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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010



Os gatos que nos aceitam – VIII

Clara Castilho



I)



Cecília Meireles em Lisboa. Desenho de seu primeiro marido, Fernando Correia Dias.

O gato desce a escada *


Não tem nome nenhum. Não sabe que é gato, quadrúpede, mamífero, de pêlo preto. Não sabe que está num jardim, nem de que casa, em que rua, no mundo, num planeta, entre planetas, lua, sol, estrêlas, nebulosas, cometas – no meio do universo.

O gato desce a escada. Solenememte. Como se soubesse tudo isso e muito mais.

O gato desce a escada. Silenciosamente. Como se não existisse.

Pedras, árvores, brisa da tarde, pingo d’agua da fonte no muro, passarinhos na ponta dos telhados, nada disso o distrai. Botânica, Zoologia,
Mineralogia, nada disso tem nome, para êle, nem conteúdo, nem separação.

O gato desce a escada.

Ninguém o chamou. Não tem família. Não tem casa. Não parece ter fome nem sêde: é luzidio, nédio, grande e sereno.

Mas desce a escada.

Lá fora, pode ser ferido pela pedrada dos meninos máus. Pode ser atropelado por uma roda qualquer, dos milhares de rodas que sobem e descem pelos caminhos. Pode ser agarrado, esfolado, e virar tamborim, nas festas de Carnaval que estão preparando nos morros. E, se algum feiticeiro o avistar, pode ser cozido numa panela nova, que é a fórmula de tornar os homens invisíveis.

Humanidade, Vida, Morte, Dôr, Alma, Deus, - êle caminha solitário entre as palavras e as idéias. Ele desce a escada.

Quando escurecer, seus olhos serão fosforecentes. Mas êle nunca viu seus olhos. Atrás dêle vão a sua sombra e o meu pensamento. Cada qual mais precário.

O gato desce a escada.


1952 Cecília Meireles ***


* Inserido numa carta particular endereçada a Maria Cecília Correia. Ignora-se se foi publicado. Grafia utilizada na carta.

II)


Frida Kahlo


O poema é de Alexandre O'Neill (1924 - 1986)



Ana Ester Neves é uma reconhecida cantora lírica soprano portuguesa formadae no Conservatório Nacional de Lisboa, estudando ainda no Royal College of Music de Londres e na Universidade de Boston. Tem actuado em diversos palcos nacionais e internacionais e participado em gravações ( 6ª Sinfonia de Joly Braga Santos e a ópera Os Dias Levantados de António Pinho Vargas).
Francisco Monteiro, iniciou os seus estudos de piano com Maria Helena Aguiar e Helena Costa, tendo mais tarde ingressado no Conservatório de Música do Porto onde terminou o Curso Superior de Piano com alta classificação. Estudou ainda composição e análise com Cândido Lima, Álvaro Salazar (Porto) e Gottfried Scholz (Viena), direcção de orquestra com Jean-Claude Hartemann (Paris), interpretação musical com Marie-Françoise Bucquet (Paris) e participou em diversos cursos com professores como Vlado Perlemutter, Anne Koscielny, Nathalie Pepin, Joseph Palenicek, Moura Castro, Jorg Demus, Aldo Cicolini e Peter Schidlof.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010




Os gatos que nos aceitam - VII




Clara Castilho

Rá, deus do Sol, sob a forma de um gato
Pintura mural do túmulo em Deir el Medina, c. 1250 a.C.
I)
ODE AO GATO

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"

II)

  


Um dos contos mais famosos que a todos encantou na nossa infância, foi o da Gato das Botas , ora atribuído a Charles Perrault, ora aos irmãos Grimm.

III)
A relação entre o gato e o rato foi levada ao cinema, em 1937, pela imaginação de Wiiliam Hanna e Joseph Barbera, que criaram a dupla Tom e Jerry.














Provérbios



Se o rato está imóvel é porque o gato ainda tem o olho aberto -  Provérbio maori
Para o rato, o gato é um tigre; para o tigre, é apenas um rato -              Provérbio persa
Quando o garo está ausente, o rato sobe ao trono - Provérbio tibetano
                              

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Histórias escritas ou ditadas por crianças na época do Natal

O Pai Natal e a bruxa malvada

Ana Sofia (10 ano)

Era uma vez um Pai Natal que trazia um saco cheio de prendas para os meninos. Mas, de repente, houve uma prenda que caiu do saco, sem ele dar por isso.


Uma bruxa ia a passar e encontrou a prenda no chão. Em vez de ir entregá-la ao Pai Natal, ficou com ela para a pôr na sua árvore de Natal.


No dia de Natal houve um menino que ficou sem prenda e começou a chorar. O Pai Natal disse-lhe:


- Não chores, meu menino, que eu arranjo-te outra prenda igual à que era para ti !


Então o Pai Natal foi a casa da bruxa e perguntou-lhe: - Oh bruxa, tu viste alguma prenda perdida ?


