Mostrar mensagens com a etiqueta manuel simões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta manuel simões. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


   Faltam dois dias  e alguns minutos para 
o Ano Novo. Para se irem preparando leiam este poema que nos foi enviado pela Augusta Clara e pelo Manuel Simões.

Receita de ano novo 
 


Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade
(1902 - 1987)


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
 

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
 




segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade vem ao Terreiro da Lusofonia

trazendo "O amor natural"


Manuel Simões e Carlos Loures



O grande poeta brasileiro (1902-1987) é por demais conhecido e a sua obra (lembremos apenas Sentimento do Mundo ou A Rosa do Povo) faz parte do património das literaturas de língua portuguesa. Há uma dimensão, porém, não muito frequentada pela crítica e que se refere a um volume de poesia, O Amor Natural, até pelo modo, quase clandestino, como foi publicado. Em Agosto de 1985, a um jornalista que lhe pedia notícias sobre o livro, Drummond respondeu-lhe que não tinha intenção de publicar os seus versos eróticos, receando que o leitor os considerasse pornográficos.

Na verdade, o volume já tinha sido publicado em 1981 numa edição reservada de apenas dois exemplares, um dos quais entregue ao escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, crítico literário e genro do poeta. O outro exemplar foi submetido à apreciação de outros amigos e estudiosos, que o avaliaram com apreço, mas Drummond continuou a mantê-lo em silêncio.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A Cidade-Poesia

(Foto de José Magalhães)




Quatro poetas falam de Coimbra e do Mondego - Coimbra, berço de movimentos literários, é fonte de inspiração para canções e poemas - é a cidade-poesia.

Carlos de Oliveira


ELEGIA DE COIMBRA


Gela a lua de março nos telhados
e à luz adormecida
choram as casas e os homens
nas colinas da vida.


Correm as lágrimas ao rio,
a esse vale das dores passadas,
mas choram as paredes e as almas
outras dores que não foram perdoadas.


Aos que virão depois de mim
caiba em sorte outra herança:
o oiro depositado
nas margens da lembrança.


(in Mãe Pobre, 1945).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Evento da Literatura Brasileira - A propósito da polémica entre Sílvio Castro e Carlos Loures

Manuel Simões

Por circunstâncias várias, um escritor pode pertencer a duas literaturas, sendo, por vezes, até difícil determinar a qual está mais directamente ligado. O método para essa determinação costuma ter em conta três factores: a nacionalidade, a língua que veiculou a escrita e o tema privilegiado no acto de criação literária. É por isso que Gil Vicente e Francisco Manuel de Melo, por exemplo, constam dos manuaiis de literatura espanhola, porque ambos escreveram em castelhano, mas confesso que a primeira vez que constatei esse facto, tido como incontroverso, a minha perplexidade foi espontânea, como se a literatura espanhola se quisesse “apoderar” de dois autores portugueses. Não já pela língua, como é óbvio, mas pelos temas e aspectos culturais específicos, o Padre António Vieira (Lisboa, 1608-Bahia, 1697) é simultaneamente um escritor português e brasileiro: percebe-se nos escritos do jesuíta uma afinidade com as coisas e os seres brasileiros ao ponto de ele próprio se considerar “mazombo”, isto é, filho do Brasil mas de pais europeus (neste caso, portugueses).
Ora é por estas razões que não me repugna aceitar, seguindo até a historiografia literária, a “Carta” de Pero Vaz de Caminha não só como o acto de nascimento do Brasil – não obstante lhe tenha chamado “Terra de Vera Cruz “ – mas como o primeiro documento e monumento da literatura brasileira, porque nela confluem todos os temas que os escritores brasileiros usarão como traços distintivos: o mito do bom selvagem, a literatura indianista que se lhe seguiu, a feminilidade inocente e sedutora, mais tarde largamente recuperada e ressemantizada por muitos poetas e prosadores.
Isto não invalida a aceitação de que o primeiro e verdadeiro literato do Brasil colónia  tenha sido o Padre José de Anchieta, nascido em Tenerife (Canárias), chegado ao Brasil em 1553, co-fundador de S. Paulo, gramático da língua tupi, poeta lírico e dramaturgo segundo o modelo de Gil Vicente, através de autos que utilizou com a finalidade de converter os índios ao cristianismo.
Julgo por isso radical a argumentação de Carlos Loures, segundo a qual “antes de haver estado brasileiro não existe literatura brasileira”. E lembro os casos, entre outros, de Ambrósio Fernandes Leitão, funcionário da Coroa no Brasil, com os seus “Diálogos das Grandezas do Brasil”, de Cláudio Manuel da Costa ou de Gregório de Matos, mestiço, filho de pai português e de mãe bahiana. Tomás António Gonzaga (1744-1810), que viveu entre Portugal e o Brasil, pertence, por direito, quanto a mim, às duas literaturas. E algumas vezes se fez a ponte entre as duas culturas, como no caso do mulato Domingos CaldasBarbosa (1740-1800) qu difunde em Lisboa as ternas “modinhas”, talvez ligadas  às origens do fado.
Carlos Loures tem razão quando se refere aos casos de Angola, Moçambique ou Cabo Verde, Devo lembrar, todavia, que por muitos anos, mesmo depois da independência, as literaturas destes países foram designadas genericamente por “Literaturas africanas de expressão portuguesa”, “Literaturas africanas de língua oficial portuguesa” ou até “Literaturas africanas lusófonas”, não ousando a crítica conceder-lhes a “carta de alforria”. Manuel Ferreira, a quem devemos os fundamentos destas literaturas, ainda em 1986 lhes atribuía o título genérico, dividindo internamente o seu trabalho pelos vários países mas sem conceder autonomia às novas literaturas.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Evento - O mito do Preste João e o imaginário português

