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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010




Era uma vez uma Serra e um Vale 

Eva Cruz. Ilustração de Adão Cruz





                       O jardim de Raquel abre-se ao sol
                        caindo da Serra
                        uma coberta de retalhos
tecida de mil aromas
borda a pedra do tanque grande.
Entrelaçam ervilhas de cheiro
os toros das couves galegas
esporas azuis na cidreira e na hortelã
abraçam-se pica-narizes e alecrim
e os cosmes cor-de-rosa
chamam os pintassilgos ao cair da tarde.
Malmequeres de muitas cores
e amores-perfeitos
desdenham da singeleza
dos miosótis azul-sulfato
que bebem a água do rego da mina.
As tímidas flores da rama das batatas
estendem o jardim pelo campo fora
fundindo verdes
no verde de todo o Vale.
Raquel desprende-se da pedra do tanque
veste-se da cor dos cosmes
enche a vida de flores
e voa na brisa que afaga o seu jardim.

No regresso do tempo sonhado
à beira do tanque grande
só um pintassilgo volta
ainda
com o cair da tarde.

(In "era uma vez Future Kids)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A Serra está coberta de branco





Eva Cruz

A Serra está coberta de branco
é Natal de musgo e azevinho
do presépio e do pinheirinho
a cheirar a resina
dos socos na lareira
dos chocolates de prata
pra trocar por um santinho.
Cheira a vinho fervido
açúcar e canela
e os olhos de Raquel
abertos a noite inteira
enchem-se de Natal.
Tantos Natais vividos
enfeitados de memória!


Natais sem história
sem missa do galo
sem tamancos na calçada
nem vultos em xaile de merino
pra beijar o Deus-Menino

(in “ Era uma vez ,future kids)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

VerbArte - Quinta dos Três Castelos









Adão Cruz


Em complemento do post de minha irmã Eva Cruz sobre a Quinta dos Três Castelos em Coimbrões, peretencente a um tio de minha mãe e onde ela viveu a sua mocidade, segue este pequeno poema que lhe fiz, quando, pelos seus oitenta e tal anos a levei a visitar a quinta, toda em ruínas, onde vivia uma família de ciganos. O poema nasceu quando vi a velhinha agarrada ao portão, a gabeça entre as grades, reflectindo nos olhos a mais inesquecível e profunda expressão de saudade que até hoje me foi dado observar).


Mãos secas pegadas à idade das pedras
a cabeça de ontem nas grades ferrugentas de hoje
olhos molhados num olhar mendigo a tempos de outro tempo.

Dentro da quinta em ruínas no meio de silvados urtigas e ervas daninhas
anos e lustros a caminho de séculos.

Os olhos de minha mãe cheios de outroras e lágrimas mostram-me todas as lágrimas do mundo nas lágrimas de tudo o que se verte em lágrimas
por dentro e por fora do tempo.

Restos de um lago seco entulhos e restos esqueletos de cameleiras
escadas sem fins nem degraus portas e janelas esventradas de foras e sombras.

Mãe
que o sol se lembre de nascer onde o carinho é poema e onde o amor e o mar se tocam dentro de uma gota de orvalho.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Coisas do Porto - Quinta dos Três Castelos, onde viveu minha mãe.


Eva Cruz

 Havia em Vila Nova de Gaia duas quintas com nomes parecidos, a Quinta do Castelo que pertencera aos pais de Almeida Garrett, onde o poeta passou a viver a partir dos cinco anos, e a Quinta dos Três Castelos que pertencia a Bernardo Soares de Almeida, irmão de Virgolino.
Perto do apeadeiro de Coimbrões, junto à linha férrea, mandou Bernardo Soares de Almeida construir, em 1907, ao gosto revivalista do início do século XX, uma muralha de cimento com três castelos e torreões que servia de mirante aos felizes proprietários para verem passar o cavalo de ferro ou o pássaro sem asas. Esta muralha acastelada e de contos de fada encerrava uma casa que Bernardo Soares de Almeida reconstruíra ao sabor dos tempos românticos. Todo o interior da quinta era de grande imponência e harmonia. Do lado poente havia um portão de ferro de lindíssimo gradeamento que dava para uma alameda empedrada de xistos maravilhosos, bordejada por frondosas japoneiras, e o jardim era adornado por árvores e plantas raras. No alto da alameda erguia-se a casa grande e elegante, servida de uma escadaria de acesso, tudo ao gosto romântico da época. Perto da escadaria havia um lago e um repuxo com um menino a deitar água pela boca. Mais um pequeno mirante escondia o depósito da água. Sob a estátua escreveram a data da construção.
Nas traseiras da casa, o portão de cima dava para um espaço agrícola pertencente ao mesmo dono, que se chamava a Quinta da Lavoura.
Na cave do casarão, uma adega enorme com lagar granítico honrava os alicerces da Quinta dos Três Castelos. Hoje, resta um descampado onde se ergue uma escola com esse nome e aí resistem à morte dois dos três castelos, quase esboroados.