A bruxa disse que não. O Pai Natal, que não sabia que ela estava a mentir, mandou os seus amigos anões fazerem uma prenda igual e levou-a ao menino que ficou todo contente.


Mas o Pai Natal voltou à casa da bruxa e viu a prenda que ela tinha roubado. E disse-lhe:


-Oh sua grandessíssima malvada, além de ladra és mentirosa !


E castigou-a ! Bateu-lhe com um pau no rabo e nunca mais lhe deu prendas .


Aldeia feliz

Fernando
(11 anos)


Era uma vez numa aldeia muito longe de Lisboa, lá para o Norte.


Era uma aldeia muito feliz. As pessoas eram amigas.
Chegou o Natal e todos fizeram uma grande festa. O Pai Natal deu presentes a todos.


Mas havia uma casa onde viviam dois meninos que eram irmãos e o Pai Natal não viu a casa deles. Eram muito pobres !...

Mas apareceu uma velhinha que teve pena deles e deu-lhes as prendas que o Pai Natal lhe tinha dado...

E a velhinha ficou a tomar conta deles como se fosse a “mãe”. Depois apareceu um anjo e disse:

- Fizeste bem, velhinha !

E aqueles meninos ficaram contentes porque tinham uma mãe.


POEMA RAP DE NATAL

O Natal está a chegar
E nós estamos a pensar
Como vamos começar...
Vamos pensar !...(R.)
Nos presentes que gostávamos de receber:
Carros, (R.B.)
Umas botas, (S.)
Pistolas de brincar, (D.)
Um perfume. (I.)
E o que vamos desejar: (T.)
Que as pessoas sejam felizes; (D.)
Que os pobres tenham um bom Natal e uma casa para viver;
Que as crianças que não têm mãe nem pai encontrem os seus pais;
Ou alguém para as ajudar a ter Natal; (P.)
Festa de anos
Amigos
Escola
Casa
Companhia... (R.)
Porque é que há guerras ? (D.)
Porque as pessoas são más e querem destruir.
Se calhar quando eram pequenas fizeram-lhes mal e agora, querem-se
Vingar !... (N.)
As guerras têm que acabar senão o mundo vai pelo ar !
Nós podemos brincar às guerras, mas é a fingir e sem aleijar ! (T.)
Acabem com a violência !
Deixem os animais em paz !
Queremos o mundo limpo,
Um mundo com saúde (S.)
Um mundo divertido,
Um mundo com amigos,
Com pessoas boas (I.)
Queremos um mundo com amor ! (Todos)

Uma história de Natal
ou
Duas meninas e um relógio

Maria Cecília Correia

Um dia o reloginho vermelho amuou. Era um despertador com duas orelhas, redondo, e encostava-se a outros relógios também vermelhos e de iguais orelhas, pacata colecção em diferentes tamanhos. Seus tiquetaques eram desafios musicais que alegravam a cómoda do meu quarto. Mas, quando resolveu amuar, nada o convenceu a mudar de ideias. Primeiro, tentei umas leves palmadinhas, depois uns abanões fortes, depois ainda, com leves esperanças, pu-lo de rabo para o ar. Mas ele, vá lá saber-se porquê, manteve-se firme. Que fazer? Aceitei a sua teima, ou a sua “doença”, quem sabe? E guardei-o no fundo de um gavetão da cómoda sobre a qual conversava alegre com os seus pares.

Ficou no meio do que quase não anda a uso e que por largos meses se esquece. Só às vezes, ao remexer coisas, dava com ele.

- Olha o relógio vermelho! E, como o remexer nunca é ordem, lá ficava ele tapado, de novo escondido.

Um dia, em novas remexidas, voltou o relógio a aparecer. Tirei-o para fora, tive-o nas mãos, olhei-o com cuidado e desabafei:

- Não serves para nada. Para nada? Deixa-me olhar bem para ti. Atenta, virei-o, revirei-o e aceitei a ideia: calhas bem em moldura para retrato.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Pecado de Saber Demais (II)


(Continuação)

João dos Santos(1913-1987) **
(Enviado por Clara Castilho)

JS - Quando há uma festa com o Menino Jesus que é puro e que nasce de uma mulher pura a de um homem santificado e se recebem presentes, é como se a pessoa da criança fosse absolvida, porque há a imagem do Menino que é inocente e puro, e há os presentes que são uma gratificação que comprova que afinal não se está em pecado. E como se a criança dissesse a si mesma «eu afinal não estou em pecado», ou então, «eles não sabem que eu estou em pecado, mas estou, porque pensei coisas más, porque sou malicioso e fiz maldades... se recebi presentes é porque eles pensam que eu não fiz pecados.» A festa do Natal é portanto qualquer coisa que atenua, ou anula, a culpabilidade.



J.S.M - Mas os adultos sentem uma coisa muito semelhante. Também para eles o ritual da comida e dos presentes tem em geral uma enorme importância.


