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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Guerra Colonial - Um testemunho de Adão Cruz



O efeito de uma mina


Adão Cruz em Binta- Guidage
Binta-Guidage
Fiz este trajecto penoso, mais do que uma vez, entre Binta e Guidage, mas em 1967. Eram aquartelamentos

que faziam parte do meu batalhão. De uma das vezes, a coluna em que eu seguia demorou cerca de sete horas para fazer vinte quilómetros, por causa dos atascamentos. Nesse dia fomos atacados por um enxame de abelhas selvagens. Para quem não sabe, tal ataque era mais temido do que uma emboscada. Para além de consequências menos graves, tive um soldado com um choque anafiláctico que quase me ia morrendo. Tenho fotos dessa terrífica viagem. Encontrava-se nessa altura em Guidage a comandar o pelotão, o meu grande amigo alentejano alferes Barrulas que aí sofreu vários ataques. Num desses ataques, estando eu em Bigene, via os clarões ao longe, com o coração nas mãos, e comentava para os meus companheiros "pobre Barrulas, coitado". Encontrei-o anos mais tarde numa festa do Avante e abraçámo-nos longamente.

(fotos de Adão Cruz)
Binta - Guidage - Preparando o terreno
O alferes Barrulas à direita e Adão Cruz ao centro
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A partir de dia 3 de Janeiro, todos os dias às 18 horas

CRONOLOGIA DA GUERRA COLONIAL

uma obra do historiador José Brandão
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Histórias de suicídios famosos em Portugal - Florbela Espanca-11

Florbela Espanca (1894-1930) - XI

oetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo). Nasceu filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, criada de servir (como se dizia na época), que morreu com apenas 29 anos, «de uma doença que ninguém entendeu», mas que veio designada na certidão de óbito como nevrose. Registada como filha de pai incógnito, foi todavia educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira. Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou. É em Vila Viçosa que se desenrola a sua infância. Desde o seu nascimento, a infância de Florbela rodeou-se de circunstâncias invulgares.

Uma vez casado com Marina Inglesa, em 1887, João Maria Espanca, o pai de Florbela, continua a trabalhar como sapateiro e antiquário, tornando-se mais tarde num dos pioneiros do cinematógrafo em Portugal.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Histórias de suicidios famosos em Portugal - 7 - por José Brandão

Antero Tarquínio de Quental (1842-1891)







Poeta e pensador português, natural de Ponta Delgada. Nascido a 18 de Abril de 1842, Antero recebeu uma esmerada educação religiosa, ao ponto de ter planeado tornar-se sacerdote, o que, a verificar-se, não seria caso único na família.


Diz-se, por exemplo, que, aos 12 anos já se extasiava com a poesia da Harpa do Crente, de Alexandre Herculano, uma poesia profundamente mística.


Aos 16 anos, porém, estava matriculado na Universidade de Coimbra, aonde chegavam as influências de vultos como Darwin, Proudhon, Marx, Michelet, Taine, Balzac, Flaubert, Zola, entre outros. Deste modo, não admira que, após a sua saída de S. Miguel, em carta autobiográfica, registe a seguinte confissão:
«Varrida num instante toda a minha educação católica e tradicional, caí num estado de dúvida e incerteza, tanto mais pungente quanto, espírito naturalmente religioso, tinha nascido para crer placidamente e obedecer sem esforço a uma regra reconhecida.»

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Histórias de suicidios famosos em Portugal . 6 - por José Brandão



António Francisco da Silva Porto (1817-1890) 





Historiador, explorador e africanista português, nasceu a 24 de Agosto de 1817, cidade do Porto.


Morreu a 3 de Abril de 1890, em Bié, Angola. Filho de pais humildes, na infância, ao se alfabetizar, a família toda embarcou no Rio Ave e foi para o Brasil em1829. No Rio de Janeiro empregou-se como caixeiro e, percebendo que seu futuro ali seria restrito, em 1835, embarcou para a Bahia e logo ao chegar, anunciou no jornal Correio Mercantil que mudara de nome: doravante se assinaria António Ferreira da Silva Porto.


Dois anos depois, partiu para a Africa, desembarcando em Angola, onde permaneceu por pouco tempo, indo depois para Cabo Verde, onde ficaria ainda menos tempo.


De regresso à Bahia, encontrou-a num período de revoltas políticas e estagnação comercial. Assim, partiu outra vez para a África, desta vez, com destino a Luanda, onde iria se iniciar na vida de explorador e sertanejo.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Histórias de Suicídios Famosos em Portugal - 5 - por José Brandão

Júlio César Machado (1835-1890)



Júlio César da Costa Machado nasceu em Lisboa, em 1 de Outubro de 1835, filho de Luís Maria Cesário da Costa Machado e de Maria Inácia Machado. Aos 3 anos de idade foi com a mãe para uma casa de campo da família, na Durruivos, nas cercanias de Óbidos. Ali, «resguardado entre as saias da mãe, das tias e de um tio frade», ali pároco, cresceu o escritor numa imensa saudade pelo pai, quase sempre ausente. Refere-se-lhe desta forma, numa das suas melhores páginas:


«Vi aparecer um homem embuçado numa capa, alto, elegante, de uma fisionomia suave e inteligente, mãos compridas e delgadas, dedos finos, e o indizível quê da sedução nos olhos, no sorriso, nas maneiras... imagine-se a fusão da aristocracia da raça, aristocracia natural, com a burguesia digna e séria: foi o que eu senti, sem poder, sem saber exprimi-lo, olhando para meu pai e para minha mãe. Nem era fidalgo nem descendia de nobres, meu pai; mas tinha a nobreza que dão a inteligência, a fisionomia, a figura; havia nele o quid da superioridade, o tom especial do gosto. Minha mãe era uma mulher forte, que parecia moldada em bronze florentino, daquelas mulheres como que destinadas a alcançarem que suas filhas pareçam ser suas irmãs, por tal modo se conservam moças como as mulheres do Egipto, núbeis aos 10 para os 11 anos, avós aos 24, bisavós aos 26. Quantas vezes hoje, quando se admiram, os que me conhecem de há muito, por notarem que eu aguento, na minha movediça e fatigante vida que tenho levado, certa inverosímil mocidade, me lembro eu de minha mãe que aos 60 anos não tinha cabelos brancos e lhe atribuo o segredo desta serôdia e estranha primavera aparente! A nossa época é uma democracia de trabalho: a base dela reside no que produz cada um; aquele que adquira uma ideia, uma só ideia que seja, em toda a sua vida, vale mais do que o outro que se haja conservado na sombra, como numa fábrica, uma roda que não gira à vontade de quem a emprega: mas dantes não era assim; era a idade dos cadetes, dos filhos da viúva, dos herdeiros ricos, que começavam o viver novo, despendendo os haveres paciente e laboriosamente ganhos pelo viver velho.

«Meu pai vivera, divertira-se, despendera três fortunas no florescer daquela quadra. Em parte, porque lhe fosse natural, e em parte, porque a vida elegante dá um cunho especial, como que a sua marca, o seu selo, aos que a cultivam. Tudo nela respirava a cavalheiro; era um gentlemen, era um senhor. Olhava para ele pasmado, encantado; que diferença dos sujeitos de sobrecasaca, que apareciam às vezes na Durruivos, o administrador do concelho, o médico da vila próxima, o cónego que vinha visitar o pároco... Nunca vira um homem assim! Não sabia no que mais atentasse, se no bigode longo e assedado, se nos cabelos finos e compridos, se no casaco justo ao corpo, com alamares e debruado a peles, como era a moda de então, se no anel que lhe vi brilhar no dedo, se na capa, se nas botas altas... Direito, ágil, intrépido, cabeça erguida, em tudo o homem costumado a ver satisfeitos os seus desejos, e a quebrar as resistências todas [….]. Não existe a felicidade na sua plenitude, porque no adejar das asas frementes aspira sempre a ir mais longe do que a ilha encantada do momento; aliás, eu poderia dizer que fui feliz naquela noite... Mas a felicidade verdadeira nunca chega a servir senão para se lembrarem dela os que a desgraça instruir. Em todo o caso, a querer pôr em linha de conta o tempo em que em toda a minha vida tenho empregado em dormir, em esperar, em duvidar, em me enganar a mim, em errar, em prever, em evitar estar doente, em o estar deveras, em deplorar penas, que eram bens, e passar por mágoas verdadeiras, em desprezos e ilusões, em derrubar e erguer altares até se desfazerem em pó, talvez não vivesse completamente para a felicidade, absoluta, inteira, completa, mais do que essa hora! Nos compridos dias da Durruivos, ir para meu pai havia sido o meu sonho; e o meu sonho cumpria-se.»


Depois de uma breve passagem pelo Colégio Militar, de onde foge devido aos maus-tratos do professor de Latim, César Machado matricula-se no liceu. Datam dessa época as suas primícias literárias: Estrela de Alva, romance dos catorze anos, será publicado na revista A Semana, de Camilo Castelo Branco. A morte prematura do pai força-o a ganhar a vida com a escrita, tornando-se tradutor efectivo do Teatro do Ginásio.




Em 1844, com a mãe, vai, finalmente, juntar-se-lhe a Lisboa. Quatro anos depois, o empresário Silva Vieira apresentou no teatro do Salitre a comédia em um acto As Calças Listradas. E quando o pano desceu, o público reclamou a presença do autor. Entre os autores, um adolescente de 14 anos agradecia a ovação. Era Júlio César Machado, na estreia da sua carreira literária. Até ao final da vida, o teatro mereceria sempre um lugar de relevo na carreira de homem de letras, que cedo começara. É que ele, como praticamente todos os homens de letras, teve um emprego de sobrevivência, porém apenas a partir de 1864: secretário do Instituto Industrial de Lisboa.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Histórias de Suicídios Famosos em Portugal - 4 - por José Brandão

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Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, a 16 de Março de 1825, na Rua da Rosa, filho ilegítimo de Manuel Joaquim Botelho e de Jacinta Rosa do Espírito Santo, uma sua criada. Antes de Camilo, tinha já nascido uma outra filha do casal, Carolina. No ano seguinte, a família mudou-se para a Rua da Oliveira.


A sua vida foi atribulada: ficou órfão bastante cedo, tendo passado a viver, primeiro com uma tia, em Vila Real, depois com uma irmã, período de que data a sua aprendizagem literária.