Diz Hélder Pacheco que agora já ninguém liga ou nem repara, mas nos tempos áureos da Quinta, a visão da fortaleza cinzenta, impante e bem tratada, era espécie de cartão-de-visita requintado da Vila Nova.


(Ilust. Adão Cruz)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Na outra margem

Eva Cruz


De junco tecidos

os teus pés descalços

voam por entre os lírios amarelos

não do Letes

mas do teu Vigues.

Águas de vida e não de esquecimento.

Nem quero que te redimas na outra margem.

Não tens nada a purificar.

Na gota de orvalho reconheces

a seiva da tua mãe

que te leva pela mão.

É a energia condensada

da tua inexistência

a organizar a matéria.

O som de címbalos e trombetas

neutrões e protões

desperta o Letes

para um novo sol.

Talvez reencontres o teu Deus de amor.

Vive na outra margem.

De lá para cá é só um passo

e o teu ser é tão infinito

que cabe neste espaço.

(Ilustração Adão Cruz)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Evento - As palavras de Saramago

Eva Cruz
As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.

Algumas palavras sugam-nos, não nos largam... As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do disse ou tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do verbo. E as palavras escorrem tão fluidas como o "precioso líquido".

Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador... E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares. Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não ouça outra palavra.

A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça. Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se mude em Seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato. Há também o silêncio.

O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio.
Mas só o trigo dá pão.

As minhas palavras a Saramago


Levantado do chão
como só os Homens são capazes
não há morte que te leve.
A Lucidez da tua obra
curará os olhos da cegueira.
E as palavras de ternura do teu Evangelho
correrão límpidas como um rio
regando a terra
onde só o trigo há-de crescer
e dar pão.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Era uma vez uma Serra e um Vale

Eva Cruz



Chega à Serra o Inverno

amanhece tarde anoitece cedo.

No caminho novo

canta a gaita do guarda-soleiro

conserta varetas amola tesouras

pedal e roda fazem milagres.

É tempo de apanhar agulhas

que os ventos de Outono

estenderam nos matos.

Pinhas sequinhas

enchem sacos de linhagem

espalham pinhões de asas

pelo chão.

É tempo do frio que se avizinha

tempo de agasalhar o Inverno

que vai abraçar a Serra

num abraço de frio

que Raquel aquece pela vida fora.



Vem na saudade

de muitos Invernos

já não há guarda-soleiros

nem agulhas nem pinhões de asas

anoitece cedo e tarde amanhece.

(In Era uma vez Future Kids)


(Ilustração de Adão Cruz)

domingo, 14 de novembro de 2010

Poetas do trigo



Eva Cruz


Sementes de água
gotas de trigo no chão duro
cresce o pão mal repartido.

Ergue-se o punho erguido
de Homens Inteiros
poetas do trigo
na fome da Revolução.

Ceifeira da noite
com medo do dia
semeia a morte
mais pobre a seara.
Ceifeiras do dia
foices vermelhas
cantares de esperança
não deixam a morte
matar a seara.

Sementes de água
gotas de trigo
não morre a seara
não morrem os Homens
os Homens Inteiros
poetas do trigo repartido.


(Ilustração de Adão Cruz)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Em terras de Belém (

Eva Cruz



Em terras de Belém
Presépio de sangue
Estrelinha apagada
Magos sem rumo
Jesus nascido
P´ra nada.