J.S. - Pois, nesse aspecto da intimidade, o que caracteriza o adulto, é a criança que existe dentro dele, exceptuando certas pessoas que se rigidificaram muito, que se estupidificaram às vezes também, ou que se tornaram caracteriais. O carácter é um conjunto de traços ou de comportamentos fixos que revela uma pragmática a que a pessoa se adaptou para depois conseguir, através disso, eliminar a sua ansie¬dade. Há duas formas principais de ser, uma é a pessoa ansiosa, que é a mais pró¬xima daquilo a que se chama neurose, a pessoa que sente ansiedade em face das coisas, e há o arranjo que as pessoas dão à sua ansiedade transformando-a em com¬portamento caracterial. Por exemplo, um tipo vai comprar uma agenda para escrever tudo o que tem a fazer em cada dia. Isso pode ser uma forma caracterial normal de evitar a angústia das surpresas.


J.S.M. - E donde é que vem a euforia do Natal, vivida tão intensamente tanto por crianças como por adultos? Há uma espécie de alucinação colectiva que dura uns dias em que parece que as pessoas andam todas a contar a si próprias uma história fabulosa em que não podem acreditar...


J.S. - ……que é sempre a história da desculpabilização. A festa do Natal é descul¬pabilizante por natureza, por aquilo que nós já falámos. Somos absolvidos e toda a gente é tolerante para com os adultos. O Menino Jesus é mais que tolerante, é passivo, é generoso, e as crianças identificam-se com Ele, ou se não se identificam, fazem um esforço nesse sentido, o que já é também desculpabilizante.


J.S.M. - É estranho que essa lenda seja única. Não conheço nenhuma parecida.


J.S. - Realmente não me recordo de ter lido ou ouvido qualquer outra história com tal relevo, mas de facto é uma história que não me surpreende. Reflectindo sobre ela, parece-me que era inevitável que fosse inventada.


J.S.M. - O êxito extraordinário da lenda do Natal virá então de podermos, todos, alimentar a ilusão inconsciente, ao menos por alguns dias, de que o nosso pai e a nossa mãe não estiveram juntos, que não se passou nada entre eles, que afinal não é preciso evocar nenhuma daquelas emoções terríveis que cada criança viveu acerca da vida íntima dos adultos; o sabermos que na história do Natal, em que cada um de nós conta à sua maneira a sua própria história familiar, em que cada um de nós projecta a história idealizada do seu próprio romance familiar, a história do seu nas¬cimento, a história das suas relações com a sua mãe e com o seu pai, a história das relações que os seus pais têm entre eles, e a história, afinal, da sua própria inocência, da sua própria ignorância inocente - o sabermos que nessa história pessoal e íntima que cada um conta à sua maneira não há, afinal, segredo nenhum, não existe mal, nem pecado, nem a ameaça da condenação? Será por isso que a história do Natal tem o sucesso que tem? Assim não temos que enfrentar a culpabilidade inerente a um conhecimento pecaminoso porque não há, afinal, nada de terrível para conhecer. Assim cada pessoa revive nessa lenda desejos secretos de uma enorme importância, revive, digamos, a história da sua própria inocência perdida, agora magicamente recu¬perada?


J.S. - Exactamente.


Pois a educação, como os mitos, como as religiões, como a realidade que nós sabe¬mos existir fora de nós, são suportes para as coisas boas e más que inventamos dentro de nós, sobretudo na infância. Portanto a história do Menino Jesus enquadra-se per¬feitamente naquela parte da criança que quer promover a idealização dos pais e pro¬clamar a inocência do menino, que por ser menino e ser deus não o culpa de nada.


Cada pessoa serve-se do que está à sua volta como suporte da realidade que lhe convém mais, e é por isso que a gente fala uns com os outros, é por isso que há diálogo, porque se as coisas fossem como vêm nos dicionários, como eu dizia no outro dia, cada pessoa andava com um dicionário debaixo do braço e não precisava de dia¬logar.


J.S.M. - É engraçado... É como se toda a gente, numa dada altura da vida, se contasse a si própria, em segredo, aquela mesma história, porque toda a gente sonha, sem o saber, com a possibilidade daquilo ser verdade...


J.S. - Mesmo que não se fale nisso...


J.S.M. - Exactamente...


J.S. ...está implícito.


J.S.M. - E toda a gente inventa para si própria, secretamente, uma história assim, sem nunca ter, se calhar, a mínima consciência disso, até que um dia encontra essa história fora de si, dá-lhe uma objectividade aceitável e mete-se a si próprio dentro da história com a maior candura. E como se tivesse ido ao cinema ou se estivesse a ler um romance entusiasmante e se identificasse com o herói da história. Realmente o Menino Jesus é uma espécie de herói duma história que toda a gente se conta, em segredo, sem o saber.


* SANTOS, J., Monteiro, J.S. (1988 b)) - “Se não sabe, porque é que pergunta?”. Lisboa: Assírio e Alvim.


