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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010





Norberto Ávila - algum teatro

António Gomes Marques


Recentemente, recebi um «e-mail» do meu amigo Norberto Ávila, que conheci na Divisão de Teatro da Secretaria de Estado da Cultura há cerca de 33/34 anos, sendo eu então Presidente da Direcção da APTA - Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, ao qual respondi, pela mesma via, com um comentário. Eis o conteúdo de um e outro:

---------- Mensagem encaminhada ----------

De: Norberto Ávila 
Data: 8 de maio de 2010 17:08
Assunto: Norberto Ávila / ALGUM TEATRO
Para: agomesmarques@gmail.com
– Se lhe parece que os teatros deste País (Nacionais, Municipais, Independentes ou Amadores que sejam) deveriam, mais frequentemente, incluir nos seus repertórios obras de autores portugueses,
– se reconhece que, em tempos difíceis, é menos recomendável o recurso a direitos de autor estrangeiros,
– se considera que Norberto Ávila é um dos autores teatrais que merecem ser mais representados em Portugal (depois de 50 anos de trabalho dramatúrgico e uma ampla carreira internacional),
– se concorda que a ficção teatral poderá ser de tão agradável leitura quanto a ficção narrativa,
– participe na divulgação da seguinte notícia:


De: António Gomes Marques [mailto:agomesmarques@gmail.com]
Enviada: domingo, 9 de Maio de 2010 22:22
Para: oficinadescrita@gmail.com
Assunto: Norberto Ávila / ALGUM TEATRO

Meu Caro Norberto

Vi com muita alegria a publicação da tua obra teatral pela Imprensa Nacional; infelizmente, a editora, pelo preço que fixa, não parece muito interessada na venda dos mesmos. Eu próprio, que não posso dizer que vivo mal, tive de esperar pela Feira do Livro para adquirir um ou dois volumes (na próxima semana) da tua obra teatral, embora já tenha alguns dos livros que foste publicando, como sabes, podendo mesmo dizer que, enquanto Presidente da Direcção da Associação Portuguesa do Teatro de Amadores promovi a publicação da tua obra mais representada em Portugal e no Estrangeiro, As Histórias de Hakim, em Fevereiro de 1978, quando as editoras não se mostravam dispostas a publicar teatro, como hoje também não se mostram. É o país que temos e tu conhece-lo bem.

Este «e-mail» vai para uma quantidade enorme de amigos, lembrando-lhes que há um Teatro Português. Quanto às Companhias de Teatro, o problema é outro, ou melhor, os problemas são muitos. Quando a regra de atribuição de subsídios às Companhias se altera de modo a servir uma determinada pessoa, quando há um «lobby» que todos nós, os que ao teatro estão atentos, conhecemos, a esperança de ver mais teatro português vai desaparecendo. Por outro lado, é muito mais fácil ir ver algumas peças ao estrangeiro e depois encená-las em Portugal do que pegar numa peça que ainda ninguém encenou e apresentá-la ao público.

Não vou escrever mais, conheces-me e podes contar comigo para sessões de divulgação dos livros agora publicados, há associações abertas a esta colaboração.

Recebe o abraço amigo do

Gomes Marques
PS - Em Dezembro passado, estive de novo na tua Angra do Heroísmo e gostei muito de voltar, depois de cerca de 15 anos ou mais.

Mas quem é este autor?

NORBERTO ÁVILA nasceu numa das mais lindas cidades de Portugal, Angra do Heroísmo, Ilha Terceira - Açores, a 9 de Setembro de 1936. A sua paixão pelo teatro levou -o a frequentar, de 1963 a 1965, a Universidade do Teatro das Nações, em Paris. Criou e dirigiu a revista Teatro em Movimento (Lisboa, 1973-75). Chefiou a Divisão de Teatro da Secretaria de Estado da Cultura por um período de 4 anos, cargo que abandonou em 1978, trocando uma vida estável, com ordenado garantido pela aventura da escrita, a que, a partir de então, se tem dedicado com verdadeira paixão e grande qualidade, escrita essa mais dedicada ao teatro do que à prosa e à poesia.