Manuel Simões

O mito do Preste João conheceu uma difusão extraordinária na Europa medieval, ligado à convicção de que existia um reino fabuloso que tinha como imperador o Preste, reino que foi conhecendo várias localizações, desde a área tártara, Índia (nestoriana) e Abissínia. A partir de 1165 foi posta a circular uma carta do mítico rei, dirigida a “Emanueli, Romeon gubernatori” (imperador bizantino), documento fictício destinado a estimular a imaginação fantasiosa do Ocidente medieval: confirmava o poder e a riqueza do chefe (também espiritual) de um território que atravessava as três Índias e o deserto de Babilónia até atingir a torre de Babel, razão que determinou o interesse em localizar um rei tão potente, ainda por cima cristão, nas terras do Oriente.

A demanda do Preste também interessou o imaginário português no processo que conduziu aos descobrimentos, considerando que, desde as primeiras viagens, as instruções dadas aos navegadores continham a explícita indicação de obterem notícias do fabuloso reino. A “Crónica” de Zurara, por exemplo, informa-nos que em 1442 o Infante D. Henrique tinha encarregado Antão Gonçalves de procurar nas costas do Rio do Ouro, na Mauritânia, notícias “das Índias e da terra do Preste João”. E o cronista comenta que o Infante pensava que “talvez agora a providência lhe deparasse nas remotas regiões algum rei cristão de crenças vivas e ânimo esforçado, que o pudesse auxiliar na guerra aos inimigos da fé”.

Em 1486 parte ainda Bartolomeu Dias com três naus para a costa africana e com a missão de deixar escravos negros nas terras descobertas com a finalidade de recolherem notícias sobre o Preste João. Mas no ano seguinte assiste-se a uma alteração radical sobre a possível localização, com a partida, desta vez por terra, de Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, os quais viajam até ao Cairo, atravessam o Mar Vermelho e chegam a Adem. Aqui se separam: Afonso de Paiva dirige-se para a Etiópia enquanto Pêro da Covilhã estabelece contactos com os mercados orientais das especiarias: Cananor, Calcutá e Goa para depois voltar ao Cairo, onde deveria encontrar o companheiro. Sabe então da morte deste, prepara o regresso à pátria mas encontra dois judeus portugueses, enviados ao Cairo por D. João II para saber notícias dos dois emissários.

