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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010





FRINCHA

Marcos Cruz. Ilustração de Manel Cruz.

Há uma frincha que dá lá para fora, mas eu continuo aqui, sentado. Pergunto-me se vale a pena levantar-me e dar dois passos até à porta só para espreitar pela frincha. Concluo logo que vale, mas não a pena. Vale outra coisa. Vale um depois melhor, talvez, quem sabe? Mas a dúvida, por enquanto, é suficiente para me manter quieto, inquieto, no lugar. Ponho-me então a ver se crio, se distraio a mente da preguiça do corpo. A única coisa que concedo mexer são os dedos das mãos – e a boca de vez em quando. Mas nunca as suíças. Isso nunca. É, para mim, uma espécie de desígnio sagrado. Desde que tomei consciência de mim enquanto ser diferenciado não tive a mais pequena dúvida quanto à necessidade ética de manter toda a vida as suíças imóveis, contra ventos e marés. Conclusão: nunca descanso. Há alturas em que até tenho vontade de jogar à lerpa. Mas, pronto, voltando atrás: mexo um dedo, mexo outro, mexo os dois juntos, relaciono-os e, de repente, acho que já fiz demais. Não sei por que sou tão ansioso. Um dedo, coisa linda. Outro dedo, coisa linda. “O que é que fizeste para o comer, Saia?”. Pois, já vi que nada. Esta minha mulher passa o tempo todo a babar-se, não faz nenhum. Eu ainda mexo os dedos, mas ela... tem hoje uma entrevista, tem. No meio disto tudo, quem nos faz as compras, quem nos lava a roupa, quem nos limpa a casa, ou seja, quem vive por nós... é o Fó. O Fó, que eu já não via desde amanhã às 18.00, é uma alma rara, um rapaz como qualquer outro. Neste momento, por acaso, até me está a irritar, porque se pôs a pregar um bocado de madeira por cima da frincha que dá lá para fora. Vou ter de me levantar, dar-lhe um soco, sair de casa, comprar o jornal, enfim, arriscar mais uma vez o compromisso de honra que tenho com as minhas suíças.




terça-feira, 28 de dezembro de 2010



Adeus 

Marcos Cruz. Ilustração de Manel Cruz.

Se levas nas tuas asas
o fio da minha paz
não voes para lá das brasas
onde arde este corpo frio
que jaz

Deixa-o ao menos ser alma
enquanto acaba de arder
e bate as asas com calma
para que não lhe custe tanto
morrer.


domingo, 26 de dezembro de 2010





Paz 

Marcos Cruz. Ilustração de Manel Cruz











Hiberno, 48 anos, tivera uma vida inteira para se habituar ao ciclo: dois dias radiante, um na mó de baixo. Era sempre assim. E ele, de facto, já não se importava. Na verdade, até lhe sabia bem poder planear a vida com a antecedência que quisesse. Bastava fazer contas aos dias. Só que um dia, sem contar, Hiberno percebeu que a sua vida tinha os dias contados. Triste, num dia em que era suposto estar contente, decidiu contar a sua vida. Era barbeiro, rapava pêlos todos os dias. Ou melhor, dois dias sim, um dia não, porque, pelo sim pelo não, preferia respeitar o ciclo. Cortava o que crescia, como na vida, antes de ser contada. Contava isto quando, de repente, contente, num dia em que era suposto estar triste, decidiu cortar a sua vida. Conta-se que ela voltou a crescer, mas sem Hiberno. Esse, diz quem lhe sente a falta, hibernou.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Zorba

Marcos Cruz

O Zorba era um cão fabuloso, nunca fazia nada à espera do osso. Eu até podia acabar aqui este texto e “postá-lo” mesmo assim, que ele não se chateava. Às vezes ficava horas nos degraus da sala a ver-me ver televisão. Era maior do que eu. Em tudo. Eu prendia-me a uma realidade. A dele incluía-me. Um dia, sem que nada o fizesse prever, pediu-me o divórcio.

