Mostrar mensagens com a etiqueta sílvio castro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sílvio castro. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A Cidade-Poesia

(Foto de José Magalhães)




Quatro poetas falam de Coimbra e do Mondego - Coimbra, berço de movimentos literários, é fonte de inspiração para canções e poemas - é a cidade-poesia.

Carlos de Oliveira


ELEGIA DE COIMBRA


Gela a lua de março nos telhados
e à luz adormecida
choram as casas e os homens
nas colinas da vida.


Correm as lágrimas ao rio,
a esse vale das dores passadas,
mas choram as paredes e as almas
outras dores que não foram perdoadas.


Aos que virão depois de mim
caiba em sorte outra herança:
o oiro depositado
nas margens da lembrança.


(in Mãe Pobre, 1945).

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

UMA EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA MUITO ESPECIAL EM VENEZA

Sílvio Castro




O sempre muito movimentado ambiente de exposições artísticas de Veneza, passada a Bienal de Arquitetura de 2010 que alcançou grande sucesso de público e de crítica (cf. nosssos dois comentários sobre as participações de Portugal e do Brasil na dita Bienal, publicados nas páginas deste mesmo blog), este mesmo ambiente assistiu em dezembro a uma retrospectiva muito especial pela personalidade e história do autor exposto, bem como pelo significado de sua obra, quase absolutamente desconhecida do grande público. Trata-se da exposição retrospectiva de Roberto Fiorentini, “Storie del segno”, que teve lugar de 3 ao 14 de dezembro de 2010, no “Centro Culturale – Renato Nardi”, com a curadoria de Toni Toniato, crítico veneziano de grandes méritos. O Centro Cultural Renato Nardi, localizado na ilha da Giudecca, sede da restrospectiva, é uma histórica entidade de encontros dos socialistas de Veneza. Roberto Fiorentini era um dos seus constantes frequentadores.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Semana do Ensino: Retrato ¾ de um jovem professor de filosofia na “Cidade Maravilhosa”

Sílvio Castro
Tudo começa concretamente antes do início verdadeiro. E começa em ritmo de valsa, no grande baile de gala no Clube Municipal pela turma de bachareis da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Distrito Federal do ano 1954. Impecável, mas quase tonto, no meu magnífico smoking danço em viravoltas com Nadyr, muito bela no seu vestido longo. Tenho grande receio de pisar na grande roda do vestido de gala de Nadyr, o que fatalmente acontece depois da meia-noite e de tantos rodopios.

O jovem professor de filosofia começa realmente a existir em 1955, ano da licenciatura definitiva. Seguindo o ritmo sempre vertiginoso da Rio de Janeiro daqueles dias de geral agitação nacional, num tempo herdeiro da contestação política consequente do dramático episódio do suicídio do Presidente Getúlio Vargas aos 24 de agosto de 1954, entro no ensino sob o signo das exceções, em todos os sentidos. Não sei ainda que professor sou e que professor poderei chegar a ser, mas me confronto imediatamente com o difícil mercado de trabalho em que se embate todos os jovens docentes de todos os tempos, em particular para aqueles de então. Ensinar filosofia é partir em inferioridade de oportunidades diante da maioria das outras matérias, porque as suas horas oficiais são do grupo das matérias limitadas. Felizmente a licenciatura de Filosofia permite igualmente o magistério de História. Daquela Geral, mas com privilégio para a História do Brasil. Mas não terminam aí as exceções. Acrecente-se às poucas horas disponíveis oficialmente no programa do ensino o fato de viver o Brasil num regime predominantemente de escolas particulares para o ensino secundário. Este mesmo regime, ao contrário daquelas estatais, permite às escolas o pagamento do docente a forfait, por horas de lições dadas, sem obrigação de um claro contrato mensal de trabalho estável. Desta maneira, os desníveis de pagamento são inevitáveis, tocando principalmente os interesses dos docentes mais jovens e iniciantes. Este sistema de horários cria um grande problema para os professores, aquele da passagem de Colégios a Colégios numa grande cidade como o Rio de Janeiro. O que comportava e comporta uma perda de duas, três horas de locomoção diária, por seis dias na semana. Isto naturalmente para aqueles professores que têm a sorte surpreendente de poder trabalhar em muitas sedes. Este mesmo sistema das escolas particulares faz aparecer outro grande problema, aquele relacionado com os horários das mesmas. Em choque com as conquistas sindicais, essas escolas funcionam em vários turnos, começando às 8 da manhã e concluindo às 23 horas.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Réplica à carta aberta de Carlos Loures sempre sobre a Carta de Caminha

Sílvio Castro 
                                                                                
Prezado amigo Carlos Loures, agora sim começo a reconhecer a tua habitual fala, feita de ponderações; apoiada em convincente e jamais deslocada erudição; expressiva demonstração de moderna mentalidade literária. Mas, infelizmente, (me parece...) nem tudo ainda é ouro!...

