Adão Cruz
O Tempo caminho da razão no ventre das horas vazias, o sonho de não serem horas todas as horas sem tempo.
O tempo uma sinfonia de sonhos nascidos entre as asas e os dedos, pintando as cores da razão por entre sombras e medos.
O tempo a força do abrigo das mãos dadas com a haste frágil do trigo, caminho incerto sobre abismos de gestos e palavras sem regresso.
O tempo prisão de chegadas e partidas sem horas de liberdade, um poema crucificado nos labirintos da verdade.
O tempo uma guitarra chorando nos dedos da Primavera, um beijo sempre à espera entre os lábios do Verão.
O tempo horas de tudo e de nada na inquietude da mente, a liberdade acorrentada entre as velas e o vento.
O tempo uma paveia de esperanças nos braços da ilusão, um poema abandonado entre o sonho e a razão.
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010
terça-feira, 26 de outubro de 2010
A Sua Alteza Real, de uma humilde Sapa
Carla Romualdo
Sua Alteza Real,
Queridíssimo Príncipe
Fosse eu uma sapa sensata, cumpridora do pouco que se espera de uma criatura da minha espécie, e jamais me atreveria a dirigir-me a Vossa Majestade.
Saiba, porém, Vossa Alteza que tentei certa vez chamar-vos a atenção, quando, a caminho da fonte de S. Bento, passou a real comitiva junto ao meu pequeno charco. Mas a passarada andava inquieta nesse dia, com uma invasão de gaivotas dadas à ladroagem, acabadas de chegar do litoral, e o ruído era tanto que Vossa Alteza não pôde ouvir o meu humilde coaxar. Afastastes-vos com passos rápidos, e com tamanha pressa, que das vossas reais botas saltaram uns salpicos de lama, que me acertaram em cheio.
Sou, como todas os seres que conheço, vossa súbdita. Habito no charco abrigado entre o olival e a fonte, e desde o qual, para minha fortuna, se avista o vosso palácio. Habituei-me a ver-vos percorrer o pátio de entrada, assomar à varanda do vosso quarto, sair cavalgando pela manhã, e de tanto assim vos ver, formoso e intrépido, enamorei-me de Vossa Majestade.
Bem sei, Alteza, que vós sois humano e eu anfíbia, e que nunca se viu uma união assim desde que o mundo é mundo. Sei que a muitos da vossa espécie repugnam os meus semelhantes, mas por certo não esquecerá Vossa Alteza que somos nós a afastar dos vossos jardins os malévolos moscardos ou os calculistas gafanhotos.
Sua Alteza Real,
Queridíssimo Príncipe
Fosse eu uma sapa sensata, cumpridora do pouco que se espera de uma criatura da minha espécie, e jamais me atreveria a dirigir-me a Vossa Majestade.
Saiba, porém, Vossa Alteza que tentei certa vez chamar-vos a atenção, quando, a caminho da fonte de S. Bento, passou a real comitiva junto ao meu pequeno charco. Mas a passarada andava inquieta nesse dia, com uma invasão de gaivotas dadas à ladroagem, acabadas de chegar do litoral, e o ruído era tanto que Vossa Alteza não pôde ouvir o meu humilde coaxar. Afastastes-vos com passos rápidos, e com tamanha pressa, que das vossas reais botas saltaram uns salpicos de lama, que me acertaram em cheio.
Sou, como todas os seres que conheço, vossa súbdita. Habito no charco abrigado entre o olival e a fonte, e desde o qual, para minha fortuna, se avista o vosso palácio. Habituei-me a ver-vos percorrer o pátio de entrada, assomar à varanda do vosso quarto, sair cavalgando pela manhã, e de tanto assim vos ver, formoso e intrépido, enamorei-me de Vossa Majestade.
