pinha

A poesia é a arte de comunicar
De quem tem o sentimento, a excepção
Com quem vive o dia banal, o vulgar

Transmitir o fogo, a modulação
De querer, sofrer, lutar, amar
Sem dos medíocres vir atrapalhação

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Vasco Graça Moura
(Porto, 1942)

As palavras estão presas ao real. Não há praticamente nenhuma poesia, nenhuma literatura, que sobreviva se não houver uma especial coerência entre elas e a realidade. Talvez o mesmo se possa dizer em relação a todas as outras artes, sendo certo que, na música, estas coisas se põem em termos qualitativamente diferentes (provavelmente na música, e no Ocidente, o sistema tonal tende a exercer a mesma força de atracção que o real). Estas coisas para mim põem-se em termos de uma extrema simplicidade, sem altos voos filosóficos, num plano prático e corrente dos significados. É claro que a espessura do real é múltipla: tanto inclui o onírico como o pensamento abstracto. Eppure... é sempre o real. Hoje, assim como nas artes o fim do século XX parece ter ficado assinalado por um "neo-figurativismo" (outra vez o real...), também na poesia se regressa ao real (subjectivo e objectivo) em muitas modalidades. O escritor é um ser humano que utiliza as palavras com um certo nível de exigência qualitativa. Capturar o real, mesmo que seja para fazê-lo "inflectir", é um dos seus objectivos. É provável que o cinema e a fotografia tenham contribuído para acentuar essa necessidade. Não penso que se trate de um vício, mas de uma condição inelutável. A literatura é uma forma de criação artística pela palavra, mesmo quando tenta convocar outras áreas (veja-se, por exemplo, a ekphrasis). A sua relação com o real decorre naturalmente desta condição verbal.

(em entrevista a João Luís Barreto Guimarães)

E já agora, um poema de Vasco da Graça Moura sobre os "Poetas de Lisboa", letra de um fado cantado por Carlos do Carmo:

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dia de Lisboa -Lisboa na literatura universal

João Machado


A primeira referência escrita que se encontra sobre Lisboa, feita por um romano, é a do académico Marco Terêncio Varrão (116 – 27, a. C.). Informa que as éguas locais concebem pelo vento, sem necessidade de terem contacto com os machos, lenda provavelmente transmitida pelos povos locais, (ver na Revista Municipal de Lisboa, n.º 56 (1953), o artigo de Arlindo de Sousa, Antologia de Lisboa).

Encontram-se também referências a Lisboa em Pompónio Mela ( (no De Situ Orbis), em Estrabão e Ptolomeu.

Vários viajantes ingleses de nomeada, a partir da Restauração (1640), visitaram Portugal e estiveram em Lisboa, tendo-se referido à nossa capital nos seus escritos, em prosa e em verso. Falamos a seguir de alguns dos mais conhecidos:

No século XVIII, há a referir Henry Fielding (1707-1754), autor de Tom Jones, tido como o pai do romance inglês. Escreveu Journal of a Voyage to Lisbon, em que conta a sua viagem para Portugal, onde veio procurar descansar do esgotamento provocado pelo seu trabalho como magistrado. Foi a sua última obra, pois Fielding faleceu em Lisboa em 8 de Outubro de 1754.


William Beckford  (1760-1844), , político e viajante inglês, autor de obra variada, com destaque para o conto oriental Vathek esteve em Portugal nos fins do século XVIII, e escreveu, com bastantes anos de atraso, narrações das suas viagens intituladas, Italy, With Sketches of Spain and Portugal e Recollections of an Excursion to the Monasteries of Alcobaça and Batalha. Na segunda obra descreve pormenorizadamente um passeio, feito a partir da sua casa de Lisboa.

Byron (1788 – 1824), um dos grandes poetas românticos ingleses, esteve em Lisboa em 1809, no início de uma grande viagem pelo sul da Europa. No Childe Harold’s Pilgrimage, canto I, estrofe XVII, dá uma imagem de Lisboa bastante negativa, embora comece por gabar o aspecto à primeira vista. Aliás Byron dá uma imagem negativa dos portugueses em geral, chegando a lamentar que a natureza tenha sido excessivamente pródiga com eles, quanto à paisagem. Transcreve-se a seguir a estrofe acima referida:

But whoso entereth within this town,
That, sheening far, celestial seem to be,
Disconsolate will wander up and down,
Mid many things unsightly to strange e’e;
For hut and palace show like filthily,
The dingy denizens are reared in dirt,
No personage of high or mean degree
Doth care for cleaners of surtout or shirt,
Though shent with Egypt’s plague, unkempt, unwashed, unhurt.

