segunda-feira, 7 de junho de 2010

O secreto rumor do mar



Manuel Simões

1

Não perceberás neste canto

de espera anunciada

senão a pedra áspera

do espanto

nem te chegará o som

da palavra reveladora

do que quer que seja

mas tão-só a humilde

sombra que projecta

a palavra e a devolve

à aguda aspereza do mundo.


2

Talvez te aflore, densa,

a memória da árvore

da qual se olhava o mundo,

donde se olhava tudo

e tudo era como nada:

jogo não inocente, luz

entre os ramos

por onde se filtrava o ar.

Soprava um leve vento,

o secreto rumor do mar.



(in A Sophia. Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen, Lisboa, Caminho, 2007)

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