Quando falo de lugar comum na tua primeira intervenção não transcuro a certeza que todo o conceito de lugar comum pode se transformar em metáfora redentora e de clara força criativa. Como é próprio de um escritor moderno, como sabes ser, tanto em prosa, quanto em poesia. No mesmo sentido considero determinados adjetivos. Sabemos que em geral o adjetivo tem a consistência passageira próprio do leve tempo de uma rosa, a não ser que esta mesma rosa não seja um “nome” e de consequência o adjetivo não possua a consistente força nominal. Assim está para os meus citados “aberrantes”, “anacronísticos”.
A historiografia literária não é uma ciência exata, certo, mas funciona cientificamente na melhor direção da posse de consciência cultural por parte de um povo.
O Brasil existe enquanto complexa realidade desde 1512, quando o cartógrafo veneziano Marini realiza o seu mapa-mundo e dá às novas terras que Caminha já revelara o nome “Brasil” (o mapa original de Marini encontra-se atualmente no Museu do Itamaraty, Rio de Janeiro).
Quando o luso-brasileiro Duarte Coelho, titular da grande Capitania de Pernambuco, escreve ao Rei de Portugal despertando-o para a realidade brasileira, já então ele sabia que o Brasil existia. E que todo o resto era uma fugaz, ainda que dolorosa, situação política, não somente para os brasileiros, como ele, mas igualmente para os portugueses, como ele.
A Carta de Caminha, o primeiro Evento da literatura brasileira, já exprime tudo isso. Esta é a razão pela qual o estudioso paulista Leonardo Arroyo, na sua edição do texto do grande Escrivão, afirmava:

“Mais do que um documento histórico essa Carta de Pero Vaz de Caminha é uma profecia e um instrumento de fé. Por isso deve andar nas mãos do povo“.

A minha posição metodológica quanto à história da literatura brasileira, caríssimo Carlos, não é patriotismo, mas a certeza da força de todos esses valores históricos. Por isso, não duvido que Tomás Antônio Gonzaga seja um poeta brasileiro; bem como não meteria jamais em dúvidas que Gonçalves Crespo pertence à literatura portuguesa.

Eu, para concluir, meu caro amigo, sou tão patriota que de pátrias tenho três, como traduzo num dos meus poemas de Gira Mu(o)ndo (Ed. Galo Branco, RJ, 2007):

Unidade terciária


                                   1.
                                   Não me chamo Raimundo
                                   Raimondo
                                   nem Edmundo;
                                   como certa unidade
                                   fora de qualquer idade
                                   por 1 terço
                                   sou brasileiro,
                                   português por um outro,
                                   italiano na comple
                                   mentaridade.
                                   Os meus 3 terços me levam
                                   a fora
                                   em busca
                                   do sentimento do mundo.

                                   2.
                                   O brasileiro encontra o seu mundo
                                   inteiro e terciário
                                   num constante frêmito vital;
                                   tudo lhe parece inédito
                                   ainda que saiba
                                   que muita descoberta
                                   é um édito
                                   repetidamente lido.

                                   3.
                                   Mar e terra a vista
                                   a bordo da nave insone
                                   conduz no sentimento
                                   do mundo
                                   o ondoso terço
                                   português;
                                   ele sabe que o infinito
                                   está atrás do olhar
                                   que descobre  com naufrágios
                                   a certeza de finisterra.

                                   4.
                                   O terço de italiano é ele
                                   e os dois distinto outros:
                                   viaja no mundo
                                   ainda quando não
                                   sai de Veneza Gênoa Florença
                                   Milão –
                                   nelas encontra horizontes
                                   pintados de azuis amarelos vermelhos
                                   tintoretos
                                    visíveis até mesmo onde
                                   ainda não chegou.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Evento da Literatura Brasileira - A propósito da polémica entre Sílvio Castro e Carlos Loures