A mãe morreu em 1827 e o pai perfilha Camilo e a irmã dois anos depois, em 1829. Camilo iniciou os estudos primários em Lisboa (1830), na escola de mestre Inácio Minas, situada na Rua dos Calafates, e depois na escola de Satírio Salazar, na Calçada do Duque.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Histórias de Suicídios Famosos em Portugal - 2 - por José Brandão



António Soares dos Reis (1847-1889) -I

Filho de um tendeiro, nasce na freguesia de Mafamude, Vila Nova de Gaia, Soares dos Reis cursou a Academia Portuense de Belas Artes onde foi aluno de Fonseca Pinto, tendo concluído o curso de escultura em 1866.


Em 1867 foi para Paris, tendo vencido o concurso com um busto, Firmino, com espírito romântico que a escultura portuguesa não conhecera ainda. De Paris, onde foi aluno de Jouffroy, regressou em 1870, por causa da guerra. No ano seguinte parte para Roma, onde estaciona ano e meio sem assumir qualquer professor. De Roma traz, ainda inacabado, O Desterrado, sua obra maior. Obra formalmente clássica, O Desterrado é também a nostalgia da Pátria distante uma «estátua da saudade». De inspiração classicista, a obra (na altura tida como plágio, o que iria angustiar durante muito tempo o escultor) é um notável trabalho dos volumes, permitindo jogos de luz e sombra, a acentuarem o sentido do título. A obra exerceu influência directa sobre obras da subsequente geração de escultores.


Resultado do seu contacto com a escultura europeia da época, a fase seguinte da obra de Soares dos Reis, para além do virtuosismo técnico da sua execução, iria ser marcada pelos valores do realismo, patentes, em várias obras.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Histórias de Suicidios Famosos em Portugal - 1 - José Brandão


José Fontana (1840-1876) -II


Giuseppe Silo Domenico Fontana — dito José Fontana em português — filho de Maria Clara Bertrand Bonardelli e de Giovanni Battista Fontana, nasceu em Cablio (Suíça) a 28 de Outubro de 1840 e morreu em Lisboa a 2 de Setembro de 1876, tendo conservado sempre a nacionalidade suíça, como consta no registo do funeral, realizado no Cemitério Ocidental de Lisboa (Prazeres).


Com a profissão de encadernador e depois caixeiro de livraria, entrou para o serviço da Livraria Bertrand, da qual chegou a ser sócio.
Autodidacta, extraordinariamente culto, interessado nos problemas sociais da época, acompanhou a criação das primeiras associações operárias portuguesas e foi elemento decisivo para a criação do Partido Socialista em Portugal, no seguimento das resoluções do Congresso da Internacional Operária realizado em Haia e que preconizavam a criação de partidos operários nacionais.


Muito novo ainda abandonara o seu país e viera para Portugal. Em rapaz fizera tudo o que todos fazem: namoricara, comera, bebera... Depois, pouco a pouco, à sua vivacidade enérgica aliou-se aquele tom sombrio de reflexão, que o fizera tal qual o veremos mais tarde.
Atribui-se-lhe actividades revolucionárias na terra de origem, mas desconhece-se todavia a data da sua entrada em Portugal, para onde emigrou de forma a fugir às perseguições policiais de que por certo era alvo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Histórias de suicidios famosos em Portugal - Introdução (1) - José Brandão


Na sua anterior apresentação, esta série, da autoria do historiador José Brandão, obteve um grande êxito. Por isso, Estrolabio reedita-a, agora com nova apresentação gráfica.

O suicida não é um homem que odeia a vida, como
 à primeira vista pode parecer. Pelo contrário: é
um homem que a quer prolongar de qualquer
 maneira, nem que seja no remorso dos outros.

Miguel Torga




Introdução


Se em todas as épocas existem suicidas, nem todas elas os produzem saídos da mesma massa. Os que vamos ver nestas páginas são pessoas que viviam intensamente os problemas, estavam no centro deles e foram mesmo origens de alguns. Não foi, pois, a incomunicabilidade que os empurrou para a morte, mas talvez o excesso de comunicação com o Portugal que viam e que desfilava por eles como um funeral.

Para eles, a morte estava presente no mais despreocupado despregar de mãos. Viver a vida e cortá-la ao primeiro transtorno, após uma série de outros que já não se suportaram mais, corroídos pelo banal dia-a-dia gastos pela «doença de pátria», não era estado de incomunicabilidade.

O período que medeia a passagem do século XIX para o XX, factualmente compreendido entre o Ultimatum Inglês, de 11 de Janeiro de 1890 e a implantação da República, de 5 de Outubro de 1910, retrata uma longa e múltipla carência da sociedade portuguesa quanto ao seu papel cultural para com os seus escritores e os seus escritos.


A inexistência de meios, a falta de estímulos, a incompreensão e o desapego a que foram sujeitos, os homens da “bela arte de escrever”, como um Antero de Quental, um Camilo Castelo-Branco, um Soares dos Reis, um Júlio César Machado ou um José Fontana, entre muitos outros, provoca-lhes um sentimento de decepção para com a comunidade em que vivem. A morte apossara-se-lhe das vidas. Ninguém sabe doutra coisa, ninguém tem outra maneira de se afirmar — de protestar, de procurar a resignação — senão através do suicídio.