**Psicamalista e Pedopsiquiatra, reformulador dos serviços de saúde mental infantil na década de 60 (ver http://www.casadapraia.org.pt/)

Desenho de uma criança do centro Doutor João dos Santos_______________


domingo, 19 de dezembro de 2010

VerbArte - os gatos que nos escolhem




Os Gatos que nos escolhem - VI


Clara Castilho

a) Literatura

Picasso








Gato que brinca na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.


Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.


És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


Fernando Pessoa

b) Informações


Durante muito tempo julgou-se que o gato via tudo a preto e branco, mas sabe-se que pode distinguir as cores, tendo uma visão nocturna que lhe permite orientar-se.

Tem um sentido de olfacto muito desenvolvido. Para além do nariz possuiu no eu da boca o órgão de Jacobson. Com os seus bigodes ele pode medir a deslocação do ar, de forma a saber a posição e o contorno de tudo o que o rodeia. Reage a estímulos que somos incapazes de captar. Por isso dá conta, muito antes de nós, de algum perigo iminente – terramoto, erupção vulcânica – demonstrando-o pelo eriçar dos pelos, dilatar das pupilas, arquear das costas., etc.

Isto fez que na Idade Média lhe tenham sido atribuídos praticas de magia negra e bruxaria.

O seu ronronar transmite contentamento. Respondem a quem fala com eles, numa relação directa com a quantidade de fala que lhe é dirigida.

Diz-se que o gato tem sete vidas e noutros que tem nove (números místicos, apelando aos mistérios e fenómenos invulgares).

Em 1961 centenas de gatos foram capturados nos becos e vielas do porto de Singapura e lançados nos campos de arroz infestados de ratos, salvando a colheita em perigo…

O gato preto – Edgar Alan Poe


O pecado de saber demais * (I)


João dos Santos (1913-1987) **

 (Enviado por Clara Castilho)João dos Santos - Uma vez, era secretário de um congresso internacional de Psicanálise que houve aqui em Lisboa, já há muito anos, e veio um jornalista ter comigo e perguntou¬-me inesperadamente, à entrada para uma sessão, o que era para mim a Psicanálise. E eu saí-me com esta: a Psicanálise é a arte de reconciliar as pessoas com a sua infân¬cia. Hoje digo o mesmo, mas acrescento que é também a arte de fazer com que as pessoas recuperem a sua infância. O que acontece neste poema é que há uma parte própria do Pessoa que dá uma imagem severa, agreste, do céu e de Deus e de outras figuras desse imaginário, e há outra parte dele que idealiza o Menino Jesus como um menino muito humano. Uma coisa não é incompatível com a outra, todos nós fazemos isso, porque uma coisa é a verdade das ideias e outra é a verdade dos senti¬mentos. E desta última que falam o povo e os poetas. (Julgo que o culto do Espírito Santo tem também que ver com isso.) E muito fácil para nós dizer que o pai era casado com a mãe, que há uma célula masculina e uma célula feminina, e tudo o resto que vem nos manuais. Dizer isso é fácil. O problema é que a criança não pode aceitar emocionalmente que as coisas sejam realmente assim. Temos todos necessi¬dade de esconder de nós próprios a emoção que tivemos ao saber que alguma coisa de íntimo, de particular, de secreto se passou com os nossos pais. Isso acontece com toda a gente, até com o professor catedrático de sexologia duma universidade que fosse imaginariamente a melhor do mundo.

sábado, 18 de dezembro de 2010

 



Natárias
(Cantos que precedem, na Beira Alta, as “Janeiras”)

Maria Cecília Correia (1919-1993)

Foi quando morreu Tia Aurélia, com cinco anos de idade, que meu avô levou para casa o Menino Jesus, na sua caminha de cortinados feitos com pequenas flores ligadas, parecendo ser de madrepérola, mas que, segundo nos ensinaram, eram de escamas de peixe. Lindos eram, com duas rosas nas cabeceiras e outra  maior, em cima, como remate.  O Avô quis fazer uma surpresa à Avó, um mimo que a distraísse do seu grande desgosto. Foi um santeiro afamado que fez esse lindo Menino Jesus, um santeiro nomeado e gabado num livro de Aquilino Ribeiro, o Sr. Nelas. Contei a história dessa oferta num conto do meu livro para crianças e esse conto foi depois aproveitado para texto escolar, o que muito me agrada: o Menino Jesus é conhecido de muitas crianças, não ficou somente cá em casa.

O Menino Jesus, não sei se meses seguidos, se todos os anos pelo Natal, era “requisitado” pelas freiras do “Sacré Coeur”, ainda mal instaladas em Viseu. Minha mãe contava que as mais… hoje dir-se-ia “ternurentas”, passeavam no recreio com a imagem nos braços, embalando-o como se criancinha fosse. Quanto de maternidade frustrada nesses asseios com o Deus menina da minha Avó Prazeres! Esta, tendo em vista o seu (dele) sorriso meigo, chama-o “meu feiticeirinho”.  E ficou estabelecido, não sei por que lei, que ele passaria de filha mais velha para filha mais velha. Assim, eu fui a terceira a possui-lo e hoje Karin, a minha neta de 6 anos, já me soube dizer que o Menino Jesus um dia será seu.