Manuel Simões

Por circunstâncias várias, um escritor pode pertencer a duas literaturas, sendo, por vezes, até difícil determinar a qual está mais directamente ligado. O método para essa determinação costuma ter em conta três factores: a nacionalidade, a língua que veiculou a escrita e o tema privilegiado no acto de criação literária. É por isso que Gil Vicente e Francisco Manuel de Melo, por exemplo, constam dos manuaiis de literatura espanhola, porque ambos escreveram em castelhano, mas confesso que a primeira vez que constatei esse facto, tido como incontroverso, a minha perplexidade foi espontânea, como se a literatura espanhola se quisesse “apoderar” de dois autores portugueses. Não já pela língua, como é óbvio, mas pelos temas e aspectos culturais específicos, o Padre António Vieira (Lisboa, 1608-Bahia, 1697) é simultaneamente um escritor português e brasileiro: percebe-se nos escritos do jesuíta uma afinidade com as coisas e os seres brasileiros ao ponto de ele próprio se considerar “mazombo”, isto é, filho do Brasil mas de pais europeus (neste caso, portugueses).
Ora é por estas razões que não me repugna aceitar, seguindo até a historiografia literária, a “Carta” de Pero Vaz de Caminha não só como o acto de nascimento do Brasil – não obstante lhe tenha chamado “Terra de Vera Cruz “ – mas como o primeiro documento e monumento da literatura brasileira, porque nela confluem todos os temas que os escritores brasileiros usarão como traços distintivos: o mito do bom selvagem, a literatura indianista que se lhe seguiu, a feminilidade inocente e sedutora, mais tarde largamente recuperada e ressemantizada por muitos poetas e prosadores.
Isto não invalida a aceitação de que o primeiro e verdadeiro literato do Brasil colónia  tenha sido o Padre José de Anchieta, nascido em Tenerife (Canárias), chegado ao Brasil em 1553, co-fundador de S. Paulo, gramático da língua tupi, poeta lírico e dramaturgo segundo o modelo de Gil Vicente, através de autos que utilizou com a finalidade de converter os índios ao cristianismo.
Julgo por isso radical a argumentação de Carlos Loures, segundo a qual “antes de haver estado brasileiro não existe literatura brasileira”. E lembro os casos, entre outros, de Ambrósio Fernandes Leitão, funcionário da Coroa no Brasil, com os seus “Diálogos das Grandezas do Brasil”, de Cláudio Manuel da Costa ou de Gregório de Matos, mestiço, filho de pai português e de mãe bahiana. Tomás António Gonzaga (1744-1810), que viveu entre Portugal e o Brasil, pertence, por direito, quanto a mim, às duas literaturas. E algumas vezes se fez a ponte entre as duas culturas, como no caso do mulato Domingos CaldasBarbosa (1740-1800) qu difunde em Lisboa as ternas “modinhas”, talvez ligadas  às origens do fado.
Carlos Loures tem razão quando se refere aos casos de Angola, Moçambique ou Cabo Verde, Devo lembrar, todavia, que por muitos anos, mesmo depois da independência, as literaturas destes países foram designadas genericamente por “Literaturas africanas de expressão portuguesa”, “Literaturas africanas de língua oficial portuguesa” ou até “Literaturas africanas lusófonas”, não ousando a crítica conceder-lhes a “carta de alforria”. Manuel Ferreira, a quem devemos os fundamentos destas literaturas, ainda em 1986 lhes atribuía o título genérico, dividindo internamente o seu trabalho pelos vários países mas sem conceder autonomia às novas literaturas.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fala de Pero Vaz aos seus Pares do Concelho da Cidade do Porto – Março de 1500

Sílvio Castro



Este não é um canto fúnebre
do “eu”, desde sempre comigo
nos idos e fados de uma vida;
este não é um canto de conquista
deste meu “eu” quase perdido,
mas a celebração do “outro”,
palpitante no “eu” já entrevisto
em meio à névoa da navegação a vista.

Névoa e vista compõem o horizonte
no longínquo “outro”, fruto de meu “eu”,
triste, triste “eu”, agora vivo no olhar
conquistador do “outro”, de tudo além,
muito além do mar e da tristeza.
O “outro”, nele vivo e sou eu,
ainda que diante da tormenta
que fará para sempre do “eu”, “outro”.

A navegação do “eu” quase disperso
salta, palpita em procelas e calmarias,
deixando a vista do horizonte
vindo festoso do amado Doiro
para além das tormentosas trevas
ao porto seguro do revelado “outro”.
O “eu” navegante, domado e consciente,
se abre ao seu “outro” triunfante.


Meus Pares –
Saúdo Ulisses, mas
o meu navegar é só de ida.
Grande é a festa
de um renascido “eu”,
agora “outro”.

Veneza, 26 de novembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Carta aberta ao Professor Sílvio Castro

Carlos Loures


Sílvio Castro, meu prezadíssimo amigo, retribuo com os devidos juros os elogios que me fazes e que antecedem a tua patriótica indignação – considero-te um grande escritor, um probo intelectual e sei que és um excelso professor. Nada do que digo a seguir deve ser interpretado de outra forma que não seja a de prosseguir um diálogo entre amigos que divergem num pormenor, mas que sabem que estão de acordo em muitas coisas importantes. Conhecemo-nos há muitos anos e as nossas relações, as profissionais e as de amizade, sempre se pautaram por uma grande frontalidade. Não vamos abrir excepções.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Porque não estou de acordo com Carlos Loures no seu texto: “Evento da Literatura Brasileira ‘ qual o momento chave?”