A sua produção é notável, com cerca de 30 peças de teatro, a parte mais significativa da sua obra, 3 romances e um livro de poesia.
Traduziu obras de Jan Kott (o polémico Shakespeare, nosso contemporâneo, uma edição da velha Portugália Editora, em 1968), Shakespeare, Tennessee Williams, Arthur Miller, Audiberti, Husson, Schiller, Kinoshita, Valle-Inclán, Fassbinder, Blanco-Amor, Zorrilla e L. Wouters.
Estendeu também a sua actividade à Televisão (Canal 1 da RTP), dirigindo uma série de programas quinzenais - Fila 1 - retratando a actividade tetaral em Portugal, na década de 80 do século passado.

Curiosamente, lembrando o velho ditado «santos da casa não fazem milagres», a obra teatral de Norberto Ávila é mais representada no estrangeiro, em países como Alemanha, Áustria, Bélgica, Coreia do Sul, Croácia, Eslovénia, Espanha, França, Holanda, Itália, República Checa, Roménia, Sérvia e Suíça., do que em Portugal. «As Histórias de Hakim», peça infantil editada pela APTA em 1978, é talvez ainda a peça de Norberto Ávila mais representada nos 4 cantos do Mundo, com traduções em alemão, francês e espanhol, e que, curiosamente, teve a sua primeira representação no velho Teatro Monumental (já desaparecido), na temporada de 1969-1970,.

Parece-nos oportuna esta edição da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, desejando nós que agora, já que não temos companhias de teatro e encenadores com coragem, os leitores se debrucem sobre este excelente autor, merecedor do reconhecimento dos portugueses.

António Gomes Marques

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Teatro em Portugal / Teatro Português (5)


António Gomes Marques
(Conclusão)


VIII

Não posso finalizar esta minha comunicação sem falar de algo que me é muito caro: o Teatro de Amadores, servindo-me de partes do que já, em tempos, escrevi sobre esta matéria.

Falar de Teatro de Amadores (e não Teatro Amador), ou seja, dos que por amor fazem teatro, pode remeter para a área da animação sociocultural e/ou para a da divulgação cultural descentralizada.

Tempo houve em que o Teatro de Amadores tinha o respeito do País, dos meios intelectuais, do público em geral e dos meios de comunicação social. Depois do 25 de Abril conquistou mesmo o respeito do poder político, de quem obteve ajudas financeiras e alguns meios técnicos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Teatro em Portugal / Teatro Português (4)

(Continuação)
António Gomes Marques


VI

Devo falar agora um pouco de formação. Sabe-se que há várias escolas de formação para o teatro, Escolas Superiores oficiais, integradas nos Politécnicos de Lisboa e do Porto, e outras, sendo a mais antiga a Escola Superior de Teatro e Cinema, como herdeira do antigo Conservatório Nacional, com novas instalações há uns anos na Amadora. Para além dessas escolas oficiais, onde se ministram cursos para actores, cursos de realização plástica do espectáculo, cursos de produção e de dramaturgia, há várias outras escolas para a actividade teatral no país, públicas e privadas. Disseram-me que, só no Porto, há pelo menos quatro escolas, de umas e outras.

Pelo que sei da actividade teatral em Portugal, considero que a escolha dos jovens que ao teatro queiram dedicar-se não deixa de ser de um grande risco. Também outro risco constitui a forma financeira que o Estado encontrou para estas escolas, que é proporcional ao número de alunos, levando a que se formem turmas com muito mais alunos do que os que seriam recomendáveis para um ensino de qualidade. Digam depois que a culpa é dos professores, esquecendo esta forma perversa que o Estado encontra para resolver o problema do financiamento.

domingo, 14 de novembro de 2010

Teatro em Portugal / Teatro Português (3)

(Continuação)

António Gomes Marques


V

Ao falar do Teatro Português e do Teatro em Portugal indispensável se torna falar dos textos (ou será que devemos dizer «pré-textos»?).

Quando se aborda este tema, logo se perceberá a razão por que faço esta distinção: Teatro Português – Teatro em Portugal. De facto, a larga maioria dos textos representados nos palcos portugueses ou nos espaços onde se dão as representações não são de autores portugueses.