Sãos os tempos das crises de consciência, em que o mundo e a sua moral subvertida nos transportam, tendo sempre como sombra o ruir dos velhos alicerces, a uma sociedade feita de angústia, opressão e instabilidade. São as ditaduras veladas do rotativismo político, ou declaradas como o franquismo. São as viciações e as desonestidades do aparelho governativo e dos seus resultados eleitorais, com o consequente descrédito total do parlamentarismo monárquico. São as desconfianças permanentes do sistema económico e financeiro, a par do desespero, da impotência e da derrota das questões internacionais. São os desânimos pelo crescimento do obscurantismo e da ignorância, acompanhados pelo desenraizamento de quem se identifica como responsável e portador de uma natureza defeituosa, da qual, apenas se conhece a doença, mas não a cura. Em suma, são os tempos em que apenas se vivia a renúncia, a indiferença, o cansaço e o pessimismo.

Miguel Unamuno, logo após o regicídio, em 1908, viaja até Portugal onde conta com a amizade de algumas das mais destacadas figuras da vida cultural e política. Das impressões dessa deslocação, o prestigiado escritor espanhol haveria de publicar um livro que só passados setenta e cinco anos seria traduzido e publicado em Portugal.

Por Terras De Portugal E Da Espanha, é dos mais interessantes documentos que alguma vez foi escrito sobre este pedaço de chão que tem Lisboa por capital. Ler este livro de um estrangeiro ajuda a conhecer melhor quem somos e o que somos. Unamuno fala deste País com palavras de uma verdade crua, sincera e ao mesmo tempo arrasadora. Diz este autor:

«Portugal representa-se-me como uma formosa e doce jovem camponesa que, de costas para a Europa, sentada à beira-mar, com os pés descalços na praia onde a espuma das gemebundas ondas os banha, os cotovelos fincados nos joelhos e o rosto entre as mãos, olha como o sol se põe nas águas infinitas. Porque para Portugal o sol não nasce nunca: morre sempre no mar que foi teatro das suas façanhas e berço e sepulcro das suas glórias. […]É o oceano um vasto cemitério, sobretudo para Portugal. O mar, essa é a «campa», esse é o cemitério desta desgraçada pátria de Vasco da Gama, de João de Castro, de Albuquerque, de Cabral, de Magalhães, de todos os maiores navegadores do mundo, desta pátria do infante D. Fernando, do rei D. Sebastião, que além do mar morreram. Nesse imenso cemitério vivo, que vem a murmurar fados beijar as praias deste «Jardim da Europa, à beira-mar plantado,»

Nesse imenso cemitério descansa a glória de Portugal, cuja história é um trágico naufrágio de séculos. E este murmúrio do oceano, estas queixas que vêm do seu seio quando o sol nele se deita, — não são acaso as vozes das pobres almas portuguesas que vagueiam errantes nas suas ondas? Não pedem sufrágios aos vivos? Não é aqui o mar do Purgatório?»

E, naquela que é seguramente a parte mais eloquente do seu testemunho sobre Portugal e sobre o povo que nele vive, ficaria o registo de um capítulo a que o autor quis dar o título de UM POVO SUICIDA:

«Portugal é um povo triste, e é-o até quando sorri. A sua literatura, inclusive, a sua literatura cómica e jocosa, é triste. Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele sentido transcendente. Querem viver talvez, sim; mas para quê? Vale mais não viver.»

Neste mesmo capítulo, e com a data de Novembro de 1908, Miguel de Unamuno dá a conhecer uma carta de Manuel Laranjeira, seu amigo de grande afecto:

«Em Portugal chegou-se a este princípio de filosofia desesperada o suicídio é um recurso nobre, é uma espécie de redenção da moral. Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa.

Chegámos a isto, amigo. Eis a nossa desgraça. Desgraça de todos nós, porque todos a sentimos pesar sobre nós, sobre o nosso espírito, sobre a nossa alma desolada e triste, como uma atmosfera de pesadelo, depressiva e má. O nosso mal é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral, o cansaço e o tédio de todos os que se fartaram — de crer.


Crer...! Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença na morte libertadora.


É horrível, mas é assim.


[…]


Eu, por mim, não sei, não sei: em boa verdade, amigo, não sei para onde vamos. Sei que vamos mal. Para onde? Para onde nos levarem os maus ventos do destino. Para onde? Vamos...


[…]


Não falta mesmo quem diga que isto não é já um povo, mas sim — o cadáver de um povo.»

Manuel Laranjeira haveria de se suicidar passados menos de quatro anos sobre esta carta a Unamuno. Seria o último de uma lista aterradora de suicidas que começa em 1876 com José Fontana e que continua com o médico Francisco da Cruz Sobral, em 1888, com o escultor Soares dos Reis, em 1889, Camilo Castelo Branco, Júlio César Machado e o sertanejo Silva Porto em 1890, Antero de Quental, em 1891, o militante operário Luís de Carvalho, em 1893, o escritor operário Henrique Verdial, em 1900, Mouzinho de Albuquerque, em 1902, o escritor e jurista Trindade Coelho e o jornalista Alberto Costa, o «PadZé», em 1908, o almirante Cândido dos Reis, membro da Carbonária Portuguesa, em 1910, Guedes Quinhones, velho militante socialista e jornalista operário, em 1911. E, depois de Manuel Laranjeira, em 1912, suicida-se o poeta Mário de Sá-Carneiro, em 1916, e Florbela Espanca, em 1930.