Não deu razões, mas bastou-me olhar para ele para ver que era coisa séria. Assinei os papéis sem pestanejar, mas cá por dentro estava como se o meu cão, o Zorba, me tivesse pedido o divórcio. Chorei dias e dias. Lágrimas, por acaso, não. Demorei anos a ultrapassar a dor de não o ter ali, comigo, a sublinhar o nada, que era o que eu fazia. A consciência de que, finalmente, estava pronto a amar de novo só me chegou há coisa de uma hora, quando dei com a Rela, que é a cadela da vizinha, a espreitar pela janela cá para dentro, vendo-me a ver televisão. Abri-lhe a porta, claro, e adoptei-a. Minutos depois, quem me aparece à janela? O Zorba! Estava a chegar de Marrocos, aonde foi engolir uns ovos de haxixe para vender cá, e vinha à procura dela, da Rela. Iam-se casar. Combinaram ali, na minha casa, porque ele queria que ela visse a estupidez de vida que ele teve durante tanto tempo, e também porque estava a dar o Herman. Eu senti um misto de tristeza e felicidade. Tristeza porque ficava sem pau nem bola. Felicidade porque já tinha quem partilhasse a minha tristeza: a vizinha.


(Ilustração de Manel Cruz)


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Roma



Marcos Cruz

Passava horas ao espelho. Revia-se nele. Eram ambos incrivelmente superficiais. O reflexo da sua imagem pouco lhe importava, era mesmo pelo espelho que ficava ali, horas e horas, para desespero da namorada, que o tinha como o maior narcisista à superfície da terra. Dizia-lho vezes sem conta, mas ele não se aborrecia. Gostava de ouvir a palavra superfície, fazia-lhe lembrar o espelho. Ela, no seu profundo desespero, procurava mostrar-lhe que havia outros espelhos. "A lua, por exemplo, é um espelho do amor". Ele não fazia caso. Dizia "pois" e continuava a perscrutar a magnífica superficialidade daquele objecto pendurado acima do lavatório. Daí saltava, às vezes, para a televisão, quando dava futebol, mas depressa perdia o interesse no jogo e focava o olhar no ecrã, fazendo análises comparativas entre este e o espelho, que saía sempre vencedor. O mesmo se passava com as janelas, os pratos, as ruas ou o corpo da namorada. Eram subperfícies, cópias imperfeitas do espelho, esse sim a verdadeira expressão formal de Deus. Um dia, ao ter este raciocínio, sentiu-se profundo. Ficou doente. Feliz mas preocupada, a namorada levou-o a um médico, depois a outro, a outro e a outro. Nenhum lhe soube dizer qual era o problema. "Mas ele anda estranho, opaco, senhor doutor! Parece um fantasma, uma sombra do que era", insistia ela, já sem sequer esperar pela resposta. Não tardou muito a que os papéis se invertessem: ela a estudar o espelho e ele a estudá-la a ela. Foi assim durante anos, precisamente os mesmos que ele passara a olhar o espelho. Até que, enjoado de olhar para eles, o espelho se partiu. Cristalizados, ela e ele olharam-se como nunca antes e nunca depois. Num mundo sem espelho, lua ou futebol, foi amor à primeira vista.

(ilust. Manel Cruz)


domingo, 14 de novembro de 2010

Dedo


Marcos Cruz

Um dos meus últimos posts falava de querer e poder, de eu não saber o que quero mas querer saber, qualquer coisa assim, estúpida e inconsequente como muitas das outras que aqui despejo. Inútil, como todas. Hoje, e para se ver como estúpidas e inconsequentes são as conclusões que tiramos, sinto que não quero saber o que quero e que essa é a razão de eu querer, por exemplo, escrever. Eu sinto, não sei. Ou será que só sei o que sinto? Se é, eu sinto, portanto sei, que só eu sei o que sinto. E, nesse sentido, minto se disser que sinto que querer é poder. Mas também quero dizer que amanhã quero poder sentir tanto que querer é poder como hoje sinto que poder é não querer. Porquê? Porque mudo. Sem querer ou por querer. Ou por crer. Vá-se lá saber.

(ilustração  porm. Adão Cruz)





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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Química