Pêro da Covilhã deve ter chegado à conclusão de que o reino do Preste João só se poderia localizar na Etiópia. Por ordem do rei, parte de novo na direcção do golfo Pérsico, onde deve ter chegado em 1490. Sabe-se que o Preste o recebeu com muitas honras mas, por razões que se desconhecem, não conseguiu sair da Etiópia, onde se casou e onde vivia ainda em 1526, no tempo da expedição de D. Rodrigo de Lima.

Só depois da chegada à Índia se começa a ter uma noção mais exacta da localização da Etiópia. Tudo se torna menos abstracto quando em 1512 o embaixador etíope Matheus visitou o rei de Portugal, numa altura em que a Etiópia estava constantemente ameaçada pelos ataques turcos. E em 1520 os portugueses puderam tomar contacto directo com o reino do Preste e dele dar notícia a partir da própria experiência. Só nessa data o Ocidente poderá beneficiar desse conhecimento, sobretudo depois da referida expedição de D. Rodrigo de Lima que teve como cronista o Padre Francisco Álvares (“Verdadeira Informação das Terras do Preste João”, publicada em 1540), obra que conheceu uma extraordinária difusão a partir das traduções para italiano (1550), para castelhano (1557), para alemão (1566) ou para francês (1574).

Depois desta expedição, os portugueses puderam estabelecer contactos mais assíduos com as terras do Preste (que afinal se chamava Onandiguel), através de sucessivas expedições, uma das quais parte da Índia em socorro do négus da Etiópia contra os turcos, expedição dirigida por D. Cristóvão da Gama e narrada na “História” de Miguel de Castanhoso (1564) e na “Breve Relação” de João Bermudez (1565). Estas obras difundiram finalmente uma imagem real do personagem que ficou conhecida como Preste João – a versão latina da carta enviada ao imperador bizantino exibia no exórdio o nome de “Presbiter Iohannes” -, corrigindo e redimensionando os aspectos fantásticos que contribuiram para a difusão do mito no Ocidente, como imaginário colectivo, já desde a época medieval.

sábado, 13 de novembro de 2010

Armando Silva Carvalho, “Anthero, Areia & Água”(Lisboa, Assírio & Alvim, 2010)

Manuel Simões

Na revista “Colóquio/Letras” de Janeiro-Abril de 2010, publicou Armando Silva Carvalho um belíssimo poema com o mesmo título, composição que reflectia sobre o autor das “Odes Modernas”, por vezes em tom confessional, como o que se observa nos três versos finais: “Consigo decifrar as pegadas de Anthero/ A caminho do supremo/ Nada”. Mas antes já se antecipava o que viria a ser este livro, numa empatia de denúncia que o discurso deixava explicitamente perceber: “Direi depois se puder/ E em livro/ As causas desta minha decadência/ Já surda à voz das grandes multidões,/ Cansadas também elas/ Das palavras que lhes deitam por cima como bombas/ Em árias suicidas/ No palco da mentira universal,/ Como ele também dizia”(p.9).

Ora o livro aí está com as marcas de uma escrita inconfundível, desde que se revelou com “Lírica Consumível” (1965), passando por “Sentimento dum Acidental” (1981), “Canis Dei” (1995), “Sol a Sol” (2005), “O Amante Japonês” (2008), para citar apenas alguns títulos da apreciável e originalíssima produção poética do Autor. Agora, ao longo dos poemas de “Anthero, Areia & Água” a voz poetante passou a ser desempenhada por Antero, assumindo-se o Autor como espelho que reflecte o pensamento anteriano, recuperando por vezes o tempo histórico e a vertente ontológica: “Foi ontem, o início das Conferências,/ Fui eu quem levantou o comum pendão das Ideias,/ Revolução, Livre Pensamento, Democracia,/ E (oh, horror!) Socialismo”(p.75).

Inspirando-se este texto na leitura das “Cartas de Antero”, seria inevitável a referência a eventos, a polémicas que envolveram a geração (“Era o Lutero de Quental, diziam./ Não anti-Cristo, apenas anti-Castilho”) e sobretudo aos grandes sistemas que (in)formaram um século, aqui sintetizados de modo exemplar: “Tremendíssimo século dezanove,/ O meu, o de Marx (que tão mal conheci), o de Freud/ (de quem mal ouvi falar), da Ciência que surge em maiúscula/ Como uma nova jóia na coroa metafísica/Dos espaços febris do pensamento” (p.96).