Será que haverá muitas pessoas no nosso país que a si mesmas tenham posto esta questão? Há já muito tempo, coloquei-a a um homem do teatro português e a resposta que obtive deixou-me a pensar, de tal maneira que ainda hoje tendo a dar-lhe razão, embora a isso, por enquanto, não tenha chegado. Eis o que me foi dito: «Oh, António, encenar autores portugueses levanta um problema complicado, é muito difícil ver primeiro as suas peças lá fora!» Deixo a pergunta a todos vós: será que aquele homem de teatro tinha razão? É evidente que aquela afirmação peca por exagero e hoje já vai havendo companhias a apresentar peças de autores portugueses e encenadas por portugueses; poucas, é certo, mas já vai acontecendo. Mas não resisto a deixar a provocação, que me dá um certo gozo.

sábado, 13 de novembro de 2010

Teatro em Portugal / Teatro Português (2)

António Gomes Marques

(Continuação)

III

O Decreto-Lei n.º 225/2006, de 13 de Novembro, articulado com a Portaria n.º 1321/2006, de 23 de Novembro, «estabelece o regime de atribuição de apoios financeiros do Estado, através do Ministério da Cultura, a entidades ou pessoas singulares que exercem actividades de carácter profissional de criação ou de programação nas áreas da arquitectura e do design, das artes digitais, das artes plásticas, da dança, da fotografia, da música, do teatro e das áreas transdisciplinares», como pode ler-se no Artigo 1.º do citado Decreto-Lei.

Dos objectivos, definidos no Artigo 3.º, destaco o que se diz nas alíneas:

a) Assegurar o acesso público aos diversos domínios da actividade artística, concorrendo para a promoção da qualidade de vida, da cidadania e da qualificação das populações;

b) Descentralizar e dinamizar a oferta cultural, corrigindo as assimetrias regionais, e promover a actividade artística como instrumento de desenvolvimento económico e de qualificação, inclusão e coesão sociais;

Ao analisar-se a distribuição das verbas destinadas a tais apoios, apenas no que ao Teatro respeita, verifica-se de imediato que as grandes fatias são distribuídas a estruturas sediadas em Lisboa e Porto, com realce para a capital. Se as estas verbas juntarmos os orçamentos dos Teatros Nacionais de Lisboa e Porto, então a diferença, para o que resta dos dinheiros públicos para o território nacional, começa a ser escandalosa a política de distribuição. Se o critério que seguirmos para este nosso juízo for a divisão em Grande Lisboa, Grande Porto e restante país, então o resultado obtido torna-se inqualificável, sobretudo quando os objectivos fixados são os que transcrevemos do Artigo 3.º do Decreto-Lei.

uero com isto dizer que as estruturas daquelas duas cidades recebem dinheiro a mais? De modo nenhum. A verdade é que o dinheiro para a cultura é insignificante e os vários Governos no pós-25 de Abril são muito criativos a produzir legislação e muito pouco interessados, se pensarmos apenas na prática, no real desenvolvimento cultural do país. Para que não haja comparações indevidas, é bom não esquecer que é só este período do pós-25 de Abril que estou a analisar.

Claro que a distribuição dos dinheiros pelas várias estruturas também é demonstrativa de vários compadrios, de grandes injustiças e, podemos mesmo dizer, que algumas dessas estruturas estão a receber apoios que a legislação, se aplicada com rigor, talvez não permita.

Deixo esta questão para outro momento, não só por não estarem aqui representadas todas as estruturas que recebem apoio, muito ou pouco que seja, e também por não querer provocar uma discussão que dificilmente acabaria durante este Congresso e que poderia até gerar conflitos insanáveis.

IV

Voltando à questão principal, que é a incapacidade do Ministério da Cultura para descentralizar, dinamizar a oferta cultural e corrigir as assimetrias regionais, é bom lembrar o preâmbulo do referido Decreto-Lei quando se propõe, com a legislação em vigor, valorizar a rede de cine-teatros e outros equipamentos culturais, que inclua a residência permanente ou periódica de entidades de criação artística, assim como promover a fixação de entidades de criação e produção artísticas no interior. Escreve-se ali também que se visa favorecer a articulação entre o apoio às artes e outras políticas sectoriais.

Analisando o que realmente acontece no país, logo se poderá concluir que de boas intenções está o inferno cheio.

Não conheço toda a rede de cine-teatros existente no país, referida naquele preâmbulo, mas admito que em tais espaços predomina o chamado teatro à italiana, até por a maioria desses espaços me parecer ser constituída por recuperações de antigos cine-teatros. Em Portugal, também há poucos arquitectos virados para a criação de outro tipo de espaços, mas ainda estão a tempo de aprender com o que fez Nuno Teotónio Pereira em Algés, onde criou o célebre 1.º Acto.

