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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010



Escrever


António Sales

Porque escrevo?

Não sei da mesma maneira que não sei porque fui sempre um amante da leitura e de jovem comecei a minha biblioteca. Em minha casa não existia um livro. Bom, existia a bíblia, missais de minha mãe, John, o Chauffeur Russo, Sou Maria, Saber Viver e o Coliseu Infantil. Felizmente ainda conservo todos.

Sem grandes delongas direi simplesmente que escrevo porque me apetece. Muitas vezes estou com a caixa craniana avariada e vai disto, ponho-me a escrever. È mais barato que ir ao médico e não tem despesa de farmácia para medicamentos. Dá-me prazer, digo, criar vidas ou tão prosaicamente desabafar comigo mesmo através da escrita que é uma espécie de confissão. Como jamais admiti sequer poder-me confessar ao padre, provavelmente mais por uma questão de fé que de pudor, prefiro confessar-me à escrita, ou seja, a um outro eu que não a mim mesmo. Muito embora pareça que escrevemos para nós, isso não é verdade porque fazemo-lo para um outro personagem em abstracto.

Escrever é assim uma espécie de loucura de um sujeito criador de universos onde existe sem existir, ama sem amar, sofre sem sofrer, ataca sem matar. Escrever é uma rota que isola mente e espírito transportando-os a um planeta imaginário suficientemente absorvente para eu me isolar do planeta real. Mas também é recordar, registar a vida em que participo com outros colegas interpretes desta gigantesca comédia humana (vai um chavão!) Escrever é um acto de inconfessáveis intimidades e reflexões que normalmente conduzem quem escreve ao desespero de transmitir, através dos olhos críticos da alma, as tristezas do mundo.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Reflexão sobre a serena paisagem da ganância

António Sales




Todos os dias deparamos com situações que conferem às relações sociais um carácter materializado por interesses desprovidos do mínimo de pudor e de carácter. Desde a criminalidade quotidiana em que bandidos vão para casa apesar de vítimas irem para o hospital, aos crimes de colarinho branco em que políticos, empresários, gente bem sucedida, chafurdam em negócios nas off-shores metendo milhões de euros ao bolso com ar tranquilo; os voluntários que ajudam nos mais diversos trabalhos sem pedir nada em troca até que alguém lhes dê um pontapé no cu. A sociedade actual elevou à mais alta potência a mentira, a ingratidão e a hipocrisia, desenvolvendo uma substancial quantidade de anti-corpos cuja missão é anular indivíduos tornando-os seres passivos de umbigo farto.


O sujeito idealista, generoso, pronto a sacrificar prazeres e afirmar a sua personalidade contra hierarquias estabelecidas está reduzido a pó de caca (mesmo dentro dos partidos políticos) se não respeitar normas de elogio e concordância que estabelecem o coro da glória venal. Discordar é blasfémia, recorrer à inteligência do eu (sem maiúscula) é ousadia, mostrar lucidez é vaidade, possuir capacidade de realização acima dos chefes é descaramento. A montanha é mais fácil de subir montado nas costas dos outros do que no esforço de si próprio.


Esta forma pouco recomendável de fazer carreira abençoando os amigos, acolhendo os compadres e pagando os favores leva à “moralização” de um Estado leproso que tudo contamina em nome de uma economia global assente no magnífico milagre do liberalismo das leis do mercado livre. O dinheiro, o poder económico, a do poder político, o cinismo, a majestosa importância da riqueza são factores provocatórios e desumanizantes da sociedade. Tal estado de coisas desperta a intolerância, o egoísmo, o culto individualista no pior sentido do termo.


Orgulho e arrogância colocam as suas máscaras. Escondem-se ambições e hegemonias antigas sob novas aparências. O réptil continua réptil, o imbecil continua imbecil, o oportunista continua oportunista. A mesquinhez humana – mais antiga do que a prostituição – conquista o estatuto da razão que a justifica na malha dos interesses instalados.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

VerbArte - De Corpo e Alma




António Sales


O “Sentimento trágico da vida” é um dos importantes título do grande pensador espanhol Miguel de Unamuno que morreu em 1936 mas cujo pensamento atravessou todo o século XX e ainda hoje perdura. Foi um homem de poderosa personalidade e rebeldia a quem a Espanha deve não apenas a grandeza cultural mas um grande amor pelo país que o fazia sofrer.