Neste diálogo profundo com o tempo e o contexto da obra poética de Antero, o sujeito enunciador parece fundir-se por vezes entre os dois poetas e o discurso adquire assim uma contemporaneidade poética através de processos hermenêuticos que restituem força ao sentido das palavras. Exemplo deste processo é o poema cujo título (“Reprimenda ao Autor”) é um indicador da fusão empática de que se falou atrás, onde parece evidente a base do fascínio e da sua força de atracção, a razão da mesma perplexidade perante as coisas e os seres: “O presente alimenta-se da confusão dos euros e muito futebol./ As massas, meu caro, as massas não sofrem/ As insónias do doente nervoso,/ Não leram, passado mais de um século,/ O meu Proudhon, o meu Hegel de alcance reduzido/ Em soluções desportivas ou em pontas de lança justiceiros” (p. 86). É um segmento textual, este, talvez mais sereno mas não menos cáustico do que é habitual na escrita de Armando Silva Carvalho, escrita que aqui tenta fazer emergir o vulto escondido e algo misterioso do poeta da razão mas igualmente do misticismo.

De certo modo, este livro excelente pode ler-se como um ensaio, em forma de grande poesia, sobre as ideias do maior animador cultural da famosa geração de 70.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dia de Lisboa - Manuel Simões e Fausto, falam-nos da Lisboa dos Descobrimentos



Manuel Simões



Não há rio tão ditoso e recusado
como este rio de lis(as) naves,


memória de navegações por cabos
infinitos e praias desoladas:


as viagens do lusíada sempre em fuga.
Mar de palha rasgado no corpo


inquieto de Lisboa, alfeite de nervos
fracturados com seu arsenal de angústia:


(Segunda parte de "O regresso do lusíada" in Canto Mediterrâneo,1987, p. 35).


E o Fausto diz-nos que "O barco vai de saída" (do Álbum Por este Rio Acima, 1982).

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Excepção Atlântica. Pensar a Literatura da Guerra Colonial, de Roberto Vecchi (Porto, Ed. Afrontamento, 2010).

Manuel Simões

O Autor tem-se ocupado, desde meados da década de 90, dos temas e problemas relacionados com a literatura da guerra colonial e do seu impacto no imaginário português, a ponto de se poder dizer que é hoje um dos grandes especialistas de uma matéria que remete para “um passado que ainda foge à fundação de uma memória compartilhada”. De facto, data de 1995 a publicação de dois importantes ensaios (“Literatura da guerra colonial: a melancolia como género” e “A guerra colonial entre género e tema: ‘Jornada de África’ de Manuel Alegre”), que constituíram o ponto de partida para esta abordagem global que é parte de uma investigação persistente de alguns anos sobre a guerra colonial e, de modo mais específico, sobre a literatura que procurou representá-la.

Ao longo de um preâmbulo e de oito capítulos de grande maturidade reflexiva, até do ponto de vista teórico, o Autor conduz o seu discurso no sentido de observar a literatura da guerra colonial como um modo, entre outros possíveis, para tentar um discurso crítico sobre Portugal, sobre o império colonial (ponto ainda fracturante da história portuguesa contemporânea), sobre o trauma, “sobre a relação entre a violência e a excepção para que sempre remete”.

Tal discurso assenta numa reflexão profunda sobre as questões subjacentes e implícitas à representação de mecanismos perversos que conduziram todo um percurso, de que destaco, por razões de espaço: “Usos e genealogia: os corpos despedaçados e a história”; “a melancolia como género”; “Restos, rastos, indícios e fantasmas. Tragédia e trágico” (capítulo 1); saudade, luto, melancolia na literatura da guerra colonial (capítulo 2); e, de modo particular, todo o capítulo 5, como se pode avaliar pela súmula que antecede o capítulo: “Memória e história […] (Quase) lutos, cicatrizes, epitáfios. Enterrar os mortos: as Antígonas trágico-modernas da guerra colonial. A condição póstuma do Autor: tal Império, qual conflito? Quem são as vítimas invisíveis de uma não guerra sem nome? Astúcias e incoincidências do autor póstumo na literatura da guerra colonial. Traumas transbordantes e políticas póstumas do trágico: ‘Enterrar os mortos e cuidar dos vivos’. Culpa e crueldade nas representações da guerra colonial”.