Na coroa os espinhos
Nas mãos as chagas
Cristo perdido
Entre os homens
O Gólgota erguido.

Um muro de ódio
Feito de mortos
Feito de corpos
Cristo de novo crucificado
Mártires lado a lado
Eternos heróis
Rebentados de pólvora
Atada à cintura
Um muro erguido
Entre a fome
E a fartura.

Ergue-se a lua
Em forma de crescente
À Palestina sem terra
Resta apenas
O céu do Oriente.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Uma casa grande

Eva Cruz





É uma casa grande
tem dentro o mundo
em recantos de lenda
e história.
Alma de poetas.
Retratos e santos
recordações de vida
por todos os cantos…
Livros nas paredes
seu melhor recheio
quadros a saber a poesia
e o vento que agita a figueira
a entrar pelas portas adentro.
Música de um bandolim adormecido…
Levanta o pó
descobre Marx, Brecht
e Nietsche.
O vento da história
acorda a memória
aconchegada ao canto da lareira.
É uma casa grande
com escadas
onde se brinca às escondidas
e as crianças inventam anjos
pelos cantos…
Gostam da casa
correm-na a rir
sem medos de partir
o que por lá há.
É uma casa grande
tem dentro o mundo
onde só vale
a alma do que lá está.

(ilust.Adão Cruz)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Era uma vez uma Serra e um Vale

Eva Cruz

Já o sol vai alto
deixando para trás a Serra negra.
Apita na calçada o azeiteiro
o cansado chocalhar das almotolias
entrelaça o tropeçar gasto do burrico.
Escorre o azeite da torneirinha
o azeite que vai regar a medo
a ceia da lareira
a lareira do vinho quente da infusa
dos serões com lendas de encantar
e histórias de aterrar
a grade de ouro no fundo do rio
a pedra que promete grande tesouro
a quem a virar
o gado que foge
por artes do demónio
ou por feitiço
no meio das noites de Inverno
sem fim.
A lareira do saber
a falar das curas
das ervas e dos chás
das rezas e artes de talhar
o mau olhado
a espinhela caída e a erisipela.
É o mundo do fantástico
que põe à roda a cabeça de Raquel
e a faz ver para além da noite
no firmamento
alguma estrela que a verdade lhe conte
entre o sonho inventada e a fantasia.

Mas em tempo já sem conta
a verdade que tem
não é a verdade sonhada
nem a verdade que queria.

(In Era uma vez Future Kids)

domingo, 24 de outubro de 2010

Era uma vez uma Serra e um Vale

Eva Cruz


Um relâmpago ilumina a Serra de lés-a-lés
S.Jerónimo Santa Bárbara Virgem
santos deuses santos fortes
entre nós e o perigo
o trovão ruge nos quatro cantos do Vale
trovoada seca Senhor a ralhar
dentro das mantas de lã é mais seguro
e Raquel sabe rezar
para amainar a raiva
de um Deus que castiga
sem pau nem pedra
leva-a para monte maninho
onde não haja pão nem vinho
nem raminho de oliveira
nem bafinho de menino.
Tudo está cavado e semeado
à espera da chuva abençoada.
Na calçada rolam as pedras
debaixo dos tamancos dos romeiros.
Padre nosso que estais no Céu
ora pro nóbis
fazem eco nos muros do caminho.
Ele são procissões ele são novenas
com meninas vestidas de negro
com cestinhos à cabeça
redondos
cobertos de linho bordado
ofertas em troca de chuva
ou bênçãos pra alma e corpo.
Raquel vai com as meninas da novena
e torna-se peregrina das rezas
rezas ladainhas e anjos
santos e santas que livram dos males.

Peregrina do mundo
em romaria do tempo
na calçada não há meninas de novena
nem pedras soltas
nem rezas nem ladainhas.
O Vale está seco
a chuva não importa
trovoada seca
Senhor a ralhar.


in "Era uma vez, Future Kids

(Ilustração de Adão Cruz)


sábado, 23 de outubro de 2010

Zé e o circo

Eva Cruz


Meninos vamos ao circo
Não quero que falte ninguém.

Zé não vai ao circo
Zé não tem vintém.

Meninos desenham na escola
O circo por dentro e por fora
Feras, acrobatas e palhaços.