Marcos Cruz

Olha o Falso! Então, Falso? Há que tempos! Tás fixe? Olha, esta é a Foca, uma amiga minha. Que cena, pá! Tás bem? Fogo, olha, a gente vem dali, tá lá assim uma cena mesmo indescritível, um electro meio marado, misturado com não sei o quê… Ó pá, nem é rock nem é aquele pop pop, sabes? E o gajo mistura maaal, Falso! A sério, não tás a ver! Eu e a Foca já nos távamos a passar. [faz uma festa no peito de Falso como se lhe estivesse a limpar o pó e volta à carga] E tu? Tás aqui, quê, a fumar um cacete? [Falso não fala, só sorri, meio envergonhado] Iá… Ó pá, mas tás fixe? Que cena, já não te via há bué! [Foca, essa, está prestes a deixar cair o sorriso] Este gajo [virada para Foca] é que é o guitarrista dos Phones! Eu tenho de te mostrar Phones, estes gajos são muito fora! Mesmo! [este “Mesmo!” é dito com os olhos em brilho, toda ela parece uma espinha de deslumbramento a rebentar] E… e já têm cenas novas? [hesita na pergunta porque se apercebe, finalmente, de que os amigos de Falso estão com cara de sopa azeda] Ah, desculpem lá: eu sou a Cláudia. Ela é a Foca. [eles ruminam, em jeito de anuência] [fica um silêncio agreste] Pois é, Falso… Vê lá se dizes alguma coisa! Ainda tens o meu telemóvel? [Falso faz sinal de que sim] Tens qual? O 91? [ele repete o sinal] Ah, é que eu agora também tenho um 93, se calhar dá-te mais jeito [Falso faz sinal de que não] Iá, então olha, a gente vai bazar! Bute aí, Foca? [Foca arrota, nervosa] Xau, pessoal! [elas afastam-se, com o estilo possível; eles certificam-se disso] [por fim, Falso fala] Ó Brito, faz esse!

(Ilust. Manel Cruz)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Disparate

Marcos Cruz

Ao acordar dizia sempre um disparate. Dizia depois outro, sempre que tinha de o explicar: dizia que limpava o espírito, como beber um copo de água limpava o corpo. Era uma questão de saneamento. Básicos, ambos, o saneamento e a questão.

Por outro lado, havia nisto uma possibilidade de sapiência que a fazia hesitar em chamar-lhe estúpido, embora se pudesse sempre defender com o argumento de que chamar-lhe estúpido era o disparate dela. Mas ele não ia nisso, primeiro porque chamar estúpido a um indivíduo que sempre que acorda diz um disparate não é necessariamente um disparate; depois porque, se o fosse, seria um disparate estúpido, já que, com tantos disparates para dizer, não faria sentido escolher um disparate tão pouco disparatado.



Aliás, não faz sentido escolher um disparate. Aliás, um disparate não faz sentido. Enfim, o argumento que ela poderia usar para se defender de lhe ter chamado estúpido, caso viesse a descobrir que afinal a estupidez era mesmo sapiência, parecia-lhe, a ele, um disparate. Por isso é que, naquela manhã, em vez de dizer um disparate, ele lhe chamou estúpida.



(Ilust. de Manel Cruz)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Cinema

 Marcos Cruz


“Achei interessante”, dizia, de cigarro na mão, a Bafiela. À volta dela, outros cromos repetidos da cultura portuense assentiam de sorriso místico, como se ela estivesse a dizer uma grande coisa.

Eu, farto daquele “já há”, saí dali tipo camisola do brasil: verde e amarelo. Sim, sim, era tanto o nojo que transportava. Só que, dessa vez, ela notou. E, pedindo desculpa aos parceiros de tertúlia, veio atrás de mim.

“Ei!”, chamou. Eu, já com a chave do carro na mão, olhei-a, surpreso. “Desculpe, eu sei que não nos conhecemos, mas não pude deixar de reparar no seu olhar para mim, agora mesmo, à saída do cinema. Tem alguma coisa que me queira dizer?”, perguntou. “Não, nada. Porquê?”, devolvi eu, mula.

Pensei, momentaneamente, em pôr à prova a sua perspicácia. Se ela era tão boa a interpretar filmes impenetráveis, a ponto de toda aquela plêiade de hemorróidas cultas se curvar à mera pronunciação da palavra “interessante”, não demoraria nada a perceber o que me ia na alma. “É que fiquei com essa ideia... Pareceu-me incomodado”, respondeu. “Incomodado, eu? Desculpe, mas não estou a ver aonde quer chegar. Então eu saio do cinema, venho para...”. Interrompeu-me: “Claro, claro. Não se preocupe. Eu é que tenho de me desculpar. Boa noite”. Em passo lento, de quem pensa, voltou para junto da nata da cidade.

Eu, ainda com a chave do carro na mão, fiquei como o tolo no meio da ponte. Por um lado, queria-me ir embora, até porque estava a precisar de dormir. Por outro, sentia-me insatisfeito, apetecia-me puxar um bocadinho mais aquele fio, ver no que é que aquilo dava. Guardei a chave no bolso e voltei ao cinema. Desajeitado, toquei-lhe na gabardina, pelas costas. Ela voltou-se e, como se já estivesse a contar, sorriu. Despediu-se dos presentes, olhou-me e perguntou: “Vem?”. Acompanhei-a naquele seu passo, sem saber até onde.