Ouve, Karin, tu, que já me soubeste dizer isto, explica-me como se diz “meu feiticeirinho” na tua língua. Mas acho que, como tu também falas português, só o deves dizer nesta minha – tua – língua, como tua trisavó o dizia e sabendo porque ela assim o chamava. Tu, que não conheces  que toda a crónica daquela família se dividiu em dois poisos – Rua Formosa e Massorim – tens de saber que a Rua Formosa foi o arraial vivido, onde tudo o que era importante se passou, e que Massorim foi o sonho construído, a casa que se fez, mas a velhice também, as divisões, a venda do sonho e a dispersão da família. Portanto tu, que nem podes ir ver a casa da Rua Formosa que uma urbanização desfez, terás só de saber que lá é que o Menino Jesus foi oferecido, depois amado, depois emprestado, depois ido para casa de meus Pais, em várias terras e ao sabor dos nossos percursos, mas sem o oratório que em casa nenhuma cabia e que ficou a desfazer-se num sótão de empréstimo, lá longe, ficando a imagem guardada dentro de uma caixinha de papelão e o berço cuidadosamente embrulhado em papeis que o não comprimissem, em prateleira apertada – percalços de 6 assoalhadas para outras tantas pessoas, saindo só pelo Natal, até que, em maré de mais espaços, numa casa já minha, se lhe fez um triangulozinho com paredes de vidro, obra do Sr. Almeida, o paciente marceneiro que fez tantos móveis que hoje aqui vês, trabalhando sozinho em oficina pacata. A tunicazinha é ainda a mesma que lhe conheci, com os seus arabescos bordados a ouro. Só não sei  se já foi comprado com ela, era ainda menina a tua bisavó Cecília, ou se a bordaram  depois as “Mères”. E, se lhe ponho uns tantos livros policiais escondidos debaixo do bercinho, a aguentarem-lhe  as pernas já tortinhas, é porque eles são a exacta medida do berço-cama. Bem sei que eles estão escondidos pelo fio prateado da Árvores do Natal, batota que fiz, mas, com pouco mais de cuidado, eu teria arranjado outro calço qualquer. Deixo isso ao teu cuidado, está bem?

Que isto do calço, é coisa simples de remediar. O mais importante é que saibas  “acender a luz”. Não é riscar o fósforo sobre a vela, como hoje poderás pensar. É entrares numa cadeia, sabendo que substituis os que acenderam anos e anos atrás. A avó da tua avó… não te será um abstracto irreal, absurdo até perante o relâmpago que é o viver de hoje? Mas são assim as gerações – as “linhas” em sequência. Diante do Menino, elas passaram e se detiveram atentas, numa época que os adultos chamavam Advento e as crianças somente Natal, entre velas, lamparinas, novenas e também expectativa de novidades sempre renovadas; de Festa.

Na vela tu me verás mais tarde, como eu hoje os vejo a eles, a um a um, sabendo seus nomes por tradição oral, coisa que hoje também já não se usa. Mas, ainda que tu não saibas seus nomes, como eu, eles aí estarão contigo, nessa  luz que iluminará o Menino, por tuas mãos acesa, luz que sempre significou amor e continuidade.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010











Os Gatos que nos aceitam  - V




Clara Castilho




a) Literatura


O GATO

Vem, meu belo gato, ao meu coração apaixonado,
recolhe as unhas da tua pata
e deixa-me mergulhar nos teus belos olhos
onde o metal e a ágata se misturam.

Quando os meus dedos acariciam, vagarosos,
a tua cabeça e o teu dorso elástico
e a minha mão se inebria com o prazer
de afagar o teu corpo eléctrico,

vejo, em espírito, a minha mulher. O seu olhar,
tal como o teu, querido animal,
profundo e frio, fende e trespassa como uma lança,

e, da cabeça aos pés ,
flutuam, em torno da sua figura morena,
um ar subtil e um perfume misterioso.


Charles Baudelaire


Da Vinci



b) Informações

Durante muito tempo julgou-se que o gato via tudo a preto e branco, mas hoje sabe-se que pode distinguir as cores, tendo uma visão nocturna que lhe permite orientar-se.
Tem um sentido de olfacto muito desenvolvido. Para além do nariz possui no céu da boca o órgão de Jacobson. Com os seus bigodes ele pode medir a deslocação do ar, de forma a saber a posição e o contorno de tudo o que o rodeia. Reage a estímulos que somos incapazes de captar. Por isso dá conta, muito antes de nós, de algum perigo iminente – terramoto, erupção vulcânica – demonstrando-o pelo eriçar dos pelos, dilatar das pupilas, arquear das costas., etc.
O seu ronronar transmite contentamento. Respondem a quem fala com eles, numa relação directa com a quantidade de fala que lhe é dirigida.