Portugal é um desespero trágico que aflige os melhores filhos do seu possível orgulho nacional. Alexandre Herculano exclamara: «isto dá vontade da gente morrer!». Rodrigo da Fonseca murmurara: «nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste»? E no final de um soneto António Nobre apregoa: «Amigos, que desgraça nascer em Portugal! [...] Todos nós falhamos… Nada nos resta. Somos uns perdidos. Choremos, abracemo-nos, unidos! Que fazer? Porque não nos suicidamos?»

As dez histórias de suicídios aqui apresentadas são apenas uma parte de tantos outros que ocorreram durante esse mesmo período.


São famosos e são do melhor que Portugal tem na sua História.


Ao suicidarem-se é um pouco de Portugal que se suicida.

José Brandão

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal, por José Brandão, (61)

Um Século de Ensino da História


Maria Cândida Proença
(Coordenação)


Colibri, 2001

A atenção prestada pelos sucessivos regimes políticos à influência do ensino da História na formação da consciência nacional torna-se visível ao verificarmos a precocidade da sua inclusão nos currículos escolares. A intenção de colocar a História ao serviço do Estado, atribuindo-lhe objectivos de formação moral e patriótica de carácter propagandístico, pode detectar-se desde a Antiguidade, mas é a partir do século XIX que a sua utilidade se manifesta como factor incontornável no estabelecimento da educação nacional.
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Os Vencidos da Vida


Vários


Fronteira do Caos, 2006
Dizia Fialho de Almeida, criticando com azedume os Vencidos: "Dúzia e meia de ratões que, quando juntos, o que pretendem é jantar; depois de jantar, o que intentam é digerir; e digestão finda, se alguma coisa ao longe miram, tanto pode ser um ideal, como um water-closet." Disparava Eça de Queiroz, numa resposta à "ressoante publicidade que a imprensa erguia em torno do grupo jantante": "O que é estranho não é o grupo dos Vencidos - o que é estranho é uma sociedade de tal modo constituída que no seu seio assume as proporções de um escândalo histórico o delírio de onze sujeitos que uma vez por semana se alimentam."
"Num meio estreito de ideias, intolerante e preconceituoso, enredado em miúdos prejuízos - os Vencidos encarnavam a largueza de vistas, a tolerância generosa, a independência crítica, à luz da razão clarividente." Manuel da Silva Gaio, 1931

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Com estas duas fichas, fica concluído este Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal, de José Brandão. Oportunamente, anunciaremos uma nova obra do autor. 

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal, por José Brandão, (61)

O Ultimatum Inglês

Nuno Severiano Teixeira

Publicações Alfa, 1990

O estudo sobre o ultimatum inglês de 1890, com que abre a presente colecção, ilustra com particular felicidade a intenção que nos norteou.

O seu autor, Nuno Severiano Teixeira, consegue reconstituir a complexa trama de relações que se estabelecem entre os diferentes agentes políticos em causa, dando-nos ao mesmo tempo um retrato vivo das traumáticas reacções que a humilhação britânica desencadeia na sociedade portuguesa da época.

No momento em que se evoca o centenário deste acontecimento que tão profundamente marcou a nossa contemporaneidade, nada mais oportuno do que iniciar a colecção «Testemunhos Contemporâneos» pela divulgação deste excelente trabalho de investigação universitária, que aqui sofreu por parte do autor as necessárias adaptações para uma mais fácil leitura.

António Reis
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Uma Educação Burguesa

Vasco Pulido Valente

Livrros Horizonte

O estudo que seguidamente se poderá ler é, de facto, um «estudo» na acepção mais elementar do termo.




Ou seja, á um trabalho de «pesquisa de informação», de carácter preliminar, a que em rigor talvez nem se devesse dar publicidade, limita-se a reunir uma certa quantidade de informação: não a discute; não a interpreta.Não foi deixado na gaveta, que amplamente merecia, por duas razões. Em primeiro lugar, porque no estado actual da historiografia portuguesa, uma simples recolha de informação tem ainda a sua utilidade. Em segundo lugar, porque é permitido esperar que alguém possa vir a servir-se dos elementos aqui reunidos para fazer o que o autor, entretanto desviado para outras tarefas, não fez. pensar sobre eles.

Este estudo foi escrito em 1968: agora apenas se corrigiram os erros mais comprometedores, os juízos mais precipitados, as ingenuidades mais embaraçosas e o «word-wasting» mais óbvio.

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Últimos Tempos de Acção Sindical
Livre e do Anarquismo Militante

Manuel Joaquim de Sousa

Antígona, 1989

Este livro cobre o essencial da actividade do movimento anarco-sindicalista português no período compreendido entre 1925 e 1938, anos críticos em que o movimento teve que enfrentar, numa primeira fase, a progressiva limitação das liberdades sindicais e, mais tarde, com Salazar, a repressão policial e a consequente vaga de prisões. Este volume inclui, precedido de uma introdução de Carlos da Fonseca, as «Memórias de Manuel Joaquim de Sousa, contadas por ele próprio, até aos 20 anos de idade», um texto autobiográfico julgado perdido.

