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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Continuo a querer mudar o mundo



Chamo-me Carlos Eduardo da Cruz Luna e nasci em 16 de Março de 1956. Sou Professor de História no Ensino Secundário, há mais de trinta anos e quase sempre em Estremoz. Sou licenciado em História. A minha família é de Estremoz, e só acidentalmente nasci em Lisboa. Sempre fui um entusiasta de grandes causas... grandes... pelo menos na minha perspectiva. Sou um pouco sonhador, mas sigo o princípio do Poeta Aleixo: "Que importa perder a vida / na luta contra a traição,/ se a razão, mesmo vencida,/não deixa de ser razão". Sou casado e sem razões de queixa, tenho dois filhos (uma e um).

Em 1970, tinha eu 14 anos, quando comecei a duvidar do regime em que se vivia em Portugal. Contribuí com alguma actividade anti-salazarista/marcelista para incomodar o "regime". Corri alguns riscos de prisão, claro. O 25 de Abril apanhou-me com 18 anos e uma vontade imensa de mudar o Mundo. Militei no M.E.S.. licenciei-me História, leccionando já. Continuo a querer mudar o Mundo, e tenho uma perspectiva de esquerda sobre a maioria dos problemas do mesmo Mundo.

Tenho escrito sobre muitas coisas, normalmente batendo-me por causas que considero justas, desde a liberdade para a Birmânia até aos Direitos do Povo Curdo ou a independência do Sara Ocidental, desde a ecologia até ao desenvolvimento sustentado de Portugal... e que não seja feito contra ninguém. Não gosto do pessimismo em que vivemos, não porque ele por vezes não tenha razão para existir, mas porque acredito que só NÓS, Portugueses, nos podemos mudar a nós próprios. Daí que, embora goste da Literatura de Saramago, considero um disparate as suas idéias sobre a integração de Portugal em Espanha ( ou em qualquer outro País ), embora não seja contra a ideia de a Humanidade se federar TODA e de até surgirem uniões de Países, equilibradas, de que Portugal poderá fazer parte.

Escrevi um livro ("Nos Caminhos de Olivença"), em que, para além da documentação que habitualmente acompanha livros sobre este tema, juntei uma descrição completa (com fotografias) da Região, que percorri, aldeia a aldeia, "monte"(herdade) a "monte". Só consegui fazer edições pequenas, "de autor". Sou regionalista alentejano. Vou quase semanalmente a Olivença, onde tenho muitos amigos ( e alguns não-amigos). Procuro continuar a estudar a região, e apoiar iniciativas visando a recuperação das antigas História e Língua.

Escrevo sobre tudo e mais alguma coisa. Domino bem o inglês, o francês, o castelhano (com limitações), o alemão (com muitas limitações), o italiano (ainda com mais limitações). Percebo algo de catalão. Mas... o que domino melhor é o português, em especial a variante alentejana. Enfim, vou muito a congressos e colóquios, como interveniente. Até faço poesia, (às vezes). Adoro animais...

Assim de repente, eis o que vos posso dizer sobre a minha pessoa.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Com Olivença na lembrança

Carlos Luna

MOTE

Com Olivença na lembrança
Sinto eu que é preciso
Uma história de esperança
Contar com muito siso

I
Nesta Terra Alentejana
Há uma parte separada,
Uma urbe abandonada
Para além do Guadiana.
Nunca foi Castelhana,
Só queria segurança
E ter boa vizinhança.
É um caso de conflito
Pois este poema é dito
COM OLIVENÇA NA LEMBRANÇA.

II
Todos se lembram dela
E está no nosso coração.
Recorda-se com indignação
Embora tendo cautela,
Por isso digo a Castela
Nesta fala de improviso,
Nem que seja como aviso,
Pois a Espanha é finória,
Que lembrar a sua História
SINTO EU QUE É PRECISO!

III
É preciso não esquecer
Que Olivença, Terra Lusa
Por Espanha está reclusa,
Para Portugal a perder;
Ora está bem de ver,
Para haver confiança
Sem desejo de vingança,
Algo se tem que mudar.
Só assim se vai tornar
UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA...