Renoir

c)Provérbios
Aquele que guarda qualquer coisa para a noite, guarda-a para o gato – Provérbio dinamarquês
Aos olhos de um gato, todas as coisas lhe pertencem – Provérbio inglês
Não há gato que não tenha unhas – Provérbio suiço




Porque é que as pessoas gostam (ou não) da história do Menino Jesus.


João dos Santos (1913-1987) **
 (texto enviado por Clara Castilho)
Há dias e há noites em que a solidão custa mais. A noite do Natal é uma daquelas em que as pessoas suportam mal o isolamento. De muitos ouvi contar ou li contadas, histórias tristes do Natal passado longe da família, na emigração, em viagem, na guerra ou no hospital. Também eu tenho uma história dessas para contar, mas a minha é só meia triste, porque o Menino Jesus me fez uma partida engraçada. Foi em 1946. No fim de 1945 tinha eu participado na famosa reunião de (Os 300 do Benformoso» para pedir «eleições livres). Já não era sem tempo! Por essa e por outras chamaram-me, e ao meu chefe Barahona Fernandes, ao gabinete de Sua Excelência, para nos comunicarem que o Senhor Fulano de Tal (que era eu), não só era demitido das suas funções oficiais, como ficava proibido de entrar naquele ou em qualquer outro hospital. Mestre Barahona indignou-se, teceu-me um exagerado elogio (sobre o que eu teria feito pelo Hospital) e declarou que não tomava conhecimento daquela proibição: «Enquanto eu for director, o Dr. João dos Santos entrará no meu serviço quando quiser!» ... «Toma», disse eu cá para mim, «escusavas de ouvir esta)) mas declarei logo ali, para evitar dissabores ao meu mestre e amigo que não entraria mais naquela casa.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

VerbArte - os gatos que nos aceitam - IV







Os gatos que nos aceitam - IV


Clara Castilho



SINÉ



















a) Literatura



Dois sonhos


O gato dorme a tarde inteira no jardim.
Sonha(?) tigres enviesados a chamá-lo
para a fraternidade no jardim.
Gato sonhando, talvez sonho de homem?

Continua dormindo, enquanto ignoro
a natureza e o limite do seu sonho
e por minha vez também me sonho (inveja)
gato no jardim.

Carlos Drumond de Andrade




b) Informações


Dormem cerca de 16 a 18 horas por dia, em locais quentinhos e, principalmente, aos pés da cama do dono. Sonham e isso pode se visto pelo movimento das patas, unhas e orelhas, bigodes e produção de sons.

Através da domesticação, criaram-se laços entre o homem e o gato. O contacto deverá dar-se antes das 9 semanas de vida dos gatinhos. Depois disso, será quase impossível torná-lo numa companhia carinhosa e que retribua carícias.

Ele capta e absorve tudo o que acompanha as palavras: a aspereza e o carinho, o medo ou a confiança, a ternura ou a raiva. Não percebendo as palavras proferidas, importa o “como” se diz.

Balthus

c)Provérbios


Matar um gato traz dezassete anos de má sorte - Provérbio irlandês

Gato com coleira é mais cão que gato – Provérbio africano

Quando amanhece, o gato salta, o homem acorda e o galo canta – Provérbio malgaxe

_________________



domingo, 12 de dezembro de 2010

Direcção de João Machado







Os gatos que nos aceitam - III

Clara Castilho


a) Literatura

O sorriso mais célebre da história literária felina: suspenso entre o céu e a terra, sobre o ramo de uma árvore, o gato de Chesshire que aparece e desaparece à sua vontade – uma invenção de Lewis Carrol em “Alice no País das Maravilhas!.

Foi inventado a partir de um bibelot vendido na região de Chesire, com a forma e um cão muito triste. : Lewis Carrooll constrói um gato que tem um sorriso de orelha a orelha. Carrol irá tratá-lo com um banho de nitratos que o fará aparecer e desaparecer diante de Alice como a imagem fotográfica da chapa para o papel - começa a desaparecer pela ponta do rabo até ao momento em que ficará na imagem só o sorriso do gato.

Não esqueçamos que Carrol foi um fotógrafo que captou em celulóide as Alices amadas.

- “Gatinho de Cheshire, podes dizer-me, se fazes favor, por que caminho devo andar para sair daqui?”
- “Isso tem muito a ver com o sítio aonde quiseres chegar” – disse o Gato.
- “Qualquer lado” – disse Alice.
- “Nesse caso não o importa o caminho que andares”- retorquiu o Gato.
- Desde que me leve a qualquer parte” – juntou Alice explicando.
- “Oh! Podes ter a certeza disse” – respondeu o Gato – “se andares o suficiente”.
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-“E como é que tu sabes que és maluco?”….
- “Pois bem” – continuou o Gato – “Sabes que um cão rosna quando está zangado e dá ao rabo quando está contente. Ora, eu rosno quando estou contente e dou ao rabo quando me zango. Logo, sou maluco!”.
- “Mas, isso chamo eu ronronar e não rosnar” – disse Alice.
- “Chama-lhe o que tu quiseres”- respondeu o Gato – “Vais jogar hoje croquet com a Rainha?”