Na sua globalidade, o volume constitui um desafio que o Autor faz a si próprio e aos leitores no sentido duma leitura abrangente e iluminante, sob muitos aspectos, dos vários textos ficcionais que se produziram sobre a guerra colonial. Concordo plenamente com Margarida Calafate Ribeiro, prefaciadora do volume, quando afirma que este livro nos leva a reflectir “sobre Portugal de uma forma teoricamente provocante, absolutamente inovadora e distinta do que até agora tem vindo a ser feito”.

Roberto Vecchi é professor de Literatura Portuguesa e Brasileira, e de História das Culturas de Língua Portuguesa na Universidade de Bolonha. Para além dos dois ensaios já citados, de certo modo fundadores do que viria a ser a investigação futura, é autor de vários ensaios sobre o mesmo tema, publicados em Portugal, em Itália e no Brasil. Desses estudos destaco: “Mares coloniais, mares da memória. Algumas considerações sobre a literatura da guerra colonial” (1994); “Percursos. Fragmentos de uma ‘recherche’ da África perdida” (1996); “Barbárie e representação: o silêncio da testemunha” (2001): “Experiência e representação: dois paradigmas para um cânone literário da guerra colonial” (2001); “Restos de experiência, rastos de memória: algumas características da guerra colonial” (2001); “Das relíquias às ruínas. Fantasmas imperiais nas criptas literárias da guerra colonial” (2003); e “Império português e biopolítica: uma modernidade precoce?” (2007).

(Para os interessados no tema, o volume será apresentado na Livraria Barata no dia 25 de Outubro, às 18,30 horas).

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Arte poética: Manuel Simões, João Cabral de Melo Neto e Salvador Espriu

Manuel Simões

(Jamprestes, Ferreira do Zêzere, 1933)


TEORIA DA COMPOSIÇÃO



O artífice imerge
As mãos na matéria
Avulsa a transformar.

Sem artifício investe
o próprio corpo no acto
preciso de plasmar.

Do ofício extremo
Resta o resíduo: densa
e intensa arte de amar.

(Micromundos, Lisboa, 2005)

_______________________
 
João Cabral de Melo Neto
(Rio de Janeiro, 1920-1999)


CATAR FEIJÃO
1.

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

(A Educação pela pedra, 1965).

_______________________



Salvador Espriu
(Santa Colomba de Farners,1913 - Barcelona, 1985)


LES PARAULES


Hi ha tristesa darrera
les paraules, lents carros
en corrua que porten
runa de tu, molt tedi
de tarda de diumenge,
temor de dany. Se’t tanquen
llibres i amics, els llavis
de les coses. Malèvols
aprenents d’homes grisos
t’encalcen per difícils
retorns a Déu. Intentes
amagar-te ben dintre
del teu hivern, on puguis
amb tants records encendre
l’últim foc. Després mires
amb ulls ja buits i penses
a dormir. Però encara,
a les palpentes, vénen
ferida porcellana,
nocturna seda, i trenques,
des d’una aigua profunda,
veus d’oblidats, intacte
vidre vell de paraules.


Ouçamos agora Raimon cantar um outro poema de Salvador Espriu:
"He mirat aquesta terra"






 

sábado, 9 de outubro de 2010

Fotopoemas - Reflexos

Com este poema de Manuel Simões iniciamos a série Fotopoemas onde uma fotografia de José Magalhães será acompanhada poe um poema ou por um texto poético de um colaborador do Estrolabio. Vai ser assim durante uns dias - sempre às 10:00.