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal, por José Brandão, (60)

Textos Políticos


António Sérgio


Publicações Alfa, 1990

Injusto e perigoso seria, porém, fazermos de Sérgio um teórico desligado das realidades do poder político e da luta pelo seu exercício ou conquista. Porque este pedagogista não renunciou a fazer a experiência – curta é certo – do exercício do poder durante o regime republicano e a lutar denodadamente pelo derrube do poder autoritário da ditadura salazarista, ao longo de mais de três décadas. Atenção, porém: num caso como no outro, não era o poder – ou o seu exercício continuado – que lhe interessava, mas tão-só a possibilidade de contribuir para abrir caminho à mudança da mentalidade e à autogovernação do povo pela reforma do ensino como ministro da Instrução Pública no Governo de Álvaro de Castro em 1924, pela criação das condições mínimas de democracia política, como activo lutador contra a Ditadura, posteriormente.

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Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo
(1900-1974)

Calderon Dinis

Publicações Dom Quixote, 1986

Ao apresentar nas páginas deste álbum algo do que sucedeu em Lisboa em mais de metade deste século, não nos move fazer história, se não apenas citar, à maneira de crónica, aquilo que ouvimos contar por ainda estar próximo do nosso mundo de entendimento ou viemos a assistir e, graças a Deus, se manteve vivo nas nossas recordações.
Nados e criados em Lisboa, alfacinhas, portanto, vivendo por acaso no centro da cidade, foi-nos permitido observar muito do que dia a dia ia sucedendo. Daí não ser difícil conhecer o que de mais evidente ocorria e quantas vezes, espectacularmente, se projectava na vida nacional.
Germinou a ideia deste álbum ao desenharmos, sem grandes preocupações, a mulher da fava-rica que, no nosso tempo de criança, aparecia todas as manhãs a apregoar o belo manjar da gente pobre.

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal, por José Brandão, (59)

A Tertúlia Ocidental

António José Saraiva


Gradiva/Público, 1996

Antero de Quental, nas Odes Modernas, fez nascer entre nós, uma escola poética que marcou Gomes Leal e Guerra Junqueiro; deixou reflexões em prosa que, até certo ponto, atenuam a indigência filosófica que sempre nos caracterizou, e produziu nos Sonetos alguns dos momentos supremos da poesia portuguesa do século XIX. Eça de Queiroz continua a ser um dos pontos mais altos da prosa portuguesa. Oliveira Martins permanece o único historiador português, e o maior historiador da Península, único no sentido de que ninguém mais considerou a história de uma nação no seu conjunto como uma totalidade. Homens desta qualidade intelectual e afectiva foram como carvões que mutuamente se aquecem e que produziram uma luz que alumiou o final do século. A república foi o fruto que eles não desejaram, mas que a eles se deve, como se lhes deve também o sistema corporativo…

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Textos de História de Portugal


Maria Luísa Guerra


Fluminense, 1978


Dar um panorama geral, mesmo em esquema, de um século tão rico e tão conturbado, como foi o século XIX em Portugal, é tarefa ambiciosa e ingrata. Tentámos no entanto esse caminho, conscientes das muitas omissões inevitáveis mas fascinados pela tentação de surpreender as grandes linhas de força e o escopro de uma época movimentada e de grande peso na transformação da sociedade portuguesa.

Detectada uma tipologia, passámos do plano individual (motor anónimo e prioritário da História) ao grande plano colectivo das instituições, da economia, do devir político, da saúde, da educação, da cultura, das tensões sociais, da imprensa, da demografia, do, trabalho, dos transportes e outros melhoramentos públicos, da vida urbana e da vida na província.

Lisboa 1978 - Maria Luísa Guerra
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domingo, 12 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal, por José Brandão, (58)


Temas Oitocentistas – I
(Para a História de Portugal no Século Passado)


Joel Serrão


Livros Horizonte, 1980

Publicado em 1959, esgotado há bastantes anos, este livro reaparece, acrescido de dois novos capítulos e de um apêndice.
O apêndice, referente às primeiras tentativas de introdução da máquina a vapor em Portugal, completará o estudo “Da Introdução e difusão da máquina a vapor”. Os capítulos novos são os seguintes: “Rotina e Inovação nos transportes (Visão de Conjunto)” e “A Emigração Portuguesa para o Brasil na segunda metade do século XIX (Esboço de problematização)”.
O primeiro deles foi originariamente dado à estampa no Dicionário de História de Portugal, sob o título «Transportes» e parece-nos que se integra bem na temática e na problemática do livro.

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Temas Oitocentistas – II
(Para a História de Portugal no Século Passado)


Joel Serrão

Livros Horizonte, 1978


“Dir-se-ia que o centro de gravidade do volume, em vez de estar situado (como no primeiro) em investigações respeitantes à primeira metade do século, se deslocou para os fins da centúria passada. Como julgamos evidente, não há nisso nenhum mal ou prejuízo, embora, aqui ou ali, tivéssemos sido compelidos a atravessar a fronteira cronológica do século anterior, nas sendas abertas pelas obras de Manuel Laranjeira e de Raul Brandão, entre outros... Traição ao título, por conseguinte? Sim e não, pois continuamos a pensar que só a consciência do nosso próprio presente nos fornecerá a perspectiva válida para a compreensão dos tempos transcorridos. Aliás, por muitas razões, esses dois escritores pertencem ainda, geneticamente, ao século XIX.”