Sílvio Castro

Estou em total desacordo com o meu caríssimo amigo Carlos Loures, do qual conheço desde há muito o empenho cultural e a consciência civil de um verdadeiro progressista, a grande erudição, a sensibilidade na criação literária. Mas, mesmo assim, não posso deixar passar despercebida a tomada de posição que ele erege com a sua conhecida sensibilidade e tato, quando elabora os raciocínios básicos da contestação ao meu texto sobre A Carta de Pero Vaz de Caminha como Evento primeiro e substancial na história da literatura brasileira.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O Brasil na Bienal de Arquitetura de Veneza - 2010

Sílvio Castro

Com o encerramento da 12ª. Exposição Internacional de Arquitetura de Veneza (29/08 – 21/11 2010), podemos verificar que a sua organizadora, Kazuyo Sejima, conseguiu incorporar novas e convincentes conotações à manifestação veneziana. Com a sua proposta metodológica subordinada ao tema People meet in Architecture, ela demonstrou ser possível fazer uma Bienal de Arquitetura igualmente vista como uma Bienal de Arte: mais do que nunca, a exposição veneziana equilibrou o seu aspecto técnico e especialístico com a presença estética da própria representação. Com isso, a Bienal abriu-se a um público maior de visitantes, 170.000, 38% a mais daquela que visitara a precedente exposição de 2008. Toda essa multidão de expectadores pôde gozar contemporaneamente o lado técnico dos projetos apresentados e a trancrição artística dos mesmos, tudo em grande equilíbrio. Diante dos pavilhões nacionais estáveis na área dos Giardini, ou nas diversas sedes espalhadas por toda a cidade (a exposição de Portugal encontrou sua posição ideal nos espaços magníficos da Universidade Ca’Foscari – cf. o nosso artigo a propósito, neste mesmo blog na abertura da exposição), a inovadora edição de Kazuyo Sejima soube propor para a Bienal de Arquitetura uma nova perspectiva.

O Brasil esteve positivamente representado na grande festa veneziana. Na sede tradicional do estèavel Pavilhão brasileiro dos Giardini, apoiado pelo comissário Heitor Martins, presidente da Bienal de Arte de São Paulo, o curador Ricardo Ohtake mostrou uma fisionomia ampla da arte arquitetônica nacional, tudo a partir da proposta temática “50 anos depois de Brasília”. O crítico paulista soube homenagear dignamente o meio-século decorrido da inauguração da moderna capital brasileira e, ao mesmo tempo, mostrar um amplo quadro das atividades criadoras de alguns dos mais significativos arquitetos brasileiros contemporâneos. Traduzindo a proposta organizativa e em plena lógica com ela, a exposição vem centralizada pelo percurso correspondente da obra de Oscar Niemeyer, para em seguida abrir-se a alguns dos jovens arquitetos de menos de 50 anos de idade, surgidos justamente depois da inauguração de Brasília.

Partindo da obra do Mestre maior da moderna arquitetura brasileira, o curador desenvolve um processo de análise que vai desde os momentos modernistas da operação de Niemeyer, até um possível pós-moderno dos jovens arquitetos selecionados para a ocasião.

A carreira centenária de Oscar Niemeyer (no próximo 15 de dezembro todo o Brasil festejará o seu 103º. aniversário) vem representada desde a pioneira obra do bairro de Pampulhas, de Belo Horizonte, nos anos da década de 40, antecipadora de quanto seria realizado pelo gênio arquitetônico nos projetos da nova Capital, Brasília, visíveis no Pavilhão veneziano com a arquitetura dos Ministérios, do Parlamento, da Catedral de Brasília etc., etc.. A grande criatividade se mostra até obras mais recentes, como o MOM - Museo Oscar Niemeyer, Curitiba, Paraná, de 2002, ou o extraordinário MAC – Museo de Arte Contemporânea de Niterói, Rio de Janeiro, 1993/2007, passando por outros projetos famosos, como aquele da sede da ONU, em Nova Iorque. Com os seus projetos, distribuidos por todo o mundo, Niemeyer transforma a momentânea revolução modernista brasileira em perdurável forma de modernidade artística.

Alargando a perspectiva expositiva, o curador brasileiro apresenta alguns jovens arquitetos nascidos depois da inauguração de Brasília e, como consequência, partecipantes da renovação ocorrida na arquitetura brasileira a partir de 1990 e sempre vigente. Os novos arquitetos em mostra são: Mário Biselli e Artur Katchborian, que trabalham com amplos espaços e volumes, com uso de material e técnicas próximos aos pontos de vista da indústria; Ângelo Bucci, com uma arquitetura que se aproxima muito da escultura, de boa sabedoria artesanal; os jovens arquitetos Daniel Corsi e Dani Hirano (Museo Esplorativo de Ciência da UNICAMP , Campinas, São Paulo, 2009; Casal Globa, 2005); Marcos Bodarini, dedicado predominantemente a projetos para as favelas. Completam o quadro, Gustavo Penna e Mariza Machado Coelho, autores do Memorial da Imigração Japonesa (Belo Horizonte, Minas Gerais, 2007-2009), realizado para a comemoração do centenário da imigração japonesa no Brasil.