Bem sei, Alteza, que vós sois humano e eu anfíbia, e que nunca se viu uma união assim desde que o mundo é mundo. Sei que a muitos da vossa espécie repugnam os meus semelhantes, mas por certo não esquecerá Vossa Alteza que somos nós a afastar dos vossos jardins os malévolos moscardos ou os calculistas gafanhotos.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Fotopoemas -Imaginemo-la assim, por instantes
Texto de Carla Romualdo e
fotografia de José Magalhães
Imaginemo-la assim, por instantes libertada do peso granítico, dissolvidos o quartzo, o feldspato e a mica numa névoa redentora; imaginemo-la suspensa numa elipse improvável, como se pairasse sobre o horizonte rosáceo. E aí a temos, renascida: no instante de paz que sobrevém ao ruído.
fotografia de José Magalhães
Imaginemo-la assim, por instantes libertada do peso granítico, dissolvidos o quartzo, o feldspato e a mica numa névoa redentora; imaginemo-la suspensa numa elipse improvável, como se pairasse sobre o horizonte rosáceo. E aí a temos, renascida: no instante de paz que sobrevém ao ruído.
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terça-feira, 21 de setembro de 2010
Oh as casas as casas as casas*
Carla Romualdo
Se nos afastamos do percurso oficial das auto-estradas, e nos atrevemos, com a pontinha de audácia necessária, a percorrer essas estradas municipais já quase abandonadas, que a cada ano perdem alguns centímetros para a floresta de eucalipto, descobriremos as espantosas casas do interior do país.
Em lugarejos esquecidos, rodeadas de árvores que crescem à revelia dos homens, erguem-se essas construções impossíveis: casarões com telhados de duas águas, jardins perfeitos aos quais nem sequer falta uma descomunal fonte de pedra, chalets improváveis num cenário desolado. Estas casas estão feitas de cimento e pedra e frustrações longamente sublimadas, de humilhações, sacrifícios, do orgulho apertado nos dentes por muito, muito tempo. Por isso são únicas e incongruentes, não pertencem ao sítio onde estão mas tampouco poderiam estar noutro lugar. Erguem-se e perduram ao lado do cão que continua a seguir com o olhar os forasteiros muito depois de eles se perderem na curva da estrada, do monte de sucata enferrujada, do poço seco, do ribeiro que já arrastou homens mas agora perdeu a força e se esvai num fio de água enlameada.
Raramente se avista gente nessas casas. Há estendais com alguma peça de roupa, uma toalha, um lençol enrolado pelo vento, há por vezes um baloiço ou um par de botas no jardim. Mas não há pessoas nem se imagina onde possam estar. Como fantasmas, estas casas erguem-se solitárias, visões fantasmagóricas no deserto da estrada, a tal ponto que não sabemos se as sonhámos, se desejámos vê-las para nos tranquilizarmos com a presença do humano numa estrada por demasiado tempo deserta.
Casas grotescas ou estranhamente belas, casas sólidas, para resistir aos temporais da serrania, casas que não morrerão tão cedo mas que já parecem quebradas por dentro, sem o sopro vital que também anima as construções. Casas que, na sua solidão altiva e absurda, me parecem, por instantes, um retrato do país, e, também por isso, ainda mais tocantes e insuportáveis.
*“As Casas”, Ruy Belo
(uma primeira versão deste texto foi publicada em 2009 em aventar.eu)
Se nos afastamos do percurso oficial das auto-estradas, e nos atrevemos, com a pontinha de audácia necessária, a percorrer essas estradas municipais já quase abandonadas, que a cada ano perdem alguns centímetros para a floresta de eucalipto, descobriremos as espantosas casas do interior do país.
Em lugarejos esquecidos, rodeadas de árvores que crescem à revelia dos homens, erguem-se essas construções impossíveis: casarões com telhados de duas águas, jardins perfeitos aos quais nem sequer falta uma descomunal fonte de pedra, chalets improváveis num cenário desolado. Estas casas estão feitas de cimento e pedra e frustrações longamente sublimadas, de humilhações, sacrifícios, do orgulho apertado nos dentes por muito, muito tempo. Por isso são únicas e incongruentes, não pertencem ao sítio onde estão mas tampouco poderiam estar noutro lugar. Erguem-se e perduram ao lado do cão que continua a seguir com o olhar os forasteiros muito depois de eles se perderem na curva da estrada, do monte de sucata enferrujada, do poço seco, do ribeiro que já arrastou homens mas agora perdeu a força e se esvai num fio de água enlameada.