IV
Espanha forte e orgulhosa
Na cidade das oliveiras
Não tem mostrado maneiras
E mantém, desdenhosa,
Uma situação mentirosa!
Permita, sem fazer juízo
Cada um ser conciso,
Sem esconder a verdade
O que se passou na cidade
CONTAR COM MUITO SISO!!!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Poesia de Carlos Luna lida em voz alta em Olivença em 12 de Junho de 2010

OLIVENÇA É POESIA (ou "A POESIA DE OLIVENÇA")

Olivença, fonte de tanta poesia,
cidade tão cheia de encantos,
de variadas belezas elegia,
de memórias de heróis e santos.

Em tuas casas, em cada frontaria,
se vêem motivos para cantos,
seja em palácios de fidalguia,
seja em mais humildes recantos.


Diante de cada Igreja, um poema!
Olhando as muralhas, uma rima!
Em cada rua, "sente-se" um tema!

Nas aldeias, com o Sol por cima,
e no meio da brancura extrema,
surge inspiração que te sublima!


(Estremoz, 06 de Outubro de 2008)

TRAINDO PESSOA?(EM DEFESA DO PORTUGUÊS DE OLIVENÇA)


«A minha Pátria é a Língua Portuguesa»,/ disse o imortal Fernando Pessoa./ Esta frase de suprema delicadeza/ tornou-se mote no Brasil e em Lisboa.//


Em Português se exprime uma certeza,
ou uma emoção, no Maputo ou em Lisboa;
na mesma língua se elogia a beleza
de um samba, de um fado na Madragoa!


O Português fala-se com dedicação,
a Língua usa-se até para uma ofensa;
nela se exprime ódio, dúvida, e paixão.
Mas... pouca gente, ao falá-la, pensa
acudir, como seria sua obrigação
ao Português que se fala em Olivença !

(30-Março-2008)

terça-feira, 27 de julho de 2010

O tempo em Olivença


Carlos Luna


Em Olivença sinto o peso do tempo,
sinto a sua força onde ela mais dói.
Sinto o seu peso como contratempo
na morte da evocação de cada herói

Em Olivença vejo o efeito do tempo,
vejo-o em cada mentira que ele condtrói,
em cada casa caída, em cada "passatempo"
oco, falso, qu´as páginas do passado destrói.


Em Olivença cala-se do povo a memória
em cada imperativo, diz-se, de mudança,
de cada vez que se oculta uma velha glória.


Em Olivença, só não morreu a esperança
de um dia, em liberdade, se contar a História
do passado, dos teus avós, a qualquer criança!

Estremoz, Março de 2007

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras



Carlos Luna

São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. publicamos hoje as últimas 12, da 61ª à 72ª , recolhidas porVentura Ledesma Abrantes.

61-
Acabou-se a brincadeira,
não metas mais a colher!
Bate agora à dianteira,
que tu vais ser minha mulher!


62-
Anda cá para os meus braços
se tu vida queres ter,
que os meus braços dão saúde
a quem está para morrer!


63-
Os olhos daquela aquela,
os olhos daquela além,
os olhos daquela flor
são os olhos do meu bem!


64-
O meu amor é um cravo
que ao craveiro fui colher;
para o craveiro dar outro
tem de voltar a nascer.


65-
Não há luar mais formoso
que o da noite de São João,
nem luz que mais ilumine
o meu pobre coração!


66-
Comprei arrecadas de ouro
na feira de São Mateus;
lembranças do meu tesouro
e dos beijos que ele me deu.


67-
António, meu oratório,
meu espelho de vestir;
quem tem amores com António
volta ao céu e torna a ir!


68-
Minha mãe, quando eu casei,
prometeu-me quanto tinha.
Depois que me viu casada
deu-me um saco de farinha!

69-
O coração já está preso,
não cantes mais "soledade"*
Já o virei do avesso
para curar a saudade.


