Giovanni Papini
Há quatro dias, estando a escrever com uma ligeira irritação, algumas das páginas mais falsas das minhas memórias, ouvi bater levemente à porta, mas não me levantei nem respondi. As pancadas eram demasiado fracas e não gosto de lidar com tímidos.
No dia seguinte, à mesma hora, ouvi novamente bater; desta vez, as pancadas eram mais fortes e decididas. Mas também não quis abrir, pois não aprecio absolutamente nada os que se corrigem com demasiada pressa.
No terceiro dia, sempre à mesma hora, as pancadas foram repetidas de forma violenta e antes que pudesse levantar-me vi a porta abrir-se e entrar a medíocre figura de um homem bastante jovem, com o rosto um tanto afogueado e a cabeça coberta por cabelos ruivos e crespos, inclinando-se canhestramente, sem nada dizer. Mal viu uma cadeira, atirou-se-lhe para cima e como eu continuasse de pé indicou-me o cadeirão para que me sentasse. Tendo-lhe obedecido, julguei-me no direito de lhe perguntar quem era, pedindo-lhe num tom nada delicado, que me dissesse o nome e o motivo que o tinha levado a invadir o meu quarto. Mas o homem não se alterou e fez-me imediatamente compreender que, para já, desejava continuar a ser o que até então fora para mim:. um desconhecido.
- O motivo que me trouxe até ao senhor – continuou, sorrindo – está dentro da minha mala e dar-lho-ei a conhecer imediatamente.
Com efeito, apercebi-me de que trazia na mão uma pequena mala de couro amarelo-sujo, com guarnições de latão desgastado pelo uso, a qual abriu dela tirando um livro.
- Este livro – disse pondo-me diante dos olhos um grosso volume forrado a tela com grandes flores de um vermelho ferruginoso – contém uma história imaginária que criei, inventei, redigi e copiei. Em toda a minha vida, apenas escrevi isto e atrevo-me a supor que não lhe desagradará. Até agora apenas o conhecia de nome e só há uns dias uma mulher que o ama me disse que o senhor é um dos poucos homens que não tem medo de si mesmo e o único que teve a coragem de aconselhar a morte a muitos dos seus semelhantes. Por isso, pensei ler-lhe a minha história, que narra a vida de um homem fantástico ao qual acontecem as mais singulares e insólitas aventuras. Depois de a ter ouvido, dir-me-á o que devo fazer. Se a minha história lhe agradar, prometer-me-á tornar-me célebre no prazo de um ano; se não gostar, matar-me-ei dentro de vinte e quatro horas. Diga-me se aceita estas condições e eu começarei.
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sábado, 17 de julho de 2010
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Edoardo Sanguineti
Sílvio Castro
A morte de Sanguineti, ocorrida na passada terça-feira, 18 de maio de 2010, além de uma grande, marcante perda para a poesia italiana, também se fez um episódio de crônica judiciária Sofrendo há mais de um ano de problemas cardíacos, complicados nos últimos meses por uma queda de uma escada na qual subira para uma arrumação de livros da sua biblioteca, na véspera da morte se sentira muito mal. Levado para o pronto soccorro do hospital público de Génova, ali foi constatada uma lesão da aorta, entre o tórax e o abdome: um aneurisma pregresso. Do setor de pronto socorro passa para a sala operatória. Sanguineti morre logo após terminada a operação. A mulher do escritor, Luciana, contou como tudo aconteceu: “Esperamos no pronto socorro por duas horas, sabe-se como vão essas coisas. ... ... Eu dizia aos médicos de não apertar-lhe a barriga porque ele está com um aneurisma que se vê mesmo de fora. Mas aqueles não me davam atenção.“ (Como consequência da morte pós-operatória do escritor genovês, o Tribunal da cidade de Genoa abriu um fascículo indagativo no qual vem hipotizado homicídio culposo).