Para Unamuno a razão não significava necessariamente o esclarecimento mas antes a reflexão sobre as múltiplas duvidas que as fronteiras entre o mundo físico e o mundo místico estabelecem, a substância da matéria contraposta à dolorosa dúvida da imortalidade que o ser humano persegue para além de si próprio criando mitos ou procurando formas de expressão que prolonguem o seu nome como se isso fosse a sua existência, conhecedores que somos no nosso tempo diminuto da relatividade de todas as coisas, sobretudo de nós mesmos.



Se procurarmos bem raros se perpetuam no sentido do “eterno” conhecimento terreno, se eternos considerarmos dois ou três milénios, mesmo na herança daqueles que através da arte oferecem a sua expressão mística interior, capaz de criar emoções e despertar sentimentos que perduram por séculos para além das sua vidas, mesmo esses prolongaram-se na sua arte ainda em termos materiais que os suportam e lhe concedem a imortalidade terrena.



Não obstante, a dúvida da imortalidade não se encontra naquilo que de material se deixa na terra após a morte mas no transcendental que ultrapassa a decomposição do corpo a começar por fixar-se no plano da perenidade da alma. Mesmo que a alma, na sua perspectiva abstrata, se prolongue para além do indivíduo ela perde os contornos materiais que a tornavam “visível” conferindo-lhe um sentido super universal porque se o corpo não existe sem alma esta, do meu ponto de vista, não existe sem aquele (não necessariamente o mesmo).



A humana capacidade de amar, sofrer, sentir, interpretar, viver para o prazer ou para o espírito resulta dessa unidade aparentemente antagónica entre a razão da matéria e a idealização do espírito. Não há apenas uma parte mesmo quando o contrário parece evidente pois perdida uma perdida está a outra. Em termos humanos a matéria sem alma não se concebe e a alma sem matéria é uma noção abstracta, um dogma que contraria a razão.



Talvez por isso a teoria da reincarnação venha ganhando força e adeptos porque somos incapazes de aceitar que a vida humana seja exclusivamente material e, com a morte, definitivamente finita. Mesmo acreditando que após a morte a alma se liberta do corpo e sobe ao espaço de uma forma indefinida porque não vê, não ouve, não sente, subsiste a dúvida de que sendo na terra corpo e alma uma unidade, a morte de um não determinaráo eterno desaparecimento do outro.



Chegados aqui a razão conduz ao desenlace trágico que reduz o ser humano à relatividade física da sua existência e á angustiante interrogação daquilo que estará para além da sua existência se algo estará, efectivamente. No fundo, o que a razão resiste em aceitar é o nosso desaparecimento definitivo porque se for assim somos nada e a passagem é curta. E se o for o significado moral e humanista da existência sai desvalorizado e adulterado nas nossas noções eternas de esperança e de futuro. Essa será a angústia destrutiva que a fé, qualquer fé, procura equilibrar.



Unamuno disse “já não empreendo nada que possa durar”, talvez porque durar é sempre relativo pois nada pode durar eternamente. Para conseguir ultrapassar o desespero do nada tivemos de criar formas abstractas que nos transportam a um todo universal, a uma mundividência para além do concreto e representada pelo dogma da fé que suporta a nossa vontade de infinitude.



Este tema é também ele infinito para o bem de todos. Algumas vezes, antes de adormecer conjeturo sobre ele sem que chegue, obviamente, a qualquer conclusão. Apesar das minhas dúvidas, sempre que o abordo aproximo-me um pouco mais das interrogações da matéria que, esta sim, desaparecerá comigo para sempre.


sábado, 4 de dezembro de 2010

Natureza

 
António Sales
A nuvem poluída
investe sobre o dia,
desce o vale vermelho
ocultando a limpidez do céu.