*solidão



70-
Já morreu o vil traidor,
para os infernos muitos anos;
quis vender o nosso povo
ao poder dos castelhanos.(*)


71-
Cosmander foi um vilão
ao serviço dos "mariolas",
mas teve morte de cão
com sepultura de esmola.(**)

72-
Era um diabo, um malvado,
sem honra nem coração;
dorme, filho, descansado,
que já morreu esse cão!(***)

(*), (**), (***)- Referências a João Pascácio Cosmander, ou Jan Ciermans, um flamengo (belga ou holandês) que, estando ao serviço do exército português em 1640, resolveu trair e pôr-se do lado de Castela. Tentou um ataque traiçoeiro a Olivença, mas foi morto pelo oliventino Gaspar Martins)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras


Carlos Luna


São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. Iremos publicando todos os dias uma dezena de quadras: hoje, da 51ª à 60ª (Ventura Ledesma Abrantes).

51-
Eu já não gosto de ti,
tenho o coração sovado.
Tenho agora amores novos
deixei já os teus cuidados.

52-
Adeus, que me vou embora
para a terra das andorinhas;
deita cartas no correio
se quiseres novas minhas

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras


Carlos Luna
São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. Iremos publicando todos os dias uma dezena de quadras: hoje, da 41ª à 50ª (Ventura Ledesma Abrantes).

41-
Quando eu era pequenino

que jogava o "repião"*
davam-ma as moças beijinhos;
agora já não me dão!
*pião

42-
O meu amor ontem à noite
a sua vida me contou,
e que se ia deitar a um poço.
Se ele vai, eu também vou!


43-
Meu amor quer que tenha
juízo e capacidade.
Tenha ele que é mais velho,
já vai caindo na idade.

44-
Homem alto e delgadinho
é a minha inclinação,
que aqueles que são baixinhos
nem para ver a Deus são.

45-
Fita verde no chapéu,
ao longe mete aparência.
Quantos amores se perdem
pela pouca "diligência"*

*cuidado na aparência

46-
És branca como o leite,
corada como a cebola;
amores, quantos quiseres,
casar contigo,... xó rola!

47-
Minha mãe ouviu lá fora
tu jurares devagarinho,
dizer-me que me querias
e roubares-me um beijinho!

48-
Eu prometo voltar breve,
ir de joelhos à cidade,
se me sares da doença,
Nosso Senhor da Piedade.

49-
Eu também já fui à festa
e fiz promessas a Deus
de voltar no Ano Novo
a dançar no São Mateus.

50-
Tenho o coração negrinho
deitado neste teu peito;
não fales alto-baixinho
assim é que me dás jeitinho.



sábado, 10 de julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras

Carlos Luna

São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. Iremos publicando todos os dias uma dezena de quadras: hoje, da 21ª à 30ª (Ventura Ldesma Abrantes).

21-
Eu sou guarda no Freixial,

lá nas bandas do Guadiana.
Já matei um pato real
com uma espingarda de cana.


22-
Quando eu era pequenino,
ainda não sabia andar,
já minha mãe me dizia
"que fino é para namorar".


23-
Fui à Serra colher trevo,
ancontrei o trevo colhido.
Estou se sim ou não me atrevo
a arranjar amores contigo.


24-
Quem me dera, dera, dera,
quem me dera, dera, dar,
beijinhos até morrer,
abraços até cansar.


25-
Quando eu principiei a amar
de amores não entendia;
agora já fiquei mestre
daquilo que não sabia.


26-
Cantigas são pataratas,
às vezes leva-as o vento.
Quem se fia de cantigas
é falto de entendimento.


27-
Já lá vai Abril e Maio,
já lá vão esses dois meses,
já lá vai a liberdade
que eu tinha contigo às vezes

28-
Eu quero bem, mas não me queres
dizer a quem quer(es) bem.
Eu quero bem a uma ingrata,
dizê-lo não me convém.


29-
Eu quero contigo passas,
eu quero contigo figos,
eu quero que tu me faças
o que eu fizer contigo.

30-
Margarida, a tua vida
não a contes a ninguém,
que uma amiga tem amigos,
e outra amiga, amigos tem.



(Continua)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras

Carlos Luna


São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. Iremos publicando todos os dias uma dezena de quadras:  hoje, da 11ª à 20ª (Ventura Ldesma Abrantes)

11-
Tenho corrido mil terras,
cidades mais de quarenta,
tenho visto caras lindas,
só a tua me contenta.