Eduardo Sanguineti estava por completar 80 anos aos 9 de dezembro próximo. Intelectual de grande empenho social e político, ele foi inicialmente membro-conselheiro da câmera municipal de Genoa e depois deputado, sempre como comunista independente. Professor universitário, titular de Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade genovesa.
Além de poeta, Sanguinete foi um profunfo crítico e ensaísta, com uma vasta bibliografia específica, que vai desde seus estudos sobre Dante, até as análises sobre o período final da literatura oitocentista e aquela do Novecentos. Como bibliografia essencial do ensaista podemos colocar: Interpretazione di Malebolge, Florença, 1961; Tra liberty e Crepuscolarismo, Milão, 1961; La missione del critico, Génova, 1987; Ideologia e linguaggio (3ª. ed., ampliada), Milão, 2001.
A grande cultura literária do autor genovês, desenvolvida a partir de uma marcada relação entre os exemplos literários do passado e aqueles modernos, depois informará uma das características de sua produção de poesia, tudo a partir de sua “tese de láurea” sobre Dante.
Sanguineti cultivou igualmente o gênero teatral, o Romance, bem como se dedicou a elaborar textos para música, nesse sentido colaborando com compositores como Luciano Berio e Andrea Liberovici. Para Berio recordamos, particularmente, “L’espressività gestuale della voce tra suono e senso”; per Liberovici, “Rap”.
A morte de Sanguineti, ocorrida na passada terça-feira, 18 de maio de 2010, além de uma grande, marcante perda para a poesia italiana, também se fez um episódio de crônica judiciária Sofrendo há mais de um ano de problemas cardíacos, complicados nos últimos meses por uma queda de uma escada na qual subira para uma arrumação de livros da sua biblioteca, na véspera da morte se sentira muito mal. Levado para o pronto soccorro do hospital público de Génova, ali foi constatada uma lesão da aorta, entre o tórax e o abdome: um aneurisma pregresso. Do setor de pronto socorro passa para a sala operatória. Sanguineti morre logo após terminada a operação. A mulher do escritor, Luciana, contou como tudo aconteceu: “Esperamos no pronto socorro por duas horas, sabe-se como vão essas coisas. ... ... Eu dizia aos médicos de não apertar-lhe a barriga porque ele está com um aneurisma que se vê mesmo de fora. Mas aqueles não me davam atenção.“ (Como consequência da morte pós-operatória do escritor genovês, o Tribunal da cidade de Genoa abriu um fascículo indagativo no qual vem hipotizado homicídio culposo).
Eduardo Sanguineti estava por completar 80 anos aos 9 de dezembro próximo. Intelectual de grande empenho social e político, ele foi inicialmente membro-conselheiro da câmera municipal de Genoa e depois deputado, sempre como comunista independente. Professor universitário, titular de Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade genovesa.
Além de poeta, Sanguinete foi um profunfo crítico e ensaísta, com uma vasta bibliografia específica, que vai desde seus estudos sobre Dante, até as análises sobre o período final da literatura oitocentista e aquela do Novecentos. Como bibliografia essencial do ensaista podemos colocar: Interpretazione di Malebolge, Florença, 1961; Tra liberty e Crepuscolarismo, Milão, 1961; La missione del critico, Génova, 1987; Ideologia e linguaggio (3ª. ed., ampliada), Milão, 2001.
A grande cultura literária do autor genovês, desenvolvida a partir de uma marcada relação entre os exemplos literários do passado e aqueles modernos, depois informará uma das características de sua produção de poesia, tudo a partir de sua “tese de láurea” sobre Dante.
Sanguineti cultivou igualmente o gênero teatral, o Romance, bem como se dedicou a elaborar textos para música, nesse sentido colaborando com compositores como Luciano Berio e Andrea Liberovici. Para Berio recordamos, particularmente, “L’espressività gestuale della voce tra suono e senso”; per Liberovici, “Rap”.
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