Em silêncio, fui guiado até ao meu carro. “A partir daqui é consigo”, disse ela finalmente, numa ambiguidade calculada que parecia querer sublinhar a sua percepção de que, na balança dos meus sentimentos, o encanto passara, subitamente, a pesar mais do que a repulsa. Sem ponta de charme, perguntei-lhe onde morava. Ela riu-se, já nas suas quintas, como se morasse ali mesmo, naquele corpo, naquela aura segura. “Quer boleia?”, arrisquei. Escusado será dizer que houve um segundo de intervalo antes da resposta dela. Um segundo de silêncio – não a preceder o jogo, como acontece no futebol quando alguém morre (aí é um minuto, eu sei), mas a meio, justamente no seu epicentro.

De um lado, o sadismo; do outro, a vulnerabilidade. A vitória estava mais que anunciada, e não havia ali árbitro à vista para subornar. “Por que havia de querer?”, questionou ela, a fazer render o peixe, como um artista da bola que, em posição de remate e com a baliza aberta, prefere adornar um pouco mais a jogada para aprimorar o golo. “Não sei, trouxe-me até aqui”, justifiquei, desconfortável. “Trouxe-o até aqui porque o achei interessante”, justificou ela, enorme. “Acha tudo interessante?”, provoquei, num improvável contra-ataque de ironia que ela, estranhamente, não percebeu: “Como assim?”. De repente, a bola estava do meu lado: “Disse o mesmo sobre o filme, há pouco, aos seus amigos”.

Foi então, quando eu já esperava um novo e bem mais saboroso segundo de silêncio, que ela, semicerrando os olhos, enervada, incrédula até, se revelou: “Olha, meu filho da puta: se me quiseres comer o cu, muito bem. Se não quiseres, há mais quem queira! O que eu não estou é para aturar estas merdas! Por falar nisso: tens SporTV em tua casa?”.

(Ilustração de Adão Cruz)


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A escrita

Marcos Cruz

Uns dias bem, outros mal. Quão mentiroso é o horizonte! Quão aliciante e persuasivo se nos mostra naqueles dias, quão angustiante e negro se nos revela nestes.

A paz é das montanhas e dos vales, dos medos e dos amores, ela habita toda a forma. Para ser minha também, falta que eu com ela aprenda essa adaptabilidade, essa renúncia infinita. Sentir, eis a questão. Sentir tudo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Fim

 Marcos Cruz




Não me lembro do meu primeiro amor. Não posso sequer garantir que o tenha tido. Provavelmente não, porque, se o tivesse tido, e dizendo toda a gente que não há amor como o primeiro, lembrar-me-ia. Por isso, talvez toda a vida só me tenha amado a mim. Esta é a conclusão fácil. Por outro lado, lembro-me de ter amado quem me deixou, lembro-me aliás de ter amado todas as mulheres que me deixaram no momento em que o fizeram e por algum tempo depois, ou sempre depois, de maneiras e com intensidades diferentes. Por isso, talvez

toda a vida só tenha amado o que não tivesse, ou melhor, o que tivesse deixado de ter. Esta é a conclusão mais ou menos fácil. O mais fácil é chegar a ela, o menos é aceitá-la, porque, se a tomar como verdadeira, ponho-me perante um dilema difícil de resolver, face à primeira conclusão, que é: ou eu nunca me tive a mim ou deixei de me ter nalgum momento. Se pegarmos primeiro nesta segunda parte, contrariando um bocadinho a lógica das operações humanas – e ao dizer pegarmos, em vez de pegar, já estou a admitir que preciso da vossa ajuda para esgravatar isto –, a primeira coisa a fazer é tentar lembrar-me – e aqui, desculpem, terei de ser eu só, partindo do princípio, também ele questionável, como tudo, de que vocês não têm memória da minha vida – do preciso momento em que eu deixei de me ter. Admitamos que foi justamente no momento em que eu tive consciência de que me tinha, o que já de si é o paroxismo do paradoxo, ou, para termos a satisfação de já termos juntos “inventado” um termo, o paradoxismo. Mas se, simplificando, eu me perdi no momento em que me encontrei, então foi, por um lado, e face à segunda conclusão, aí que eu me comecei a amar e, por outro, aí que eu deixei de me amar. Esta é a conclusão mais ou menos difícil. O menos difícil é aceitá-la, o mais é achá-la mais difícil do que a primeira, porque a primeira, talvez por me implicar apenas a mim e ainda não também a vocês, dói mais – e, nesse sentido, é mais difícil de aceitar, o que nos põe já em oposição com o que eu, ou melhor, nós acabámos de concluir. Estamos todos, então, neste labirinto. Não sinto, porém, que esta, fácil ou difícil, seja grande conclusão. Talvez passe a senti-lo quando deixar de a ter. Agora, agora, atravessa-me a ideia de que, ao amar quem me deixou, o que eu amei foi, como acontece geralmente quando admiramos alguém, a capacidade de alguém fazer aquilo que eu não consigo. Neste caso, comigo. Esta é a conclusão difícil. Porque talvez implique que eu só me volte a amar no momento em que deixe de me ter. Por outro lado, neste preciso momento eu chego à conclusão, já atrás implícita mas nunca enunciada desta forma, de que o meu primeiro amor fui eu. E de que, dizendo toda a gente que não há amor como o primeiro, talvez esteja aí a razão de eu nunca me ter deixado. E esta, sendo porventura a verdadeira conclusão, a mais fácil, porque acessível a qualquer atrasado mental, e a mais difícil, porque dura de roer ao espírito mais elevado, não é, ao mesmo tempo, uma conclusão, e sim o seu contrário: um início.