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sábado, 11 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal, por José Brandão, (57)

Os Teatros de Lisboa

Júlio César Machado


Editorial Notícias, 1991


Os Teatros de Lisboa é uma saborosa crónica de Lisboa de meados do século XIX.
Júlio César Machado e Rafael Bordalo Pinheiro construíram um quase caleidoscópio de protagonistas, todos eles gente que se move nos três universos principais do drama e da ópera na capital, Teatro de S. Carlos, Teatro D. Maria II e Teatro da Trindade.
Eis, pois, uma sociedade alucinada ao correr da pena de um dos maiores, mais amáveis
e bem-humorados folhetinistas portugueses, Júlio César Machado.
E com ele emparceirando, um dos grandes cartoonistas deste país de fadistas e lágrimas ao canto do olho, Rafael Bordalo Pinheiro.
Este livro é o elogio da combinação do texto com a imagem, o espelhar da festa pública do possível esplendor do Teatro Português!
JOSÉ VIALE MOUTINHO

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Temas de Cultura Portuguesa – I

Joel Serrão

Livros Horizonte, 1983

Este volume, que mantém a estrutura geral de Temas de Cultura Portuguesa II, dado a lume em 1964 e há bastantes anos esgotado, é constituído do seguinte modo: pelos escritos desse volume, com excepção do Prefácio e de Nota breve sobre o pensamento filosófico português actual que foram retirados; por alguns estudos inicialmente publicados em Temas de Cultura Portuguesa I, a saber: Perfil Esfumado de Mário de Sá Carneiro; Escolásticas que a si mesmas se ignoram; A génese portuense de Análise da Crença Cristã (1874); Do prospectivismo de Sampaio Bruno e Em torno do problema da Filosofia Portuguesa.
Além do mais, passam, a fazer parte deste volume os escritos que de seguida se indicam: Estrutura social, ideologias e sistema de ensino; Introdução histórica ao volume Sistema de Ensino em Portugal. Lisboa, 1981;…

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Temas de Cultura Portuguesa – II

Joel Serrão

Livros Horizonte, 1989

Nos seus condicionalismos de origem, este livro trata, sucessivamente, de um esboço muito geral da História de Portugal desde os cantares de amigo até às tarefas nacionais que o 25 de Abril de 1974 a todos nós impôs; da dialéctica da liberdade e da justiça tal ela se conformou, entre nós, na época contemporânea; da emergência da poesia em Antero e em Pessoa; do admirável esforço filosófico de Vieira de Almeida, meu Mestre “secreto”, que, ao invés do que, apressadamente, se poderia ajuizar, não foi em vão que pensou e “soltou” os ventos que pôde; e, por fim, de lágrimas efectivamente vertidas na morte de um Amigo e colega de geração cujos propósitos de vida consistiram em compreender e transformar Portugal –, Joaquim Barradas de Carvalho.

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal, por José Brandão, (56)


Suicídios Famosos em Portugal

José Brandão

Europress, 2007

As histórias dos suicídios aqui apresentadas são apenas uma parte de tantas outras que ocorreram durante esse período que medeia entre o início da segunda metade do século XIX e vai até aos anos Trinta do século XX.

São figuras que se destacaram nos diversos campos da vida nacional e que optaram por pôr termo à vida recorrendo ao suicídio.

Apresentadas em dois blocos, em que o primeiro, de José Fontana a Florbela Espanca, contem exposição mais detalhada de cada uma das histórias, esta relação de 17 suicidas famosos ocupa a maior parte deste trabalho.

O segundo bloco, que começa em 1856 e se estende até 1934, resume-se a pequenas notas de cada uma das 30 ocorrência expostas.

São pois, um total de 47 vultos envolvidos num final de vida que é comum a todos eles.

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Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora…


Jacinto Baptista

Livraria Bertrand, 1977


Jornal diferente dos outros (mesmo oposto aos outros), voz singular da Imprensa portuguesa no período compreendido aproximadamente entre o fim de primeira guerra e o advento da ditadura militar, o diário A Batalha (1919-1927) é uma das mais salientes e vigorosas projecções do nosso movimento operário organizado. A sua linha de vida – nascimento, ascensão, apogeu, declínio e morte (compulsiva) – acompanha e reflecte, durante quase uma décadas a sorte do proletariado português na fase de deterioração mortal da I República. Subordinada a uma ideologia específica – o sindicalismo revolucionário –, A Batalha não foi solidária, ou raramente foi solidária, do regime que entendia ser a expressão política do principal inimigo: a democracia burguesa. Mas apenas um ano sobreviveu o jornal operário à I República.
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal, por José Brandão, (53)

Subsídios para a História da CUF

José Soares Martins

Afrontamento, 1974

Ora, o sr. Alfredo da Silva, pelo simples facto de possuir muitos milhares de contos, que certamente não angariou somente com o seu esforço, não tem o direito de insultar o enxovalhar quem, por necessidade de ganhar a sua vida, é empregado da Sociedade Geral.
Há muito que se vem esperando que tal situação se modifique, mas a verdade é que as coisas cada vez vão tomando pior caminho.
A Sociedade Geral não tem sequer um comandante de terra com quem os comandantes dos navios se entendam em assuntos de carácter técnico e de quem recebessem directamente as respectivas ordens, sem terem de se humilhar a receberem ordens, as mais disparatadas, de qualquer indivíduo que de coisas do mar nada percebe, julgando dos assuntos marítimos pelas viagens feitas no Tejo, a bordo de qualquer rebocador, de navio para navio.