Murcha o olhar das árvores indefesas
no silêncio da sua solidão.
Secam flores campestres
fecundadas nas raízes da beleza.


As trevas já castraram
os corpos de paixão.
A terra fica fria, laje de sepultura,
até que a Natureza
renasça da sua escravatura.




sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Cor Espiritual

António Sales

Quem chama por Apolo
no templo de Delfos
prostrado pelo desânimo
de não encontrar
o Jardim da Criação?

No mundo inferior em agonia
as larvas da obscena vida
cristalizam andrajos de dor.

Ninguém encontrará o caminho
que os deuses negarão
à cegueira dormente da triste solidão

Retoma a vida em ti
pois cada dia é teu.
Semeia no teu ser a cor espiritual
do tempo em lantejoulas.

Piton levar-te-à ao Jardim
do Parnaso
onde encontrarás a suprema luz
do poder redentor.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Aragem

António Sales



Corre um frio ondulante
pelo dorso do mar,
galopando nos cristais do vento
ao fim da tarde.

Vem de norte a aragem sibilina
rasgando estrias cinzentas
no sol melancólico de inverno
a salpicar memórias recortadas no ocaso do dia

Aqui sentado no paredão,
vejo paisagens soltas do passado
plasmadas na luz do horizonte
ao fim da tarde.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Noite Branca

António Sales


No imóvel sossego da noite
liberto o apelo da solidão da alma.
Não me movo, não canto, não assobio
aos pássaros peregrinos
porque o silêncio branco da noite
não deve ser interrompido.

Retenho os pensamentos
que enchem de lixo
os nossos rios interiores,
lodosos leitos de pecado
correndo para as portas do inferno.

Chamo as estrelas,
flores de prata no jardim do amor
onde gotejam brancas neves a envolver
a noite imaculada.

Assim me abandono à paz onírica
da infinita beleza da solidão nocturna
deitado no Quarto Crescente
a contemplar o universo.

domingo, 24 de outubro de 2010

Fotopoemas - Ser relativo

Poema de António Sales e
fotografia de José Magalhães




Abandono a tuba das minhas mágoas.
Procuro a energia vital
a escoar-se pelos desfiladeiros do tempo.

Fala comigo o infinito oceano
exaltando ondas vivenciais,
renascendo morrendo renascendo
desde o fundo dos séculos
nas areias da terra.

Ser relativo sou
perante a oferta mística da vida.
Paz e repouso de deuses
apelam ao espírito encarcerado
para que se liberte e se transforme
numa onda de amor.

sábado, 16 de outubro de 2010

Amar

António Sales


Recordo palavras que dissemos
dores que plantámos
na esperança magoada
dos sentimentos repartidos.

As linhas unidas de uma vida
guardam as flores do nosso riso
colhendo a felicidade do prazer
na alegria em dar e receber.


Foram chamas de amor
na leveza das mãos sonhando os corpos,
espigas de ternura
fortalecidas na fé de acreditar.


Resistiram a tudo
contra a força dos ventos que vencemos
e dessa forma sincera e livre
aprendemos a ler os soluços do olhar
onde nos encontrámos sem falar.

domingo, 10 de outubro de 2010

De Corpo e Alma

António Sales


O “Sentimento trágico da vida” é um dos importantes título do grande pensador espanhol Miguel de Unamuno que morreu em 1936 mas cujo pensamento atravessou todo o século XX e ainda hoje perdura. Foi um homem de poderosa personalidade e rebeldia a quem a Espanha deve não apenas a grandeza cultural mas um grande amor pelo país que o fazia sofrer.

Para Unamuno a razão não significava necessariamente o esclarecimento mas antes a reflexão sobre as múltiplas duvidas que as fronteiras entre o mundo físico e o mundo místico estabelecem, a substância da matéria contraposta à dolorosa dúvida da imortalidade que o ser humano persegue para além de si próprio criando mitos ou procurando formas de expressão que prolonguem o seu nome como se isso fosse a sua existência, conhecedores que somos no nosso tempo diminuto da relatividade de todas as coisas, sobretudo de nós mesmos.