A técnica e as tecnologias admitem novas possibilidades e, ao conceber-se um espaço teatral, hoje, há que pensar em dar a mesma importância à acústica, à luz, ao movimento e à óptica e não esquecer que a cena exige, ou pode exigir, uma outra dimensão e a imaginação dos criadores não pode ver-se limitada por um palco à italiana.

Estarei a ser muito exigente? Haverá criadores, alguns entre nós neste momento, que dirão: «quem me dera ter sempre um palco à italiana!». No entanto, insisto, ninguém me tira da cabeça que com o dinheiro que se tem gasto em alguns destes teatros se poderia ter feito bem melhor. Os Recreios da Amadora é um bom exemplo, assim como me parece que com o dinheiro gasto na recuperação do Teatro Nacional D. Maria II se poderia ter feito trabalho de melhor qualidade, mais adequado à prática teatral e a um total aproveitamento das salas se tivesse havido a humildade de ouvir as pessoas que do teatro fazem profissão.

O que se quer hoje é um espaço em transformação que possa modificar-se segundo as necessidades do momento (a história da Igreja mostra como deve fazer-se: veja-se as transformações que a arquitectura das igrejas tem sofrido, servindo as necessidades e o espírito do tempo – Brasília, Macedo de Cavaleiros, ...). Não se pretendem espaços de betão gigantesco, mas também não se pretendem espaços reduzidos que não permitam a apresentação de bons espectáculos. Lembro-me bem das dificuldades para meter no palco dos Recreios da Amadora o «Tio Vânia», espectáculo estreado na Malaposta, pelo Centro Dramático Intermunicipal Almeida Garrett.


Outro aspecto a ter em conta é o conforto do espectador, e deste conforto o mais importante tem a ver com a possibilidade de apresentar o melhor espectáculo possível. Se o espaço para a cena é, evidentemente, fundamental em qualquer espaço teatral, é indispensável ter outros locais de trabalho: área administrativa, área de ensaios, oficinas, camarins, gabinete para o(s) Director(es), etc. E, pergunto: não deveria também o conforto oferecido ao espectador ser levado em conta aquando da atribuição dos apoios às várias estruturas?

(Continua)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Teatro em Portugal / Teatro Português (1)* - por António Gomes Marques

I
Começo por fazer uma declaração: não vivo do teatro, nem espero vir a viver! E continuo com uma pergunta que, várias vezes, tenho feito a mim mesmo: seria mais feliz se do teatro vivesse? Não sei a resposta certa, mas uma certeza eu tenho: em Portugal, a trabalhar no teatro, dificilmente viveria como vivo.

Gosto de fazer o que tenho feito ao longo de várias décadas para ganhar a vida, como é uso dizer-se, mas talvez gostasse mais de fazer teatro!

Concluindo esta questão, presto a minha homenagem àqueles que ao teatro se têm dedicado no nosso país, fazendo disso profissão e que, naturalmente, tiveram mais coragem do que eu para prescindirem de algumas facilidades que outra profissão melhor remunerada lhes poderia proporcionar.

Uma outra questão, que é para mim fundamental, tem a ver com a razão que originou a minha paixão pelo teatro e que só consigo justificar com o facto de o teatro conter todos os meios de expressão artística, sejam musicais, pictóricos, plásticos e até arquitectónicos. Com tais meios de expressão, o teatro torna-se uma arte total, capaz de representar uma universalidade de temas que têm a ver com o homem e com o mundo.

Haverá quem pense o teatro, essencialmente, como a arte do actor, o que, hoje, não me custa a aceitar. Se tivesse oportunidade de ser encenador, julgo que procuraria fazer um teatro em que predominaria a luz branca e o preto das cortinas, evidenciando sobretudo a representação do actor, para a qual procuraria chamar a atenção do espectador. Mas deixemos o sonho, que necessitaria de uma outra explicação que não cabe agora aqui.

