terça-feira, 17 de agosto de 2010

A Catalunha e Portugal - Bon colp de falç - 2

Carlos Loures e Josep Anton Vidal


(Continuação)

No dia do Corpo de Deus (Corpus de Sang),grupos de ceifeiros que haviam chegado a Barcelona dias antes envolveram-se numa escaramuça com cidadãos, da qual resultou um ferido entre os ceifeiros. Este facto, quase insignificante, foi o rastilho que incendiou a pólvora. Os ceifeiros concentraram-se diante do palácio do vice-rei. Do palácio foram disparados alguns tiros. Um ceifeiro foi morto. Os ceifeiros e a população que a se lhes juntou dirigiram-se aos locais da cidade onde se sediavam os representantes da autoridade real. O Vice-rei tentou fugir por mar, mas foi surpreendido e executado. Os distúrbios duraram alguns dias e provocaram entre 12 e 20 mortos, em sua maioria funcionários reais.

Na Catalunha, como em Portugal, o que se passou e o que o Romantismo, dois séculos depois recreou, são coisas diferentes. Os «segadors» gritavam – «Viva a terra, viva o rei, viva a fé, morram os traidores!». Não se lutava pela independência, porque a Catalunha não perdera, pelo menos formalmente a independência. Não houvera nem anexação, nem conquista. Nem sequer a subida ao trono do território do rei castelhano, fora como em Portugal em 1580, antecedida de uma batalha em que, pese a legitimidade de Filipe, os patriotas tentaram pôr no trono um rei português. Em Portugal, a situação era, nesse aspecto, mais traumática, embora o reino conservasse as suas tradições, usos e costumes.

Na Catalunha, a luta dinástica verificara-se séculos antes, durante o reinado do último rei da Casa de Barcelona, Martí L’Humà. Não deixando descendência ao morrer, pois o seu único filho, Martí «o jovem», morrera na guerra da Sardenha, o conflito sucessório resolveu-se através do «Compromisso de Caspe» que entronizou na coroa de Aragão, a dinastia castelhana dos Trastâmara.

Por outro lado, a Catalunha estava habituada a compartilhar a soberania. Antes estivera ligada a Aragão, depois a Valência, a Maiorca, a Nápoles. Apesar de o rei ser castelhano(tinham sido os próprios reinos da Coroa de Aragão – no meio de intrigas políticas que não interessam para este caso - que haviam dado a coroa aos Trastâmara, no tal «Compromisso de Caspe», firmado em 1412. Portanto, os catalães sentiam-se num estado soberano e independente. Pelo menos até o punho de ferro de Olivares ter começado a destruir as prerrogativas dessa independência e soberania. Não lutavam contra o seu rei, mas contra quem pretendia governar ilegalmente, contra os «traidores». Contra Olivares.

Lembre-se que, paralelamente, em Portugal, também já desde 1635 que se verificavam levantamentos populares pelos mesmos motivos, ganhando maior expressão em 1637 com as chamadas «Alterações de Évora», entre Agosto e Outubro (vários estratos sociais se envolveram na sedição, que teve como inspiração a figura típica do «Manuelinho», que se transformou no símbolo da resistência contra os ocupantes estrangeiros). Mas eram «revoltas informes», «alterações», «motins», «comoções», coisas do povo, em síntese, sem forma corporativa estruturada.

Porque a nobreza e a burguesia letrada só se revoltaram quando foram atingidas pelas medidas centralistas do Olivares, mantendo-se calmos enquanto a Casa de Áustria lhes manteve as mordomias e a independência formal. Enquanto não lhes lesou os direitos. Mas, tentar desmontar este mito, o dos «valentes guerreiros» com o duque de Bragança à cabeça, fica para outra altura. Estamos a falar da Catalunha.

A morte do vice-rei assinalou uma importante mudança na percepção das relações da Catalunha com o seu rei. De alguma maneira, ressurgem as convicções pactistas: o rei governa, mas em obediência ao seu pacto com os súbditos. Com a intensificação das arbitrariedades e com a violência anexionista, as autoridades catalãs, consideram que o soberano desamparou o país, que quebrou o pacto estabelecido. Assim, procuraram novas alianças e encontraram-nas entre os inimigos do monarca espanhol, negociando a protecção de França, com a garantia de que a Catalunha se constituiria em República livre sob a protecção do monarca francês, ou seja, um novo pacto. A França proporcionou armas e meios e a Catalunha ergueu-se em pé de guerra (Guerra dels Segadors). O exército real, estacionado na zona sul da Catalunha (Tortosa), em Dezembro de 1640 põe-se em marcha. O objectivo era a conquista.

Mas a França tinha então um nome: Richelieu, e um desiderato – obter rapidamente a vitória num conflito que lhe daria a hegemonia europeia. O avanço das tropas de Filipe IV sobre a Catalunha, significava naquele momento um avanço sobre França, coerente com a estratégia de pôr cerco ao país por terra e por mar, para poder rematar com êxito o conflito pela hegemonia europeia. Os interesses da Catalunha nada significavam, nem para uns nem para outros.