Se procurarmos bem raros se perpetuam no sentido do “eterno” conhecimento terreno, se eternos considerarmos dois ou três milénios, mesmo na herança daqueles que através da arte oferecem a sua expressão mística interior, capaz de criar emoções e despertar sentimentos que perduram por séculos para além das sua vidas, mesmo esses prolongaram-se na sua arte ainda em termos materiais que os suportam e lhe concedem a imortalidade terrena.

Não obstante, a dúvida da imortalidade não se encontra naquilo que de material se deixa na terra após a morte mas no transcendental que ultrapassa a decomposição do corpo a começar por fixar-se no plano da perenidade da alma. Mesmo que a alma, na sua perspectiva abstrata, se prolongue para além do indivíduo ela perde os contornos materiais que a tornavam “visível” conferindo-lhe um sentido super universal porque se o corpo não existe sem alma esta, do meu ponto de vista, não existe sem aquele (não necessariamente o mesmo).

A humana capacidade de amar, sofrer, sentir, interpretar, viver para o prazer ou para o espírito resulta dessa unidade aparentemente antagónica entre a razão da matéria e a idealização do espírito. Não há apenas uma parte mesmo quando o contrário parece evidente pois perdida uma perdida está a outra. Em termos humanos a matéria sem alma não se concebe e a alma sem matéria é uma noção abstracta, um dogma que contraria a razão.

Talvez por isso a teoria da reincarnação venha ganhando força e adeptos porque somos incapazes de aceitar que a vida humana seja exclusivamente material e, com a morte, definitivamente finita. Mesmo acreditando que após a morte a alma se liberta do corpo e sobe ao espaço de uma forma indefinida porque não vê, não ouve, não sente, subsiste a dúvida de que sendo na terra corpo e alma uma unidade, a morte de um não determinaráo eterno desaparecimento do outro.

Chegados aqui a razão conduz ao desenlace trágico que reduz o ser humano à relatividade física da sua existência e á angustiante interrogação daquilo que estará para além da sua existência se algo estará, efectivamente. No fundo, o que a razão resiste em aceitar é o nosso desaparecimento definitivo porque se for assim somos nada e a passagem é curta. E se o for o significado moral e humanista da existência sai desvalorizado e adulterado nas nossas noções eternas de esperança e de futuro. Essa será a angústia destrutiva que a fé, qualquer fé, procura equilibrar.

Unamuno disse “já não empreendo nada que possa durar”, talvez porque durar é sempre relativo pois nada pode durar eternamente. Para conseguir ultrapassar o desespero do nada tivemos de criar formas abstractas que nos transportam a um todo universal, a uma mundividência para além do concreto e representada pelo dogma da fé que suporta a nossa vontade de infinitude.

Este tema é também ele infinito para o bem de todos. Algumas vezes, antes de adormecer conjeturo sobre ele sem que chegue, obviamente, a qualquer conclusão. Apesar das minhas dúvidas, sempre que o abordo aproximo-me um pouco mais das interrogações da matéria que, esta sim, desaparecerá comigo para sempre.

Lágrimas

António Sales


Passa por mim uma lágrima
granítica,
visão fragmentada
do sono alucinado.

Passa por mim uma lágrima
lunar,
fugida de uma estrela
cansada de chorar.

Passa por mim uma lágrima
de prata,
fio de amores perdidos
no tempo a recordar.

Passa por mim uma lágrima
de sal,
onda enrolada
na saudade do tempo consagrado.

Passa por mim uma lágrima
poética,
oitava sinfonia
das palavras sem métrica.

Passa por mim uma lágrima,
uma só,
sem rosto nem memória,
seguindo o destino de outras lágrimas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dois poemas de António Sales

Avô

Gosto de ouvir a tua voz
chamar-me avô
percorrer o meu corpo
chegar ao coração
num sopro de ternura.