Poema de Manuel Simões e
Fotografia de José Magalhães
No espelho d'água
o tremular opaco
da aparência
flutua à deriva
compõe e decompõe
a imprevista imagem
no momento
exacto da vertigem

da falsa percepção
desfeita pela crespa
onda, já aflorada
pelo vento agreste
que refaz a ilusão:
o real e o avesso,
marca d'água
e seu reflexo

(in Micromundos, Lisboa, 2006, p. 26)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Noctívagos, insones & afins: Sobre a blague de a língua portuguesa «ser muito traiçoeira»


Manuel Simões

Não sei se foi o apresentador/humorista Herman José quem inventou esta expressão mas é ele quem a tem difundido com a intenção de pôr em evidência segundos sentidos de palavras cujo significado primeiro não tem referências de carácter obsceno ou licencioso. Mas a ele interessa-lhe vincar precisamente este aspecto e, não fosse o público não perceber, eis que recorre ao que já se tornou um lugar-comum que se ouve com muita frequência: “a língua portuguesa é muito traiçoeira”.

A convicção posta na utilização assídua e apodíctica deste lugar-comum parece querer conceder à língua portuguesa o exclusivo da ambiguidade e da polissemia de um grande número de palavras, o que é um tremendo disparate, antes de mais porque esta é uma característica essencial da linguagem, mais acentuada porventura na sua realização popular. E não é uma concessão dos deuses à língua portuguesa pela simples razão que é um aspecto distintivo de todas as línguas, não sendo de estranhar que se desenvolva mais acentuadamente em campos semânticos onde se pretende introduzir a “transgressão”. Isto quer dizer que, na sua realização concreta, ao referir-se a termos apercebidos com algum pudor, a língua utiliza eufemismos aparentemente inócuos, cuja função é a de atenuar a crueza da expressão ou a de provocar efeitos irónicos, desencadeando o riso ou enriquecendo a expressão literária que vive, como se sabe, de imagens e de metáforas. Como escreveu Eça de Queiroz de forma bem expressiva: “sobre a nudez crua da verdade o manto diáfano da fantasia”.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Maratona Poética - Olha, o Manuel Simões traz o João Cabral de Melo Neto e o Salvador Espriu

Manuel Simões

(Jamprestes, Ferreira do Zêzere, 1933)


TEORIA DA COMPOSIÇÃO



O artífice imerge
As mãos na matéria
Avulsa a transformar.

Sem artifício investe
o próprio corpo no acto
preciso de plasmar.

Do ofício extremo
Resta o resíduo: densa
e intensa arte de amar.

(Micromundos, Lisboa, 2005)

_______________________
 
João Cabral de Melo Neto
(Rio de Janeiro, 1920-1999)


CATAR FEIJÃO
1.

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

(A Educação pela pedra, 1965).

_______________________



Salvador Espriu
(Santa Colomba de Farners,1913 - Barcelona, 1985)


LES PARAULES


Hi ha tristesa darrera
les paraules, lents carros
en corrua que porten
runa de tu, molt tedi
de tarda de diumenge,
temor de dany. Se’t tanquen
llibres i amics, els llavis
de les coses. Malèvols
aprenents d’homes grisos
t’encalcen per difícils
retorns a Déu. Intentes
amagar-te ben dintre
del teu hivern, on puguis
amb tants records encendre
l’últim foc. Després mires
amb ulls ja buits i penses
a dormir. Però encara,
a les palpentes, vénen
ferida porcellana,
nocturna seda, i trenques,
des d’una aigua profunda,
veus d’oblidats, intacte
vidre vell de paraules.


Ouçamos agora Raimon cantar um outro poema de Salvador Espriu:
"He mirat aquesta terra"






Sabem quem chega às sete? - Rosa Alice Branco que traz "só" o Carlos de Oliveira e o Paul Verlaine.

sábado, 4 de setembro de 2010

António Cabral

Carlos Loures

A poucos dias de se iniciar a nossa maratona de 24 horas publicando poesia, venho recordar mais um poeta – depois de José Gomes Ferreira e de Ernesto Sampaio é a vez de António Cabral.

António Cabral foi um dos maiores poetas da região de Trás-os-Montes e Alto Douro. Melhor: foi um dos maiores poetas portugueses do século XX. Não provocando o clamor mediático de um Torga, a sua poesia atingiu uma qualidade incomum e à qual, até agora, não se fez a devida justiça. Mas nem só poesia escreveu, pois da sua bibliografia constam, além de 15 colectâneas poéticas, cinco volumes de ficção, sete volumes de teatro. Para além de livros didácticos e de ensaios literários. Um grande escritor.