(Ilustração de Adão Cruz)

sábado, 9 de outubro de 2010

Do vazio

Marcos Cruz

António era um bife. Mal passado, passava mal. Mas tinha a resistência suficiente para lutar contra os que o queriam passar bem, pois sabia que “uma vez bem passado, bem passado para sempre”. Passava mal no presente, mais precisamente, já que o seu passado fora até bem passado, ou, como todos os passados, bem e mal passado. Em parte, era com isso que ele se passava: se, por um lado, “uma vez bem passado, bem passado para sempre” e, por outro, o seu passado havia sido bem e mal passado, ou seja, em parte, bem passado, porque não estaria ele bem passado no presente? Talvez, sem o ter presente, estivesse.

Mas então por que razão passava mal? Era uma problema pesado, difícil de ultrapassar, e por isso António pediu ajuda. Foi ter com um bife que, por haver passado muito e (aparentemente) passar bem sem estar bem passado, talvez o pudesse fazer passar melhor no futuro, passando-lhe uma receita, ou algo assim, que o dispensasse de ser bem passado para deixar de passar mal. Era o melhor presente possível e, à beirinha do Natal, António passava o tempo todo, incluindo todo o tempo passado com o outro bife, a pedi-lo. Porém, passado pouco tempo, e vendo que António o havia passado mal a ansiar pelo momento de o passar a passar bem sem estar bem passado, o outro bife explicou-lhe que esse não era pedido que ele pudesse fazer a não ser a si próprio, pois nem ele, o outro bife, e muito menos o Pai Natal o poderiam satisfazer.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

De volta

Marcos Cruz

Saio da cama a pensar que já pensei muito. Reflicto sobre a complexidade dos meus sonhos e concluo que a vida é aquilo que estivermos dispostos a receber. Levanto o corpo decidido a deitar a mente. Ainda no limbo vem-me à imagem uma autoestrada engarrafada de um lado e totalmente vazia do outro. Olho para a baba na almofada e constato que ainda salivo, mas por momentos ocorre-me a dúvida sobre se a saliva que agora tenho na boca não se deverá ao súbito e intenso desejo que sinto de passar para o outro lado da autoestrada. Penso então que não faz sentido esta confusão entre a cama e a vida. Seria um terceiro sentido. Não existe. Mas atrai-me. Fico a imaginar para onde iria ele e deparo-me com duas possibilidades: para cima ou para baixo. O que me leva a admitir um quarto sentido. O som da palavra quarto traz-me de volta ao meu. Reprimo-me por ter frustrado o projecto de não pensar e penso se não o terei feito no preciso momento em que o formulei.