Há ainda, para além de muitos outros, dois aspectos fundamentais que me apaixonam: o teatro é fruto de um trabalho colectivo, até mesmo com um encenador autoritário, e é uma arte que não dispensa o público. Distingue-se particularmente do cinema, pela renovação constante de espectáculo para espectáculo, ou seja, no teatro não há dois espectáculos iguais, mais diferente ainda se assistirmos a um mesmo texto em épocas diferentes, se esse mesmo texto for interpretado por diferentes encenadores e diferentes actores (isto também pode acontecer no cinema), é um espectáculo em que basta a mudança dos públicos que a ele assiste para se estar perante um espectáculo renovado. É um espectáculo que, para se concretizar, exige uma rigorosa investigação e posterior experimentação, até pela consciência que se deve ter de que se trata de uma arte em que a sua necessária unidade está permanentemente ameaçada.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os Políticos que Temos

António Gomes Marques


Vamos lendo a imprensa e, muitas vezes, são as notícias que menos espaços ocupam que mais importantes são para a vida dos cidadãos que pagam impostos e para aqueles que, pelos baixos rendimentos que auferem, destes estão isentos.

Vejam a notícia seguinte:

Lisboa, 14 Out. (Lusa) - O líder da bancada social democrata na Assembleia Municipal de Lisboa manifestou hoje alguma "desconfiança" quanto ao novo mapa das freguesias proposto no estudo encomendo pela câmara, alegando que o PSD sai "largamente prejudicado".


"O estudo encomendado pela autarquia tem alguns problemas que têm de ser corrigidos. Mas o mais grave é que esta divisão que é sugerida nos deixou de pé atrás relativamente à boa fé deste projecto", afirmou António Prôa.


"Feitas as contas, transpondo os resultados eleitorais de 2009 para a nova divisão, tanto quanto é possível fazer, já que há casos difíceis de medir, o PS sai largamente beneficiado e o PSD largamente prejudicado", acrescentou.


Perguntarão os nossos leitores: A que propósito vem isto?

De facto, sabendo-se que sou militante do PS, poderá alguém entender que estou a atacar um outro partido, quando o que pretendo é chamar a atenção para os políticos que temos. A preocupação não é fazer uma boa divisão administrativa de Lisboa, que dela está bem carenciada; a preocupação dos representantes do PSD, neste caso, foi verificar que a proposta os viria a prejudicar, ou seja, se aprovada a divisão proposta o PSD pensa que as próximas eleições autárquicas lhe retirariam a hipótese de ganhar uma grande parte das freguesias da capital. Não importa fazer uma boa divisão, para o PSD uma boa divisão administrativa de Lisboa será aquela que lhe proporcione o maior número de freguesias sob o seu domínio.

Claro que a posição que para o PSD é válida para Lisboa também será válida para o resto do país.

Perguntarão agora os nossos leitores: E se fosse o PS a estar na posição do PSD, não assumiria a mesma posição?

Como calcularão, gostaria muito de poder afirmar que o partido de que sou militante tomaria a posição que melhor servisse Lisboa, mas, infelizmente, não me atrevo a tanto. Em todo o caso, acrescento que António Costa me merece confiança, direi mesmo que, de entre os políticos no activo, me parece ser aquele que melhor serviria Portugal como Primeiro-Ministro, e não é apenas por amizade que o digo.

Outros pensarão diferente de mim e se encontrarem alguém que melhor desempenho possa ter naquele lugar, ficarei muito grato a bem de Portugal e dos Portugueses (mas não «A Bem da Nação»). Substituir Sócrates é uma prioridade que não é de agora, mas colocar no seu lugar um qualquer Passos Coelho seria uma decisão que muito cara sairia a todos os portugueses.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Carta de Norberto Ávila a António Gomes Marques

Meu caro Gomes Marques




Cheguei já há uns dias da ilha do Corvo, aonde fui recolher uma brilhante Insígnia Autonómica de Reconhecimento, com que a Assembleia Legislativa e o Governo Regional dos Açores acharam por bem incentivar a minha criatividade literária. E eu era apenas um entre três dezenas. Começaram por ser distinguidas (a título muito póstumo, claro) duas figuras ilustres de açorianos: Manuel de Arriaga e Teófilo Braga, precisamente os dois primeiros presidentes da República.

Cheguei há dias, dizia eu, mas, como os vários assuntos que havia deixado pendentes não se resolveram por si, houve que conceder-lhes a principal atenção. E só agora pude dar uma vista de olhos mais demorada ao novo blogue Estrolábio, de que és um colaborador esclarecido e apaixonado, como outros o serão noutros domínios que não o Teatro. Pois a designação de Estrolábio (à míngua da ulilização da palavra agora corrente) acaba por resultar num estímulo à imaginação. E se o arcaico parentesco com Astrolábio facilmente remete para determinar a altura a que um astro se encontra acima da linha do horizonte (e tomemos por astros as personalidades marcantes e os seus actos), lábio endereça para a oralidade do pensamento e estro, por sua vez, traz-nos à mente o génio inventivo, o entusiasmo, a inspiração. Óptimo, portanto.