A presença brasileira se completou com a sala do Pavilhão Central da Bienal na área dos Giardini com uma preciosa retrospectiva da arquiteta italo-brasileira Lina Bo Bardi, criadora, entre outras obras famosas do MASP, Museo de Arte de São Paulo.
______________

Vejamos um vídeo sobre a presença do Brasil na Bienal de Arquitetura de Veneza:

Evento da Literatura Brasileira – qual o momento-chave?

Carlos Loures

O Professor Sílvio Castro, nosso colaborador, autor deste repto, meu querido amigo e grande especialista na LIteratura Brasileira (e na Portuguesa), afirma que o primeiro evento da literatura do seu país é a Carta de Pero Vaz de Caminha para D. Manuel I. Não concordo, mas sinto-me um pouco como quem estivesse junto de Einstein a contestar a sua Teoria da Relatividade. A idade entre as muitas coisas más que acarreta, trouxe consigo este descaramento de poder discutir Medicina com os médicos, Jardinagem com os jardineiros e, como agora acontece, História da Literatura Brasileira com um Professor Catedrático da Universidade de Pádua.

Que Santo António de Lisboa (e de Pádua) nos valha!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Evento da Literatura Portuguesa – A “Questão coimbrã”, 1865.

Sílvio Castro

A rebelião dos jovens estudantes conimbrenses de 1865, guiados pelo gênio de Antero de Quental, é um marco da modernidade portuguesa que supera os limites de um tradicionalismo prepotente e que, em politica, denuncia a decadência da revolução liberal e anuncia aquela socialista.

Não se trata tão somente de uma reação de jovens poetas e literatos estudantes da mais importante das Universidades portuguesas contra Antonio Feliciano de Castilho e o seu reconhecido poder político-cultural, mas como proclamação epocal.




segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um jogo muito sério

Carlos Loures

Utilizo hoje o meu espaço habitual, não para, como frequentemente acontece, para defender ideias que, em alguns casos, são meramente pessoais e noutros tentam fazer ecos de anseios colectivos – pregações no deserto que, por vezes, chegam a oásis onde amigos, concordando ou discordando, discutem com base nas palavras que a meio do dia lanço, esperando com isso não estragar digestões (embora a minha esperança, por vezes, seja essa – a de prejudicar algumas digestões).

Hoje venho ocupar-me de um assunto interno do Estrolabio, deste microcosmos onde, desde Maio, quase quarenta amigos lançam palavras que, numa média diária, põem mais de trezentas pessoas a ler mil e tal páginas. É pouca gente? É a que é. Nós gostamos de trabalhar para públicos pouco numerosos. Somos como aqueles actores que não se adaptam aos grandes palcos e preferem trabalhar num pequeno bar, cantando declamando ou dizendo piadas. O Estrolabio não atrai tanta gente como o Rock in Rio, mas isso não nos incomoda, pois quem tem essas grandes audiências consegue-o de uma forma pela qual não queremos enveredar. Não é um mal, o termos entre trezentos e quatrocentos visitantes – é uma opção.

O nosso editorial do primeiro dia está aí na barra lateral e nele se anunciam as nossas intenções. A elas queremos ser fiéis - não queremos ser um estádio de futebol. Preferimos ser um piano-bar. Gostos não se discutem.

Há meses atrás, o nosso colaborador Sílvio Castro, lançou-nos o repto de revelarmos quais os dez livros do Século XX que mais nos tinham impressionado. Muitos de nós correspondemos e os depoimentos foram interessantes. Lança-nos agora um outro desafio – o Evento. Diz ele: «Trata-se de um jogo, sério, muito sério, que os amigos do Estrolabio de todos os Países de Expressão Portuguesa poderão enviar, exaltando um evento de uma das Literaturas dos 9 Países de Expressão Portuguesa. O conceito de evento é o mais amplo possível: pode referir-se a uma data, a uma obra, a um episódio, a um movimento etc, etc.»

E, dando o exemplo, enviou-nos já três textos - um relacionado com a literatura brasileira (já publicado), outro com a portuguesa, um terceiro com a angolana.

Portanto, a ideia é – colaboradores e leitores mandarem-nos textos que exaltem uma obra, um movimento, uma polémica, que constituam um momento-chave relativo a uma das nove literaturas de língua portuguesa. Pode repetir-se literaturas já referidas por outros apontando outro evento. É natural que a grande maioria dos depoimentos se refira à literatura portuguesa. Faço apelo aos leitores, aos que não constam (por enquanto) da lista de colaboradores, particularmente dos que nos lêem fora do País – mandem-nos os vossos depoimentos.