Publicou também obras sobre etnografia e antropologia, nomeadamente sobre jogos populares, matéria em que se tornou um grande especialista. A ele se deve ainda um dos mais belos textos escritos sobre José Afonso, «Introdução às canções de José Afonso», publicado no livro «Cantar de Novo» (Nova Realidade, 1970). Neste clube tenho incluído grandes poetas da lusofonia, alguns deles meus amigos. É o caso do António Cabral com o qual colaborei e que comigo colaborou em numerosas iniciativas. Um bom amigo e um grande escritor.


segunda-feira, 7 de junho de 2010

O secreto rumor do mar



Manuel Simões

1

Não perceberás neste canto

de espera anunciada

senão a pedra áspera

do espanto

nem te chegará o som

da palavra reveladora

do que quer que seja

mas tão-só a humilde

sombra que projecta

a palavra e a devolve

à aguda aspereza do mundo.


2

Talvez te aflore, densa,

a memória da árvore

da qual se olhava o mundo,

donde se olhava tudo

e tudo era como nada:

jogo não inocente, luz

entre os ramos

por onde se filtrava o ar.

Soprava um leve vento,

o secreto rumor do mar.



(in A Sophia. Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen, Lisboa, Caminho, 2007)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A desvitalização da vida

Manuel Simões

1
Conhecem só as letras mortas,
os lugares-comuns, a voz solta

sem peso, sem ardor latente
de transgressão da fala.

Não pressentem o engano, a fácil
imagem, falsa e doce

ilusão que investe, prepotente,
a indefesa credulidade que se cala.

2
Ai dos fracos de espírito, adoradores
do consumo como ideologia.

Deles será a terra prometida
crescendo à sombra dos telefilmes,

dos centros comerciais onde a vida
não se mede com inteligência.

Deles será o paraíso às avessas,
a desumana ordem que tudo banaliza,

Ai dos fracos de espírito, privados
cruelmente do poder da consciência.

(Do seu livro Errâncias, Lisboa, 1998)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Apresentando Manuel Simões


Manuel Simões nasceu em Jamprestes (Ferreira do Zêzere) em 1933. Poeta, crítico literário, ensaísta e professor universitário, é licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Línguas e Literaturas Estrangeiras pela Universidade de Veneza. Viveu em Itália desde 1971 até se jubilar, ensinando Língua e Literatura Portuguesa na Universidade “Cà Foscari,” de Veneza. Foi, em 1966, um dos fundadores da colecção «Nova Realidade» (Tomar). É, desde 1977, colaborador da revista «Colóquio/Letras» e pertence à redacção da revista «Rassegna Iberistica» (Veneza). Entre 1967 e 1969, integrou a redacção da revista «Vértice» (Coimbra). Actualmente é colaborador da revista «Nova Síntese»

A sua obra poética é composta por seis colectâneas: Crónica Breve(1973), Crónica Segunda (1976), Canto Mediterrâneo (1987), Serenínsula (versão italiana, 1987), Errâncias (1998), Micromundos (2005). No campo do ensaio, os seus livros mais destacados são: García Lorca e Manuel da Fonseca. Dois poetas em confronto (1979), Guilherme d’Azevedo, A Alma nova (1981), O Olhar Suspeitoso (2001). Dirigiu e co-dirigiu numerosas antologias temáticas e coordenou, organizou e prefaciou diversas obras. Traduziu poetas italianos como Pasolini, Eugenio Montale, Tiziano Rossi e Salvatore Quasímodo.

domingo, 9 de maio de 2010

Escrito corsário

Manuel Simões


Se o espírito do Mundo,
a ética que deriva
da entropia dominante,
proclama sem pudor o poder
dos novos bárbaros,

não direi com hipocrisia:
“fiat voluntas tua”,
mas usarei a palavra
como pedra,

palavra que rasgue o cerne
da indiferença
e proclame a ira dos inconformados,
a cultura da razão
contra os integrados.


20.03.2007 (Inédito)