12-
Adeus largo do Calvário,
por cima, por baixo não.
Por cima vão os meus olhos,
por baixo, meu coração.


13-
O Monte de Santa Maria
tem vinte e quatro janelas.
Quem me dera ser pombinho
para pousar numa delas.


14-
Esta noite choveu neve
no gargalo do meu poço;
todas as rosas abriram
menos o meu cravo roxo.


15-
Abalei da minha terra,
olhei para trás chorando.
Adeus terra da minha alma,
que longe me vais ficando.


16-
Eu sou ganhão da ribeira,
da ribeira sou ganhão.
Lavro com dois bois vermelhos
que fazem tremer o chão.


17-
Ó minha mãe, minha mãe,
companheira de meu pai!
Eu também sou companheira
Daquele cravo que ali vai!


18-
Eu tenho uma silva em casa
que me chega à cantareira.
Busque meu pai quem o sirva/
que eu não tenho quem me queira.*


19-
O Sol, quando nasce, inclina
nas barrancas do Guadiana.
Eu também ando inclinado
nesses teus olhos, Mariana!


20-
Eu já vi um valentão
à briga com uma cidade;
logo ao primeiro encontrão
derrubou mais de metade!
_______________

*Mais lógico: que eu já tenho quem me queira.

(Continua)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras -

Carlos Luna

São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes  (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. Iremos publicando todos os dias uma dezena de quadras: Eis as primeiras 10 (Ventura Ldesma Abrantes)

1-
Ó Vila Real dos coxos,
São Bento dos aleijados,
São Domingos dos bons moços,
São Jorge dos mal talhados.
2-
A fonte do Val de Gral
está no alto da Serra d´Olor.
É água que a ninguém faz mal,
e dali bebe o meu amor.
3-
O meu coração é teu,
o teu é de quem tu queres.
Uma troca faria eu,
lindo amor, se tu quiseres.
4-
Se eu tivesse não pedia
coisa nenhuma a ninguém.
Mas, como não tenho, peço
uma filha a quem a tem.
5-
Daqui para a minha terra
tudo é caminho e chão!
Tudo são cravos e rosas
postos pela minha mão.
6-
Silva verde não me prendas
que eu não tenho quem me solte;
não queiras tu, silva verde,
ser causa da minha morte.
7-
Azeitona pequenina
também vai ao lagar;
eu também sou pequenina
mas sou firme no amar.
8-
Saudades, tenho saudades,
saudades das feiticeiras.
Lembrança das amizades
da "Terra das Oliveiras".
9-
A laranja quando nasce
logo nasceu redondinha;
tu também quando nasceste,
nasceste para ser minha.
10-
Na vila de Olivença
não se pode namorar!
As velhas saem ao Sol
e põem-se a criticar!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Os irmãos Marçal: três alentejanos de Olivença com Napoleão



Carlos Luna

É um assunto pouco referido, mas portugueses houve que integraram as forças de Napoleão. Nem sempre voluntariamente, diga-se. De qualquer forma, não é justo que sejam hoje tão esquecidos que muita gente desconhece o facto.

Vamos recordar três deles, três irmãos alentejanos que estiveram entre os soldados de Napoleão que morreram nos campos de batalha da Rússia.

Em 1807, a Primeira Invasão Francesa ocupara Portugal. Logo se organizara uma Legião Portuguesa, sob o comando do Marquês de Alorna, para servir Napoleão. Era este, aliás, um procedimento comum nos países ocupados por ordem do Imperador nascido na Córsega.

sábado, 3 de julho de 2010

Caetano José da Silva Souto-Maior, um alentejano na corte de D.João V e uma figura popular de Lisboa - 8

Carlos Luna

Soneto a um fidalgo morto por um touro (este vai repetido)

Dos golpes no confuso labirinto
morre ao mais duro o touro mais atento,
pois sendo igual em todos o instrumento
em tudo o braço heróico o fez distinto.

Em cólera abrasado, em sangue tinto,
conhece o bruto o alto régio alento,
e ilustrando na morte o nascimento
obrou como a razão o que era instinto.


Para acabar elege uma ferida,
mas na eleição a rápida braveza
passa de irracional, fica estendida.


