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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010









Esta coisa das preferências nas leituras …

João Machado


É um problema mais complicado do que talvez pareça a muita gente. Sem dúvida que gostos não se discutem (vocês não digam nada a ninguém, mas eu cá não concordo nada com esta afirmação). Mas o facto é que isto das leituras pesa muito, e de que maneira.

O nosso Estrolabio anda com vontade de entrar no assunto. Temos aquela rubrica Os Dez Livros mais lidos do Século XX, a qual, se bem me lembro (nada de comparações com o Nemésio; formidável o Mau Tempo no Canal), até à data, teve escassas participações. Mas as participações que houve foram de alto gabarito. Talvez por isso alguns tenham hesitado em dar o seu contributo. No meu caso, também não contribuí até à data, por várias razões que vou tentar explicar.

Quando começo a pensar no assunto fico atrapalhado. Ocorrem-me ideias diversas. Para começar, assalta-me uma data de nomes, uns atrás dos outros, e fico na dúvida. A alguns tinha que os ler outra vez. Recordo-me de Dostoievsky, que li quase todo há quarenta e tal anos, e encho o peito, e ver se consigo ir lê-lo outra vez. Reli há uns meses parte do Crime e Castigo e fiquei novamente de boca aberta. Será que ainda estou assim jovem?

Mas li o Germinal do Zola, há mais de cinquenta anos. Lembro-me tão bem … e eu era tão novo. Deve ser um dos tais livros da minha vida. Problema: estes que acabo de referir foram todos escritos no século XIX. Portanto não contam para a nossa estrolábica rubrica. Por vezes organizo-me e ponho-me a pensar no Camus. A Peste é para a lista, sim, senhor. E porque não O Estrangeiro, ou O Exílio e o Reino? Começam novamente as dúvidas. O Saramago, pronto, só ponho O Ano da Morte de Ricardo Reis. Mas se calhar estou a ser injusto com O Evangelho segundo Jesus Cristo, não é? E O Memorial do Convento? O Sartre tem que entrar (eh pá, vocês desculpem, mas A Idade da Razão, quem não a leu faz favor de ir ler. Eu sei que o Sartre era snob (isso dizem, mas não têm razão, uns tipos que refiro mais abaixo), mas caramba, aquilo vai até ao tutano. Bom, mas já que falamos em snobismo, O Ulisses, não é? Levei quase um ano a lê-lo (em inglês, meninos, com o dicionário ao lado, que muitas vezes não me servia de nada), mas garanto-vos que gostei. Vocês não acreditam, mas eu gostei. Bolas (era outra a palavra que disse alto, mas lembrei-me da Augusta Clara, da Ethel, da Clara, etc. Claro que a ver se as provoco). E para continuarmos com o snobismo, o Raymond Chandler tem que entrar. Desta vez ponho só o Farewell, my Lovely, e deixo de fora The Big Sleep, The High Window e o resto. Ficam de fora também os títulos em português, porque não me lembro. É o snob. E na passada, não esqueçam o Manuel Vasquez Montalban. Galíndez, de leitura obrigatória. A Autobiografia do General Franco, Os Mares do Sul. Que inveja que eu tenho! Já agora não posso deixar de vos lembrar A Balada do Mar Salgado, do Hugh Pratt (era melhor dizer do Corto Maltese, não acham?).

É pouco patriótico deixar os portugueses de fora. Eu não concordo com o patriotismo (é só conversa, que eu sofro á brava com os desaires da inditosa pátria, no futebol e no resto), mas realmente o Manuel da Fonseca e o seu Cerro Maior têm de lá estar. Este gajo põe-me tão parvo quando o leio … E acrescentem o Branquinho da Fonseca e O Barão, tão curioso. Mas deixei-me voltar aos russos e lembrar-lhes um tipo fabuloso, o Mikhail Bulgakov. Li O Mestre e Margarida em Janeiro de 1971, estava de cama, horrivelmente doente. Uma visita do diabo a Moscovo, sim, já depois da revolução … Fartei-me de rir. Se não leram, leiam, que se divertem. E o Soljenitsyne, e Um Dia na Vida de Ivan Denisovich. O homem era reaça, ao que dizem, mas genial, sem dúvida.