(Ilustração de Adão Cruz)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Respeito

Marcos Cruz

Muitas vezes me questiono sobre o poder mágico da morte, a capacidade que ela tem de mudar a opinião dos homens uns sobre os outros, ou pelo menos de condicionar a expressão dessa opinião. Sempre que um insulto se transforma num elogio, tendo a considerar que, aos olhos do emissor de tão opostos juízos, a pessoa sobre a qual eles recaem fez alguma coisa de positivo, produziu um bem passível de a redimir do mal anterior, ou de o atenuar, vá lá. Penso, então, se a morte de alguém que repudiamos será, para nós, esse feito elevado à sua potência suprema, se a borracha que apaga a existência física de uma pessoa tem o condão de apagar também todas as memórias negativas que dela fomos acumulando, como um processo que prescreveu e em relação ao qual não há já nada que nos prenda. Talvez o raciocínio seja: este não chateia mais, portanto vamos poupar quem gosta dele a mais chatices. Eu, no entanto, não descarto a possibilidade de, em muitos casos, aqueles que gostam das pessoas que morrem preferirem ouvir, na morte dessas pessoas, serem-lhes atribuídas pelos outros as virtudes e os defeitos que os mesmos lhes atribuíram em vida, isto pensando, em primeiro lugar, no morto, que, enquanto vivo, teve uma conduta que, se não agradou a gregos e a troianos, foi porque não tinha de agradar, ou até porque não queria agradar. Daí que rasurar o que subjectivamente cada um de nós entende como pecado de uma pessoa na hora do seu falecimento possa equivaler a mutilar a memória dessa pessoa, a bombardear o edifício que ela construiu em vida. Mais do que proferir banalidades e, por vezes, derramar hipocrisia, como cal, sobre o ser que se desmaterializa, talvez respeitá-lo seja tratá-lo na morte como ele fez por ser tratado em vida, reconhecer viva a sua marca, inteira. É que um homem pode ser parte do todo, mas há um todo que é parte dele - e o que parte dele, na morte, é o que menos lhe pertence.

(ilust. Adão Cruz)

domingo, 3 de outubro de 2010

Ilusão

Marcos Cruz


Na máquina de sujar em que estamos metidos, o stress é o glutão mais eficaz. Tira a mais pequena nódoa de limpeza num abrir e fechar de olhos. Com a desvantagem de que nem é preciso comprar. Ele vende-se. É completo. Produto e promotor, tudo incorporado, dois-em-um que divide como quem corta relva e une como quem varre o chão. Sem darmos por ela, fez de nós seus aliados na luta contra o tempo: nós crentes de que a luta era contra a passagem do tempo, ele ciente de que a luta era contra o seu aparecimento. Uma coisa e outra, claro, são inúteis. No limite, tudo é: o stress não vive menos iludido do que nós. Ele, como o tempo, como nós, também passa. E talvez a melhor maneira de lhe mostrar isso seja fazê-lo crer, como ele nos faz em relação ao tempo, que lutamos contra a sua passagem, estando cientes de que lutamos contra o seu aparecimento. Por outras palavras, viver bem na sua companhia. Dar-lhe o melhor. Dar-lhe amor. Dar-lhe tempo.

Um dia destes fui sujeito a um banho prolongado de lugares-comuns, cascata refrescante de palavras sobre o meu corpo confuso, cansado, sujo. De início, lutei contra o paradoxo de palavras mais velhas do que a sua sombra me tirarem anos (não de vida, mas) de cima dos ombros. No fim, rendi-me à mensagem-massagem que por mim escorria: todos vivemos num lugar-comum. Para quê, então, sofisticar? Para quê o requinte da ironia, o verniz do cinismo? Para quê escondermo-nos neles, se nos deixam tão expostos como as mãos de um bebé que tapa os olhos para se tornar invisível?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O meu bocado