- “Gostava muito” – disse Alice – “mas ainda não fui convidada”.
- “Lá nos havemos de ver!” – disse o Gato, e desapareceu.


b) Informações

O gato é uma das 40 espécies de felinos que actualmente existem em todo o mundo
Ocupa várias horas por dia lambendo-se protegendo-se assim da sujidade e das doenças. Com a pata humedecida em saliva limpa lugares onde não chega directamente com a língua.
Quando o gato se estende ao sol produz vitamina D através da acção solar sobre a sua pele. Ao lamber-se depois de ter estado ao sol ingere uma boa parte da vitamina produzida.


Picasso


c) Provérbios

Todos os pardais morreriam, se o gato tivesse asas - Provérbio dinamarquês
Os sonhos dos gatos são povoados de sorrisos - Provérbio árabe
O gato mordido por uma serpente de uma corda tem medo - Provérbio árabe







sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

VerbArte - Os gatos que nos aceitam - II

Clara Castilho

GATOS FAMOSOS



Louis Wain (1860 – 1939) foi um artista britânico conhecido por seus desenhos, que caracterizavam antropomorfismo de gatos e gatinhos com grandes olhos. O pintor sofria de esquizofrenia. É usual associar o estado mais perturbado da sua doença a figuras mais fragmentadas e de olhar mais esgazeado.





Bosh e Tommy – dois gatos que passavam a vida a lutar um com o outro e que iam fazendo companhia a Anne Frank quando esta e sua família se escondiam dos nazis em Amesterdão. Bosch é a palavra em calão que se usa para designar depreciativamente os alemães, e Tommy quer dizer soldado inglês.

Delilah – gata preferida de Freddy Mercury, vocalista da famosa banda de rock inglesa The Queen. A gata malhada foi imortalizada na música “Delilah” no album Innuendo (1991). A letra, embora enumere muitas das suas qualidades, também a repreende por urinar pela casa.




Grimalkin – o famoso gato de Nostradamus, o astrólogo francês. Era também o nome do gato das bruxas de Macbeth.

Jellylorum – gato de T.S. Eliot que serviu de modelo para a criação do livro O Livro dos Gatos, recolha de poemas que deu origem ao musical Cats.

Koroun – gato do famoso escritor e realizador francês Jean Cocteau.

La Chatte Dernière – nome que todos os gatos de Colette iam tendo, uns a seguir aos outros:

“O meu gato não fala comigo tão respeitosamente, como eu o faço com ele!”

Minou – gata de George Sand, escritora francesa. Eram tão unidas que se diz que a gata e Sand partilhavam a mesma tigela ao pequeno almoço.

Rupi – gato do fundador dos Jethro Tull, Ian Andersen, que inspirou a música que deu título ao seu álbum a solo de 2004, Rupi’ dance.

Taki – gato de Raymond Chandler, pai dos romaces de detectives e criador do arquétipo do detective Philp Marlowe. Chandler lia os primeiros capítulos dos seus romances ao gato, que apelidava de “o meu secretário felino”.

White Heather – uma gorda gata angorá que era a preferida da rainha Vitória. A gata conseguiu viver mais do que a dona e passou a pertencer ao filho, o rei Eduardo VIII.


Jean Cocteau

(100 gatos que mudaram o mundo – Sam Stall, Guerra e Paz, Lisboa, 2007
Les Chats de Paris, Barnaby Conrad III, 1996, London)

Em Portugal estou a lembrar-me :

Zé e Luis – do Professor Agostinho da Silva, que mandavam lá em casa, era impensável sentarmo-nos nos sofás que suas excelências escolhiam para si…

















Manuel Pina que escreveu em 2002 - "Perguntem aos vossos gatos e aos vossos cães" (teatro) e em 2008 - "Gatos" (poesia)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

VerbArte - Os gatos que nos aceitam - I












O nome dos gatos
Clara Castilho 

O nome dos gatos, questão delicada,
Não é passatempo para gente indolente;
Bem podem pensar que sou doido varrido
Mas um gato tem sempre TRÊS NOMES
DISTINTOS.
O primeiro é nome usado em família
- É gato Lobato, Salvato, ou Renato,
Torcato, Honorato, Beato, Falcato -
Nomes próprios, comuns, decentes, normais.
Gente de requintes e nomes sonantes
Tem nomes famosos de damas e heróis
- Deméter, Electra, Admeto e Platão –
Nomes próprios, comuns, decentes, normais.
Mas, sabem, ao gato um nome faz falta
Que seja diferente, exclusivo, distinto
Para andar emproado, cauda empertigada,
Bigodes ao vento, seguro de si.
Tantos nomes eu sei que chegam ao quorum,
( E exemplos são Quaxo ou Coripata
E Bombalurina, ou então Gelinorum)
E mais nenhum gato terá nome igual.
Além destes nomes, há um por dizer,
Nome que ninguém consegue adivinhar,
Nome inacessível à ciência humana,
Só o GATO SABE mas jamais confessa.
Se virem um gato a cismar, a cismar,
Sou eu que vos digo, o motivo é só um:
Sua alma isolada medita, contempla,
E pensa, repensa no nome que é seu,
Seu nome inefável e fável também
Fá-e-inefável
Profundo, misterioso, singular."