Espero, desta vez, não ter estado a pregar no deserto.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Evento - o novo jogo do Estrolabio

O nosso colaborador Sílvio Castro que, aqui nos lançou o repto de revelarmos quais os dez livros do Século XX que mais nos tinham impressionado, lança-nos um outro desafio – Evento. Diz. «Trata-se de um jogo, sério, muito sério, que os amigos do Estrolabio de todos os Países de Expressão Portuguesa poderão enviar, exaltando um evento de uma das Literaturas dos 9 Países de Expressão Portuguesa. O conceito de evento é o mais amplo possível: pode referir-se a uma data, a uma obra, a um episódio, a um movimento etc, etc.»


E, dando o exemplo, envia-nos já três textos - um relacionado com a literatura brasileira, outro com a portuguesa, um terceiro com a angolana. Publicamos já hoje, dentro de uma hora, o que se refere á literatura brasileira.


Portanto, a ideia é – colaboradores e leitores mandarem-nos textos que exaltem um evento relativo a uma das nove literaturas de língua portuguesa. Pode repetir-se literaturas já referidas. Por exemplo, quem entender que o evento mais relevante para a literatura brasileira não foi o apontado por Sílvio Castro, deve fazer um texto sobre o «seu» evento.

domingo, 7 de novembro de 2010

Evento - um jogo muito sério

O nosso colaborador Sílvio Castro que, aqui nos lançou o repto de revelarmos quais os dez livros do Século XX que mais nos tinham impressionado, lança-nos um outro desafio – Evento. Diz. «Trata-se de um jogo, sério, muito sério, que os amigos do Estrolabio de todos os Países de Expressão Portuguesa poderão enviar, exaltando um evento de uma das Literaturas dos 9 Países de Expressão Portuguesa. O conceito de evento é o mais amplo possível: pode referir-se a uma data, a uma obra, a um episódio, a um movimento etc, etc.»


E, dando o exemplo, envia-nos já três textos - um relacionado com a literatura brasileira, outro com a portuguesa, um terceiro com a angolana. Publicamos já amanhã o que se refere á literatura brasileira.


Portanto, a ideia é – colaboradores e leitores mandarem-nos textos que exaltem um evento relativo a uma das nove literaturas de língua portuguesa. Pode repetir-se literaturas já referidas. Por exemplo, quem entender que o evento mais relevante para a literatura brasileira não foi o apontado por Sílvio Castro, deve fazer um texto sobre o «seu» evento.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dia de Lisboa - Sílvio Castro, Abel Manta, Carlos do Carmo, José Carlos Ary dos Santos e Paulo de Carvalho,


Este quadro é uma das obras mais emblemáticas  do mestre Abel Manta - o Largo Luís de Camões.


Um belo poema de um  colaborador do Estrolabio- um consagrado escritor brasileiro que é Professor Universitário em Pádua e que ama Lisboa - o nosso querido Sílvio Castro.

Lisboa

I


Não melancolia, mas alegria
sinto nas ruas de Lisboa,
por descobertas não mais marítimas,
terrestres urbanas,
navegações que encontram
a cada passo
novas terras
espaços
do ser quotidiano,
estando em Lisboa.

Entro na cidade pelo Tejo,
vindo de um amado rio
de janeiro
para este abril de primavera –
passo por Belém em navegação
inversa,
acompanhado por Caminha:
também aqui pode-se plantar
e ver que tudo dá –
plantam-se sonhos e surgem
esperanças;
ilusões são certezas
depois do longo banho
no rio.


II

Não melancolia, mas alegria
sinto nas ruas de Lisboa –
desço em inclinação veloz
a rua D. João V na direção
do Rato
por calçadas cobertas
de cor violeta, não de roxo,
violeta alegria
caída do alto para o chão
em pétalas
semelhantes a vasos cúbicos
- clássicos ou barrocos? –
maneiristas quase;
é um abril maio primavera
na rua D. João V recoberta
desta cor violeta descida
dos jacarandás quietos
na gestualidade
que no fugaz espaço
de abril e maio
permite o surgir de flores
onde eram folhas.

III


Não melancolia, mas alegria
sinto nas ruas de Lisboa –
desenho finalmente
livre de outras distrações
urbanas e natais
o florir do mito
marmóreo do jacarandá,
sempre sabido
vivido
mas nunca contemplado
diretamente no florir
violeta vindo
do verde
dos verdes ramos
quietos –
o mito está comigo
desde o primeiro gozo
tátil da mesa
de minha casa –
agora não toco o mármore
metafórico:
descobridor eufórico
me cubro de violeta
na rua D. João V,
na primavera de Lisboa.