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Subsídios Para a História do Movimento Sindicalista em Portugal
(De 1908 a 1919)


Alexandre Vieira


Lisboa, 1977

Já em Lisboa, onde continuou e ampliou a sua militância, fundou, em 1908, o jornal «A Greve», conjuntamente com outros camaradas tipógrafos e um empregado de escritório (que o escreviam, compunham, imprimiam e vendiam). Para o poder vender na rua, Alexandre Vieira não hesitou em se inscrever como «vendedor ambulante de jornais, cautelas e lotarias autorizadas».
Artista gráfico, revisor e jornalista, dirigiu além dos supracitados jornais, ainda o semanário
«O Sindicalista» (1911-1915), em 1917, o «Movimento Operário», e em 1919 o diário sindicalista «A BATALHA».
Preso várias vezes pelos monárquicos, viria a ser detido igualmente pelos republicanos, cujo ódio ao sindicalismo nada ficava a dever aos primeiros, Já sob o fascismo, foi forçado ao exílio durante cinco anos.

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sábado, 4 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (50)

O Sindicalismo no Alentejo

António Ventura

Seara Nova, 1977

O movimento associativo entre as classes trabalhadoras portuguesas começou a tomar forma a partir de 1839, embora de maneira rudimentar, com a formação da Associação dos Artistas Lisbonenses. Em Julho de 1850 é fundada a Associação dos Operários, com base num grupo de propagandistas sociais e militantes operários ligados ao jornal O Eco dos Operários e onde são de destacar os nomes de Vieira da Silva, Sousa Brandão e Lopes de Mendonça.

Naquele periódico definiam os seus objectivos.

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Os Sindicatos Operários e a República Burguesa (1910-1926)

David de Carvalho

Seara Nova, 1977

Este livro é a crónica dum tempo que de longe e do perto vivi, senti e observei, na infância e não menos na adolescência, desde uma idade em que os meninos só convivem com brinquedos, brinquedos que não tive e tive de improvisar, num tempo longo em que tudo me foi adverso e todas as coisas me atiraram para melancólicas reflexões sobre essas mesmas coisas do mundo que eu apenas pressentia e ninguém me sabia explicar; assim não pude compreender a razão da injustiça que feria tantos e tantos mocinhos como eu era então. E aqui está por que gostaria de dedicar o meu livro a tantos outros mocinhos, que o são hoje como o fui há mais do meio século, que me deixam ver que sofrem amarguras, decepções e frustrações como aquelas que sofri, mau grado tanto tempo andado e tanta coisa acontecida.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (49)

O Sidonismo e o Movimento Operário Português
António José Telo

Ulmeiro, 1977


É inútil realçar a importância dos anos de 1917-1919 a nível da história mundial. Já na história portuguesa, contudo, a sua importância é geralmente desprezada, apesar de os acontecimentos então vividos terem então marcado profundamente todo o século XX português.
Em Dezembro de 1917, Sidónio Pais, oficial do exército praticamente desconhecido, é levado por um golpe militar vitorioso ao lugar cimeiro da política portuguesa, apoiado num amplo bloco de classes possuidoras, e mesmo no proletariado durante os primeiros meses. O que parecia ser mais um vulgar golpe militar não tarda muito em transformar-se numa experiência politica única e insólita em Portugal e mesmo no mundo, cujo total alcance só poderia ser compreendido a posteriori.

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O Sindicalismo em Portugal

Manuel Joaquim de Sousa

Afrontamento, 1976
História do movimento sindical em Portugal desde os primórdios das velhas associações de classe até ao ano de 1926, escrita por esse notável militante anarco-sindicalista que foi Manuel Joaquim de Sousa  secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho e redactor principal d'A Batalha, então o terceiro jornal diário mais vendido no país! Esta edição conta com prefácio e notas de Emídio Santana

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (48)

“Senhoras e Mulheres” Na Sociedade Portuguesa do Século XIX
Irene Vaquinhas

Edições Colibri, 2000

Nesta obra, que colige artigos e comunicações feitos ao longo de mais de dez anos, procura-se esboçar quadros de vida, valores e mentalidades femininas através de fragmentos fugazes dos quotidianos. Pequenos passos que ajudam a compreender como se foi construindo a individualidade feminina num século em que a reivindicação do direito à instrução constitui um dos elementos-chave do acesso à cidadania.

Irene Vaquinhas. Professora Associada com agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Os seus interesses científicos e temas de investigação incidem sobre a História económica e social dos sécs. XIX e XX, História rural do séc. XIX, História das mulheres (sécs. XIX-XX), História da vida privada e História dos comportamentos e das mentalidades.

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60 Anos de Luta
1921-1981

Vários

Edições Avante, 1982

Na década de 70 a oposição à monarquia é representada por republicanos na linha do liberalismo e por socialistas influenciados pelo socialismo utópico. Em 1873 é fundado o Centro Republicano. Em 1876 é criado o Partido Republicano. Em 1878 é eleito pelo Porto o primeiro deputado republicano. Com o ultimato inglês de 1890 aumenta a vaga de indignação popular contra a incompetência, a corrupção e as cedências ao estrangeiro dos governos monárquicos. Reforça-se o movimento republicano, representando um vasto leque social, desde grandes proprietários até às classes trabalhadoras.
Em 31 de Janeiro de 1891, no Porto, rompe a primeira revolta republicana.
Este longo processo de luta contra a monarquia e a sua política ultrapassada e corrupta vem culminar com a revolta militar e civil iniciada em 4 de Outubro.

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