As repetidas pressões de Richelieu, num momento de guerra aberta em que a ajuda francesa era imprescindível, conseguiram que, em Janeiro de 1641, Luís XIII de França fosse nomeado Conde de Barcelona, ou seja, soberano da Catalunha. O que isto significava na mentalidade política da monarquia francesa era «absolutismo». Em França não existia nem tradição nem a mentalidade de «pacto»; a autoridade do monarca era indiscutível. E nos anos que se seguirão, o domínio francês reproduzirá na Catalunha todos os males do governo castelhano, agravados, inclusive.

Com a Espanha derrotada em Vestefália, a guerra continuou na Catalunha; para Espanha era uma questão de segurança levar a fronteira até aos Pirenéus, mas era também uma questão de «dignidade» política; perdera muito no conflito e, entre esse muito, Portugal; tinha-se visto postergada na Europa, e enfrentava o rosto mais deprimente da sua própria imagem e não podia ceder. Para França era mais uma fustigação para o inimigo e a Catalunha era um território-tampão, era afastar a fronteira com Espanha que, com a Catalunha de permeio, ia até Salses, ultrapassada a face norte dos Pirenéus.

Como já se disse, a rebelião popular catalã prosseguia. O que ajudou foi o auxílio francês – o «Pacto de Ceret», firmado em 7 de Setembro de 1640 entre os líderes independentistas e o reino de França, determinou o envio de armas para a Catalunha. Olivares ordenou que se mobilizassem em Portugal entre 10 e 15 mil homens para atacar a Catalunha, o que determinou, como já vimos, a reacção de 1 de Dezembro. Em 26 de Janeiro, as tropas que o conde-duque conseguira reunir atacaram Barcelona, fracassando na tentativa de ultrapassar a fortaleza de Montjuic e sendo derrotadas. Contudo, pouco depois da vitória na batalha de Montjuic, morreu repentinamente Pau Claris (1586-1641), um clérigo, presidente da Generalitat catalã. Terá sido envenenado por agentes de Castela. Independente, a Catalunha lutou em aliança com os franceses contra os Habsburgos.

Em 1648, a eclosão da guerra civil em França, La Fronde, iria pôr termo ao auxílio francês à Catalunha, pois o jovem Luís XIV tenta chegar a acordo com a Casa de Áustria. Barcelona acabaria por cair nas mãos das tropas castelhanas após um cerco de 18 meses, rendendo-se em Outubro de 1652.

Após a queda de Barcelona, em 1652, quando as tropas castelhanas ocuparam praticamente todo o território catalão a sul dos Pirenéus, a França continuou a prestar auxílio aos catalães, cada vez mais exaustos; finalmente, quando a reconquista do território se tornou praticamente impossível para a Catalunha, a França (o monarca era agora Luís XIV, sendo o cardeal Mazzarino o seu homem de confiança), que prolongou o conflito numa guerra de desgaste, negoceia com Espanha o Tratado dos Pirenéus – que, por sua vez, significa a conclusão do de Vestefália – pelo qual retira as suas tropas das comarcas catalãs a sul dos Pirenéus, obtendo da Espanha a cedência das comarcas catalãs situadas a norte da cordilheira (o chamado Rossilhão, que incluía as comarcas pirenaicas do Conflent, o Capcir e o Vallespir, bem como metade da Cerdanya, uma comarca dos Pirenéus. Com o tratado dos Pirenéus Espanha não só pôs fim a um conflito, como «conscientemente» castigou a Catalunha, preferindo obter de França garantias sobre as suas possessões na Flandres do que manter a integridade do território catalão.

E para que o final seja tão feliz como o dos contos de fadas, assinou-se o acordo de casamento entre Luís XIV e a filha de Filipe IV, Maria Teresa de Áustria… E como se costuma dizer no fim dos contos infantis «vitória, vitória – acabou-se a história!»

Aliviada da pressão que representava a guerra na Catalunha, Castela pôde concentrar por fim os seus esforços na frente portuguesa. Mas sem êxito. Toodos os confrontos importantes e decisivos, foram ganhos pelos portugueses. Em 1628, gorados os esforços para recuperar Portugal, foi assinada a paz em Madrid, cedendo Portugal a soberania sobre a praça africana de Ceuta.

Depois do Tratado dos Pirenéus, a Catalunha continuou ocupada pelas tropas castelhanas e os conflitos continuaram. Em 1687, verificou-se um novo levantamento (revolta dels Barretines) que manteve a população rural em pé de guerra durante dois anos. E de novo a Catalunha se debateu entre Espanha e França, como é natural numa terra de fronteira, sempre cobiçada e disputada por uns e por outros e servindo sempre, por uns e por outros, de moeda de troca. O hino «Els Segadors», celebrando a revolta de 1640, foi composto em 1892 por Francesc Alió, com letra de Emili Guanyvents e inspira-se numa antiga canção popular. É o hino oficial da Catalunha. Honra aos ceifeiros ou segadores aos quais devemos o arranque para a recuperação da nossa independência. Bon colp de falç, amics!

Ouçamos  a versão histórica, cantada por Rafael Subirachs no festival «As seis horas de Canet», em 1975. Foi três meses antes da morte de Franco, a ditadura estava moribunda, mas vigorava ainda. A ânsia de liberdade florescia por toda a parte. Subirachs cantou «Els segadors» enganando a censura. No final da sua interpretação a frase «Segueu arran!» ( «segai rente» ou «cortai pela raiz»), entre os gritos da multidão pedindo a liberdade. Este vídeo conserva toda a força e emoção desse momento histórico.

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