Gosto de estar contigo
porque contigo sou.
Em ti encontro a paz
a minha luz.

Futuro

O futuro na minha infância
estava inocente de derrotas e sofrimentos,
simplesmente porque a minha infância
não podia profetizar o futuro.
Sendo futuro embora,
a infância brinca com alegria isenta de manhas,
tomando-o por aliado, amigo, companheiro, irmão.

Mas o futuro não é nenhuma destas coisas.
Nem aliado, nem amigo, nem companheiro, nem irmão.
O futuro não é um anjo da guarda,
nem estrela da deusa Nemesis
varrendo o caminho das traições terrenas.

Porque o futuro é uma abstracção da existência,
um consecutivo adiamento de esperanças,
um ideal narcisista de felicidade
numa vereda de brasas a percorrer
sem queimar os pés.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Maratona Poética - Jean-Paul Sartre dá passagem a António Sales, Miguel Torga e Natália Correia, acabam de chegar,


Jean-Paul Sartre

(Paris,1905 -1980)


OS POETAS

Os poetas são homens que se recusam a utilizar a linguagem. Dado que é com e pela linguagem, concebida como uma espéie de instrumento que se pratica a busca da verdade, não é preciso imaginar que eles procurem descobrir o que é verdadeiro ou expô-lo. (...) Se o poeta conta, explica ou demonstra, a poesia torna-se prosaica; o poeta perdeu a partida.

(O que é a Literatura)

__________________________

António Sales
(Torres Vedras, 1936)



LETRAS



De letras compõem-se as palavras,
letras de muitas línguas
muitos mundos.
Sementes rituais
de cores inebriantes,
também ervas daninhas,
amargas, soluçantes.

De letras grandes e pequenas
fabricam-se as palavras,
com pernas e sem pernas,
gordas, magras,
altas, baixas,
todas elas, porém,
prontas a marchar.


Umas redondas, meigas,
esculpidas de beleza
perdidas de paixão, arrebatadas.
Letras obesas
sebosas e servis,
castradas de carácter
pobres e imbecis.

Há letras de chorar
e letras de sonhar,
luminosas
alegres de encantar,
brilhantes como estrelas
de mãos dadas a bailar.

Ai letras
minhas queridas letras!
Semeiam palavras
orvalhadas de sol.





Miguel Torga


(São Martinho de Anta, Sabrosa, 1907 — Coimbra, 1995)


ARTE POÉTICA



Fecho os olhos e avanço.
E começa o poema.
Rodeiam-me os fantasmas
Fugidios
Dos versos que persigo.
A regra é caminhar
E chegar sem saber.
De tal modo é cruzada
A encruzilhada
Onde o milagre pode acontecer.

Mas sendo, como é, de cabra-cega
O jogo,
E é um destino jogá-lo,
É sempre incerto que o principio.
Tacteio no vazio
Da expressão,
Vou seguindo
Seguindo,
E ganho quando sinto a salvação
No próprio gosto de me ir iludindo.

__________________




Natália Correia
(Fajã de Baixo, São Miguel, 1923 — Lisboa, 1993)

A DEFESA DO POETA


Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto


Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim


Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes


Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei


Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição


Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis


Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além


Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?


Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa


Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.

Num serão em casa de Amália Rodrigues, com a presença da anfitriã e de Vinicius de Moraes, David Mourão-Ferreira; José Carlos Ary dos Santos, Natália Correia decalmou "A defesa do poeta". Eis a gravação:





 Às seis, chegam Manuel Simões, João Cabral de Melo Neto e Salvador Espriu.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Enganos

António Augusto Sales


Estilhaço no meu peito

o punho errante

da suplicação e ira fermentadas.

Solto a voz amarela da revolta

no meio da pobre gente atormentada.



Olhos marinhos

por lágrimas sulcados,

percursos espinhosos no rumo de viver,

veleiros de esperanças vãs

naufragados

nas cinzas uterinas das manhãs.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Hoje o Espaço VerbArte é para o António Sales

Felicidade

Felicidade vem cá
fazer-me companhia.
Não sejas egoísta
dá-me de ti um naco de poesia
para eu amar o sol
ao levantar do dia.