E, na voz de Carlos do Carmo, »Lisboa, Menina e Moça», poema de José Carlos Ary dos Santos, música de Paulo de Carvalho:


domingo, 24 de outubro de 2010

Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 13 - por Sílvio Castr

(Continuação)

Lenda de adugo, o jaguar


Num dia quente de grande sol, Tainá me disse sabe? para mim você é adugo.



Tinha uma vez no tempo mais antigo dos tempos um índio que caminhava na floresta na procura de uma boa gameleira. Queria tirar muito leite dela para com ele amolecer o urucu que lhe serviria para as festas que suas gentes faziam naqueles dias. Ele caminhava e sonhava as cores mais belas para enfeitar-se. Estava finalmente recolhendo o leite da gameleira quando foi atacado por uma onça enorme. Grande e longa foi a luta entre eles, por todo o dia, desde as primeiras luzes do amanhecer até aquele momento em que o sol começa a cair por detrás dos montes e colinas. O guerreiro se sentia já sem forças e então disse adugo, adugo, deixa-me livre, já não posso mais. Está bem, te deixo livre, mas deves prometer que me darás tua filha por mulher. O guerreiro exausto e vencido prometeu assim fazer. Tendo recebido a promessa, adugo disse ao futuro sogro deves dizer a tua filha que moro nesta floresta, mas muito longe, na última caverna. Quando ela para lá for, primeiro vai encontrar o buraco da irara, preta ao longo do corpo, mas branca no peito, e de focinho cinzento; logo depois será a vez do gato do mato, aimeareu, de listas pretas transversais; depois dele, ela vai se embater na jaguaterica, de pele manchada de escuro; estará quase chegando à última caverna, onde eu moro, mas antes encontrará aigo, a onça parda e muitos mais.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 11 - por Sílvio Castro

(Continuação)

Antônio Fragoso I



Vossa Senhoria,


é muito difícil falar de Antônio Fragoso, pois não consegui jamais saber o que se passava com ele, quais eram os seus pensamentos. A única verdade é que ele não queria viver conosco, já que vivia como se odiasse o mundo inteiro. Antônio Fragoso, agora que tudo acabou e já nada pode ser feito por ele, sempre viveu fechado em si mesmo. Por isso, seu rosto era de uma dureza que não se entendia e seus olhos pareciam sempre acesos. Se o demônio alguma vez conseguiu possuir um homem, ele tomara conta de Antônio Fragoso.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 9 - por Sílvio Castro

(Continuação)

Coaracy VI



Um dia contei a Coaracy que eu tivera um sonho que me apavorava e que não conseguia esquecer. Eu sonhara que caminhava sozinho pela floresta que era aquela nossa e ao mesmo tempo era uma outra. Era uma floresta que se abria sempre aos meus passos e não se fechava jamais. Mais eu andava, mais a selva se ampliava, as árvores se abriam em passagens largas e as flores se multiplicavam. Mas eu não me sentia bem naquela selva; era como se por detrás de tudo certa mão conduzisse plantas e folhas para me atirarem a um lugar aonde eu não queria chegar. Mais caminhava, mais me sentia asfixiado pelo caminho que se abria silencioso e frio. Assim foi por um tempo que parecia não acabar jamais e eu corria corria corria e as plantas e as flores e as cores me asfixiavam cada vez mais. Até que na corrida louca gritei alto e me senti cair num precip¡cio que não tinha fim.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 7 - por Sílvio Castro

(Continuação)

Coaracy I


Gostaria de poder dizer com clareza a Vossa Senhoria quanto foi importante para mim o conhecimento de Coaracy. Será difícil, mas tentarei. Difícil não porque eu não saiba quem é Coaracy e da sua natureza de homem sábio. Pero Vaz é um homem sábio, ah! se o é! Pedro Álvares, o grande capitão, é um homem sábio e todos o confirmam; como eles, outros homens sábios existem, mas Coaracy é um homem sábio como só ele sabe ser.

sábado, 16 de outubro de 2010

Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 5 - por Sílvio Castro

(Continuação)

O novo amanhecer.

Uma noite, não esquecerei jamais, eu não conseguia dormir, me levantei e saí da cabana. A penumbra ainda era forte, com uma cerração fria que antecipava a alva vizinha. Tudo era silêncio na aldeia e eu me encaminhei lentamente na direção da floresta. Nela também tudo era submerso pela penumbra noturna e se percebia apenas o estalar das árvores, o sutil movimento dos insetos noturnos, o ciciar quase apagado da brisa que começava a levantar-se, o murmúrio distante de águas. Quanto mais eu caminhava, deixando o bosque para internar-me na floresta, mais a penumbra se dissolvia na luz ainda imperceptível do alvorecer e os sons se movimentavam. Caminhando eu percebia tudo de longe e me internava não só naquele espaço de sombras, mas ia comigo mesmo, rememorando e ao mesmo tempo despojado de qualquer pensamento.