Raramente se avista gente nessas casas. Há estendais com alguma peça de roupa, uma toalha, um lençol enrolado pelo vento, há por vezes um baloiço ou um par de botas no jardim. Mas não há pessoas nem se imagina onde possam estar. Como fantasmas, estas casas erguem-se solitárias, visões fantasmagóricas no deserto da estrada, a tal ponto que não sabemos se as sonhámos, se desejámos vê-las para nos tranquilizarmos com a presença do humano numa estrada por demasiado tempo deserta.
Casas grotescas ou estranhamente belas, casas sólidas, para resistir aos temporais da serrania, casas que não morrerão tão cedo mas que já parecem quebradas por dentro, sem o sopro vital que também anima as construções. Casas que, na sua solidão altiva e absurda, me parecem, por instantes, um retrato do país, e, também por isso, ainda mais tocantes e insuportáveis.
*“As Casas”, Ruy Belo
(uma primeira versão deste texto foi publicada em 2009 em aventar.eu)
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
A descolagem de O Aviador Irlandês
O Aviador Irlandês é um blogue da Carla Romualdo e foi um dos que Estrolabio recomendou para o "Blogue de Ouro - 2010" . Alguns colaboradores do Estrolabio conheceram-na no Aventar e puderam avaliar o seu enorme talento, bom gosto e lucidez crítica. O Aviador Irlandês é um autêntico one-woman show - a Carla escreve e os amigos comentam.
A inspiração para o seu blogue, encontrou-o num poema de William Butler Yeats (1865-1939), o grande poeta irlandês, particularmente nos versos A lonely impulse of delight /Drove to this tumult in the clouds... Seguindo esse solitário impulso de prazer, descolou rumo às nuvens da blogosfera em Junho passado.
Com a devida vénia, transcrevemos um texto seu para que os nossos leitores possam apreciar a qualidade da sua prosa e o seu envolvente poder de efabulação:
alvoroço na rua
por Carla Romualdo em Agosto 8, 2010
A Fatinha deveria andar a fazer o que sempre faz: andar de lado para lado, como se sempre estivesse a caminho de qualquer lugar aonde nunca consegue chegar, quase sempre de minissaia, a custo equilibrada nuns saltos altos.
A Fatinha, sendo uma mulher bonita, assusta os homens com um olhar de louca impossível de disfarçar. Crava cigarros, troca frases sem sentido com algum sem-abrigo, pendura-se no pescoço de um homem sentado na paragem do autocarro, insulta uma mulher que a olhou de lado, anda todo o dia na rua, não se sabe em quê, e tanto pode pedir com gentileza um copo de água num café, como chamar puta-badalhoca à velhota que lhe pede ajuda para abrir o guarda-chuva.
Olha-se para a Fatinha, sempre limpa, até bem-vestida, sem marcas de agulhas nas pernas, sem aspecto de quem vive na rua, e não se sabe que mal é o seu.
Hoje a Fatinha deveria andar a fazer o que sempre faz quando deu de caras com a mãe. A mãe dela é uma senhora enxuta, de cabelo prateado, passos rápidos e voz aguda. Tinha vindo para buscar a Fatinha à rua, porque lhe haviam dito que a polícia andava por ali, e foi encontrá-la debruçada na janela do carro de um homem gordo, de cara bexiguenta. Enxotou-a para casa aos berros.
- Eu vou-te internar, ouviste?! – gritava a mãe atrás dela, e a Fatinha caminhava, olhando para trás, em lágrimas, dando-lhe as costas outra vez, gritando-lhe de volta.
- Está bem, mãe, agora pára!
Mas a mãe da Fatinha vê-se que já não pode mais parar.
- E acabou-se o dinheiro para o café, ouviste?
- Pára, mãe!
A Fatinha sacudia-se toda, saltava sobre as sandálias altas. O rímel escorria-lhe pela cara.
- A maior escumalha é quem pára aqui contigo na rua, todos fazem pouco de ti, não vales nada! Perdida!
Solta um grito agudo e a Fatinha tapa os ouvidos, baixa a cabeça enquanto caminha e de repente pára e começa a puxar os cabelos
- Cale-se! Eu vou-me matar, vou, vou, vou!