E em régia adoração de tanta alteza,
chega hoje a ser o estrago de uma vida
mais que injúria, lisonja à natureza.

Soneto a um coronel, tido como cruel para os seus subordinados, e... zarolho! Este soneto ainda era considerado desrespeitoso em 1855.

Coronel satanás, Fernão zarolho,
cruel hárpia das que o abismo encerra,
na empresa de afligires esta terra
de que serve o bastão, se tens esse olho?


Vai-te deitar na granja de remolho
onde o vilão, porque o escorchas, berra;
pois não é para o ilustre ardor da guerra
Abóbora com feitio de repolho.


Se soubeste juntar com força rara,
sendo em ti o prender genealogia,
de galinha o louvor, de mono a cara,


anda, prende, e "ateima" na porfia,
pois em Aldegavinha tens a vara
e n´Ásia, em Cananor, a feitoria.


Soneto a um pregador, a um "cura", da Ordem dos Grilos, célebre pelo seu amor à bebida. Este soneto é o  último que chegou até nós de Caetano José da Silva Souto-Maior:

Tal sermão, e tão grande, e sem parelha
do nosso reverendo Frei Palrilha,
será d´asnos oitava maravilha
por somente constar de muita orelha.

Eu quando o vi com cara tão vermelha,
dizendo as asnidades em quadrilha,
sem reparar nos calos da servilha
julguei tudo fumaças da botelha.

Se o sermão se pregasse na Pampulha,
de toda a marotice a vil canalha,
metera muito embora o frade a bulha.


Mas eu venho a inferir nesta baralha
que ou o tal frade a todos nos empulha,
ou ele certamente come palha.


OS 22 sonetos sobreviventes de Caetano José da Silva Souto-Maior foram  "salvos" por José Maria da Costa e Siva, e publicados em 1855. Há outros poemas "sobreviventes".

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Caetano José da Silva Souto-Maior, um alentejano na corte de D.João V e uma figura popular de Lisboa - 6

Carlos Luna



Soneto a uma dama que enviou, zangada, ao poeta, uns escritos que deste recebera... e que ele queimou.















Morrei, doces despojos, que algum dia
fostes de Clori(*) persuasão gloriosa,
que a chama, ainda que triste, venturosa,
vai conservar no fogo a idolatria.


Para desprezo ser de Clori ímpia
basta arder nessa luz pouco formosa,
porque da chama, que é menos preciosa,
não fica sendo a cinza menos fria.


Não fostes cridos, viestes desprezados,
e das iras de Clori como objectos
sereis sempre uma injúria aos meus cuidados.


Eu só posso mostrar nestes afectos,
fazendo-vos agora desgraçados,
que sois constantes, e que sois discretos.

______

(*) Clóri: deusa grega das flores; a "Mulher".

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Apresentando Carlos Luna



Carlos Eduardo da Cruz Luna, nasceu em 1956 em Lisboa, de forma perfeitamente acidental, como faz questão de salientar Oriundo de uma família de Estremoz, é nessa cidade alentejana onde vive e ensina. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é Professor de História, há 32 anos. No período que se seguiu à Revolução de Abril militou no MES. Ao longo da sua vida, tem-se batido por causas que considera justas, desde a liberdade para a Birmânia até aos Direitos do Povo Curdo ou a independência do Sara Ocidental, desde a ecologia até ao desenvolvimento sustentado de Portugal... e entre essas causas privilegia a da restituição de Olivença a Portugal. É de sua autoria o livro "Nos Caminhos de Olivença". Assumindo-se como um regionalista alentejano, visita quase semanalmente Olivença, onde tem muitos amigos e alguns não-amigos., acrescenta. Continua a estudar o território usurpado, apoiando iniciativas que visem a recuperação das antigas História e Língua.