Zé viu o circo também
Com a mente que um pobre tem.

Imagina o que não vê
E vê mais do que ninguém.

Zé desenha o circo só por fora
Todo altifalantes em pé
A chamar Zé, Zé, Zé…

(Ilustração de Adão Cruz)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Fotopoemas: Viçosa flor

Poema de Eva Cruz e
fotografia de José Magalhães





Viçosa flor
erguida
na haste da vida
de seiva perdida
no caminho do nada.
No caminho do nada
flor arrancada
em pétalas de água
desfeitas em pó.
Água dos olhos
da vida em flor
na saudade imensa
do caminho do nada
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Aquela janela

Eva Cruz

Ai se eu soubesse pintar
pintava aquela janela
com cortinas brancas bordadas
aquela janela a rir
com o sol da Primavera
enfeitada de glicínias
brancas e lilases
de lírios roxos e amarelos
os primeiros do jardim.
Aquela janela ao rubro
com o sol de Verão
o cortinado de luas e estrelas
um balão de S. João
de todas as cores
ramalhos
das cascatas e o cheirinho
a manjerico.
Aquela janela
enfeitada
de anjinhos papudos
e o Pai-Natal
pregado no cortinado.
O azevinho na jarra
com bolinhas vermelhas
as pinhas dos abetos
abraçadas às hidrângeas secas
colhidas no Outono.

Aquela janela
com as cores dos poentes outonais
laranja e róseos, intensos e pálidos
cores do sol que se despede.
Ai se eu soubesse pintar
pintava aquela janela
com as cores de todas as cores
e nela desenhava
uma velhinha
sentada no sofá
à espera que a vida passe.
De costas para a janela
por onde a vida passou
e a deixou parada
na contemplação da alvorada
sem cor.
Ai se eu soubesse pintar
pintava aquela janela
com o sol de todas as cores
e não pintava a madrugada.

(Ilustração de Adão Cruz)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Era um vez uma Serra e um Vale

Eva Cruz


A Serra solta os rios
os riachos pela encosta
correm trémulos
por entre juncos e salgueiros.
Nos açudes da pedra gasta
lavam as lavadeiras
e na erva verde
cora a roupa branca.
Das carvalhas vergadas
pulam os meninos
para o poço negro e fundo.
Sem mestre aprendem a nadar.
Há ilhas no rio
de areia fina e amoras negras
há seixos brancos
flores de sabugueiro
recantos de paraíso
paraíso de Raquel.
O rio que leva ao mar
traz a memória
dos que deixaram a Serra
em busca da sorte.
E o pensamento de Raquel
corre esse rio de memórias
e perde-se no tempo do tamanho do mar.

A saudade trá-la de volta.
Nem lavadeiras nem meninos a saltar
nem amoras negras em ilhas de paraíso
só o poço negro e fundo
parado e sujo
sem vontade de ver o mar.

(in "Era uma vez Future Kids")

(Ilustração de Adão Cruz)

sábado, 9 de outubro de 2010

Era uma vez uma Serra e um Vale

Eva Cruz
Da Serra sobem
fumos brancos
direitos ao céu
sinal de borralho
na pedra do lar.
A noite fria
cobre os campos de geada
que o sol cobre de prata.
Raquel pousa na terra
os tamanquinhos negros
tachas a brilhar
música de neve.


Cabelos de geada
abre Raquel as asas
de voar o tempo cansadas
não há fumo de borralho
apenas casas
sem pedra do lar.


(in "Era uma vez, Future Kids)




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(Ilustração de Manel Cruz)

domingo, 3 de outubro de 2010

Era uma vez uma Serra e um Vale (2)


Eva Cruz


A Serra está cheia de luz
e o Vale coberto de neblina.
É Fevereiro mês do sol e da chuva
o mês que matou a mãe ao so(a)lheiro.
Não há sementeiras nos campos
só os galhos das videiras depenadas
cobrem as ramadas que se desenham
sobre o verde cinzento das ervas daninhas
de chuva salpicadas.
De uma ponta da Serra
desce o arco-íris
a atravessar o Vale.
Os olhos de Raquel
enchem-se das cores do arco de vel(h)a
do vermelho faz uma grinalda
veste-se de verde
leva na alma o azul
e nos olhos o amarelo.
As asas são de branco
e desprendem-se à procura
da outra ponta do arco-íris...
Voa...voa uma vida
e regressa na outra ponta.