Marcos Cruz

Muitas vezes tive a tentação de me juntar a alguém com sucesso, alguém que me pudesse atrelar, por piedade ou, de preferência, por me reconhecer valor, e levar-me aonde eu sozinho nunca conseguiria chegar. Mas algo, nessas alturas, me dizia que, uma vez cometido esse acto de compaixão, eu ficaria com uma dívida de gratidão para com a pessoa em causa e moralmente obrigado a não a deixar ficar mal, o que transportaria o padrão de sucesso da operação para ela e não para mim, ou seja, todo o meu percurso a partir daí se mediria pelos passos do meu salvador e não pelos meus. Eu deixaria de ir a reboque da minha exigência e passaria a ir a reboque da dele, ou até, na pior das hipóteses, a reboque da minha exigência projectada nele, que seria igual à minha exigência multiplicada pelas vezes que o achava a ele melhor do que eu. Sim, porque só se justificava aceitar a sua oportunidade se o achasse melhor do que eu. A minha exigência nunca me deixaria pensar: ok, o projecto é dele, por isso já não preciso de me cobrar tanto. Pelo contrário: nesse caso, haveria uma factura dois-em-um para um eventual sucesso um-em-dois. Nada disto significa individualismo, não se confunda o que digo. Significa, sim, consciência da dimensão do indivíduo, nos seus deveres para consigo e para com os outros. Antes de mais, a nossa luta (talvez fosse melhor dizer a minha, por razões de coerência) deve ser para connosco, no sentido de nos tornarmos um projecto de sucesso para consumo interno, de nos construirmos passo nosso a passo nosso, sabendo que podemos infligir os golpes que quisermos no silêncio que ele, como um desenho animado, se reconstitui sempre, volta sempre à forma inicial e última, enquanto nós crescemos, mudamos e nos moldamos golpe a golpe. Já não sei quem o escreveu (aliás, veio esta semana citado num jornal desportivo), mas "saber mais é ser mais", e (como diria La Palisse, que também poderia ter escrito a frase anterior) só se é se se for, devendo este "for" ser lido na sua dupla acepção, ontológica (ser) e accional (ir). Ir sendo ou ser indo, portanto. Sem rebocar e sem ser rebocado. A experiência, a minha, claro, faz-me dar um toque pessoal a uma célebre lição moral de uma das fábulas de La Fontaine: "Guardado está o rebocado para quem o há-de comer". Não vão por mim.

(ilustração de Adão Cruz)

sábado, 25 de setembro de 2010

Para ti

Marcos Cruz

Hoje vou às palavras. Vou ver se estão boas, se estão fresquinhas, se vale a pena trazê-las e quantas. Gosto mais das palavras soltas, o problema é que as não há, ou então estão mortas, cortadas, mutiladas, como as flores que vemos deitadas na rua, à mercê de solas e rodas. As palavras também têm raiz, todas elas, e é uma pena arrancá-la, em qualquer caso, mas ainda assim prefiro fazê-lo a comprar palavras no mercado, arranjadas e metidas em bouquets para impressionar quem passa. O negócio das palavras, aliás, entristece-me, pelo amor que lhes tenho. Gostava de as ver crescer naturalmente, de as regar, de cantar para elas e com elas, de apreciar a forma como se desenvolvem e ganham novas cores, novos cheiros, novas texturas, novos sabores. Gostava de me perder num campo infinito delas, de fechar os olhos e de as ler nesse estado virginal, de as deixar ensinar-me a lê-las, de me ler nelas. As que mais encontro, porém, perderam a leitura, perderam até o leite, não se reproduzem, não se multiplicam, não se renovam, apenas se repetem, como cromos que se trocam por outros num mercado único, que nos quer ver a todos com a mesma caderneta. Mas depois há o amor, o sensor da surpresa, do desconhecido, o raio mágico que desperta com a palavra nova, solta, sem casa, e num instante cobre tudo o resto de sentido. É por ele que eu continuo a ir às palavras. Hoje trouxe estas. Pega, são para ti.

O desejo

Marcos Cruz



Nada expressa com a eloquência do desejo os limites do pensamento, como nada expressa com a eloquência do filho os limites do pai. O desejo nasce atado às expectativas de quem o criou, não podendo o abrir dos seus olhos dar-lhe a ver a liberdade essencial que o constitui. O meu pensamento formula um desejo e atem-se a ele, à sua sorte, prende-se a algo que lhe escapa, a uma magia cujo truque desconhece, ficando a glória ou a revolta do pensador suspensas do cumprimento ou da frustração desse desejo. Até que o pensamento se dilua ele próprio no céu da vida, muitos desejos partirão para lá como seus enviados, não causando surpresa que uns lá não cheguem e outros de lá não voltem. É preciso crer para ver, e crer mais não é do que viver. Crer é amar. O desejo representa a incapacidade, o medo de crescer, a recusa em abrir os olhos da alma. Daí que a expressão “matar o pai” adquira tanto significado na psicologia: matar o pai é justamente matar o desejo a que cada filho nasce agarrado.