Parei em um dado momento porque, por entre a penumbra que coava em meio aos galhos das árvores cerradas, surgiam raios da luz embaçada do sol que ainda não se via, mas que estava subindo lentamente no nascente, diante de mim e de todo aquele mundo novo que eu desconhecia. Saído de mim, parei num espaço da floresta mais aberto e ali fiquei, como diante do mundo. Então, devagar, muito devagar, os ramos cerrados deixaram passar mais luz e a penumbra começou a iluminar-se e a brisa a refrescar com mais vigor ainda, como se recolhece das árvores, de todo aquele mar verde, o orvalho e o espalhace por todos os lados, num toque de carícias desconhecidas. Longe, a pouca luz se fazia mais intensa e de repente eu vi o sol que subia no horizonte. Como se me estivessem seguindo e aos meus sentimentos daquele evento, os seres e coisas da natureza começaram a levantar-se e a mostrar-se. No meu espanto sem nenhum temor eu vi então definirem-se os contornos das árvores; as menores mais próximas de mim deixavam espaços para que outras maiores se mostrassem e essas se prologavam nos longes em toda uma densa floresta que se descobria novamente verde, todos os verdes, na luz sempre mais intensa do sol. Eu seguia o caminhar da luz nas copas e ramos e percebia igualmente o despertar dos pássaros, infinitos pássaros escondidos que partiam de acordes indefinidos, para quase logo chegarem a um coro que aumentava, aumentava, e se fazia uma única mas variada voz. Eu estava dentro dos muitos verdes e das vozes, procurando descobrir o sentido delas, e logo do verde me chegavam aos olhos outras cores amarelo vermelho branco azul roxo verde verdevermelho verdeazul verderoxo vermelhoverde vermelhorosabrancoamarelo.

Eu estava dentro de todas as cores da floresta e preso pelos sons e cantos de pássaros insetos feras, tudo encoberto pelo amanhecer que se fazia sempre mais claro. Como se sonhasse, todas essas coisas me envolveram, me tomaram completamente e eu já não só via os verdes e sentia os alvoroçados sons dos animais todos mas, como num mistério, de repente tudo se mostrou, flores, pequenas e grandes, margaridas, papoulas, orquídeas, rosas, e de meio a elas saiam borboletas multicolores, e papagaios, todos os papagaios, os pequeninos todo um verde, até aqueles imensos com seus rabos e bicos vermelhos e penas verdes e azuis, e melros, pintassilgos, sabiás, graúnas, canários, o anum, o bacurau, o inambu, e aves maiores, de vozes estridentes, o frango-d'água, a cegonha, e em meio às flores e às árvores de folhas curtas, compridas, ovais, quadradas, pentagonais, octagonais, filiformes, poliformes, os muitos bichos, macacos, pacas, tatus, tamanduás. Apartada, quase imóvel, a anta. Mais, ao longe, junto às águas de um riacho, a onça. Todo o mundo se mostrava aos meus olhos espantados, mas como se eu ali não estivesse.

De repente, quase sempre, me acometia uma intensa sensação de desassossego diante da minha vida. Eu não mais sabia ver o lugar onde me encontrava, perdia-o de vista, como se aquelas imensidades fossem espaços infinitos mas fechados, nos quais eu não sabia colocar os pés. Me sentia como que perdido no ar, flutuante e sem peso, levado para o cimo daquelas árvores altíssimas, mas do alto eu não via a terra, aquela terra, mas via a minha antiga de sempre e perdida. Minha mãe me aparecia de longe, e também muito próxima. Eu a chamava, ela caminhava para mim e eu lhe pedia para ficar comigo. Minha mãe me olhava com a sua doçura, o seu plácido belo rosto me sorria e eu queria que ela me abraçasse, me tomasse consigo. Ela me era como que vizinha, mas logo desaparecia e estava nas alturas sem medidas.

O medo de perder minha mãe, o grande medo de ficar sem ela naquele desassossego, me impelia a correr para ela. Mas eu não podia sair dali. Cansado, eu retomava uma quietude que não era serenidade, mas um artifício de medo que se organiza para não perder definitivamente a visão amada. Tudo então era muito difícil no desassossego e o artifício inventava de transformar-se em carta para minha mãe Minha querida e adorada mãe, como estou longe de ti e como sinto a tua ausência. O mundo‚ imenso na tua ausência e eu me sinto sempre mais pequenino diante deste mundo desconhecido. Quero que me venhas tirar daqui para levar-me à nossa casa, quero estar contigo na nossa casa. Estou aqui, mas quero sempre estar aí. Desejo sempre correr para junto de ti. Mas me sinto condenado a não poder sair daqui, estou preso para sempre à minha pena que mais aumenta quanto mais eu penso em ti. Eu não chego até aí para poder estar de novo contigo, mas terão chegado as saudades que por estarem tão distantes, comigo as tenho bem presentes.

(Continua)