Na terra já não há Serra nem Vale
é apenas Fevereiro.



(In Era uma vez, Future Kids, de Eva Cruz)

(ilust. de Adão Cruz)

domingo, 26 de setembro de 2010

Pintei uma árvore

Eva Cruz

Pintei uma árvore
de braços abertos
e vesti-a de folhas e flores.
Veio então um passarinho
de muitas cores
e nela fez um ninho
entre as flores.
Reguei-a de ternura
e com tal jeito
que me nasceu um poema
dentro do peito.
A árvore pediu-me
p’ra ser árvore a sério
e eu disse que sim.
Seja qual for o mistério
é hoje a mais linda
do meu jardim.


(ilustração de Adão Cruz)

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sábado, 18 de setembro de 2010

Em jeito de prefácio )

Em jeito de prefácio, de Adão Cruz e Comentário de Marcos Cruz, ao livro de Eva Cruz "Era uma vez em Outubro". Apesar de não conhecerem o livro (sobre o ensino), parecem-me interessantes estes pequenos textos. (Capa do livro, de Manel Cruz,)






Adão Cruz

As nuvens abalaram para outros céus. O sol desceu de mansinho, trazendo pela mão uma brisa leve de Outono, que se aninha nas deliciosas páginas deste livro. Um fio de água cristalina corre as palavras com que a Eva sempre bordou este manto de sonho e mágoa, de amor e prazer, de afecto e enleio. Com ele se fez ao mundo, quando eram de orvalho os caminhos, e do canto dos melros e rouxinóis a melodia do acordar.

Calcorreados tantos trilhos de duras pedras, ainda hoje nele se aquece e envolve os outros, dentro deste livro que mais não é do que um abraço. O sonho de uma vida inteira, ouvindo a sinfonia do novo mundo e deixando à saudade a melodia do entardecer. Quem desta vida lhe sente a alma, sabe que este livro é uma floresta de braços. Braços que se erguem, braços que se abrem e se cruzam, num torvelinho de afectos que se vão escondendo pelas entrelinhas.

Dar às palavras a luz e a sombra, dar às frases o corpo e o gesto, dar a um livro a alma e a vida, não é tarefa de Outono. Já as colheitas se foram. Mas há sempre um fruto cautelosamente esquecido, que amadurece ao ponto de mais nenhum. Este belo livro da Eva é um poema de doces e maduros bagos, que ela foi guardando dos bicos dos melros e pardais.



Comentário (Marcos Cruz)



Do aluno para a professora:

Gostei muito do teu livro. Aprendi, com ele, mais do que tudo, que a família é como a etimologia. Estando ali, sempre, na sua topologia consentida e enganosamente simplista, plana, chata e objectiva, não a queremos estudar, não a queremos aprender, não a queremos prender. Cristalizamo-la como último recurso, pensão de reforma, seguro contra todos os riscos. Esquecemo-la, ou quase, como raiz. É, porém, uma ingratidão ‘necessária’, como o livro leva a deduzir, num dos assomos de bondade que, mais do que a ele, te caracterizam a ti; a ti que não terás, me parece, usado dessa necessidade. Eu, por exemplo, já não posso dizer o mesmo. Que a etimologia está para as palavras como a família para o indivíduo, tu mostra-lo bem. Uma e outra foram o princípio, são o agora e serão o amanhã, tal como o ‘a’ de aprender e o ‘des’ de desprender sempre lá estiveram sem nós notarmos, dizendo-nos que aprender é libertar.

Falas da ‘nudez do que não foi feito’, reconhecendo incompletude na tua vida. Mas não será ela como a mudez do que não foi dito? O teu livro é mais silêncio que palavra, mais branco do que mancha. O que não se lê, porém, não deixa de estar lá. Sempre lá esteve, sempre lá estará, para quem o queira descobrir. A ‘nudez do que não foi feito’ é, pois, o branco imprescindível no livro da tua vida. E é nele que, quando as palavras forem levadas pelo Outono, a família delas se imprimirá.