No número 60 da Revista Municipal, do ano de 1954, no artigo Lisboa no folclore e na poesia culta do Brasil, Gastão de Bettencourt faz uma resenha muito variada, que inclui desde Evocação lírica de Lisboa, de Cecília Meireles, Entre-mar e Rio, do diplomata Ribeiro Couto, até ao Auto dos Fandangos, dos mestiços do Nordeste Brasileiro.

Mais recentemente, o alemão Thomas Mann (1875-1955), faz decorrer parte do seu último romance, Bekenntisse des Hochstaplers Félix Krull (As Confissões de Félix Krull, Cavalheiro de Indústria), em Lisboa. Trata-se aliás de um romance, que decorre vagamente no fim do século XIX, e que ficou por acabar, devido à morte do autor. Félix Krull assume a identidade do marquês de Venosta, nobre luxemburguês, e substitui-o numa viagem a que este pretende escapar, devido a um problema de amores. E numa Lisboa não muito real vive algumas peripécias.

O último romance de Erich Maria Remarque (1898-1970), Die Nacht von Lissabon (Uma noite em Lisboa) trata do problema dos refugiados durante a II Grande Guerra Mundial, que passam por Lisboa em trânsito para a América.


book trailer for "Die Nacht von Lissabon" from Christian Selent on Vimeo.



John Le Carré (1931 - ), em The Russia House, um romance de espionagem que decorre no fim da Guerra Fria, põe o herói a ser interrogado pelos serviços secretos ingleses em Lisboa. É famosa a referência ao Príncipe Real, e aos discursos de um velho místico que seria o professor Agostinho da Silva.


António Muñoz Molina (1956 - ) escreveu El Invierno en Lisboa, o qual, na modesta opinião de quem escreve estas linhas, nada tem a ver com a capital de Portugal. Usa a sonoridade do nome, e do personagem central da novela (?), Biralbo. Alguns dizem que é uma homenagem ao romance negro, e ao jazz. Será?

A Morte Branca, de Pierre Kyria (1938 - ), recebeu referências elogiosas na imprensa francesa. O crítico do Nouvel Observateur comparou o romance de Kyria a uma obra de Agatha Christie, onde se está sempre à espera de revelações fulgurantes, e o do Magazine Littéraire considerou-o um grande livro. É uma história em que um jovem romântico se vê envolvido em situações complicadas, decorrendo a trama numa pensão familiar de Lisboa. Kyria revela um conhecimento grande da cidade, embora a história pudesse decorrer em qualquer outro local. Este escritor também escreveu Lisbonne, livro sobre o qual não temos referências.

A Small Death in Lisbon, de Robert Wilson (1957 - ) é um romance policial, que trata de sequelas do tempos dos nazis, e de crimes actuais.

O Homem de Lisboa, de Thomas Gilfford, conta a história da burla de Alves dos Reis.

Em El Club Dumas, Arturo Pérez-Reverte (1951 -), faz Lucas Corso, o personagem central, passar por Lisboa a caminho de Sintra, procurando um livro. E contar recordações de outra viagem a Lisboa.

Leslie Charteris (1907 – 1993), criador de O Santo, fez decorrer em Lisboa uma das aventuras do seu herói, The Saint in Pursuit. O título da obra em português é O Santo e o Mistério de Lisboa.


O primeiro romance do norte-americano Richard Zimler (1956 - ), O Último Cabalista de Lisboa, decorre na Lisboa do início do século XVI, e tem como pano de fundo os massacres de cristãos novos.

Pierre Mercier, suíço de língua francesa, escreveu Comboio Nocturno para Lisboa, a história de um suíço que impede o suicídio de uma portuguesa, e a seguir lê um livro de um português resistente à ditadura. Desperta-se nele a curiosidade de saber mais sobre este homem, e assim vem até Portugal.

sábado, 23 de outubro de 2010

Fotopoemas - A ver uma fotografia

Texto e poema de João Machado
e Raul Brandão
Fotografia de José Magalhães

Esta fotografia do José Magalhães (terá sido tirada no Douro? Já para além da barra?) prende a atenção e faz sonhar. Ocorre pensar no mar, mas no mar alto. Os barcos estão amarrados, mas o homem que se vê parece preparar-se para sair para a faina. Pus-me a contemplar e lembrei-me do Raul Brandão:




Luz e Cor

(De Os Pescadores, de Raul Brandão)

O mar às vezes parece um véu diáfano, outras pó verde. Às vezes é dum azul transparente, outras cobalto. Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera. De manhã desvanece-se, de tarde sonha. E há dias de nevoeiro em que ele é extraordinário, quando a névoa espessa pouco a pouco se adelgaça e surge atrás da última cortina vaporosa, todo verde, dum verde que apetece respirar. Diferentes verdes bóiam na água, esbranquiçados, transparentes, escuros, quase negros, misturados com restos de onda que se desfaz e redemoinha até longe. E ainda outros azulados, com a cor das podridões. Tudo isto graduado e dependendo do céu, da hora e das marés. Há momentos em que me julgo metido dentro de uma esmeralda, e, depois, numa jóia esplêndida, dum azul único que se incendeia. Mas a luz morre, e a luz agonizando exala-se como um perfume. É uma grande flor que desfalece. O doirado não é simplesmente doirado, nem o verde simplesmente verde: possuem um alma delicada e extática.

Penso que este trecho do Raul Brandão nos põe a ver o mar. Permito-me, a seguir, e a propósito da contemplação do mar, dedicar ao pescador (e claro, ao José Magalhães), uns pobres versos:

Pescador que vais ao mar
Não te esqueças do teu lugar
Aqui, bem seguro, junto ao cais
Longe da agitação para onde vais

O mar é transparente e azul
Quanto mais te chegas ao sul
As ondas sobem e vais sonhar
Com ninfas que te vão abordar

Na tua rede já pesa o peixe
Em terra já há quem se queixe
E diz que o pescador faz falta
Antes que venha a maré alta.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Os valores de todas as coisas

João Machado

Hoje em dia muitas das pessoas que procuram acompanhar a vida política, em Portugal e lá fora, manifestam perplexidade perante a incapacidade dos cidadãos em fazer com que os seus governos e demais órgãos de soberania desenvolvam políticas conformes os interesses gerais da sociedade. Essa perplexidade é fácil de perceber em países sob ditadura, em que as pessoas estão subjugadas pela força bruta, com as consequências evidentes. As ditaduras existem obviamente para impor políticas contrárias aos interesses da sociedade, defendendo apenas os interesses de uns poucos, que não têm pejo em esmagar a maioria que oprimem. As teocracias e os estados neoliberais são exemplos deste estado de coisas. As ditaduras militares também, por mais bem intencionados que sejam os seus promotores.

Mas nos regimes democráticos ou tidos como tais a perplexidade de que falamos também existe, e de que maneira. A actual crise, que muitos procuram resumir à sua componente financeira, veio avivar essa perplexidade. Melhor dito, pôs em evidência que os governos eleitos não controlam sectores decisivos das sociedades ditas democráticas. Que a economia capitalista é regida pelos bancos e sistemas financeiros, e que estes escapam ao controlo dos governos. Contudo, parece que estes (os governos) ainda são responsáveis pelos poderes legislativo e deliberativo dos países aonde foram eleitos.

Sem dúvida que grande parte da responsabilidade por este estado de coisas cabe aos cidadãos. Nos países democráticos (ou tidos como tal) já têm acesso a informação relevante e a possibilidades de participação em muitos mecanismos que permitem a participação na gestão na vida da sociedade. Contudo esta participação é reduzida, ou não é feita da melhor maneira. Porque será?

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George Monbiot é um colunista do Guardian, que aqui nos apresenta uma hipótese explicativa, que pessoalmente julgo que devemos ter em conta. Activista político e ambiental, defensor dos direitos humanos, forte oponente das políticas de Tony Blair, o George Monbiot é autor de vários livros, como Captive State, The Corporate Takeover of Britain, The Age of Consent, e outros.

É graduado por várias universidades britânicas, participando regularmente dos programas de ensino de Oxford, Bristol, Keele e outras. Proponho-vos a leitura do artigo seguinte, que o George Monbiot publicou recentemente no Guardian:


Os valores de todas as coisas (I)


Uma das coisas mais estranhas das democracias, ocidentais e não só, é a incapacidade dos seus cidadãos em escolher as políticas que melhor os servem. A maioria tem acesso a todo o tipo de informação, mas na altura das opções as escolhas são normalmente favoráveis a interesses de certos grupos restritos, diversos, por vezes mesmo opostos aos dessa maioria. É fácil encontrar exemplos, a habitação, a educação, o ensino … As causas progressistas estão a falhar: vamos ver como elas podem ser revitalizadas.