A mãe levanta o braço, esboça uma corrida que não chega a dar, como se aquele fosse o maior insulto, a maior ignomínia que lhe estava reservada. E a Fatinha corre à frente dela, aos saltinhos sobre as sandálias de plástico, com o beicinho de criança contrariada por ter sido outra vez apanhada em falta. A mãe vai atrás, arrasta os pés cansados, grita de vez em quando, como quem soluça: Minha tola, minha perdida.
E a Fatinha vai olhando para ela, espreitando-a para medir quanto tempo levará a poder sair outra vez, quanto será preciso para que ela a aceite nos seus braços, chorosa, e lhe perdoe a falta de juízo.
Quando as duas desapareceram na esquina, a rua retomou o seu sossego e ninguém voltou a pensar nelas.
A inspiração para o seu blogue, encontrou-o num poema de William Butler Yeats (1865-1939), o grande poeta irlandês, particularmente nos versos A lonely impulse of delight /Drove to this tumult in the clouds... Seguindo esse solitário impulso de prazer, descolou rumo às nuvens da blogosfera em Junho passado.
Com a devida vénia, transcrevemos um texto seu para que os nossos leitores possam apreciar a qualidade da sua prosa e o seu envolvente poder de efabulação:
alvoroço na rua
por Carla Romualdo em Agosto 8, 2010
A Fatinha deveria andar a fazer o que sempre faz: andar de lado para lado, como se sempre estivesse a caminho de qualquer lugar aonde nunca consegue chegar, quase sempre de minissaia, a custo equilibrada nuns saltos altos.
A Fatinha, sendo uma mulher bonita, assusta os homens com um olhar de louca impossível de disfarçar. Crava cigarros, troca frases sem sentido com algum sem-abrigo, pendura-se no pescoço de um homem sentado na paragem do autocarro, insulta uma mulher que a olhou de lado, anda todo o dia na rua, não se sabe em quê, e tanto pode pedir com gentileza um copo de água num café, como chamar puta-badalhoca à velhota que lhe pede ajuda para abrir o guarda-chuva.
Olha-se para a Fatinha, sempre limpa, até bem-vestida, sem marcas de agulhas nas pernas, sem aspecto de quem vive na rua, e não se sabe que mal é o seu.
Hoje a Fatinha deveria andar a fazer o que sempre faz quando deu de caras com a mãe. A mãe dela é uma senhora enxuta, de cabelo prateado, passos rápidos e voz aguda. Tinha vindo para buscar a Fatinha à rua, porque lhe haviam dito que a polícia andava por ali, e foi encontrá-la debruçada na janela do carro de um homem gordo, de cara bexiguenta. Enxotou-a para casa aos berros.
- Eu vou-te internar, ouviste?! – gritava a mãe atrás dela, e a Fatinha caminhava, olhando para trás, em lágrimas, dando-lhe as costas outra vez, gritando-lhe de volta.
- Está bem, mãe, agora pára!
Mas a mãe da Fatinha vê-se que já não pode mais parar.
- E acabou-se o dinheiro para o café, ouviste?
- Pára, mãe!
A Fatinha sacudia-se toda, saltava sobre as sandálias altas. O rímel escorria-lhe pela cara.
- A maior escumalha é quem pára aqui contigo na rua, todos fazem pouco de ti, não vales nada! Perdida!
Solta um grito agudo e a Fatinha tapa os ouvidos, baixa a cabeça enquanto caminha e de repente pára e começa a puxar os cabelos
- Cale-se! Eu vou-me matar, vou, vou, vou!
A mãe levanta o braço, esboça uma corrida que não chega a dar, como se aquele fosse o maior insulto, a maior ignomínia que lhe estava reservada. E a Fatinha corre à frente dela, aos saltinhos sobre as sandálias de plástico, com o beicinho de criança contrariada por ter sido outra vez apanhada em falta. A mãe vai atrás, arrasta os pés cansados, grita de vez em quando, como quem soluça: Minha tola, minha perdida.
E a Fatinha vai olhando para ela, espreitando-a para medir quanto tempo levará a poder sair outra vez, quanto será preciso para que ela a aceite nos seus braços, chorosa, e lhe perdoe a falta de juízo.
Quando as duas desapareceram na esquina, a rua retomou o seu sossego e ninguém voltou a pensar nelas.
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