O Livro dos Gatos, tradução de Júlio Ramos Ramos, Editora Caravela, Lisboa, 1992 (obra original de 1939), com ilustrações de Nicolas Bentley


Thomas Stearns Eliot (1888 – 1965) foi um poeta modernista, dramaturgo e crítico literário inglês nascido nos Estados Unidos, vencedor do Prémio Nobel de Literatura de 1948. Eliot nasceu em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos, mudou-se para a Inglaterra em 1914 (então com 25 anos), tornando-se cidadão britânico em 1927.

Este livro é composto por quinze poemas com a temática "Gatos". Cada um dos poemas conta uma história em particular, ou uma característica, de um determinado gato, constituindo metáforas sobre a sociedade.

Durante muito tempo os poemas estiveram esquecidos. Eliot temeu as críticas, pois considerava os poemas fracos e exclusivos para crianças. No entanto, o livro foi um sucesso.

Na década de 1970, já 10 anos após a morte de Eliot, Andrew Lloyd Webber musicou alguns dos poemas e fez uma versão reduzida do musical “Cats”. A viúva de Eliot, Esme Valerie Eliot, após assistir essa prévia do musical, presenteou o jovem autor musical com rascunhos de um poema inacabado pelo falecido marido. Esse poema chamava-se “Grizabella: The Glamour Cat”, e foi determinante para a finalização do famoso musical, dando abertura para a composição Memory, gravada por mais de 170 artistas até hoje.
Nicolas Clerihew Bentley ( 1907 – 1978) foi um ilustrador inglês , célebre pelo seu humor bem vísivel nos cartoons que publicou em jornais e revistas.

“Memory”



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O que fazem as mulheres/ O que fazem às mulheres

Clara Castilho



“Novas Cartas Portuguesas”


Lisboa, Abril de 1972. Três escritoras portuguesa, com obra já feita - Maria Isabel Barreno e a Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, escrevem um livro em conjunto, a que chamaram “Novas Cartas Portuguesas”. Nelas aparecem figuras femininas marcadas por condicionalismos de vária ordem, maltratadas, enclausuradas, dependentes, vítimas de amor ou paixão, casadas à força, enganadas, exploradas… e pacientes!

Procuram um editor. A Dom Quixote - dirigida por outra mulher, Snu Abecassis, que já ousara enfrentar a censura com a publicação da obra de uma das autoras, e tivera como consequência a ameaça de fechar a editora, por parte de Moreira Baptista, Secretário de Estado da Informação e Turismo – mostra-se indisponível. Será outra mulher, Natália Correia, directora literária de “Estúdios Cor”, quem ousa enfrentar a censura que reagiu ferozmente: as autoras são acusadas de pornografia e ultraje à moral pública !



O livro foi retirado do mercado e seguiu-se um processo judicial a que só a pressão dos movimentos feministas internacionais e a Revolução de 25 de Abril de 1974 permitiram pôr termo. Dentro do país, devido à censura nos jornais pouco se soube. No estrangeiro, movimentos feministas faziam manifestações, marchas, acontecendo mesmo a ocupação da embaixada portuguesa na Holanda pelas feministas holandesas.
Quase quarenta anos se passaram. Mudou muita coisa? Mudou pouca? Continuaremos a falar sobre este assunto.


Recentemente foi reeditado, numa edição anotada por Ana Luisa Amaral.

Resulta de um projecto - "Novas Cartas Portuguesas: Três Décadas Depois", fruto de uma investigação do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Universidade do Porto, e é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Para a Professora Ana Luísa Amaral, interessava mostrar que se esta obra podia ser lida à luz dos estudos feministas, também deveria ser analisada à luz de teorias que questionam a própria noção de identidades estáveis.

O texto foi deixado intacto mas junto a ele há 200 anotações, um índice, uma bibliografia contendo os textos usados pelas autoras e o pré-prefácio que Maria de Lourdes Pintassilgo escreveu em 1980.

Programa-se uma tradução em inglês e outra em italiano e envolverá 15 países, 13 equipas e 26 investigadores. O objectivo é estabelecer e estudar o impacto das NCP "quer a nível histórico-social, quer a nível democrático". Estão envolvidas investigadoras de seis países e cabe aos coordenadores em cada país formar "equipas voluntárias de jovens investigadores que farão a recolha de tudo o que foi escrito sobre as “Novas Cartas Portuguesas” em cada país". Daqui resultarão dois livros: um em português, "NCP entre Portugal e o mundo", que será lançado em 2012, com colóquio em Évora; outro em inglês, em 2013, "New Portuguese Letters to the World, International Reception".