A sua opinião sobre a questão de Olivença é de que esta tem muitas semelhanças com o diferendo que o estado espanhol mantém com o Reino Unido acerca de Gibraltar. Porém enquanto os espanhóis aproveitam todas as oportunidades para debater a questão de Gibraltar, "o Estado Português não fala em Olivença, é quase uma posição clandestina". É, por isso, uma luta difícil. Mas lutar por uma causa que considerou sempre justa é uma questão de princípio.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Vicente Lusitano, um oliventino - o maior músico português do século XVI


Carlos Luna

Há já dez anos, Lisboa homenageou, na sua toponímia, um músico português e alentejano renascentista,dando o seu nome à (agora  antiga) Rua Particular à Quinta da Torrinha, na freguesia da Ameixoeira, a norte do Lumiar. Convém recordá-lo, para que se não esqueça que o maior músico nacional do século XVI foi um filho da maior região portuguesa.Falamos de um homem que passou à História com o nome de Vicente Lusitano, um dos poucos músicos portugueses que conquistou audiência musical no estrangeiro, e logo como compositar e teórico afamado no ramo . Foi mesmo professor em Roma, Viterbo, e Pádua.

A primeira referência de vulto a Vicente Lusitano data de Junho de 1551. Nesse ano, durante uma recepção musical em casa do banqueiro florentino Bernardo Acciaioli, em Roma, por causa de uma composição
musical então ouvida (o canto gregoriano da antígona "Regina Coeli"), surgiu um diferendo em torno de qual dos géneros pertenceriam ascomposições musicais do tempo. Com uma opinião, estava Nicola Vicentino (1511-1576), italiano, ao serviço do Cardeal de Ferrara. Com opinião contrária, estava VICENTE LUSITANO, que dizia que o género musical seria o diatónico, e não um sistema misto de três géneros
(diatónico, cromático, e enarmónico).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ventura Ledesma Abrantes – um português de Olivença

Carlos Luna*

1) Primórdios

Ventura Ledesma Abrantes não nasceu em Lisboa, mas foi na capital portuguesa que desenvolveu a sua actividade criadora. Nela estabeleceu laços de amizade, se instalou como comerciante (mais concretamente como Livreiro e Editor), e, como veremos, foi escritor e polemista. Nasceu a 13 de Maio de 1883, em Olivença, numa casa ao lado da Porta do Calvário, e faleceu em 12 de Junho de 1956, no Estoril. Não foi um homem "acomodado", antes pelo contrário, foi um lutador. A sua juventude foi atormentada por alguns percalços. Filho de um barbeiro de Olivença, pro-português, membro activo de um grupo que, localmente, lutava pela reintegração de Olivença em Portugal e pela manutenção da Cultura lusitana (História, Língua, Tradições) naquela cidade, acompanhou o seu pai no exílio. Na verdade, o pai de Ventura, atingido por represálias, e por vários anátemas , por parte das autoridades espanholas, veio com a família para Lisboa, por volta de 1903. Para além da família de Ventura Ledesma Abrantes, militavam então em Olivença, a favor de Portugal, entre outros, homens como Manuel Gonçalves Verão, Firmino Martins Rui, e Manuel Justo Gonçalves. Destes homens quase não se fala hoje. Mas de Ventura diz-se, ainda hoje em Olivença, que fugiu para Portugal por causa de um crime... ninguém especificando que esse "crime" foi simplesmente ser favorável a Portugal... mesmo porque ninguém é disso informado...




2) Um homem de (muita) cultura

Ventura Ledesma Abrantes, livre das pressões a que fora sujeito na sua terra, lançou-se em inúmeras actividades, normalmente de carácter cultural. Era um homem irrequieto, um diletante, um entusiasta. Vemos Ledesma Abrantes, em 1911-1912, associado à criação da Universidade Livre de Lisboa (obra, fundamentalmente, de Reinaldo Ferreira). Depois, encontramo-lo na Lutuosa Nacional, com sede no Porto. A ele se deve a abertura, em 1931, da primeira Feira do Livro de Lisboa com carácter oficial. ( houve uma edição em 1930, mas oriunda de iniciativas privadas ). Ele mesmo era o Presidente da Associação de Classe dos Livreiros de Portugal, embrião, após várias metamorfoses da actual A.P.E.L. ( Associação Portuguesa de Editores e Livreiros ). Ventura Ledesma Abrantes tinha uma livraria, que era também uma Casa Editora, na Rua do Alecrim (n.º 80 e 82), que fechou as suas portas dois anos antes da sua morte.