Por George Monbiot. Saído no Guardian  em 12 de Outubro de 2010. Ver também o site de George Monbiot.

Pois cá estamos nós, formando uma fila ordeira no portão do matadouro. O castigo dos pobres pelos erros dos ricos, o abandono do universalismo, o desmantelamento da protecção que o estado proporciona: para além de escassos protestos, até à data nada de isto nos motivou para uma resistência aberta.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A Situação Internacional. Interrogações.

João Machado

Qual o alinhamento de forças no mundo após a queda do Muro de Berlim e o ataque às Torres Gémeas? Qual o papel da defesa dos direitos humanos? Aonde chegará a  China nos próximos anos? Não será o equilíbrio das contas públicas um novo actor na cena internacional?


Após a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética os Estados Unidos ficaram na cena internacional como a única superpotência mundial. Ciosos do seu papel, têm procurado junto da opinião pública justificar a manutenção desse estatuto, apresentando-se como os campeões da defesa da democracia e dos direitos humanos. Têm sido ajudados consideravelmente nesse papel pelas grandes limitações nessas matérias existentes na muitos países, incluindo nalguns que aparecem a fazer-lhes oposição, como é o caso daqueles em que predomina a religião islâmica. Mesmo tendo em conta que existem grandes deturpações causadas pela parcialidade na informação sobre a vida nos vários países, conforme a sua posição em relação ao Ocidente (atente-se nas diferenças no modo como se apresenta à opinião pública a situação no Egipto ou em Marrocos, por um lado, e no Irão por outro), esse tem sido um trunfo que tem sido usado com êxito junto da opinião pública. O ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque (não vamos neste momento levar em conta as teorias que têm sido formuladas sobre este acontecimento) e a eleição de Barack Obama reforçaram, de modos diferentes, o êxito da propaganda norte-americana.

A defesa dos direitos humanos é a pedra de toque de uma civilização. Um dos seus aspectos fundamentais é com certeza a defesa dos direitos das mulheres. No Monde Diplomatique de Setembro último, Serge Halimi, no seu editorial Fotografias sem Luzes, refere-nos o caso de Bibi Aisha, mulher afegã mutilada eventualmente pelos talibãs (há informações de que o autor do crime terá sido o sogro), que foi capa da Time Magazine, com o título O que vai acontecer se abandonarmos o Afeganistão? Halimi refere também o caso de Sakineh Mohammad-Astiani, iraniana chicoteada por adultério. Analisa o peso e o significado destes símbolos, e sublinha a evidência de que a presença dos exércitos ocidentais no Afeganistão não impediu a mutilação de Bibi Aisha. Acaba lembrando que os talibãs também terão fotografias de civis mutilados ou mortos pelos mísseis ocidentais, que a Time Magazine também há de publicar. Pergunta se uma dessas fotografias será capa da revista, e qual a legenda.

Notória é a pouco simpatia que tem merecido aos americanos a ascensão do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) na cena internacional. Estas potências têm procurado, de um modo não muito evidente, criar uma alternativa na cena internacional, construindo relações que não são à partida abençoadas por Washington. Lula, nos últimos tempos da sua presidência distinguiu-se nesse campo, mostrando uma grande capacidade diplomática e a ascensão do Brasil nos últimos anos. Mas, deste grupo de nações, sobressai sem dúvida a China.

Neste momento não nos vamos debruçar sobre os problemas internos da China, nem sobre o caso do Prémio Nobel da Paz, Liu Xiaobo. Vamos apontar apenas um aspecto, num campo que tem estado na primeira linha, o campo financeiro.  É sabido que a China tem vindo a fazer grandes investimentos no estrangeiro, inclusive comprando dívida pública de outros países, incluindo Portugal. Actualmente parece que um quinto da dívida pública norte-americana está nas suas mãos. Num debate recente em Seul com Paul Krugman (ver The Guardian, do dia 14 de Outubro corrente), o economista Niall Ferguson, que é de opinião que a situação das finanças públicas dos Estados Unidos é pior que a da Grécia, afirmou que em breve se verão forçados a fazer cortes na defesa para minorarem a seu défice. Por um lado, é caso para dizermos que temos outro actor na cena internacional, o défice orçamental. Por outro, é de pôr a interrogação de até onde conseguirá a China ir, no plano internacional?