Voltando agora ao texto que te dignaste escrever a meu respeito e a propósito de ALGUM TEATRO (20 peças em 4 volumes, de recente publicação pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda), seja-me permitido um breve e despretensioso comentário. Enquanto, na 2.ª edição (APTA, 1978 – com direitos de publicação oferecidos pelo autor, se bem te recordas) As Histórias de Hakim é ainda uma peça destinada a um público prioritariamente infantil, já a partir da 3.ª edição (a expensas do Autor, 1982), ela se apresenta muito mais como uma peça para jovens, até mesmo para adultos. Tanto assim que a grande maioria dos teatros da Europa que a representam (e já andam por uma centena) o fazem à noite.

Pensando bem, apenas prevalece dentre as minhas obras uma peça para crianças: A Ilha do Rei Sono (cuja única edição portuguesa data de 1977, Plátano Editora.) Escrita em Paris, por encomenda da Companhia de Françoise Lepeuve, que a estreou no I Festival de Nanterre (1955). Publicada por duas editoras alemãs: Verlag der Autoren (Frankfurt) e Henschel Verlag (Berlim). Representada pelo Teatro do Gerifalto (Lisboa, 1968) e pelo Schauspielhaus de Wuppertal (Alemanha, 1983); transmitida por várias estações de rádio de língua alemã. Traduzida também em servo-croata.

E é tudo (e já é muito) por agora. Bom trabalho no Estrolábio, cuja carreira quero acompanhar com alguma regularidade.

Um abraço firme do amigo

Norberto Ávila

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Apresentando António Gomes Marques


António Gomes Marques, nasceu em 1945 em Chã de Alvares, concelho de Góis, Coimbra. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, foi co-fundador e principal responsável durante anos dos Grupos de Teatro, da Biblioteca e de Cinema dos Serviços Sociais da Caixa Geral de Depósitos. Durante cinco anos, foi presidente da direcção da APTA - Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, sendo responsável pela organização de Festivais Nacionais de Teatro de Amadores.

Nomeado pelo Secretário de Estado da Cultura, Dr. António Reis, para representar Portugal no Festival do Trabalho da ex-RDA, em 1978, foi também delegado português ao Congresso da AITA/IATA - Associação Internacional do Teatro de Amadores e Festival Mundial de Teatro de Amadores, realizados em Blagoevgrad-Bulgária, em 1979. Participou noutras reuniões internacionais sobre teatro, sendo delegado português ao Congresso da AITA/IATA - Associação Internacional do Teatro de Amadores e ao Festival Mundial de Teatro de Amadores, realizados no Principado do Mónaco em 1981.

Integrou a equipa técnica da Companhia de Teatro Amascultura, com sede no Centro Cultural da Malaposta, ficando responsável pela Documentação, ali permanecendo desde o início de actividade da Associação, em 1988, até 1995. Representou a Amascultura, na "Homenagem a Carlos de Oliveira - 50 anos de literatura", organizada em conjunto com a Comissão Instaladora do Museu do Neo-Realismo de Vila Franca de Xira. É membro da Direcção da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo.

Traduziu numerosas obras, sobretudo de carácter didáctico, e colaborou com textos seus em enciclopédias, nomeadamente na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. É autor de Da Chefia à Liderança - Um Caminho para a Mudança

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Teatro Moderno de Lisboa




António Gomes Marques

Em Outubro de 2009, por fim, foi lançado o livro «Teatro Moderno de Lisboa (1961-1965) Um Marco na História do Teatro Português», livro este que se muito deve ao seu organizador, Tito Lívio, não teria sido possível sem o contributo da grande Senhora do Teatro Português, Carmen Dolores.

O ano de 1961 é recordado na História Política de Portugal pelo assalto de Henrique Galvão ao navio Santa Maria, pelo início da guerra colonial, pelo frustrado golpe de estado do general Botelho Moniz, pela invasão das colónias portuguesas da Índia e também, de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro de 1962, pelo fracassado assalto ao quartel de Beja, como bem lembra Luís Francisco Rebello, no prefácio que escreveu para esta edição. A estes acontecimentos, teremos de juntar um outro facto de enorme importância para a História do Teatro Português e da Cultura em Portugal – a fundação do Teatro Moderno de Lisboa.