Faz uma festa nos meus cabelos brancos
nevados pelos anos de agonia.
Só quero um beijo teu,
leve como o vento,
trazendo-me alegria.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Destinos



António Sales

Na serra do Caramulo
há um hotel de quatro estrelas.
Tem spa, tem sauna, tem piscinas,
gente bonita a gozar a felicidade
montada sobre os ossos do sofrimento.

Na serra do Caramulo
havia um sanatório de zero estrelas.
Não tinha spa, nem sauna, nem piscinas,
mas gente escanzelada e feia
a tratar restos de tuberculosa esperança.

Escorraçados do amor
repousavam o olhar vítreo
na voluptuosidade verdejante do Vale de Besteiros.
Isolados da família escondiam a saudade
pelos corredores do sofrimento.
Mirrados nos seus quartos
cuspiam sangue vivo
invocando Deus para afugentar a Morte.
Uns foram de carreta,
com padre e com sineta.
Outros de fé na vida
tiveram feliz guarida.

Nesse espaço de sigiloso lutos,
berço de soluçadas lágrimas
e corajosa luta,ulo
onde as folhas das árvores
caíam na própria primavera,
há hoje um hotel de quatro estrelas
na serra do Caramulo.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Pecadores

António Sales


Pai, perdoai os meus algozes,
disse Jesus
abençoando-os com a paz da oração
ao abrigar
os desgraçados no perdão.

Braços abertos pelos cravos
de uma cruz,
guardou em si o sacrifício do gesto
fraternal
enquanto despertava a luz do coração.

Os espíritos do mal ficaram confundidos.
A humildade
espelhada nas palavras do amor
clamava:
Deixai vir a mim os pecadores.

Sócrates, não o filósofo grego
mas o outro,
o que ajudou a pôr o país no prego,
estendeu
os braços num gesto teatral.

Agigantou-se ao sol o seu sorriso
imperador
iluminado por fortes projectores,
e arrebatado clamou:
Deixai vir a mim os eleitores.

sábado, 24 de julho de 2010

A Promoção

Im conto inédito de António Sales

Jeremias Palonso da Silva é pobre, quer dizer, está socialmente situado na escala hierárquica dos pobres. É pobre mas não miserável, ou seja não se encontra abaixo da linha insustentável da pobreza. Todavia, esta situação não foi determinada por azares da vida ou despedimento compulsivo o que também seria um azar.

Jeremias Palonso da Silva é pobre por opção. Esquisito, não é! Sendo economista era natural que “beneficiasse” das condições normais de qualquer cidadão pronto a ganhar a vida para casar, ter filhos, alimentar a família, pagar a escola, os livros, a casa, os electrodomésticos, a mobília, plasmas, computadores wireless, automóvel, férias, impostos, coisas que obrigam qualquer sujeito a ter 2 ou 3 empregos, fazer horas extraordinárias, comer mal, não acompanhar o crescimento das crianças, criar úlceras duodenais, esquecer-se da mulher e apanhar um par de cornos, pagar ao estado um balúrdio de IRS, ter uma depressão e cair redondo no sofá do psiquiatra antes de lhe dar o AVC da praxe.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Enganos

António Sales



Estilhaço no meu peito
o punho errante
da suplicação e ira fermentadas.
Solto a voz amarela da revolta
no meio da pobre gente atormentada.


Olhos marinhos
por lágrimas sulcados,
percursos espinhosos no rumo de viver,
veleiros de esperanças vãs
naufragados
nas cinzas uterinas das manhãs.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Manto

António Sales


O manto tecido por palavras
aconchega o corpo na viagem do tempo,
embrulhando memórias em folhas de papel.

Gatafunha letras de formas milagrosas
cânticos de humildade
ou vaidade do ser?

Por isso me interrogo no acto de escrever.
Será voo de vertigem de verdades profanas
ou tempestade d’alma
em vésperas de morrer?