Então, se em vida todos somos filhos e pais, por que haveria o pensamento de dispensar essa ruptura? E o que acontece quando o pensamento se livra do desejo que o agrilhoa? Ele voa consciente de si mesmo, ele plana e bate as asas consoante a eternidade, pois tudo se compacta para ele em cada momento, fazendo dele mesmo esse tudo, mostrando-lhe que ele é tudo e tudo pode, incluindo deixar de o ser. E ele deixa, claro. Ele deixa até que novo e novos voos o enraízem à liberdade, até que o amor de pensar em cada um afague no seu colo o medo do que cada um pensa de si, como uma mãe recebe, extenuada e feliz, o recém-nascido que tanto lhe custou dar à luz, depois de arranques e recuos, de conquistas e perdas, de ânimos e desesperos. Creio, aliás, que se não existe um equivalente materno da expressão “matar o pai” é porque a mulher, passando pela experiência de ser mãe, de conceber, desmonta a mecânica do desejo, encarna o sentido da vida e percebe que vale sempre a pena cobrir de amor e gratidão a nudez do sofrimento. Dar à luz é, pois, tirar às trevas, é salvar. Libertarmo-nos dos nossos desejos, aceitarmos plenamente o que nos oferece a experiência de existir, é dar à luz em cada instante. É darmo-nos à luz.

(ilustração de Adão Cruz)

domingo, 5 de setembro de 2010

Os pés pelas mãos

Marcos Cruz



A minha filha está na cozinha, em bicos de pés, a tentar chegar com as mãozitas a um pacote de bolachas que eu afastei o suficiente, julgo, da borda do balcão. Afinal, julgo mal: ela fez cair o pacote. Ponho-me a imaginar o que pensará ela sobre a conquista - se achará que foram as mãos as responsáveis, se atribuirá o mérito à inclinação dos pés, se premiará o conjunto ou se nem perderá tempo a reflectir sobre isso, que é o mais provável. O meu pai está na cozinha, sentado, a dizer-me que a ciência, mesmo sendo um cemitério de hipóteses, é o único caminho para a verdade, ao passo que a filosofia é, na generalidade, um amontoado de disparates. Segundo ele, a filosofia é apenas um degrau, um degrau que está abaixo da ciência. Eu pergunto-me, e pergunto-lhe por outras palavras, sem que ele mostre vontade de me ouvir, se esse degrau não estará para a ciência como os pés da minha filha estarão para as suas mãos na abordagem ao pacote de bolachas.

domingo, 22 de agosto de 2010

Fim da linha

Marcos Cruz


Será que os pássaros vivem a crise? Será que há menos gente a dar-lhes migalhas nos jardins? E todos os outros animais? Será que partilham as angústias do Homem sobre o estado do mundo? Será que sofrem de forma indirecta? Pelo que me é dado ver, não. A generalidade dos animais ditos não racionais habituou-se a viver em liberdade, coisa de que o Homem, no exercício da razão, quis prescindir. Cioso da sua mais-valia, despediu-se da cadeia de ADN global para se fazer a uma vida destacada, para escrever uma história acima do universo, mero contexto, paisagem, folha lisa. Capítulo após capítulo, encontra-se hoje perante a realidade irrefutável de ter criado um Deus à sua imagem, chamado dinheiro, Deus esse que, cada vez menos, por ser filho de um Homem desligado, de um recorte físico do infinito, está em todo o lado. Ora, se a ideia de que a salvação e a felicidade se baseiam na posse é hoje do domínio da lógica, do código subjacente à vida da espécie, há então que lutar com unhas e dentes por esse Deus. A este raciocínio interpõe-se, no entanto, um problema: o que fazer com as pessoas que se sentem felizes sem possuir ou querer possuir a dita felicidade? Pois excomungá-las, atirá-las para outra espécie, uma espécie inventada, uma espécie nova, que, tendo em conta a teoria evolucionista, quem sabe justificaria a reciclagem do termo super-homem. Hum…, não, não faria sentido evocar anacronicamente uma estrutura mítica cuja falência teve, aliás, expressão retumbante na realidade. Fosse ele um pássaro, como admitia a célebre pergunta dos homens que o viam pela primeira vez a rasgar os céus, e ainda andaria aí, imune à crise, mesmo que não a salvar pessoas, mesmo que não a aliar-se ou a substituir-se ao Deus dinheiro. Mas, enfim, talvez lhe assentasse bem a designação de supra-homem, um “supra” ligado à superação, à sublimação, à transcendência - uma transcendência inclusiva, porém, não uma transcendência irresponsavelmente mística, magicamente religiosa. Cumprida essa limpeza, deixada a nova espécie ao sabor dos pássaros, aprendendo a voar, a ser livre, o Homem poderia retomar a escrita da sua obra-prima, do seu grandiloquente livro técnico, sem romance, com menos personagens e mais Deus disponível para cada uma delas, e tirando proveito de, através do erro, ter aprendido uma lição extraordinária, imprescindível ao desejado final feliz: reprodução, jamais.