Da edição faz parte um pequeno testemunho da minha autoria, que de seguida dou a conhecer:

…e assim nasceu uma paixão pelo Teatro
Corria o ano de 1961 e eu, no romantismo dos meus 15 anos, vivia entre o liceu e o Cine - Clube de Torres Vedras. Era a paixão do Cinema, mas era também o nascer da consciência de que um futuro melhor poderia depender da minha praxis, termo este de que, na altura, desconhecia o significado, mas não tinha dúvidas qual o lado da barricada por que devia optar. A vida tem-me ensinado que a natureza humana não se caracteriza com este simplismo, que há factos que vivemos que são determinantes para o nosso futuro e, para ir direito ao assunto, a minha experiência com o Teatro Moderno de Lisboa é um desses factos, tendo contribuído, nomeadamente, para passar a ter mais dúvidas em vez de tantas certezas, naturais num jovem de 15 anos. Vejamos como aconteceu:

O Cine – Clube de Torres Vedras era uma associação activa e com um forte apoio da população da então Vila, o que trazia à sua Direcção mais responsabilidades, activismo esse de conteúdo bem político e, naturalmente, de clara oposição ao regime salazarista. Para além de dar a conhecer algumas preciosidades da cinematografia mundial, que a feroz censura ia deixando passar com algumas graves mutilações, havia a preocupação de organizar outro tipo de sessões, como colóquios, projecção de filmes para crianças, etc., sessões essas que juntavam, geralmente, mais de mil pessoas. Um desses colóquios foi com o Rogério Paulo, contacto habitual da Direcção da associação e de todos os que ali davam o seu contributo e que viria a proporcionar o início de uma forte amizade que nos uniu até ao seu prematuro desaparecimento. Esse colóquio foi precedido da projecção de um célebre filme sobre o TNP, de Jean Vilar, de que mantenho bem vivas as imagens de Gérard Philipe na personagem do Príncipe de Hombourg, de Heinrich von Kleist, e de Maria Casarès, na personagem de Lady Macbeth, imagens estas que criaram em mim uma apetência pelo Teatro, arte esta que, até aí, mais não era para mim do que a récita que precedia o baile de finalistas do liceu. A este colóquio seguiu-se a ida a Torres Vedras do Teatro Moderno de Lisboa, em colaboração com o Cine – Clube e de novo em diálogo com Rogério Paulo, com o primeiro espectáculo desta sociedade de actores: «O Tinteiro», farsa de Carlos Muñiz, em que Armando Cortez, numa interpretação sublime, vivia o drama de Crock, o empregado de escritório que nos mostra o mundo laboral que o (nos) oprime e que constituía um profundo libelo contra os subservientes burocratas para quem as ordens superiores estão acima de qualquer outro tipo de consideração moral, constituindo para mim, este espectáculo, o passo decisivo para relegar o cinema para um patamar inferior, embora muito importante, nas minhas apetências culturais e ...e assim nasceu uma paixão pelo Teatro!


E foi esta paixão que me levou também à amizade com Costa Ferreira, com Luís Francisco Rebello e com Bernardo Santareno, Rui Mendes, Irene Cruz, João Lourenço, Morais e Castro, Armando Caldas, José Peixoto, Maria Emília Correia, e tantos outros; que me levaria à criação, com outros companheiros de profissão, de «Os Hipopótamos – Grupo de Teatro dos Trabalhadores da CGD»; à criação, com outros militantes do teatro, da APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores (na clandestinidade) e à Presidência da sua Direcção durante quase 6 anos após 1976.

O Teatro, graças ao Teatro Moderno de Lisboa, passou a ser para mim a primeira das artes, a que dialoga com todas as outras; a arte que me mostra que a verdade é uma busca constante, de verdade em verdade, sem me impor uma; que me mostrou e mostra que a vida se constrói no respeito por valores, pelo outro e pela diferença; que me ajudou a compreender que a actividade humana tem que ser tomada como actividade objectiva no sentido em que não é apenas capaz de intervir no real como também de transformá-lo. É por esta transformação que também o Teatro, hoje, me ajuda a lutar.

Portela (de Sacavém), 7 de Julho de 2006