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terça-feira, 26 de outubro de 2010

O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade –13: por Raúl Iturra.

Parece-me haver elementos suficientes para entender as feridas causadas nos mais novos, que passam a ser, em adultos, ou mentes brilhantes ou mentes apagadas. É por esta questão que abordo a definição de anomia de Durkheim. O abuso sexual é analisado pelo autor recorrendo a trabalho de campo e a estatísticas, contudo, não faz qualquer referência ao abuso de crianças. São os analistas e os Etnopsicólogos, como Georges Devereux, Marcel Mauss e o seu afamado discípulo, hoje com cem anos, Claude Lévi-Strauss , que o irão fazer.

O abuso emotivo e sexual da criança, análise central nos textos de Freud, Klein e Miller, conduz a uma psicopatia como a relatada por Miller no seu Thou shalt not be aware, capítulo 4, parágrafo 2, página 37, quando estudou um caso completamente diferente dos, até agora, analisados por ela: a psicopatia desenvolvida por uma criança de 9 anos à morte do seu pai. Um pai que o tinha criado dentro de formas religiosas estritas. O analista que tinha tratado do caso comentou com Alice Miller que, as duas formas de aproximação ao facto eram correctas: a teoria de analisar impulsos definidos por Freud, e a mais usada por ela, a de uma pedagogia livre de preceitos, na que o desenho era parte importante. Mas, a criança tinha desenvolvido um problema Edipiano sentindo-se feliz com a morte do seu pai. A criança precisava de uma análise das suas ilusões de ver anjos que a ameaçavam pela morte do pai. Na minha opinião, este é o caso em que existe apenas medo, um medo edipiano, como anteriormente referi. No entanto, como Bion entendeu, a partir da sua experiência de trabalho em grupo com membros do exército em guerra, nos anos 40 do século passado, existem duas alternativas quando os abusos emotivos e perversões com a infância aparecem: ou aprendemos a ser criativos para sair do buraco do desencanto, ou essa dor dá cabo da nossa racionalidade , ideias, por sua vez, retiradas do conceito do Eros freudiano (1923 ), utilizado por Klein e Miller nas suas análises. É sabido que Freud recorria aos mitos gregos para definir conceitos e resolver problemas emotivos dos seus pacientes. Sabemos também, que a mitologia grega está preenchida com a realidade da vida, de forma narrativa e não apenas como disciplina de vida social, como acontece nos textos do Talmude, da Bíblia, do Torah ou nos de Jean Calvin , Martin Luther e nos do Catecismos da Igreja Católica, textos que Freud ignorou porque causavam problemas aos que seriam seus pacientes.